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No aniversário dele, meu namorado me deu um tapa e prometeu aceitar a secretária se a foto chegasse a 1.000 curtidas

Parte 4

Saí do elevador e caminhei até uma área mais reservada do corredor.

Lucas veio atrás.

Não queria conversar escondida em algum restaurante nem voltar a um apartamento carregado de lembranças. Se ele queria uma resposta, receberia ali mesmo.

— Pode perguntar — falei.

Ele apoiou as mãos na cintura, respirou fundo e começou:

— Se eu disser que errei, você reconsidera?

— Depende do que você chama de reconsiderar.

— Nós.

— Então não.

A resposta saiu sem esforço.

Lucas ficou parado.

— Você nem pensou.

— Pensei durante semanas. Na verdade, pensei durante muito mais tempo que isso enquanto ainda estava com você.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Eu sei que passei dos limites.

— Quais?

Lucas franziu a testa.

— O quê?

— Você disse que passou dos limites. Quais limites?

Ele demorou para responder.

— Eu não deveria ter te batido.

— Certo.

— Não deveria ter falado aquilo na festa.

Esperei.

— E?

Ele respirou fundo.

— Eu não deveria ter beijado a Marina.

— Continue.

Lucas apertou a mandíbula.

Talvez fosse difícil admitir não apenas um erro isolado, mas uma sequência inteira de escolhas.

— Eu deixei ela se aproximar demais.

— Sim.

— E contei coisas nossas que não deveria ter contado.

Pela primeira vez, ouvi aquilo sem nenhuma justificativa em seguida.

Não veio “mas você estava distante”.

Não veio “mas Marina me entendia”.

Não veio “mas eu estava com raiva”.

Só o reconhecimento.

Lucas continuou:

— Eu gostava da atenção dela. Gostava quando ela concordava comigo. Quando nós brigávamos, eu falava com ela porque ela sempre dizia que eu estava certo.

Eu senti uma pontada no peito.

Não era uma revelação absurda.

Era apenas a confirmação, em palavras, daquilo que as atitudes dele já haviam mostrado.

— E, quando você reclamava, eu ficava irritado porque admitir que você tinha razão significava ter que colocar limite nela.

— Então você preferia me fazer parecer ciumenta.

Ele assentiu devagar.

— Preferia.

— E o perfume?

Lucas desviou os olhos.

— Ela comentou que gostava. Eu comprei outro.

Soltei o ar lentamente.

— Você sabia que era especial para mim.

— Sabia.

A honestidade tardia doía mais do que uma mentira bem construída.

Mas também colocava um ponto final onde antes havia interrogações.

— E naquela festa? — perguntei. — Quando você anunciou aquilo das mil curtidas, estava tentando fazer o quê?

Lucas passou a mão pelo rosto.

— Fazer você reagir.

— Reagir como?

— Vir atrás de mim. Ficar com ciúme. Pedir para a gente conversar.

Eu ri sem humor.

— Você me deu um tapa e, logo depois, tentou me provocar com outra mulher porque achou que isso faria eu correr atrás de você.

Ele não conseguiu me encarar.

— Naquele momento, sim.

— Isso não era amor, Lucas. Era necessidade de controle.

— Eu sei agora.

— Talvez saiba.

Ele levantou os olhos.

— Eu terminei com a Marina.

— Isso não muda nada.

— Eu sei.

Aquela resposta me surpreendeu.

Lucas ficou alguns segundos em silêncio antes de continuar.

— Ela não foi a única culpada. Durante muito tempo eu coloquei tudo nela ou em você porque era mais fácil. Mas quem tinha compromisso com você era eu.

Ouvir aquilo não me trouxe a satisfação que um dia eu imaginara.

Não senti vontade de abraçá-lo.

Não senti vontade de puni-lo.

Senti somente uma tristeza tranquila por perceber que aquela compreensão tinha chegado tarde demais.

— Fico aliviada que você finalmente consiga admitir — falei.

Ele me encarou com esperança.

— Então talvez…

— Não.

A esperança desapareceu.

— Camila…

— Entender o que fez não apaga o que fez.

— Eu posso mudar.

— Pode. E espero que mude.

— Então por que não me dar a chance de provar?

Pensei antes de responder.

— Porque eu não sou obrigada a continuar numa relação para acompanhar sua mudança.

Lucas ficou imóvel.

— Você pode ser uma pessoa melhor daqui para a frente. Pode aprender a tratar a próxima pessoa com respeito, a impor limites, a não usar ciúme como ferramenta, a não levantar a mão quando estiver com raiva. Mas eu não preciso voltar a ser sua namorada para validar essa mudança.

Ele baixou a cabeça.

— Então acabou mesmo.

— Acabou naquela noite em que eu arrumei minha mala. O resto foi você demorando para aceitar.

— Eu achei que você voltaria.

— Eu sei.

— Você sempre voltava.

— Eu sei.

— Talvez eu tenha me acostumado com isso.

— Foi exatamente esse o problema.

A porta de uma sala se abriu ao longe e duas pessoas passaram pelo corredor. Lucas esperou que elas se afastassem.

Depois falou:

— A apuração interna terminou.

Não perguntei.

Ele continuou por conta própria:

— Recebi uma advertência formal da administração e tive que me afastar da gestão direta de algumas equipes enquanto revisam os procedimentos. Também tive que participar das reuniões sobre conduta no ambiente de trabalho.

Assenti.

Não comemorei.

Não senti pena.

Era uma consequência ligada a uma escolha dele.

— Eu fiquei com raiva quando aconteceu — disse Lucas. — Pensei que você estivesse tentando acabar com minha carreira.

— Eu só contei o que aconteceu.

— Eu sei.

A expressão dele endureceu por um instante, mas logo relaxou.

— E você fez certo.

Aquelas quatro palavras teriam significado o mundo para mim meses antes.

Agora significavam apenas que ele finalmente começava a assumir responsabilidade.

— Espero que você leve isso a sério.

— Vou levar.

Ele me observou.

— Você está trabalhando em outro lugar?

— Estou.

— Está gostando?

— Estou começando a gostar.

Lucas sorriu de leve.

— Você sempre foi boa no que fazia.

— Eu sei.

Ele soltou uma pequena risada.

— Antes você teria dito “obrigada”.

— Antes eu precisava que você confirmasse muita coisa para mim.

O sorriso desapareceu, mas não por raiva.

— E agora?

— Agora eu estou aprendendo a não precisar.

Ele ficou alguns segundos sem falar.

Depois enfiou as mãos nos bolsos.

— Eu queria pedir desculpas de verdade.

Esperei.

— Pelo tapa. Pelo beijo. Por expor nossas discussões para a Marina. Por fazer você parecer desequilibrada quando você estava percebendo limites que eu mesmo tinha deixado de respeitar. Por ter usado a festa para te humilhar. E por ter acreditado que você sempre voltaria, não importava o que eu fizesse.

Dessa vez, não houve “mas”.

Nenhuma explicação.

Nenhuma tentativa de reduzir a culpa.

Assenti.

— Eu aceito seu pedido de desculpas.

Os olhos dele se acenderam.

Completei:

— Mas não quero voltar.

Lucas abaixou a cabeça devagar.

— Entendi.

— Aceitar um pedido de desculpas não significa devolver acesso à minha vida.

— Eu sei.

— E também não significa que precisamos ser amigos.

— Eu sei.

— Então é isso.

Ele respirou fundo.

— É isso.

Voltei para o elevador.

Lucas não tentou impedir que as portas fechassem dessa vez.

Nos meses seguintes, quase não ouvi notícias dele.

Às vezes, algum antigo colega comentava alguma coisa, mas eu aprendi a não transformar informações sobre a vida de Lucas em acontecimentos da minha própria vida.

Marina também nunca mais me procurou.

Soube apenas que ela acabou mudando de setor algum tempo depois. Não perguntei o motivo. A relação entre os dois, qualquer que tivesse sido o formato, já não dizia respeito a mim.

No novo trabalho, os primeiros meses exigiram esforço.

Eu precisava aprender processos diferentes, conquistar confiança e me adaptar a uma equipe que não conhecia minha história.

E foi justamente isso que começou a me fazer bem.

Ali, eu era apenas Camila.

Não “a namorada do diretor”.

Não “a mulher ciumenta”.

Não “a ex que fez escândalo”.

Só uma profissional começando uma nova fase.

Certa tarde, uma colega elogiou uma apresentação que eu havia preparado.

— Ficou excelente. Você tem muita segurança para defender suas ideias.

Quase respondi que não era bem assim.

Mas me interrompi.

— Obrigada.

Naquele instante, percebi uma mudança pequena e importante.

Eu já não sentia necessidade de diminuir a mim mesma para parecer mais fácil de amar.

Em casa, minha mãe também percebeu.

— Você está diferente.

— Para melhor ou pior?

Ela sorriu.

— Mais leve.

Olhei pela janela.

Durante muito tempo, eu havia confundido insistência com lealdade.

Achava que amar significava tolerar mais uma conversa atravessada, mais uma humilhação, mais um limite rompido, porque “ninguém é perfeito”.

Mas existe uma distância enorme entre aceitar imperfeições e aceitar desrespeito.

Eu demorei para aprender.

Mesmo assim, aprendi.

Algumas semanas depois, enquanto organizava caixas antigas, encontrei uma fotografia de Lucas ao lado da primeira miniatura de Gundam que eu havia dado a ele.

Fiquei olhando para a foto.

Não senti raiva.

Também não senti vontade de voltar.

Apenas reconheci a garota que eu havia sido: alguém que amou de verdade, tentou de verdade e demorou demais para entender que esforço de uma pessoa só não sustenta duas.

Rasguei a fotografia?

Não.

Guardei-a dentro da caixa.

Meu passado não precisava ser destruído para deixar de comandar meu presente.

Naquela noite, saí para jantar com meus pais.

Meu pai contou histórias demais, minha mãe reclamou do tempero da comida e nós rimos de coisas pequenas.

Em determinado momento, percebi que estava feliz sem precisar provar nada a ninguém.

Lucas tinha acreditado que, depois de sair daquela festa, eu acabaria implorando para voltar.

Eu também já tinha acreditado que perder aquela relação significaria perder a vida que havia planejado.

Nós dois estávamos errados.

Eu não perdi minha vida quando fui embora.

Foi quando fui embora que finalmente comecei a recuperá-la.

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