Durante quatro anos, um cachorro esperou pelo dono desaparecido — até ouvir seu nome vindo da estrada
Parte 3
Caio passou o polegar várias vezes sobre os números quase apagados. Durante quatro anos, aquela pequena placa estivera pendurada no pescoço de Mancha, atravessando chuva, frio e lama. Para qualquer outra pessoa, era apenas uma identificação antiga. Para Caio, era a primeira ligação concreta entre o homem que ele havia sido e a família que acreditava tê-lo perdido.
Dona Lúcia pegou os óculos no bolso do avental e se aproximou.
— Sua mãe ainda mora no mesmo lugar?
Caio demorou a responder.
— Eu não sei.
A frase saiu baixa, quase envergonhada. Ele lembrava do rosto da mãe agora. Lembrava do apartamento simples, da voz dela reclamando quando ele esquecia de telefonar e de uma mesa de cozinha onde os dois tomavam café sempre que Caio voltava de alguma viagem. Mas não sabia o que havia acontecido com ela depois do acidente.
Dona Lúcia levou Caio para dentro do bar e entregou-lhe o celular. Ele digitou o número devagar. Errou um algarismo, apagou e começou novamente. Mancha ficou junto à cadeira, com a cabeça encostada no joelho dele.
O telefone chamou uma vez.
Duas.
Três.
Uma voz feminina atendeu.
— Alô?
Caio fechou os olhos.
Aquela voz não havia desaparecido de sua memória. Estivera escondida em algum lugar profundo, soterrada sob o mesmo caos que apagara quase toda a sua vida.
— Mãe?
Do outro lado, não houve resposta imediata.
Depois veio um ruído curto, como se alguma coisa tivesse caído.
— Quem está falando?
— Sou eu.
A respiração da mulher ficou pesada.
— Quem é você?
Caio tentou falar de novo, mas a garganta travou. Dona Lúcia virou o rosto discretamente. Algumas pessoas que ainda estavam no bar ficaram em silêncio.
— Mãe… sou o Caio.
O choro começou do outro lado antes de qualquer palavra.
Não era um choro alto. Era uma sequência de soluços abafados, quase sem ar, de alguém que havia passado quatro anos tentando se convencer de que nunca mais ouviria aquela voz.
— Não faz isso comigo — ela conseguiu dizer. — Por favor, não faz isso comigo.
— Sou eu, mãe.
Caio falou sobre uma cicatriz que tinha desde criança perto do cotovelo, sobre a toalha amarela que a mãe sempre colocava na mesa da cozinha e sobre a mania dela de guardar dinheiro dentro de um pote de café que ele fingia não conhecer.
A mulher soltou um grito.
— Meu filho…
Caio abaixou a cabeça e chorou.
Mancha levantou-se imediatamente. Colocou as patas dianteiras no joelho dele e encostou o focinho em seu peito.
A mãe de Caio queria sair naquela mesma noite para encontrá-lo, mas Dona Lúcia pegou o telefone e explicou que a estrada estava perigosa por causa da chuva. Combinaram que ela viajaria na manhã seguinte, acompanhada da irmã mais velha de Caio.
Depois da ligação, ele permaneceu algum tempo sentado sem falar.
— Eu passei quatro anos tentando lembrar para onde voltar — disse finalmente. — E ele passou quatro anos sabendo exatamente onde eu estava.
Dona Lúcia olhou para Mancha.
— Ele não sabia onde você estava. Sabia onde você tinha prometido voltar.
Aquilo atingiu Caio de um jeito diferente.
Ele saiu do bar, sentou-se sob a varanda e ficou observando o cachorro beber água. Pela primeira vez desde que chegara, sua expressão não mostrava apenas alegria. Havia culpa.
Na manhã seguinte, antes que a família chegasse, Dona Lúcia insistiu para que ele fosse levado ao posto de saúde mais próximo. Caio aceitou apenas depois de garantir que Mancha poderia acompanhá-lo.
O médico examinou a perna, a cicatriz e os antigos ferimentos. Explicou que seria necessário fazer exames mais completos num hospital da cidade, especialmente por causa do histórico de traumatismo craniano e das falhas de memória que ainda persistiam.
Caio ouviu tudo sem discutir.
O que mais o preocupava, porém, era Mancha.
O cachorro estava extremamente magro para a idade. Tinha artrose nas patas traseiras, feridas antigas nas almofadas e sinais de desnutrição recorrente. Durante anos, mesmo recebendo comida dos moradores, muitas vezes recusara ficar longe da estrada tempo suficiente para se recuperar de verdade.
Um veterinário da região foi chamado para examiná-lo.
— Ele precisa descansar — explicou. — Comida adequada, tratamento para dor e um lugar seco. Não pode mais ficar dormindo do lado de fora.
Caio acariciou o pescoço do cachorro.
— Então não vai ficar.
No fim daquela manhã, dois carros entraram devagar em Vila do Cedro.
Caio estava sentado diante do bar quando viu uma mulher de cabelos completamente brancos descer do primeiro veículo.
Ele se levantou depressa demais e quase caiu.
— Mãe…
Ela não respondeu.
Correu.
Os dois se encontraram no meio da estrada.
A mãe de Caio segurou seu rosto com as duas mãos, tocou a cicatriz, os cabelos, os ombros e o peito como se precisasse confirmar que havia mesmo um corpo ali.
Depois o abraçou com tanta força que ele deixou a bengala cair.
— Você está vivo.
— Estou.
— Você está vivo.
Ela repetia aquilo sem parar.
A irmã de Caio se aproximou chorando, mas foi a mãe quem percebeu Mancha poucos segundos depois.
O cachorro observava a família reunida, sentado perto da porta do bar.
— Meu Deus… Mancha.
Ela se ajoelhou diante dele.
— Você ficou aqui?
Dona Lúcia respondeu:
— Ficou.
A mulher cobriu o rosto.
Durante as primeiras horas, houve poucas perguntas. Caio contou apenas o essencial. A mãe e a irmã explicaram que haviam procurado por meses, espalhado avisos e voltado à região várias vezes. Com o tempo, as buscas oficiais foram encerradas.
— Eu vinha aqui — disse a mãe. — E toda vez que via Mancha esperando, eu não sabia se aquilo me dava esperança ou me destruía ainda mais.
Caio respirou fundo.
— Por que vocês não levaram ele?
A mãe enxugou as lágrimas.
— Tentamos. Três vezes. Ele fugia.
Dona Lúcia confirmou com um movimento de cabeça.
— Ele sempre voltava para cá.
Caio olhou para o cachorro.
Então algo pareceu perturbá-lo.
— E a plaquinha? O telefone da senhora estava nela. Ninguém tentou ligar quando me encontraram ferido?
A pergunta deixou a mãe confusa.
— Quando encontraram você?
Caio contou novamente como acordara numa comunidade distante e permanecera lá sem documentos nem memória.
A irmã franziu a testa.
— Mas Mancha não estava com você quando aconteceu.
— Não. Eu mandei ele esperar.
— Então a plaquinha nunca poderia ter ajudado quem encontrou você — ela respondeu.
Caio ficou imóvel.
Era óbvio, mas sua memória fragmentada havia misturado os fatos. Pela primeira vez percebeu como algumas lembranças ainda chegavam embaralhadas.
Aquele pequeno detalhe não revelava nenhum mistério. Revelava algo mais difícil de aceitar: talvez nunca fosse recuperar perfeitamente os quatro anos perdidos.
À tarde, a mãe insistiu para que Caio voltasse com elas para Florianópolis, onde poderia receber tratamento adequado.
Ele aceitou.
Mas antes pediu que fossem até a araucária.
Caio caminhou devagar até o lugar onde Mancha havia esperado. A terra ainda guardava uma pequena depressão formada pelo corpo do cachorro ao longo dos anos.
Ele ficou parado diante dela.
— Eu disse que voltava logo.
A irmã colocou a mão em seu ombro.
— Você não escolheu desaparecer.
— Mas ele não sabia disso.
Mancha se aproximou mancando e sentou-se ao lado dele.
Caio se abaixou.
— Eu não posso devolver esses quatro anos para você.
O cachorro apenas encostou o focinho em sua mão.
Naquela noite, Caio tomou uma decisão pequena, mas definitiva.
Não permitiria que Mancha voltasse a dormir sob aquela árvore.
Dona Lúcia encontrou uma caixa grande para transportar os poucos objetos que Caio havia trazido. A família colocou uma manta grossa no banco traseiro do carro.
Quando abriram a porta, Mancha hesitou.
Ele olhou para o carro.
Depois para a araucária.
Caio percebeu.
Voltou até o cachorro e se ajoelhou.
— Dessa vez você não precisa esperar.
Mancha continuou olhando para a árvore.
Caio segurou delicadamente sua coleira.
— Eu vou com você.
O cachorro virou a cabeça.
Por fim, entrou no carro.
Durante os primeiros quilômetros, Mancha permaneceu sentado, observando a estrada pela janela traseira. Aos poucos, porém, deitou-se sobre a manta e apoiou a cabeça no colo de Caio.
Dona Lúcia ficou diante do bar até o carro desaparecer na curva.
Três semanas depois, recebeu uma ligação.
Era Caio.
A voz parecia mais firme.
Ele estava fazendo fisioterapia e uma série de exames neurológicos. Algumas lembranças continuavam voltando em fragmentos, enquanto outras talvez nunca retornassem.
Mancha estava melhor.
Ganhara peso.
Dormia dentro de casa.
Ainda acordava sempre que ouvia passos no corredor.
— E sabe o que ele faz? — Caio perguntou.
— O quê?
— Vem conferir se eu ainda estou aqui.
Dona Lúcia riu com os olhos marejados.
Então Caio ficou sério.
— Eu preciso voltar a Vila do Cedro.
— Para quê?
Houve uma pausa.
— Preciso ir até o lugar onde tudo aconteceu.
Dona Lúcia olhou pela janela do bar para a velha estrada.
— Tem certeza?
— Tenho. Passei quatro anos sem saber de onde vim. Agora preciso entender até onde minha memória consegue me levar.
Ela respirou fundo.
— E Mancha?
Caio respondeu sem hesitar:
— Vai comigo.
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