Meu ex-marido encerrou nosso casamento em oito minutos, e naquela manhã eu deixei de ser a nora invisível
Parte 3
Lucas chegou à reunião dez minutos antes.
Sofia percebeu assim que entrou na sala de vidro e o viu de pé ao lado da janela. O terno era outro, azul-marinho, mas a postura continuava a mesma: ombros retos, expressão fechada, uma mão no bolso e a outra segurando o celular.
Só que agora ele não estava falando com ninguém.
Pela primeira vez em muito tempo, parecia ter vindo a algum lugar sem conseguir se esconder atrás de uma ligação.
Sofia deixou uma pasta sobre a mesa e ocupou a cadeira indicada para a representante do Fundo Sofia Mendonça.
Lucas acompanhou cada movimento.
— Então é verdade.
Ela abriu o notebook.
— O quê?
— Você é o fundo.
Sofia ergueu os olhos.
— Eu não sou um fundo, Lucas. Sou a principal cotista e a pessoa responsável pelas decisões extraordinárias previstas no regulamento. São coisas diferentes.
— Você entendeu o que eu quis dizer.
— Entendi. Mas hoje estamos numa reunião de negócios, então prefiro que você diga exatamente o que quer dizer.
Dois integrantes do comitê e os assessores jurídicos das partes entraram logo depois. Sofia manteve a reunião no campo técnico.
Nada de passado.
Nada de casamento.
Nada de acusações.
Durante quase uma hora, a equipe financeira apresentou os números da aquisição da Vértice.
O Grupo Valença pretendia comprar o controle da companhia usando uma combinação de capital próprio e dívida. O problema estava na estrutura escolhida por Lucas e seus executivos.
A cláusula sete permitiria que, após a compra, ativos importantes da Vértice fossem dados em garantia para parte do financiamento contratado pelo comprador. Além disso, previa a possibilidade de distribuição extraordinária de caixa para amortizar a dívida da operação.
No papel, aquilo tornava a aquisição mais barata para o Grupo Valença.
Para a Vértice, o efeito era outro.
A empresa passaria a carregar um risco financeiro muito maior por uma dívida que não nascera de suas próprias atividades.
— Essa estrutura é comum — afirmou Lucas, apoiando os antebraços sobre a mesa. — Não estamos inventando nada.
Um dos analistas respondeu:
— A estrutura existe no mercado. Isso não significa que ela seja adequada em qualquer proporção.
Sofia folheou o relatório.
— Qual seria o índice de dívida líquida sobre geração de caixa da Vértice no cenário mais estressado?
O analista citou o número.
Sofia fez outra pergunta.
Depois outra.
Lucas ficou observando.
Durante o casamento, ele nunca a vira trabalhar.
Nunca soubera como ela lia balanços, contratos ou projeções. Sofia não tinha escondido a própria inteligência; simplesmente deixara de colocá-la em lugares onde ninguém parecia interessado em vê-la.
Quando a reunião terminou, o comitê manteve a recomendação original: aprovar a operação apenas se a cláusula sete fosse alterada.
Os demais se levantaram.
Lucas não.
Sofia guardou seus papéis com calma.
— Você vai embora? — ele perguntou.
— Tenho outra reunião em vinte minutos.
— Preciso falar com você.
— Sobre a aquisição?
— Sobre nós.
Sofia parou.
A palavra soou deslocada.
“Nós.”
Tinha passado tanto tempo desde que Lucas usara aquele pronome para qualquer coisa que não fosse uma obrigação social que ela quase estranhou ouvi-lo.
— Nós assinamos o divórcio ontem.
— Eu sei.
— Então não existe mais “nós”.
Lucas fechou os olhos por um instante.
— Você ficou três anos casada comigo e nunca disse que controlava um fundo de R$ 3,2 bilhões.
— Controle não é a palavra mais precisa.
— Para de fazer isso.
— Isso o quê?
— Responder como se estivéssemos numa sala de conselho.
Sofia apoiou as mãos sobre a mesa.
— Onde você queria que eu respondesse, Lucas? No nosso quarto?
Ele não disse nada.
Ela continuou:
— Você não entrava lá havia um ano e quatro meses.
A mandíbula dele se contraiu.
— Isso não tem relação com o que estou perguntando.
— Tem toda a relação.
Lucas se levantou.
— Eu me casei com você sem saber quem você realmente era.
A frase acertou Sofia de uma maneira que ela não esperava.
Não porque fosse justa.
Justamente porque não era.
Ela soltou uma pequena risada, sem humor.
— Você sabia meu nome.
— Não sabia da sua família, do fundo, das empresas…
— Sabia o suficiente para perguntar.
— Você nunca contou.
— E você nunca perguntou.
Lucas abriu a boca, mas Sofia não deixou que ele interrompesse.
— Nos primeiros meses, eu tentei falar da minha vida antes do casamento. Você dizia que estava ocupado. Quando mencionei os investimentos, você respondeu que não precisava saber porque cada um devia manter seus assuntos profissionais separados. Quando convidei você para conhecer meu avô, você desmarcou três vezes.
Lucas passou a mão pela nuca.
Sofia sentiu a garganta apertar, mas sua voz continuou firme.
— Depois eu parei.
— Então você decidiu me testar?
— Não.
— Parece.
— Eu decidi respeitar o espaço que você exigia.
A resposta o atingiu.
Lucas voltou a se sentar.
— E o fundo ficou congelado por minha causa?
— Não congelado. Sob gestão conservadora, sem minha atuação direta.
— Por quê?
Sofia olhou pela parede de vidro para os prédios da avenida.
Era uma pergunta simples.
A resposta, nem tanto.
— Porque eu sabia que sua família valorizava independência patrimonial. E porque eu queria descobrir se conseguia viver um casamento sem ser tratada como Sofia Mendonça, a herdeira, a investidora, a mulher que podia entrar numa sala e mudar o equilíbrio de uma negociação.
Lucas a encarou.
— Você queria ser tratada como quê?
— Como sua esposa.
O silêncio que se seguiu não foi constrangedor.
Foi pior.
Foi claro.
Lucas desviou os olhos primeiro.
— Eu nunca pedi que você se anulasse.
— Não. Você só tornou muito fácil para mim desaparecer.
Ele apertou os lábios.
Sofia fechou a pasta.
— Eu não estou dizendo que você é responsável por todas as escolhas que fiz. Fui eu que fiquei. Fui eu que aceitei jantar sozinha. Fui eu que inventei desculpas para sua ausência quando sua mãe perguntava se você voltaria para casa. Fui eu que disse a mim mesma que trabalho demais era diferente de indiferença.
Lucas baixou a cabeça.
— Sofia…
— Só que eu também fui a pessoa que decidiu sair.
Ele levantou os olhos novamente.
— Você deixou todos os bens comuns para mim.
— Deixei.
— Por quê?
— Porque eu não queria passar os próximos meses discutindo apartamento, investimentos menores, carros ou móveis.
— Você chama nosso patrimônio de “menor”?
Sofia percebeu o desconforto dele e corrigiu:
— Menor em comparação ao custo emocional da disputa. Não estou diminuindo o que construímos durante o casamento.
Lucas soltou uma respiração lenta.
— Eu achei que você estava abrindo mão porque…
Ele parou.
— Porque o quê?
A resposta demorou.
— Porque precisava encerrar rápido.
— Eu precisava.
— Agora eu entendo por quê.
Sofia franziu a testa.
— Não. Acho que ainda não entende.
Ele se inclinou para a frente.
— Você esperou o divórcio para reativar tudo. No dia seguinte, aparece justamente numa negociação minha. Como você espera que eu interprete isso?
Sofia sentiu a irritação crescer.
Mesmo assim, abriu novamente a pasta.
Retirou um documento e deslizou pela mesa.
— Data de aquisição da participação do fundo na Vértice: seis anos atrás.
Lucas leu.
Ela colocou outro documento.
— Data do acordo de acionistas: cinco anos e oito meses atrás.
Outro.
— Data da primeira proposta de compra do Grupo Valença: quarenta e dois dias atrás.
Lucas ficou imóvel.
— Eu não escolhi entrar na sua negociação. Seu grupo escolheu comprar uma empresa da qual meu fundo já era acionista muito antes de eu conhecer você.
Ele passou os olhos pelas páginas.
— Eu não sabia.
— Exatamente.
A palavra ficou entre os dois.
Sofia não precisou aumentar a voz.
Lucas fechou a pasta devagar.
— Então o que você vai fazer?
— Meu trabalho.
— Isso significa votar contra mim?
— Isso significa votar contra uma cláusula que eu consideraria ruim mesmo se nunca tivesse me casado com você.
— Se mudarmos a cláusula, você aprova?
— Se a nova estrutura for adequada para a Vértice e para os acionistas, eu não tenho motivo para bloquear a operação.
Lucas parecia não saber se aquilo o tranquilizava ou o incomodava mais.
— Você consegue separar as coisas assim?
Sofia pensou na aliança abandonada na penteadeira.
Pensou nas noites em que escutara o portão da mansão e esperara passos que não subiam a escada.
Pensou nos oito minutos do cartório.
— Não completamente.
A sinceridade fez Lucas erguer a cabeça.
— Eu estou magoada. Estou decepcionada. E provavelmente vou continuar assim por algum tempo. Mas é justamente por isso que não vou tomar uma decisão empresarial baseada na vontade de punir você.
Lucas permaneceu em silêncio.
Dessa vez, Sofia não preencheu o espaço por ele.
Seu celular vibrou.
O comitê enviara a convocação formal para a assembleia extraordinária da Vértice, marcada para a manhã seguinte.
A cláusula sete seria submetida à decisão final dos acionistas.
Sofia leu a mensagem.
Depois se levantou.
Lucas também ficou de pé.
— Sofia.
Ela pegou a bolsa.
— O quê?
— Se eu tivesse perguntado…
Ela demorou antes de responder.
— Talvez eu tivesse contado.
— E isso teria mudado alguma coisa?
Sofia olhou diretamente para ele.
— Saber quanto dinheiro eu tinha não teria salvado nosso casamento.
Lucas ficou parado.
— O que talvez tivesse salvado era você querer saber quem eu era.
Ela saiu da sala.
No corredor, enfiou a mão no bolso do casaco e tocou o anel preto.
Durante anos, aquele pequeno aro tinha sido apenas uma lembrança da vida que ela colocara em espera.
Na manhã seguinte, não seria mais.
Sofia parou diante do elevador e mandou uma mensagem ao jurídico.
“Confirmem minha presença.”
A resposta veio quase imediatamente.
Ela guardou o celular.
No dia seguinte, às nove, Sofia pisaria naquela assembleia não como esposa de Lucas Valença, nem como a mulher discreta que ocupava um lugar vazio na mansão da família.
Ela entraria com o próprio nome.
E votaria.
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