O marido a chamou de “peso morto” e anunciou que se casaria com a secretária grávida diante da família
Parte 3
Henrique foi atrás de Marina assim que ela deixou a sala de jantar.
— Você enlouqueceu?
Ela parou no corredor, mas não se virou imediatamente.
Durante anos, aquelas três palavras haviam funcionado como um freio. Sempre que Marina questionava uma decisão dele, Henrique dizia que ela estava exagerando, sendo sensível demais ou criando problemas onde não existiam.
Naquela noite, o efeito foi diferente.
— Não — respondeu ela. — Acho que finalmente parei de agir como se tudo o que você faz precisasse ser compreendido e perdoado.
Henrique baixou o tom.
— Você sabe que aquele dinheiro entrou na empresa quando nós já éramos casados.
— E você sabe de onde ele veio.
Era uma herança particular de Marina. Ela poderia ter guardado o valor, investido em imóveis ou simplesmente recusado o pedido do marido.
Não recusou.
Na época, Henrique passava noites sem dormir porque o grupo corria risco de perder dois contratos importantes. Marina ainda trabalhava na área financeira da empresa e acompanhava os números de perto.
Foi ela quem sugeriu renegociar prazos com fornecedores.
Foi ela quem participou das reuniões com os bancos.
E foi também ela quem usou o próprio patrimônio quando Henrique jurou que devolveria cada centavo.
— Eu não estou negando a dívida — ele disse. — Só estou dizendo que existem maneiras civilizadas de resolver isso.
Marina soltou uma risada curta.
— Civilizada seria você conversar comigo antes de colocar sua secretária na minha cadeira e mandar que eu deixasse a casa até sexta-feira.
Henrique respirou fundo.
— A gravidez mudou as coisas.
— A gravidez não fez você dormir com ela.
Ele ficou calado.
Marina continuou andando.
No quarto, abriu o armário e retirou uma pequena mala. Henrique apareceu na porta.
— O que está fazendo?
— Vou dormir em outro lugar.
— Você não precisa sair hoje.
Ela virou o rosto para ele.
— Há vinte minutos eu precisava sair até o fim da semana.
Henrique apertou os lábios.
— Não distorça minhas palavras.
— Não preciso. Todo mundo ouviu.
Marina colocou algumas roupas na mala, pegou documentos pessoais, o notebook e uma caixa com objetos que pertenciam à família dela.
Não levou joias dos Tavares.
Não levou quadros.
Não tocou em nada que pudesse gerar discussão.
Antes de fechar a mala, porém, olhou para o espaço vazio onde a pulseira de esmeraldas costumava ficar.
— Quero minha pulseira de volta.
Henrique pareceu irritado.
— De novo isso?
— Ela foi entregue a mim. Você retirou do meu cofre sem autorização.
— Era da minha avó.
— Sua avó entregou para mim. Se você acredita que a joia juridicamente não me pertence, seu advogado pode discutir isso com o meu. O que você não podia fazer era abrir meu cofre e presentear sua amante.
Ele não respondeu.
Na manhã seguinte, Marina se reuniu com o advogado e com uma contadora que já cuidava de sua declaração de imposto de renda havia anos.
Ela não queria vingança.
Queria números.
Pela primeira vez em muito tempo, pediu que cada valor fosse explicado.
O acordo de oito anos antes não transformava Marina em dona do Grupo Tavares, nem lhe permitia tomar a empresa de um dia para o outro.
Era muito mais simples.
Henrique devia dinheiro a ela.
Havia reconhecido essa dívida por escrito.
Parte havia sido paga.
Parte não.
E, em caso de divórcio iniciado por ele antes da quitação, o saldo poderia ser cobrado imediatamente.
O advogado colocou uma planilha sobre a mesa.
— Ainda precisamos fechar os cálculos, mas o saldo atualizado supera R$ 6 milhões.
Marina passou os olhos pelos números.
— Ele consegue pagar?
— Em dinheiro disponível, provavelmente não.
— Então o que acontece?
— Primeiro notificamos. Depois, se não houver pagamento ou acordo, existem as garantias que ele ofereceu. Mas isso leva procedimento, avaliação e eventualmente discussão judicial. Nada acontece em vinte e quatro horas.
Marina assentiu.
Era exatamente o que queria ouvir.
Não buscava um milagre.
Queria um processo real.
Em seguida, pediu para revisar também as contas conjuntas do casal e tudo aquilo a que legalmente tinha acesso.
Foi ali que encontrou outra ferida.
Não um documento escondido.
Não uma conta secreta cinematográfica.
Apenas transferências repetidas, pequenas o suficiente para passarem despercebidas quando vistas isoladamente.
Pagamento de aluguel.
Móveis.
Viagens.
Restaurantes.
Despesas médicas recentes.
Todas ligadas a Lívia.
Algumas haviam saído da conta conjunta.
Marina ficou olhando para a tela.
— Isso começou quando?
A contadora apontou as datas.
— Há cerca de dez meses.
Dez meses.
A gravidez tinha oito semanas.
Portanto, não era um caso impensado provocado pela notícia de um bebê.
Henrique vinha construindo uma segunda vida quase um ano antes de decidir destruir a primeira em público.
Marina não chorou.
A dor parecia ter passado do coração para alguma região mais profunda e silenciosa do corpo.
— Quero cancelar minha autorização para qualquer movimentação individual nessa conta — disse.
A contadora explicou que, por ser uma conta conjunta com determinadas regras de movimentação, seria necessário seguir o procedimento do banco.
Marina fez isso naquela mesma tarde.
Depois transferiu apenas os recursos comprovadamente particulares que estavam em uma conta de sua titularidade exclusiva para outra instituição.
Nada que pertencesse a Henrique foi tocado.
Nada foi escondido.
Cada movimento ficou documentado.
No início da noite, Henrique apareceu no apartamento que Marina herdara da mãe em Vila Mariana.
Ela não havia contado onde estava.
Ele sabia porque o imóvel sempre fizera parte de seu patrimônio.
— Precisamos conversar — disse quando ela abriu a porta.
— Fale.
Henrique entrou e olhou ao redor.
O apartamento era confortável, mas muito menor que a mansão da família.
Sobre uma mesa perto da janela, Marina havia colocado três dos vasos de orquídeas que trouxera naquela manhã.
Henrique reparou neles.
— Você realmente saiu.
— Foi exatamente o que você pediu.
— Eu estava nervoso.
Marina o encarou.
— Você preparou papéis de divórcio, levou sua amante grávida para um jantar com sua família e deu a ela uma joia que retirou do meu cofre. Isso não é ficar nervoso, Henrique. Isso é planejamento.
Ele passou a mão pelos cabelos.
— Está bem. Eu errei na forma.
— Na forma?
— Eu deveria ter conversado com você sozinho.
— Então o problema foi a plateia?
Henrique perdeu a paciência.
— O que você quer que eu diga? Meu filho vai nascer. Eu preciso assumir minha responsabilidade.
— Assuma.
A resposta foi tão simples que ele pareceu não entender.
Marina continuou:
— Assuma seu filho. Cuide dele. Pague o que for necessário. Esteja presente. Nada disso exige que você humilhe sua esposa, roube uma joia do cofre dela ou finja que os oito anos que passamos juntos não tiveram valor.
— Eu não roubei nada.
— Então devolva.
Henrique desviou os olhos.
Marina percebeu.
— Ela não quer devolver?
— Não coloque a Lívia no meio.
— Você colocou a Lívia no meio quando a levou para a nossa mesa.
Henrique ficou alguns segundos em silêncio.
Depois mudou de assunto.
— Meu advogado recebeu a notificação da dívida.
— Ótimo.
— R$ 6 milhões, Marina? Você sabe que eu não tenho esse valor disponível.
— Eu também não tinha R$ 4,8 milhões sobrando quando você me procurou oito anos atrás. Era quase tudo o que meu avô havia deixado para mim.
— A empresa precisava.
— E eu ajudei.
— Nós éramos uma família.
A frase finalmente arrancou dela um sorriso triste.
— Engraçado. Ontem, quando quis me expulsar da casa, você não se lembrou disso.
Henrique se aproximou.
— Se você executar as garantias, vai criar problemas dentro do grupo.
— Não fui eu quem escreveu o acordo.
— Mas você pode escolher não cobrar agora.
Marina entendeu naquele instante por que ele realmente estava ali.
Não era arrependimento.
Não era amor.
Não era sequer preocupação com o sofrimento que lhe causara.
Henrique tinha medo das consequências financeiras.
— É por isso que você veio?
Ele não respondeu diretamente.
— Eu só acho que precisamos separar as coisas.
— Concordo.
Marina abriu a porta.
— Então vamos separar.
Henrique permaneceu parado.
— Você está me mandando embora?
— Sim.
— Depois de oito anos?
Ela respirou fundo.
— Você anunciou ontem, diante de toda a sua família, que eu era um peso morto. Não use nossos oito anos agora como argumento para me convencer a continuar financiando sua tranquilidade.
Ele ficou vermelho.
— Você está agindo por vingança.
— Não. Se fosse vingança, eu estaria tentando destruir você. Estou fazendo o oposto. Estou cobrando apenas o que você reconheceu que me deve, protegendo meu dinheiro e aceitando o divórcio que você pediu.
Henrique apontou para ela.
— Você vai se arrepender quando isso chegar ao conselho da empresa.
— Talvez.
Marina segurou a porta aberta.
— Mas não vou mais tomar decisões com medo do que sua família pensa de mim.
Ele saiu sem se despedir.
Na manhã seguinte, a mãe de Henrique telefonou.
Marina quase não atendeu.
— Eu queria pedir desculpas — disse a mulher.
Marina permaneceu em silêncio.
— Eu não sabia do dinheiro que você colocou na empresa naquela época.
— Henrique pediu que não comentássemos.
— Eu sabia que você ajudava, mas não sabia quanto.
— Não faz diferença agora.
— Faz para mim.
A voz da sogra vacilou.
— Ontem eu deixei meu filho falar com você de uma maneira que eu jamais aceitaria se fosse com minha própria filha.
Marina fechou os olhos.
— Obrigada por reconhecer.
— Você pretende mesmo se divorciar?
Marina olhou para os vasos de orquídeas na janela.
— Foi Henrique quem tomou essa decisão antes de mim.
Fez uma pausa.
— Mas sou eu quem está tomando a minha agora.
Naquela tarde, Marina assinou a autorização para que seu advogado negociasse a cobrança sem renunciar a nenhuma garantia.
Também pediu oficialmente ao banco e ao grupo empresarial que seu nome fosse retirado, no prazo e pelos procedimentos previstos, de garantias pessoais que ela ainda prestava em duas operações antigas da empresa.
Não houve bloqueio imediato.
Não houve falência.
Não houve espetáculo.
Houve apenas uma mulher que, depois de oito anos resolvendo silenciosamente os problemas de todos, decidiu que não continuaria oferecendo o próprio patrimônio para proteger um homem que a chamava de inútil.
No fim do dia, o advogado ligou.
— Henrique pediu uma reunião para amanhã. Ele quer negociar antes que a cobrança avance.
Marina olhou pela janela.
A garoa havia parado.
— Eu vou.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ela fechou o notebook.
— Durante oito anos, ele sempre entrou numa sala acreditando que eu acabaria cedendo. Amanhã, quero que ele descubra que essa mulher não existe mais.
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