Liguei 27 vezes quando fui detida; meu marido desligou o celular para cuidar da mulher que ele nunca esqueceu
Parte 3
Nos quatro dias seguintes, Augusto tentou conversar comigo de maneiras que jamais havia tentado durante os cinco anos do nosso casamento.
Não eram flores, promessas ou gestos grandiosos. Talvez ele soubesse que qualquer demonstração desse tipo pareceria absurda àquela altura. Em vez disso, começou a fazer perguntas.
Perguntas que deveriam ter surgido muito antes.
— Quando você decidiu que não me amava mais?
Eu estava organizando meus documentos médicos quando ele perguntou.
— Não aconteceu em um único dia.
— Então quando começou?
Pensei antes de responder.
— Talvez na primeira vez em que você me chamou de Laura e eu precisei fingir que não ouvi. Talvez tenha piorado na segunda. Na terceira, eu já sabia que não tinha sido um acidente.
Augusto baixou os olhos.
— Eu nunca quis machucar você.
— Eu acredito.
Ele pareceu surpreso.
— Acredita?
— Sim. Esse é justamente o problema. Você não precisava querer me machucar para fazer isso. Bastava nunca pensar no que aquilo significava para mim.
Ele permaneceu diante da mesa, imóvel.
Durante anos, eu tinha imaginado aquele momento. Pensava que, se um dia conseguisse dizer tudo, gritaria. Talvez quebrasse alguma coisa. Talvez exigisse que ele escolhesse entre mim e Laura.
Mas não havia mais nada para disputar.
Eu não queria vencer Laura.
Eu queria sair daquela competição.
Na noite anterior à minha partida, Augusto se sentou na cozinha enquanto eu preparava uma xícara de café.
— Eu achei que estava sendo honesto com você — disse.
— Como?
— Quando nos casamos, eu não prometi uma paixão que não sentia. Achei que, se fosse responsável, respeitasse você, cuidasse da nossa casa e cumprisse minhas obrigações, seria suficiente.
Coloquei a xícara sobre a bancada.
— Talvez fosse suficiente para um acordo. Não para um casamento.
Ele esfregou o rosto com as mãos.
— Eu não percebi quando comecei a esperar você em casa.
Não respondi.
— Quando você fazia plantão, eu percebia que a casa ficava vazia. Quando adoecia, eu ficava preocupado. Quando você parou de me perguntar a que horas eu voltaria, eu senti falta. E agora que você não se importa se Laura me liga ou não…
— Augusto.
Minha voz o interrompeu.
— Não transforme a minha saída numa prova de amor tardia.
Ele ergueu o rosto.
— Não estou tentando.
— Está. Talvez sem perceber.
Aproximei-me da mesa.
— Durante cinco anos, eu me adaptei a tudo. À sua distância. À presença dela. Ao seu passado. Aos seus limites. Até ao fato de você me chamar pelo nome de outra mulher enquanto me abraçava. Agora que parei de me adaptar, você finalmente está desconfortável.
Augusto ficou pálido.
— Eu sei que isso foi cruel.
— Foi.
Não suavizei a resposta.
Pela primeira vez, ele não tentou explicar.
— Desculpa.
Eu havia esperado aquelas duas sílabas por tanto tempo que deveria ter sentido alguma coisa extraordinária.
Mas senti apenas tristeza.
— Eu aceito que você reconheça isso — disse. — Só não confunda aceitar um pedido de desculpas com querer continuar casada.
Na manhã seguinte, Augusto levou minha mala até o veículo que faria o transporte para o aeroporto militar.
Laura apareceu antes de eu entrar.
Dessa vez, não trazia sacolas nem falava com voz doce.
— Sofia, podemos conversar?
Olhei para Augusto. Ele não interferiu.
— Pode falar.
Laura cruzou os braços.
— Não quero que você pense que fiz isso de propósito.
— Isso o quê?
Ela hesitou.
— Ficar procurando Augusto.
— Mas você procurava.
— Nós crescemos juntos.
— Eu sei.
— Ele sempre cuidou de mim.
— Eu também sei.
Ela mordeu o lábio.
— Então por que está falando comigo como se eu tivesse destruído seu casamento?
— Não estou.
Laura pareceu surpresa.
— Não?
— Meu casamento não terminou porque você ligava. Terminou porque meu marido sempre atendia.
Augusto desviou o olhar.
Continuei:
— Você ultrapassou limites muitas vezes. Ele permitiu todas elas. Eu também permiti por tempo demais. Cada um de nós tem sua responsabilidade.
Laura não encontrou resposta imediata.
Quando finalmente falou, sua voz estava menos segura.
— Você vai mesmo embora?
— Vou.
— E não pretende voltar para ele?
— Minha missão não é uma estratégia para fazer Augusto correr atrás de mim.
Peguei minha bolsa.
— Estou indo porque quero voltar a viver uma vida que abandonei por escolha própria.
Entrei no veículo.
Augusto ficou ao lado da porta.
— Sofia.
Olhei para ele.
— Eu não vou impedir sua transferência.
Quase sorri.
— Você nunca poderia impedir.
Ele assentiu lentamente.
— Eu sei. O que quero dizer é que não vou usar minha posição, nem pedir favores, nem tentar criar dificuldades.
Aquilo importava.
Não porque eu precisasse da permissão dele, mas porque era a primeira vez que Augusto aceitava uma decisão minha sem tentar reorganizá-la ao redor das próprias necessidades.
— Obrigada.
O carro partiu.
Dessa vez, não olhei pelo retrovisor.
A equipe médica foi enviada para uma região de fronteira no extremo norte do país. A rotina era dura, mas simples de compreender: atendimentos, deslocamentos, vacinação, emergências clínicas, visitas a comunidades isoladas e dias em que o calor fazia parecer impossível respirar dentro do uniforme.
Eu estava cansada quase todas as noites.
Mas era um cansaço diferente.
Não vinha de esperar um homem olhar para mim.
Vinha de ter feito algo que importava para mim.
Durante as primeiras semanas, Augusto enviou poucas mensagens.
Nenhuma delas exigia resposta.
“Espero que esteja bem.”
“Recebi a notificação do processo.”
“Vou colaborar com tudo.”
Eu respondia apenas quando havia algo objetivo para resolver.
A divisão dos bens era simples. Não tínhamos filhos, e grande parte do patrimônio de cada um já estava claramente documentada. Nossos representantes começaram a organizar a possibilidade de transformar o processo em um divórcio consensual, desde que ambos mantivéssemos o acordo.
Augusto não criou obstáculos.
Meses antes, eu teria interpretado isso como indiferença.
Agora entendia como o mínimo respeito necessário.
Laura, por outro lado, parou de aparecer com frequência nas instalações onde Augusto trabalhava.
Soube disso apenas porque uma colega mencionou durante uma ligação.
Não perguntei detalhes.
Minha vida já não precisava ser medida pela distância entre os dois.
Dois meses depois, recebi uma mensagem diferente de Augusto.
“Preciso lhe contar uma coisa antes de assinarmos o divórcio. Não para mudar sua decisão. Só porque devo isso a você.”
Demorei quase uma hora para responder.
“O quê?”
A ligação veio logo depois.
Atendi.
— Laura me procurou ontem — disse ele.
Não falei nada.
— Ela disse que agora que você está indo embora talvez nós pudéssemos tentar outra vez.
Fechei os olhos por um instante.
Não por ciúme.
Apenas porque aquela história parecia repetir a mesma curva.
— E?
— Eu disse não.
— Certo.
Augusto respirou do outro lado da linha.
— Sofia, eu passei tantos anos acreditando que o que sentia por Laura era algo que precisava ser preservado que nunca parei para perguntar o que aquilo tinha se tornado.
— E o que se tornou?
— Um hábito. Uma responsabilidade que eu mesmo alimentei. Talvez até uma versão de mim que eu tinha medo de abandonar.
Fiquei calada.
— Isso não apaga o que fiz com você — continuou. — Na verdade, torna pior. Porque eu deixei meu casamento preso a uma história que talvez nem existisse mais da maneira como eu imaginava.
— Augusto, não precisa descobrir o nome exato do que sentia por ela para entender o que fez comigo.
— Eu sei.
A voz dele estava baixa.
— Mas preciso entender por mim.
Dessa vez, concordei.
— Então entenda.
Antes de desligar, ele perguntou:
— Quando você voltar para formalizarmos o divórcio, posso falar com você pessoalmente uma última vez?
Observei pela janela do alojamento médico. Lá fora, dois colegas descarregavam caixas de medicamentos de um veículo.
Minha antiga versão teria procurado naquela pergunta qualquer sinal de esperança.
Eu não procurava mais.
— Pode.
Voltei para o Sul seis semanas depois para resolver questões administrativas e concluir o divórcio.
Augusto me esperava diante do prédio onde nossos advogados haviam marcado a reunião.
Parecia o mesmo homem.
Uniforme impecável.
Postura reta.
Expressão controlada.
Mas havia algo diferente na maneira como me observava.
Não era a antiga distração de quem enxergava outra mulher através de mim.
Ele estava olhando para mim.
Finalmente.
— Sofia.
— Augusto.
Ele se aproximou.
— Antes de entrarmos, preciso perguntar uma coisa.
— Pergunte.
— Se eu disser que agora sei que amo você, isso muda alguma coisa?
Meu peito apertou.
Não porque eu quisesse voltar.
Mas porque, cinco anos antes, eu teria dado quase tudo para ouvir aquela frase.
Respirei fundo.
— Não.
Augusto fechou os olhos brevemente.
Quando tornou a abri-los, assentiu.
— Eu imaginava.
— Então por que perguntou?
Ele olhou para a porta à nossa frente.
— Porque passei anos sendo covarde demais para dizer o que sentia, até quando eu mesmo não entendia. Não queria terminar nosso casamento escondendo outra coisa.
Apertei a alça da bolsa.
— Então agora você já disse.
Augusto fez que sim.
Coloquei a mão na maçaneta.
Ele não tentou me deter.
E foi justamente naquele instante que percebi que o verdadeiro teste não era saber se Augusto finalmente me amava.
Era descobrir se eu conseguiria escolher a mim mesma mesmo depois de ouvir tudo o que um dia sonhei escutar.
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