Ele quis usar o dinheiro da nossa casa para outra mulher — então cancelei a compra na frente dele
Parte 3
Rafael continuou segurando a caixa por alguns segundos, como se manter as mãos naquele pedaço de papelão pudesse impedir todo o resto de avançar.
— “Ainda não” significa o quê?
— Significa que eu preciso pensar sem você decidindo o que eu deveria sentir.
Ele soltou a caixa devagar.
— Eu já pedi desculpas pelo apartamento.
— Não pediu.
A testa dele se contraiu.
— Claro que pedi.
— Você disse que entendia que eu estivesse chateada. Isso não é pedir desculpas. É só reconhecer que minha reação estava atrapalhando você.
Rafael desviou o olhar.
Foi para a sala, mas não saiu de casa. Eu continuei encaixotando meus livros.
Nas duas semanas seguintes, nossa convivência ficou estranhamente organizada. Cada um dormia em um quarto, lavava a própria roupa e cuidava das próprias refeições. Era desconfortável, mas também revelador.
Eu descobri quantas pequenas tarefas fazia sem perceber.
Pagava contas menores da casa, repunha produtos, organizava consultas, lembrava datas, comprava presentes para a família dele, chamava manutenção quando alguma coisa quebrava e ainda perguntava se ele tinha comido quando chegava tarde.
Quando parei, tudo aquilo simplesmente deixou de acontecer.
E Rafael percebeu.
Uma noite, encontrei três camisas sociais amassadas sobre a mesa.
— A lavanderia não veio — disse ele.
— Liga para eles.
— Você sempre marcava.
Continuei preparando meu café.
— Então está na hora de você aprender o número.
Ele me observou como se eu tivesse cometido uma crueldade incompreensível.
Eu quase senti pena.
Quase.
Na manhã seguinte, enquanto revisava uma lista de materiais, recebi uma mensagem de um número desconhecido.
“Marina? Aqui é a Lívia. Será que podemos conversar pessoalmente?”
Meu primeiro impulso foi ignorar.
Fiquei alguns minutos olhando para a tela.
Depois respondi:
“Trinta minutos. No café em frente ao museu.”
Eu não queria uma cena.
Muito menos transformar Lívia numa rival que eu precisava derrotar.
Mas se aquela mulher ocupava tanto espaço no nosso relacionamento, eu precisava saber se esse espaço tinha sido pedido por ela ou oferecido por Rafael.
Ela chegou pontualmente.
Lívia era mais magra do que eu imaginava. Tinha o rosto cansado e um jeito contido. Não havia nela a segurança arrogante que eu esperava encontrar.
Sentou-se diante de mim e não pediu nada além de água.
— Obrigada por ter vindo.
— Você pediu para conversar. Estou ouvindo.
Ela apertou os dedos em volta do copo.
— O Rafael disse que vocês brigaram por minha causa.
— Não exatamente.
— Foi por causa do apartamento?
Assenti.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Eu sabia que ele estava procurando um lugar para mim. Não sabia de onde sairia o dinheiro.
Fiquei em silêncio.
Ela continuou:
— Eu nunca pedi para ele tirar dinheiro de vocês.
A frase não me trouxe alívio.
Trouxe clareza.
— Então o apartamento foi ideia dele?
— Sim.
Lívia hesitou.
— Eu disse que podia ficar num flat por alguns meses. Tenho minhas economias. Rafael insistiu que isso não fazia sentido, que ele queria resolver tudo.
— E a nutricionista?
Ela ficou visivelmente constrangida.
— Também foi ele.
Soltei o ar devagar.
Durante dias, Rafael havia repetido que estava apenas cumprindo uma responsabilidade. Que Lívia estava sozinha. Que precisava dele.
Mas ninguém o obrigava.
Ele queria ser necessário.
Talvez essa fosse a parte que eu demorara mais para enxergar.
Lívia baixou a voz.
— Marina, eu não quero fingir que não conheço a história toda. Eu e Rafael fomos muito próximos antes de eu sair do Brasil. Houve uma época em que eu gostava dele.
Eu não mexi um músculo.
— E agora?
— Agora eu voltei depois de anos e encontrei alguém tentando continuar exatamente de onde parou.
Aquilo doeu de um jeito diferente.
Não porque fosse uma revelação dramática.
Mas porque combinava demais com tudo que eu já tinha visto.
— Ele disse alguma coisa para você?
— Nada explícito. Nunca disse que vocês tinham terminado. Nunca tentou me beijar. Não é isso.
Lívia respirou fundo.
— Mas ele age como se eu precisasse dele para tudo. Às vezes eu digo que não preciso, e ele fica ofendido.
Isso me atingiu quase como uma ironia.
Rafael reclamava havia anos de eu depender emocionalmente demais dele.
Agora, diante de uma mulher que não precisava, ele parecia determinado a criar essa dependência.
— Por que você quis falar comigo?
— Porque ontem eu descobri que você vai passar três anos fora.
Ela me encarou.
— E ele falou como se você tivesse enlouquecido de repente. Como se nada tivesse acontecido antes.
Soltei uma risada sem humor.
Era muito parecido com Rafael transformar as coisas.
A causa desaparecia.
Só restava minha reação.
— Eu não vim pedir desculpa por existir — disse Lívia. — Mas também não quero ser usada como justificativa para coisas que eu nunca pedi.
Assenti.
— Obrigada por me contar.
Quando voltei ao museu, fiquei algum tempo sozinha no laboratório.
Não chorei.
Queria ter chorado.
Teria sido mais simples.
Em vez disso, sentei diante de um manuscrito rasgado que eu precisava restaurar e fiquei olhando para as fibras rompidas do papel.
Meu professor costumava dizer que restaurar não era fingir que o dano nunca existira.
Era estabilizá-lo.
Impedir que continuasse avançando.
E respeitar as marcas que permaneciam.
Naquela tarde, tomei minha primeira decisão realmente prática.
Liguei para Camila e perguntei se ela poderia guardar minhas caixas por alguns meses.
Depois transferi para minha conta individual o dinheiro que ainda estava reservado para mobília e despesas do apartamento cancelado. Era meu dinheiro, economizado ao longo dos anos, e eu não queria mais deixá-lo misturado com planos que já não existiam.
Também cancelei duas autorizações de débito que eu costumava pagar sozinha e passei a Rafael a parte que cabia a ele.
Nada secreto.
Nada impulsivo.
Enviei tudo por mensagem, com os valores detalhados.
Ele me ligou imediatamente.
— O que significa isso?
— Organização.
— Você está separando dinheiro?
— Estou separando minhas despesas.
— Marina, a gente mora junto há anos.
— Eu sei.
— Então para de agir como se eu fosse um estranho.
Apertei o celular.
— Você quer falar de proximidade depois de decidir o destino do dinheiro da nossa casa sem me consultar?
Ele ficou mudo.
Eu continuei:
— E descobri outra coisa hoje.
— O quê?
— Lívia nunca pediu apartamento.
Do outro lado, a respiração dele mudou.
— Você falou com ela?
— Falei.
— Por quê?
— Porque você colocou aquela mulher no centro da nossa vida. Eu precisava saber se ela estava lá porque queria ou porque você a colocou.
— Marina…
— Ela também não pediu nutricionista.
Nenhuma resposta.
— Nem pediu que você resolvesse a vida dela inteira.
— Ela não gosta de incomodar.
Fechei os olhos.
Mesmo diante da verdade, Rafael ainda encontrava uma forma de transformá-la em prova da própria importância.
— Você está ouvindo o que está dizendo?
— Eu só estou tentando ajudar uma pessoa que passou por muita coisa.
— E eu?
Ele respirou fundo.
— O que tem você?
A pergunta saiu tão naturalmente que senti meu peito esfriar.
Não havia malícia.
Esse era o problema.
Rafael realmente não percebia.
— Nada — respondi. — Esquece.
Desliguei.
Quando voltei para casa, ele estava me esperando na sala.
— A gente vai conversar agora.
Coloquei minha bolsa sobre a cadeira.
— Pode falar.
— Você não tinha o direito de procurar a Lívia pelas minhas costas.
— Eu não procurei. Ela me procurou.
Isso o desconcertou.
— Por quê?
— Porque aparentemente ela está mais preocupada em não destruir nosso relacionamento do que você.
Rafael passou a mão pelos cabelos.
— Isso está saindo do controle.
— Não. Pela primeira vez, está ficando muito claro.
— Eu não traí você.
— Eu não disse que traiu.
— Então qual é o crime?
Olhei para ele.
— Você precisa mesmo que seja um crime para reconhecer que me tratou mal?
Rafael se calou.
Continuei:
— Você desrespeita meu trabalho. Despreza meus amigos. Reclama quando eu pergunto onde você está, mas fica ofendido quando paro de perguntar. Você decide que nosso dinheiro pode esperar, porque outra pessoa precisa mais. E quando eu aceito um projeto importante, diz que precisava da sua autorização.
— Eu estava nervoso.
— Você sempre encontra uma explicação.
— Porque existe uma explicação!
— Sim. Só nunca existe responsabilidade.
Ele ficou pálido.
A frase finalmente pareceu alcançar algum lugar que minhas discussões anteriores nunca tinham alcançado.
— Você está jogando anos de relacionamento fora por causa de algumas semanas ruins?
— Não.
Aproximei-me da mesa onde havia deixado a pasta do projeto.
— Estou finalmente olhando para anos de relacionamento por causa de algumas semanas de lucidez.
Rafael apoiou as mãos no encosto de uma cadeira.
— O que você quer que eu faça?
Eu poderia ter dado uma lista.
Poderia mandar que ele cortasse contato com Lívia.
Poderia exigir que pedisse desculpas aos meus amigos.
Que respeitasse minha profissão.
Que comprasse outro apartamento.
Que implorasse.
Mas percebi que não queria mais ensinar um adulto a reconhecer minha dignidade.
— Eu não quero mandar você fazer nada.
— Então como vou consertar?
— Descobrindo sozinho o que você fez.
Ele ergueu a voz.
— Isso é injusto!
— Injusto foi eu passar anos explicando exatamente como suas atitudes me machucavam e você só começar a ouvir quando elas passaram a ter consequências para você.
Rafael ficou parado.
Depois perguntou:
— Você vai mesmo embora na próxima semana?
— Vou.
— Por três anos?
— O projeto dura três anos.
— E nós?
Respirei fundo.
— Nós vamos ter essa resposta antes de eu subir a serra.
Ele fechou os olhos.
Por alguns instantes, pareceu cansado de verdade.
Não irritado.
Não ofendido.
Cansado.
— Eu amo você, Marina.
Doeu ouvir.
Porque eu ainda acreditava que ele acreditava nisso.
— Talvez ame.
Minha voz saiu baixa.
— Mas amor não serve de muita coisa quando só uma pessoa precisa diminuir a própria vida para que o relacionamento funcione.
Na noite anterior à minha partida, terminei de arrumar as malas.
Levaria apenas o necessário para os primeiros meses. O restante já estava com Camila.
Rafael apareceu à porta do quarto.
— Posso entrar?
Foi a primeira vez em muito tempo que ele pediu.
Assenti.
Ele observou as malas.
— Falei com a Lívia hoje.
Não disse nada.
— Ela vai ficar num flat que escolheu sozinha.
— Certo.
— Também pediu que eu parasse de pagar as coisas dela.
Eu continuei dobrando uma blusa.
Rafael engoliu em seco.
— Ela disse que eu estava tentando transformar ajuda em uma forma de ser indispensável.
Minhas mãos pararam por um instante.
Ele soltou um sorriso amargo.
— Parece que todo mundo percebeu antes de mim.
Finalmente olhei para ele.
Havia vergonha em seu rosto.
Talvez até arrependimento.
Mas arrependimento não apagava nada.
— Marina, eu devolvi a pedra de tinta.
— Por quê?
— Porque percebi que comprei aquilo para fazer você esquecer uma coisa que eu não queria admitir.
— E o que você não queria admitir?
Ele demorou.
— Que quando pedi para você abrir mão do apartamento, eu já tinha decidido. Eu só queria que você concordasse para eu não me sentir culpado.
Pela primeira vez, ele disse a verdade sem colocar uma explicação logo depois.
Meu peito apertou.
Rafael deu um passo em minha direção.
— Não vai.
Fechei a mala.
— Eu vou.
— Então eu espero você voltar.
Balancei a cabeça.
— Não me prometa isso.
— Por quê?
Peguei a alça da mala e a coloquei no chão.
— Porque amanhã, antes de eu partir, nós ainda precisamos decidir se existe alguma coisa para esperar.
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