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No aniversário dele, meu namorado me deu um tapa e prometeu aceitar a secretária se a foto chegasse a 1.000 curtidas

Parte 3

Segurei a miniatura nas mãos e passei o polegar sobre uma pequena imperfeição na lateral. Eu lembrava exatamente de quando a tinha provocado durante a restauração. Na época, chorei de frustração porque queria que tudo ficasse perfeito para Lucas.

Durante meses, procurei peças, limpei detalhes, pesquisei referências e refiz partes inteiras. Não porque ele tivesse pedido. Fiz porque gostava de vê-lo feliz e porque acreditava que o cuidado que eu colocava naquela relação voltaria para mim de alguma forma.

Agora, o mesmo presente estava sendo usado como uma espécie de anzol.

Coloquei o Gundam de volta no envelope.

No dia seguinte, mandei o pacote para o endereço de Lucas com uma única frase escrita em um papel: “O significado mudou.”

Ele apareceu na portaria do prédio dos meus pais naquela mesma noite.

O porteiro ligou para o apartamento.

— Dona Camila, tem um senhor chamado Lucas aqui embaixo. Disse que precisa falar com a senhora.

Minha primeira vontade foi pedir que mandasse embora.

Mas percebi que eu estava cansada de deixar conversas inacabadas ocuparem espaço dentro da minha cabeça.

— Pode pedir para ele esperar na recepção. Eu desço.

Lucas estava em pé perto da entrada quando cheguei. Parecia cansado, e o orgulho habitual havia dado lugar a uma irritação inquieta.

— Você devolveu.

— Devolvi.

— Eu achei que pelo menos isso faria você lembrar de nós.

— Eu lembro de nós. É justamente esse o problema.

Ele passou a mão pelos cabelos.

— Camila, já chega. Um mês. Você pediu demissão, me bloqueou em tudo, fez reclamação no RH… quanto tempo mais pretende continuar com isso?

A pergunta me deixou quase perplexa.

— Continuar com o quê?

— Com essa punição.

— Lucas, sair de uma relação não é uma punição aplicada ao outro. É uma decisão sobre a própria vida.

Ele deu uma risada seca.

— Você fala como se eu tivesse feito alguma coisa imperdoável.

— Você quer mesmo listar?

— Eu perdi a cabeça naquela festa.

— E antes dela?

Ele calou.

Continuei:

— O mingau. O perfume. Marina sabendo detalhes das nossas discussões. As intimidades no trabalho. Você dizendo que eu imaginava coisas. O beijo. O tapa. A declaração das mil curtidas. Qual dessas partes eu inventei?

Lucas desviou o rosto.

— Aquele beijo não significou nada.

Aquilo respondeu mais do que talvez ele pretendesse.

— Então aconteceu.

— Camila…

— Eu vi o batom. Você nunca negou. Mas agora acabou de admitir.

Ele respirou fundo, percebendo tarde demais o que tinha dito.

— Foi uma besteira. Eu estava irritado com você. Marina estava perto, aconteceu. Isso não significa que eu tivesse um relacionamento com ela enquanto estava com você.

Senti a garganta apertar, mas mantive a voz estável.

— Você ainda está tentando discutir o tamanho da traição, como se existisse uma quantidade aceitável.

— Você sempre foi dramática.

— E você sempre chamou de drama tudo aquilo que exigia responsabilidade sua.

Lucas apertou os lábios.

Por alguns instantes, nenhum dos dois falou.

Então ele mudou de estratégia.

— A Marina e eu nem estamos bem.

Eu quase ri.

— Isso deveria me interessar?

— Não foi como você pensa.

— Eu não penso nada sobre vocês.

— Depois da festa, ela começou a agir como se nós já tivéssemos um relacionamento sério. Queria aparecer comigo em todo lugar, cobrar mensagens, perguntar por que eu ainda falava de você…

— Lucas, pare.

Ele me encarou.

— O quê?

— Você está tentando transformar o fracasso de vocês em argumento para eu voltar.

— Não estou dizendo isso.

— Está, sim.

A raiva dele começou a aparecer novamente.

— Então você prefere jogar anos fora?

— Não fui eu que tratei esses anos como se não valessem nada.

— Eu também fiz coisas por você.

— Fez. E eu reconheço. Houve momentos bons. Houve carinho. Houve planos. É por isso que fiquei tanto tempo. Mas momentos bons não apagam o que veio depois.

Lucas olhou para mim como se estivesse vendo uma versão desconhecida da mulher com quem namorou.

Talvez estivesse.

Eu também ainda estava conhecendo aquela versão.

Nas semanas depois que saí da empresa, comecei a participar de processos seletivos. Recebi recusas, fiz entrevistas ruins, voltei para casa desanimada algumas vezes. Mas também comecei a perceber algo importante: eu sabia trabalhar sem Lucas.

Minha carreira não tinha sido criada por ele.

Eu havia aprendido, crescido e conquistado experiência por mérito próprio.

O medo de recomeçar era real, mas não era maior que o alívio de não precisar medir cada palavra para evitar uma crise dentro de casa ou do escritório.

Lucas voltou ao assunto da reclamação.

— O RH está fazendo entrevistas com gente que estava na festa.

— Era previsível.

— Isso está prejudicando minha imagem na empresa.

— Você me bateu em uma confraternização diante de funcionários.

— Eu sei o que aconteceu.

— Então sabe por que estão fazendo perguntas.

Ele baixou a voz.

— Você podia dizer que foi um problema pessoal.

— A festa era ligada à empresa, a presença dos funcionários foi exigida e você era o diretor-geral. O problema pessoal foi você quem levou para aquele ambiente.

— Você quer me destruir?

Dessa vez, senti cansaço em vez de raiva.

— Eu pedi desligamento e fui embora. Não publiquei nada. Não fiz campanha contra você. Não procurei colegas para contar história. Só relatei uma agressão da qual várias pessoas foram testemunhas. Se isso prejudica sua imagem, é porque aconteceu.

Lucas ficou imóvel.

Talvez fosse a primeira vez que alguém colocava a consequência diante dele sem permitir que ele mudasse o foco.

— Eu estava com raiva — repetiu.

— Estar com raiva explica um estado emocional. Não absolve uma escolha.

Ele respirou lentamente.

— E se eu pedir desculpas?

Meu peito apertou.

Durante muito tempo, eu tinha esperado justamente por aquilo.

Não por aquelas palavras específicas, mas por algum sinal de que ele pudesse olhar para mim e reconhecer que tinha errado sem acrescentar um “mas”.

— Peça se você realmente entendeu — respondi. — Não como moeda de troca.

Lucas pareceu não compreender.

— Como assim?

— Se você pede desculpas esperando que eu volte, então não está pedindo desculpas. Está negociando.

Ele ficou calado.

E aquela ausência de resposta foi suficiente.

Subi de volta para o apartamento.

Dois dias depois, recebi a confirmação de que havia sido aprovada para uma vaga em outra empresa. O salário era semelhante ao anterior, mas a função me daria mais autonomia e não exigiria nenhum contato com Lucas.

Quando contei aos meus pais, meu pai abriu um sorriso largo.

Minha mãe me abraçou.

Eu chorei.

Não porque tivesse conseguido um emprego extraordinário, nem porque minha vida estivesse repentinamente perfeita.

Chorei porque percebi que estava reconstruindo aquilo que, durante muito tempo, eu tinha deixado depender demais de uma relação.

Na empresa antiga, a apuração interna continuava. Alguns colegas que haviam presenciado a festa confirmaram o tapa e a discussão. A direção administrativa decidiu formalizar a ocorrência internamente e rever a forma como eventos corporativos eram conduzidos.

Não perguntei quais consequências Lucas enfrentaria.

Aquilo já não era responsabilidade minha.

Então Marina me ligou.

Eu quase não atendi.

— O que você quer?

Do outro lado, a voz dela não tinha mais aquela doçura calculada.

— Eu quero que você diga ao Lucas que pare de falar de você.

Fechei os olhos por um instante.

— Você está ligando para a pessoa errada.

— Ele compara tudo comigo. Quando a gente discute, ele fala que você não fazia isso, que você entendia aquilo, que você…

— Marina.

Ela parou.

— Eu não tenho nenhum controle sobre o que Lucas fala.

— Mas ele ainda gosta de você.

— Isso também é problema dele.

Ela soltou uma risada amarga.

— Você acha que venceu?

A pergunta me atingiu de uma forma estranha.

— Não existe vitória nisso, Marina. Eu perdi anos tentando sustentar uma relação que já não me fazia bem. Você entrou em uma situação sabendo que existia outra pessoa. E Lucas tratou duas mulheres como se fossem peças que ele pudesse colocar uma contra a outra. Ninguém ganhou.

Ela ficou em silêncio.

Então falou mais baixo:

— Ele disse que vocês já estavam praticamente separados muito antes daquela festa.

— Nós terminamos uma semana antes. Antes disso, não.

Outra pausa.

— Ele me dizia que você só estava com ele por conveniência.

Respirei fundo.

Não senti necessidade de me defender.

— Então pergunte a si mesma por que alguém que dizia isso sobre a própria namorada queria tanto que ela voltasse.

Marina desligou sem se despedir.

Naquela noite, alguma coisa finalmente se encaixou dentro de mim.

Durante meses, eu havia tentado descobrir se Marina era o problema principal.

Não era.

Ela havia ultrapassado limites, provocado, participado conscientemente de uma situação errada e, sim, tinha responsabilidade pelas próprias escolhas.

Mas quem tinha compromisso comigo era Lucas.

Era ele quem deveria ter imposto limites.

Era ele quem deveria ter protegido nossa intimidade.

Era ele quem preferiu transformar meu desconforto em ciúme, minha dor em exagero e minha saída em desafio ao orgulho dele.

Quando entendi isso, parei de precisar competir com Marina até dentro da minha cabeça.

Na semana seguinte, fui buscar alguns documentos finais no prédio da antiga empresa. Combinei o horário com o RH para evitar encontros desnecessários.

Estava quase saindo quando as portas do elevador se abriram.

Lucas estava dentro.

Nossos olhos se encontraram.

Ele saiu sem dizer nada.

Eu entrei.

Quando as portas começaram a fechar, ele colocou a mão entre elas.

— Camila.

— O quê?

O rosto dele parecia diferente.

Menos arrogante.

Mais cansado.

— Eu quero conversar uma última vez.

Olhei para ele.

— Então fale.

Lucas respirou fundo.

— Sem Marina. Sem empresa. Sem ninguém no meio. Eu quero que você me diga na minha cara se realmente não existe nenhuma chance.

Dessa vez, percebi que a resposta não me assustava mais.

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