A assistente do meu namorado jogou vinho em mim — horas depois, ela bebia na taça que ele mandou fazer para mim
Parte 4
Quase desliguei.
Camila era a última pessoa com quem eu tinha interesse em conversar.
— Se você está ligando para falar sobre Gustavo, não precisa.
— Não é para falar dele.
— Então sobre o quê?
Ela respirou do outro lado da linha.
— Sobre mim.
Fiquei em silêncio.
Camila falou devagar, sem o tom infantil que costumava usar perto de Gustavo.
— Eu fui afastada da assessoria dele. O RH me colocou em outra área enquanto termina a apuração do que aconteceu.
— Isso é entre você e a empresa.
— Eu sei.
Houve uma pausa.
— Eu só queria que você soubesse que não foi tudo acidente.
— Também já sei disso.
Ela ficou surpresa.
— O Gustavo contou?
— Não importa quem contou.
Camila soltou o ar.
— Eu provocava você de propósito.
Não respondi.
— Quando comecei a trabalhar com ele, todo mundo falava que vocês estavam juntos havia anos. Mas você quase nunca aparecia com ele em eventos de trabalho. Quando aparecia, ficava quieta, não fazia questão de mostrar nada. Eu comecei a achar que talvez ele nem gostasse tanto assim de você.
Olhei pela janela do escritório.
— E isso justificava alguma coisa?
— Não.
Pelo menos ela não tentou.
— Eu gostava da atenção dele — continuou. — Gustavo era gentil comigo. Quando eu fazia alguma coisa errada, ele explicava. Quando eu estava sobrecarregada, ele ajudava. E eu comecei a interpretar isso do jeito que me interessava.
— Então resolveu testar até onde podia ir.
Camila ficou muda.
— Foi isso, não foi?
— Foi.
A resposta veio baixa.
— No jantar, eu queria te irritar. O vinho… eu realmente não planejei derramar daquele jeito, mas estava provocando você quando aconteceu. Depois, quando você respondeu e todo mundo riu de mim, eu fiquei com raiva.
Fechei os olhos por um instante.
Era tão infantil que quase parecia inacreditável.
Mas não era.
— E por isso você chorou na porta.
— Sim.
— Sabendo que ele provavelmente voltaria.
— Eu esperava que voltasse.
Camila não tentou esconder.
— E as fotos?
Outra pausa.
— Também foram para você ver.
A honestidade tardia não apagava nada, mas pelo menos encerrava qualquer dúvida sobre a intenção dela.
— A camisa era minha — explicou. — Eu estava molhada da chuva. Ele me emprestou porque eu tinha deixado algumas roupas para lavar. A taça estava numa sacola que ele tinha colocado no carro dias antes. Eu vi as iniciais. Sabia que era sua.
Apertei os dedos ao redor do celular.
— E mesmo assim usou.
— Sim.
— Então não há muito mais para conversar.
— Estela…
— Camila, você queria que eu sentisse exatamente o que senti. Conseguiu. O que você quer de mim agora?
Ela demorou para responder.
— Não sei.
Essa talvez tenha sido a primeira coisa verdadeiramente sincera que ouvi dela.
— Talvez eu quisesse que você soubesse que eu e ele nunca tivemos nada.
— Isso não muda minha decisão.
— Eu imaginei.
— Gustavo não era um prêmio que você precisava tirar de mim. E eu também não precisava disputar por ele com você.
Minha voz saiu calma.
— O que aconteceu entre nós três só ficou tão absurdo porque cada um permitiu uma coisa diferente. Você ultrapassou limites porque queria provocar. Gustavo deixou porque gostava de se sentir necessário. E eu fiquei tempo demais fingindo que nada me afetava.
Camila não respondeu.
— Eu espero que você aprenda alguma coisa com isso — continuei. — Porque transformar outra mulher em rival para validar o próprio valor não vai fazer bem para você.
— Você me odeia?
A pergunta me surpreendeu.
— Não.
Ela pareceu confusa.
— Não?
— Para odiar você, eu teria que continuar carregando você comigo. Não tenho intenção.
Desliguei pouco depois.
Não senti vitória.
Não senti satisfação por saber que Camila estava enfrentando consequências profissionais.
Senti apenas encerramento.
Naquela noite, contei a meus pais sobre a ligação.
Minha mãe ouviu até o fim.
— E agora?
Sorri.
— Agora nada.
Ela me abraçou.
— Esse “nada” parece bom.
Era.
Nos meses seguintes, a filial do Rio começou a operar.
Não houve milagre.
Tivemos atrasos, fornecedor que não cumpriu prazo, contratação que precisou ser refeita e semanas em que eu chegava em casa tão cansada que mal conseguia jantar.
Mas cada problema parecia diferente dos que eu enfrentava antes.
Porque aqueles eram problemas que eu havia escolhido enfrentar.
Meu pai continuou exigente.
Se eu apresentava números ruins, ele perguntava por quê.
Se eu tomava uma decisão questionável, precisava justificar.
Ser filha dos donos não me isentava de responsabilidade.
E, estranhamente, isso me fazia bem.
Eu não queria trocar a dependência de Gustavo pela proteção permanente dos meus pais.
Queria construir alguma coisa que tivesse minha participação real.
Cerca de cinco meses depois, precisei voltar a São Paulo para uma reunião.
Foi a primeira vez desde a mudança.
Eu sabia que existia a possibilidade de encontrar Gustavo.
Só não esperava que acontecesse tão rápido.
Saí de um restaurante depois do almoço e o vi do outro lado da calçada.
Ele também me viu.
Por alguns segundos, nenhum dos dois se mexeu.
Depois Gustavo atravessou a rua.
Estava diferente.
Não dramaticamente.
Apenas mais contido.
— Oi.
— Oi.
Ele apontou para o prédio atrás de mim.
— Reunião?
— Sim.
— Como está o Rio?
— Corrido.
Sorri.
— Mas bom.
Gustavo assentiu.
— Fiquei sabendo que a filial abriu.
— Abriu.
— Parabéns.
— Obrigada.
Houve um silêncio um pouco desconfortável.
Dessa vez, porém, eu não senti necessidade de preenchê-lo.
Gustavo foi quem falou primeiro.
— A Camila pediu demissão há algum tempo.
Não demonstrei surpresa.
— Espero que ela fique bem.
Ele me observou.
— Você realmente não quer saber de mais nada, né?
— Não.
Gustavo soltou uma risada curta.
— Antes isso me deixava desesperado.
— E agora?
Ele pensou.
— Agora eu entendo.
Ficamos alguns segundos olhando o movimento da rua.
Então ele disse:
— Eu comecei terapia.
Não esperava aquela informação.
— Que bom.
— Descobri uma coisa meio ridícula.
— O quê?
— Eu gostava de ser necessário.
Sua expressão ficou séria.
— Toda vez que alguém dependia de mim, eu me sentia importante. Camila fazia isso o tempo inteiro. Você, não. Você resolvia suas coisas sozinha. E eu confundia a necessidade dela comigo sendo um homem melhor.
Aquilo fazia sentido.
Mas já não precisava mudar nada.
— Pelo menos você percebeu.
— Tarde demais.
Não havia acusação na voz.
Apenas constatação.
— Talvez tarde demais para nós — respondi. — Não necessariamente para você.
Ele assentiu.
Gustavo então perguntou:
— Posso te fazer uma pergunta?
— Pode.
— Se eu tivesse ficado naquela noite, você teria terminado comigo?
Pensei antes de responder.
— Talvez não naquela noite.
Ele sustentou meu olhar.
— Mas?
— Mas os problemas que levaram até ali continuariam existindo. Então provavelmente só teríamos adiado a conversa.
Gustavo respirou fundo.
— Justo.
Ele não pediu uma segunda chance.
Não disse que havia mudado completamente.
Não tentou transformar cinco meses de reflexão numa moeda de troca.
E eu respeitei isso.
— Estela?
— Oi?
— Desculpa por ter tratado sua paciência como se fosse uma garantia.
A frase me atingiu em cheio.
Porque era exatamente isso.
Durante anos, Gustavo acreditou que, por eu ser compreensiva, eu sempre compreenderia mais uma vez.
Mais uma ligação.
Mais uma emergência.
Mais uma invasão de limite.
Mais uma escolha em que eu ficava em segundo lugar.
— Eu aceito seu pedido de desculpas.
Os olhos dele mudaram.
Mas antes que qualquer esperança surgisse, continuei:
— Aceitar não significa voltar.
Gustavo deu um pequeno sorriso.
— Eu sei.
E, pela primeira vez, eu acreditei que ele realmente sabia.
Nos despedimos ali.
Sem abraço.
Sem beijo.
Sem promessa.
Segui para minha próxima reunião e não olhei para trás.
Algumas semanas depois, a filial atingiu a primeira meta importante do ano.
Meu pai apareceu no Rio sem avisar.
Entrou no escritório carregando uma caixa de doces e anunciou para todo mundo:
— Não se acostumem. Isso aqui não vira festa toda vez que baterem meta.
A equipe caiu na risada.
Minha mãe vinha logo atrás dele.
— Ele passou a viagem inteira dizendo que estava orgulhoso.
— Eu não disse isso.
— Disse, sim.
— Disse que os números estavam bons.
— Com lágrimas nos olhos.
— Isso é calúnia.
Ri tanto que precisei me apoiar na mesa.
Mais tarde, quando o escritório esvaziou, ficamos os três na varanda.
Meu pai olhou para a cidade.
— Você fez um bom trabalho.
— Obrigada.
— Ainda quer ficar aqui?
A pergunta tinha um significado diferente daquela primeira conversa.
Agora não era sobre Gustavo.
Nem sobre fugir de São Paulo.
Era sobre mim.
Olhei para as luzes dos prédios, para a agenda cheia sobre minha mesa, para as anotações que ainda precisava revisar e para a vida que havia começado a construir.
— Quero.
Minha mãe sorriu.
Meu pai passou o braço pelos meus ombros.
Naquela noite, quando voltei para casa, encontrei numa caixa antiga a foto das duas taças que Gustavo havia mandado fazer.
Durante meses, eu tinha associado aquela imagem à publicação de Camila.
À humilhação.
Ao nojo.
À sensação de ter sido substituída.
Apaguei a foto.
Sem cerimônia.
Sem lágrima.
Depois coloquei o celular sobre a mesa e abri a janela.
A cidade ainda estava acordada.
Eu também.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, não estava esperando ninguém voltar.
Eu já tinha voltado para mim.
Obrigado por acompanhar e ler a história até o final 🙏 Deixe nos comentários sua opinião, reação ou sugestão. Isso nos ajuda muito a melhorar as próximas histórias. Não se esqueça de seguir a página para não perder as novas histórias de cada dia 📖✨