Home

A polícia disse que minha esposa morreu num acidente, mas ela estava deitada ao meu lado naquela madrugada

Parte 3

Fiquei olhando para a tela sem conseguir desviar os olhos.

As duas mulheres eram quase indistinguíveis. Mesma altura, mesmo cabelo, mesmo formato do rosto. Mas agora que eu sabia onde procurar, havia diferenças pequenas que antes pareciam absurdas demais para serem consideradas: a posição dos ombros, a maneira de apoiar o peso do corpo e, principalmente, a mão dominante.

A mulher de cinza segurava o celular com a esquerda.

— Quero falar com ela — eu disse.

César apoiou os braços sobre a mesa.

— Nós também. Mas quero que o senhor entenda uma coisa. Ainda estamos confirmando a identidade da vítima e tentando recuperar o celular encontrado no carro. Não tire conclusões antes disso.

— Ela dormiu na minha cama.

Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.

— Olhou para mim e disse que era minha esposa.

Voltei para casa perto do meio-dia. Ela estava sentada no sofá, com o computador aberto, como se fosse um dia comum.

Assim que me viu, fechou a tela.

— Onde você estava?

Não respondi.

Coloquei o celular sobre a mesa e abri a imagem que César havia me enviado oficialmente para reconhecimento.

O rosto dela perdeu a cor.

— Quem é você?

Ela não respondeu.

— Eu perguntei quem é você.

Seus olhos encheram de lágrimas.

— Sam…

— Não me chama assim.

Ela baixou a cabeça.

Naquele momento eu tive certeza de que a mulher diante de mim não era Lívia. Minha esposa podia mentir sobre muitas coisas, mas sempre que ficava nervosa mordia a parte interna da bochecha e cruzava os braços. Aquela mulher apertava o polegar esquerdo contra a palma da mão.

Era outro gesto.

Outra pessoa.

— Meu nome é Laura — ela disse finalmente.

Senti minhas pernas enfraquecerem.

Sentei na poltrona sem desviar os olhos dela.

— Laura quem?

— Laura Martins.

— E Lívia?

Ela começou a chorar.

— Minha irmã.

A palavra caiu entre nós como alguma coisa pesada.

— Irmã?

— Gêmea.

Ri uma vez, sem humor.

— Lívia me disse durante oito anos que era filha única.

Laura limpou o rosto.

— Para ela, durante muito tempo, era mais fácil dizer isso.

A história veio em pedaços.

Quando eram crianças, os pais haviam se separado em condições ruins. Cada um ficou com uma das meninas. Lívia cresceu em São Paulo com o pai. Laura foi para o interior com a mãe. Durante anos quase não tiveram contato.

Quando adultas, voltaram a se falar.

Primeiro por mensagens. Depois começaram a se encontrar escondidas.

— Por que escondidas de mim?

Laura fechou os olhos.

— Porque no começo Lívia tinha vergonha de admitir que tinha mentido sobre a própria família. Depois… ficou conveniente.

— Conveniente para quê?

Ela não respondeu.

Aproximei-me.

— Você entrou na minha casa quarenta e seis dias atrás. Sua digital está cadastrada na fechadura. Ontem você entrou às 21h38. Às 21h56, minha esposa saiu.

Laura respirava rápido.

— Não foi a primeira vez, foi?

O silêncio dela respondeu antes das palavras.

— Não.

Passei a mão pelo rosto.

Meu estômago estava embrulhado.

— Quantas?

— Três.

— Três vezes você entrou aqui para fingir que era minha esposa?

— Ontem foi a terceira.

Comecei a andar pela sala.

Cada lembrança dos últimos meses pareceu se abrir diante de mim com uma interpretação nova.

Uma noite em que Lívia dissera estar com dor de cabeça e passara horas no quarto. Outra em que quase não falara comigo. Um domingo em que achei estranho ela escrever com a mão esquerda e ela disse que o pulso direito estava dolorido.

Não eram momentos de distração.

Era Laura.

— Para onde Lívia ia?

Ela desviou o rosto.

— Laura.

— Encontrar uma pessoa.

Meu peito se fechou.

— Um homem?

Ela assentiu.

O ar pareceu desaparecer da sala.

Eu já estava preparado para descobrir que minha esposa tinha uma irmã gêmea escondida. Achei que nada poderia ser mais absurdo.

Estava errado.

— Há quanto tempo?

— Eu não sei exatamente.

— Não mente mais.

Ela fechou as mãos.

— Uns sete meses.

Fiquei imóvel.

Sete meses.

Enquanto eu planejava férias, falava sobre trocar o carro e perguntava se ela queria reformar a cozinha, Lívia construía uma parte da vida que eu não conhecia.

— E você ajudava.

Laura chorou.

— Eu dizia para ela parar.

— Mas vinha dormir na minha cama.

— Eu ficava do outro lado. Tentava não deixar você chegar perto.

— Você se passou pela minha esposa dentro da minha casa.

Ela baixou a cabeça.

— Eu sei.

— Não, você não sabe.

Minha voz aumentou.

— Você sabe como é acordar às três da manhã e ouvir que sua esposa morreu enquanto uma mulher com o rosto dela está deitada ao seu lado?

Laura começou a soluçar.

Eu não senti pena.

Ainda não.

— O leite.

Ela congelou.

— O que tinha no leite?

— O calmante que você já tomava.

— Eu tomei a minha dose.

Laura apertou os olhos.

— Lívia colocou mais.

Minha mandíbula travou.

— Quanto?

— Eu não sei. Eu disse para ela que era uma péssima ideia. Ela falou que precisava ter certeza de que você não acordaria antes de ela voltar.

Senti uma raiva tão forte que precisei me afastar.

Não era apenas traição.

Minha esposa tinha mexido na minha medicação para conseguir sair escondida.

— E você aceitou entrar mesmo assim.

— Sim.

Laura não tentou justificar.

Pelo menos naquele momento, não.

— Eu estava errada.

A campainha tocou.

Laura se assustou.

Eram César e outra investigadora. Eu já havia informado que ela estava no apartamento.

Não pedi que fossem embora.

Laura também não tentou fugir.

Na delegacia, deu o nome verdadeiro, apresentou seu documento e permitiu que colhessem suas impressões digitais.

A digital dela correspondia ao terceiro cadastro da fechadura.

Não correspondia aos registros civis de Lívia.

Ainda assim, faltava identificar definitivamente a mulher morta.

Por serem gêmeas idênticas, uma comparação genética simples não resolveria tudo sozinha. A equipe então procurou outros elementos individualizantes, incluindo registros odontológicos, histórico médico e impressões que pudessem ter sido preservadas.

Dois dias depois, César me chamou novamente.

Eu sentei na mesma cadeira.

— A vítima era Lívia.

As palavras doeram mesmo depois de tudo que eu descobrira.

Os registros odontológicos antigos coincidiam com a vítima. Uma restauração feita anos antes e a posição de dois dentes forneciam pontos suficientes para a identificação, junto com os demais elementos da investigação.

Minha esposa tinha realmente morrido naquela madrugada.

E Laura realmente estivera na minha cama.

Fiquei alguns minutos sem conseguir falar.

Eu estava com raiva de Lívia.

Também estava de luto.

As duas coisas existiam ao mesmo tempo, e nenhuma anulava a outra.

César continuou.

O celular encontrado no carro havia sido parcialmente recuperado.

As conversas não eram completas, mas confirmavam que Lívia e Laura tinham combinado a troca naquela noite. Havia mensagens enviadas horas antes do acidente.

“Entra antes das dez.”

“Ele vai tomar o remédio.”

“Vou voltar antes das três.”

Laura respondera:

“Essa é a última vez. Depois disso você resolve sua vida.”

Mais abaixo, Lívia escrevera:

“Eu sei.”

Não era uma prova perfeita de tudo. Não precisava ser.

A câmera mostrava a troca.

A fechadura mostrava Laura entrando.

O telefone mostrava o acordo.

E Laura havia confessado.

Havia também mensagens entre Lívia e o homem com quem ela mantinha o relacionamento. Eu não pedi para ler todas.

Saber que existiam já era suficiente.

— Ela estava voltando para casa? — perguntei.

César assentiu.

Pelas câmeras do trajeto e pelos registros do veículo, Lívia começou a retornar pouco depois das duas da manhã.

O acidente ocorreu às 2h48.

Até aquele momento, não havia indícios de que outra pessoa estivesse dirigindo nem sinais de participação de terceiros no choque. A investigação do acidente ainda continuaria, mas tudo apontava para perda de controle do veículo.

Olhei para a mesa.

Lívia pretendia voltar.

Laura sairia antes que eu acordasse.

Na manhã seguinte, talvez minha esposa preparasse café e perguntasse se eu havia dormido bem.

E eu nunca saberia.

Essa percepção me atingiu de maneira diferente da traição.

Não tinha sido um erro isolado.

Era um sistema.

Uma mentira planejada para funcionar justamente porque eu confiava nela.

Quando voltei ao apartamento, Laura estava acompanhada para buscar algumas roupas que havia deixado ali.

Ficou parada perto da porta.

— Eu preciso te pedir desculpas.

— Pelo quê?

Ela engoliu em seco.

— Por entrar aqui. Por fingir que era ela. Por ajudar nas mentiras. E principalmente por continuar mentindo depois que soube do acidente.

— Por que você continuou?

Laura demorou para responder.

— Pânico.

— Isso não explica.

— Eu achei que, se contasse naquele momento, a polícia pensaria que eu tinha alguma coisa a ver com a morte dela. Depois percebi que cada minuto que eu continuava fingindo tornava tudo pior.

Assenti.

— Tornava mesmo.

Ela chorou.

— Quando você recebeu aquela ligação, eu sabia que provavelmente era Lívia no carro. Mas eu não consegui falar.

— E ainda segurou meu pulso quando eu tentei sair da cama.

O rosto dela se contorceu.

— Eu estava com medo de você ligar a luz e perceber.

Aquilo me deu náusea.

Caminhei até a fechadura inteligente.

Abri o aplicativo.

Apaguei a digital número três.

Laura observou em silêncio.

— Você não entra mais aqui.

— Eu entendo.

— E não quero que você minta para proteger a memória dela.

Ela assentiu.

— Não vou.

Respirei fundo.

— Quando a polícia perguntar, conta tudo. Inclusive sobre o remédio.

Laura ficou pálida.

— Eu vou contar.

Foi uma decisão pequena diante de tudo o que estava acontecendo.

Mas era a primeira decisão que parecia realmente minha desde a ligação das três da manhã.

Eu não podia mudar o que Lívia tinha feito.

Não podia obrigá-la a voltar para explicar.

Não podia transformar Laura em alguém confiável apenas porque ela tinha o mesmo rosto da mulher que eu amei.

Mas podia parar de colaborar com a mentira.

Antes de sair, Laura parou na porta.

— Samuel.

Olhei para ela.

— Tem uma coisa que você ainda não sabe.

Meu corpo inteiro ficou tenso.

Laura respirou fundo.

— Naquela noite, Lívia disse que seria a última vez que eu precisaria fingir ser ela.

— Por quê?

Os olhos de Laura se encheram novamente.

— Porque ela disse que, quando voltasse, finalmente contaria tudo para você.

Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *