A assistente do meu namorado jogou vinho em mim — horas depois, ela bebia na taça que ele mandou fazer para mim
Parte 3
Fiquei encarando a mensagem de Larissa, mas não liguei imediatamente.
Eu não queria transformar meu término em investigação. Tinha passado a manhã inteira tentando sair de uma relação em que, durante tempo demais, minhas decisões dependiam do comportamento de Gustavo. Não faria sentido começar minha nova vida perseguindo cada frase dita dentro da empresa dele.
Mesmo assim, alguns minutos depois, Larissa me telefonou.
— Antes que você pense que estou alimentando fofoca, eu só quero te contar porque a discussão envolveu você diretamente.
Sentei na beirada da cama.
— Pode falar.
Segundo ela, depois que eu saí, Gustavo chamou Camila para conversar em sua sala. A porta estava fechada, mas em determinado momento os dois elevaram a voz e parte da discussão acabou sendo ouvida por quem trabalhava perto.
— Ela disse que você sempre agiu como se fosse superior a ela — contou Larissa. — E que ontem só queria “te colocar no seu lugar”.
Fechei os olhos.
Então o vinho não tinha sido exatamente um acidente.
— Ela falou isso com todas as letras?
— Falou que não planejou jogar o vinho daquele jeito, mas admitiu que estava provocando você desde que chegou ao restaurante. Disse que queria ver até quando você ia continuar bancando a mulher tranquila.
Aquilo doeu menos do que eu esperava.
Talvez porque eu já tivesse entendido o essencial antes mesmo de ouvir a confirmação.
Camila queria competir comigo.
O mais triste era perceber que Gustavo havia criado espaço para aquela competição existir.
— E ele?
— Ficou furioso. Perguntou por que ela postou aquelas fotos sabendo que vocês estavam juntos. Ela respondeu que não tinha feito nada de errado, porque foi ele quem ficou no apartamento dela e fez tudo aquilo.
Interrompi Larissa.
— Apartamento dela?
— Sim. Pelo jeito, depois do restaurante ele levou a Camila para casa. Ela estava chorando, dizendo que não queria ficar sozinha com a tempestade. Ele ficou lá.
Isso esclarecia uma coisa que eu havia interpretado errado. Não tinha sido no apartamento de Gustavo.
Mas não mudava o que importava.
Ele tinha saído da minha casa depois de eu pedir que ficasse.
Tinha passado a noite com outra mulher que demonstrava abertamente interesse por ele.
Tinha usado nossa taça especial naquele contexto, fosse qual fosse a explicação.
— E a taça? — perguntei.
Larissa hesitou.
— Pelo que ouvi, ele levou uma garrafa e uma bolsa com algumas coisas quando voltou para lá. Parece que a taça estava junto porque ele tinha deixado o conjunto no carro depois de um jantar anterior ou alguma coisa assim. Não sei os detalhes.
— Tudo bem. Não preciso saber.
E era verdade.
Durante anos, eu achava que o fim de uma relação precisava de uma grande prova: uma traição flagrante, uma mentira monstruosa, alguma coisa incontestável que desse à pessoa ferida autorização para partir.
Naquele momento, entendi que não.
Às vezes, bastava perceber que seus limites eram tratados como exagero.
Gustavo podia jurar que nunca havia encostado em Camila. Talvez fosse verdade. Mas eu não precisava esperar uma traição física para admitir que o relacionamento já estava me machucando.
Nos dias seguintes, concentrei minha energia na mudança.
Meu pai não me colocou diretamente numa cadeira de diretoria. E eu nem teria aceitado.
Passei por reuniões com a equipe responsável pela nova operação no Rio, estudei orçamento, estrutura, contratos de locação, cronograma de contratação e metas para os primeiros meses. A diferença era simples: naquela empresa, eu não estava ali para provar que conseguia sofrer em silêncio.
Eu estava ali para trabalhar.
Gustavo tentou falar comigo várias vezes.
Primeiro por números diferentes.
Depois por e-mail.
Mais tarde, apareceu na casa dos meus pais.
Meu pai queria mandá-lo embora antes mesmo de ele atravessar o portão, mas eu pedi que deixasse entrar.
Não porque eu estivesse reconsiderando.
Eu só não queria carregar uma conversa inacabada comigo para outra cidade.
Encontramos Gustavo na sala.
Ele parecia cansado.
Minha mãe nos deixou sozinhos.
— Eu não vim pedir para você voltar hoje — ele começou.
Cruzei os braços.
— Ainda bem.
Gustavo baixou os olhos.
— Eu vim porque finalmente entendi que passei os últimos dias tentando provar que não te traí, quando você nunca disse que esse era o único problema.
Não respondi.
Ele continuou:
— Eu não dormi com a Camila. Não beijei ela. Não aconteceu nada físico. Mas eu fiquei lá. Fiz comida. Comprei café da manhã. Dei atenção para ela depois que você me pediu claramente para não ir.
Sua voz ficou mais baixa.
— E quando você falou em terminar, eu nem parei para ouvir. Achei que você só estava com ciúme e que depois ia passar.
— Porque sempre passava.
Ele assentiu.
A resposta pareceu machucá-lo.
— É.
A simplicidade daquele “é” me atingiu mais do que qualquer desculpa elaborada.
— Sabe qual foi o pior, Gustavo? — perguntei. — Você não precisava escolher entre salvar alguém e ficar comigo. Camila estava num restaurante cheio de gente. Tinha amigos ali. Podia chamar um carro. Podia ir para casa. Mas ela chorou, e isso foi suficiente para você sentir que precisava correr.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Eu achava que estava sendo uma pessoa boa.
— Ser gentil não é o problema. O problema é usar gentileza com uma pessoa enquanto transforma a outra em alguém que tem obrigação de compreender tudo.
Gustavo me encarou.
Não tentou discutir.
— Depois que você saiu da empresa, eu conversei com ela.
— Larissa me contou uma parte.
Ele pareceu constrangido.
— Camila admitiu que vinha te provocando.
— Eu sei.
— Eu afastei ela da minha assessoria direta enquanto o RH analisa a situação no ambiente de trabalho. Não estou dizendo isso para ganhar pontos com você. Eu devia ter estabelecido limites muito antes.
Assenti.
Era uma consequência profissional razoável para uma situação que havia invadido o ambiente da empresa.
Mas não era assunto meu.
— Faça o que for correto para sua empresa.
Gustavo respirou fundo.
— Você vai mesmo para o Rio?
— Vou.
— Por quanto tempo?
— Não sei.
— E nós?
A pergunta ficou entre nós.
Por anos, aquela palavra — nós — havia pesado mais do que minhas próprias escolhas.
Dessa vez, não.
— Não existe mais “nós”, Gustavo.
Ele desviou o olhar.
— Você consegue decidir isso sem nem tentar?
— Eu tentei por muito tempo. Só que meu esforço parecia tão normal para você que nem era visto como esforço.
A voz dele falhou levemente.
— Eu amo você.
— Eu acredito.
Ele ergueu a cabeça, surpreso.
— Mas amar alguém não transforma automaticamente todas as suas escolhas em escolhas boas.
Gustavo não respondeu.
Continuei:
— Talvez você realmente nunca tenha querido me machucar. Mas isso não muda o fato de que eu me machuquei. E eu também tenho responsabilidade nisso, porque fui aceitando coisas que me incomodavam para parecer tranquila, madura, segura.
Foi difícil admitir aquilo.
Durante muito tempo, eu havia confundido dignidade com silêncio.
Como se demonstrar incômodo fosse sempre sinal de insegurança.
Como se uma mulher confiante tivesse obrigação de sorrir enquanto outra ultrapassava seus limites.
Não tinha.
— Eu deveria ter falado antes — disse. — E você deveria ter percebido antes. Agora os dois vão ter que lidar com o fato de que percebemos tarde demais.
Gustavo permaneceu sentado.
Quando se levantou, seus olhos estavam vermelhos.
Não tentou me abraçar.
Pelo menos dessa vez, respeitou meu espaço.
— Eu queria poder voltar naquela noite.
— Eu também.
Ele me olhou com esperança por uma fração de segundo.
Completei:
— Não para impedir você de sair. Para impedir a mim mesma de gastar tanta energia tentando convencer alguém a ficar.
A esperança desapareceu.
Mas ele assentiu.
Dois dias depois, fui para o Rio.
O trabalho ocupou minhas manhãs e boa parte das noites. Conheci a equipe, visitei o imóvel escolhido para a filial e comecei a entender problemas que antes só existiam para mim em planilhas.
Também comecei a entender a mim mesma fora de Gustavo.
Foi estranho no início.
Por anos, minhas folgas, meus almoços e até as oportunidades profissionais tinham sido calculados de acordo com a proximidade dele.
Agora eu precisava responder uma pergunta simples que, surpreendentemente, não sabia responder:
O que eu queria quando ninguém mais participava da decisão?
Algumas semanas depois, recebi uma chamada de meu pai.
Falamos sobre o andamento da filial.
Antes de desligar, ele comentou:
— O Montenegro me procurou.
Meu corpo ficou tenso.
— Para quê?
— Queria conversar comigo.
— E você conversou?
Meu pai soltou uma risada sem humor.
— Disse que o problema era entre vocês dois. Eu posso não gostar dele agora, mas não vou resolver relacionamento de adulto como se estivesse negociando empresa.
Sorri.
Aquilo era exatamente o que eu precisava ouvir.
— Obrigada, pai.
— Só fiz uma pergunta.
— Qual?
Meu pai demorou um pouco.
— Perguntei se ele estava sofrendo porque perdeu você ou porque finalmente percebeu que você podia viver sem ele.
Fiquei em silêncio.
— E o que ele respondeu?
— Nada.
Depois da ligação, fui até a varanda do apartamento temporário onde estava hospedada.
O Rio se estendia iluminado diante de mim.
Meu celular vibrou.
Dessa vez, era uma mensagem curta de Gustavo.
“Não vou mais insistir. Só queria pedir desculpas de uma forma que não obrigasse você a me consolar. Eu errei. Espero que você seja feliz, mesmo que seja longe de mim.”
Li duas vezes.
Não respondi.
Não por crueldade.
Simplesmente não havia resposta necessária.
Na manhã seguinte, cheguei cedo ao escritório.
A equipe apresentaria o planejamento final da nova filial ao conselho da empresa. Eu tinha passado semanas revisando números, cortando custos desnecessários e ajustando o cronograma.
Quando a reunião terminou, meu pai, que participava por vídeo, perguntou:
— Então? Ainda acha que prefere trabalhar na empresa dos outros?
Algumas pessoas riram.
Eu também.
— Acho que demorei para entender a pergunta.
— E agora?
Olhei em volta para a sala.
Pela primeira vez em muito tempo, não pensei em Gustavo antes de responder.
— Agora eu sei exatamente onde quero estar.
Naquela mesma tarde, porém, recebi uma última ligação de São Paulo.
Era Camila.
E a primeira coisa que ela disse foi:
— Estela, eu preciso te contar por que eu fiz tudo aquilo.
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