Depois de seis tapas para agradar a mulher do passado dele, retirei bilhões da empresa que eu mesma havia salvado
Parte 3
A reunião foi marcada para as dez da manhã do dia seguinte, no edifício administrativo da Almeida Participações, na Avenida Faria Lima, em São Paulo.
Eu conhecia aquele prédio quase tão bem quanto Gustavo. Durante dois anos, entrei e saí dali acompanhando negociações, assinando garantias, revisando projeções e ouvindo promessas sobre o futuro da empresa. Ainda assim, na maioria das fotografias institucionais, eu aparecia apenas como “esposa do presidente”.
Naquela manhã, entrei sozinha.
Rafael já me esperava no hall. Não carregava uma solução milagrosa numa pasta, nem prometia acabar com Gustavo em uma assinatura. Seu papel era bem mais simples: garantir que eu entendesse exatamente o que estava exercendo e impedir que me pressionassem a abrir mão de direitos que haviam sido negociados anos antes.
— Tem certeza de que quer participar pessoalmente? — perguntou.
— Durante muito tempo, eles falaram do meu dinheiro como se eu não estivesse na sala. Hoje eu quero ouvir.
A sala do conselho estava quase cheia.
Gustavo ocupava a cabeceira. À direita dele, o diretor financeiro mantinha uma pilha de relatórios abertos. Quatro conselheiros estavam distribuídos pela mesa, todos com a mesma expressão cansada de quem havia passado a noite tentando conter uma crise.
Quando entrei, ninguém falou de imediato.
Gustavo foi o primeiro.
— Daniela.
Eu me sentei na outra extremidade.
— Podemos começar.
O diretor financeiro abriu a apresentação. Explicou que, nos últimos dezoito meses, a empresa havia acelerado investimentos em novos projetos. Parte deles ainda não produzia receita suficiente. Para compensar, a companhia utilizava linhas de curto prazo e dependia de garantias que permitiam condições melhores com alguns parceiros.
Eu sabia de quase tudo aquilo.
O que não sabia era até que ponto Gustavo havia permitido que a empresa se tornasse dependente desse equilíbrio.
— Sem as garantias vinculadas à senhora Daniela — disse o diretor, escolhendo cada palavra —, alguns credores solicitaram revisão imediata das condições. Outros estão pedindo reforço de garantias. Temos caixa para manter a operação no curto prazo, mas não para sustentar simultaneamente todos os projetos em expansão.
Um dos conselheiros virou-se para Gustavo.
— Você disse que a estrutura financeira estava diversificada.
Gustavo apertou a mandíbula.
— Estava.
— Não o suficiente — respondeu o homem.
Eu permaneci calada.
Durante anos, Gustavo havia se acostumado a entrar em uma sala e controlar a narrativa. Quando algo funcionava, era fruto da liderança dele. Quando alguma dificuldade surgia, alguém sempre encontrava uma forma de corrigi-la.
Eu tinha sido uma dessas formas.
Outro conselheiro voltou-se para mim.
— Senhora Daniela, gostaríamos de entender se existe alguma condição para suspender temporariamente a retirada.
— Existe.
Gustavo ergueu os olhos com rapidez.
— Qual?
— Nenhuma relacionada ao meu casamento.
A tensão na sala aumentou.
Continuei:
— Se a empresa apresentar um plano financeiro independente do meu patrimônio pessoal, eu posso analisar propostas comerciais como qualquer investidora analisaria. Mas não vou voltar a oferecer garantias simplesmente porque Gustavo precisa de tempo.
O diretor financeiro assentiu devagar.
Era uma posição racional. Não significava que eu voltaria a investir. Significava apenas que eu não misturaria mais meu casamento com a sobrevivência da empresa.
Gustavo, porém, ouviu outra coisa.
— Então você quer me colocar de joelhos.
— Não.
— É exatamente o que está fazendo.
Eu o encarei.
— Você está diante de um conselho tentando explicar por que uma companhia bilionária ficou dependente do patrimônio da sua esposa. Isso não fui eu que fiz.
A sala ficou imóvel.
Gustavo bateu a mão sobre a mesa.
— Chega.
Um dos conselheiros respondeu antes que eu pudesse abrir a boca.
— Não, Gustavo. Não chega. Precisamos saber como chegamos aqui.
Foi a primeira vez que vi alguém naquela empresa interrompê-lo daquela maneira.
O diretor financeiro avançou para os números seguintes. Alguns projetos precisariam ser suspensos. Outros teriam que ser vendidos ou renegociados. Dividendos seriam congelados. Gastos extraordinários seriam cortados.
Nada daquilo significava uma falência imediata.
Significava algo talvez mais humilhante para Gustavo: ele teria que admitir que a empresa não era tão invulnerável quanto vendia ao mercado e à própria família.
No meio da apresentação, meu celular recebeu uma mensagem.
Era Sofia.
“Preciso falar com você.”
Ignorei.
Poucos minutos depois, outra chegou.
“Gustavo está colocando a culpa em mim.”
Dessa vez, guardei o aparelho sem responder.
Quando a reunião terminou, Rafael permaneceu na sala para receber cópias de algumas propostas. Eu fui até o corredor.
Gustavo veio atrás.
— Daniela.
Continuei andando.
— Para.
Parei.
Ele se posicionou diante de mim.
— Você está satisfeita agora?
— Com o quê?
— Com eles me tratando como um irresponsável.
— Eu não disse a eles para fazer isso.
— Você sabia exatamente o que aconteceria.
— Eu sabia que retirar meu apoio teria consequências. Não sabia que a empresa estava tão exposta.
Ele passou a mão pelos cabelos.
— Você podia ter falado comigo antes.
A frase me fez rir sem humor.
— Falado com você?
— Sim.
— Ontem eu perguntei se você acreditava em mim. Você nem sequer quis ouvir.
Gustavo abriu a boca, mas eu continuei.
— Você quer o direito de conversar quando o problema é seu. Quando o problema era meu, mandou dois homens me segurarem no chão.
Ele ficou quieto.
A imagem parecia finalmente ter encontrado algum espaço dentro dele.
— Eu errei.
Era a primeira vez que ele dizia aquilo.
Mas veio acompanhada rapidamente de uma justificativa.
— Sofia estava chorando, todo mundo estava olhando, eu achei que você tinha passado dos limites…
— Então você ainda está tentando explicar.
— Não estou.
— Está.
O elevador chegou. As portas se abriram.
Antes que eu entrasse, Gustavo segurou meu braço.
Afastei-me imediatamente.
Ele soltou.
— Desculpa.
Eu respirei fundo.
— Não encoste em mim de novo.
Entrei no elevador.
À tarde, Sofia apareceu no meu apartamento.
O porteiro me ligou primeiro. Eu poderia ter recusado sua entrada. Pensei por alguns segundos e decidi recebê-la no salão do condomínio, onde havia funcionários circulando.
Ela chegou sem maquiagem pesada, sem o vestido elegante daquela noite, sem Gustavo ao lado.
Parecia menor.
Mas eu não confundi fragilidade com inocência.
— Obrigada por aceitar falar comigo — disse.
— Fale.
Ela juntou as mãos.
— Eu não imaginava que ele mandaria bater em você.
— Você viu depois do primeiro tapa.
Sofia baixou os olhos.
— Eu fiquei assustada.
— E pediu para parar enquanto continuava abraçada nele.
— Eu não sabia o que fazer.
— Podia ter dito a verdade.
Ela ergueu a cabeça.
— Sobre a pulseira?
— Sobre tudo.
A garganta dela se moveu.
Por um momento, pensei que negaria novamente.
Não negou.
— Eu coloquei a pulseira na sua bolsa.
Eu já sabia. Ainda assim, ouvir aquilo em voz alta produziu uma sensação diferente.
Não de surpresa.
De confirmação.
— Por quê?
Ela apertou os dedos.
— Porque eu queria que ele ficasse do meu lado.
— Ele já estava do seu lado.
— Não como antes.
A resposta revelou mais do que ela pretendia.
Sofia continuou:
— Depois que vocês se casaram, tudo mudou. Ele começou a se afastar. Quando voltei a conviver com a família, achei que ainda significava alguma coisa para ele. Eu queria saber.
— E decidiu me acusar de roubo.
Ela fechou os olhos.
— Foi errado.
— Foi.
— Eu não queria que você se machucasse.
— Mas aceitou quando aconteceu.
Sofia ficou em silêncio.
Dessa vez, o silêncio foi uma resposta.
— Você gravou aquela noite, não foi? — perguntou.
Não respondi.
Seu rosto ficou tenso.
— Gustavo disse que você costuma registrar reuniões importantes quando existem questões contratuais.
Ela estava tentando descobrir o que eu possuía.
Aquilo bastou para encerrar a conversa.
— Terminamos.
— Daniela, espera.
— Não.
Ela se levantou.
— Se você usar isso, eu posso perder tudo.
Eu a encarei.
— Você estava preocupada com o que eu perderia quando colocou a pulseira na minha bolsa?
Sofia não teve resposta.
Depois que ela foi embora, liguei para Rafael.
Eu não queria usar uma gravação como instrumento de vingança. Queria saber quais medidas concretas estavam disponíveis diante da agressão e da falsa acusação.
Ele foi direto.
— Você pode registrar ocorrência e preservar as provas. A decisão de seguir adiante é sua.
Olhei novamente para as fotografias do meu rosto.
Durante três anos, eu havia resolvido crises financeiras, familiares e empresariais tentando evitar escândalos.
Naquela noite, percebi que meu medo de “complicar as coisas” sempre beneficiava quem as complicava.
— Quero registrar.
Não para destruir Gustavo.
Não para salvar a empresa.
Não para obrigar Sofia a confessar diante de ninguém.
Por mim.
No fim do dia, quando saí da delegacia acompanhada por Rafael, Gustavo estava me esperando do outro lado da rua.
Ele olhou para o prédio atrás de mim.
Depois olhou para meu rosto.
— Você registrou ocorrência contra mim?
— Registrei os fatos.
A expressão dele mudou.
— Daniela, isso pode acabar comigo.
Segurei a alça da bolsa com firmeza.
— Ontem, quando mandou continuar, você também sabia que aquilo poderia acabar comigo.
E, dessa vez, fui eu quem virou as costas primeiro.
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