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Liguei 27 vezes quando fui detida; meu marido desligou o celular para cuidar da mulher que ele nunca esqueceu

Parte 4

Entrei na sala sem esperar que Augusto abrisse a porta para mim.

Durante anos, pequenos gestos dele haviam alimentado esperanças enormes. Um café deixado sobre a mesa, uma carona depois de um plantão, um casaco colocado sobre meus ombros em uma noite fria. Eu transformava responsabilidade em carinho e carinho em amor porque precisava acreditar que nosso casamento caminhava para algum lugar.

Naquela manhã, eu não precisava mais interpretar nada.

Os documentos estavam sobre a mesa.

Como não tínhamos filhos menores e havíamos chegado a um consenso sobre as questões patrimoniais, nossos advogados tinham organizado a formalização de maneira consensual. Não havia disputa escondida, propriedade secreta ou batalha inesperada.

Só duas pessoas encerrando legalmente aquilo que emocionalmente já havia terminado.

Augusto leu cada página.

Eu também.

Quando chegou o momento de confirmar nossa decisão, ele olhou para mim.

— Tem certeza?

Nosso advogado desviou os olhos para os papéis, deixando claro que aquela pergunta pertencia apenas a nós.

— Tenho.

Augusto apoiou a caneta sobre a mesa.

— Eu gostaria de dizer que você está desistindo cedo demais. Mas seria mentira.

Não respondi.

— Você ficou cinco anos.

A voz dele falhou muito pouco.

— Quem desistiu cedo fui eu. Só não percebi porque você continuava ao meu lado.

Aquela foi provavelmente a frase mais honesta que Augusto já havia me dito.

— Eu também errei — respondi. — Eu sabia que você não tinha me escolhido pelos motivos certos e mesmo assim aceitei. Depois passei anos esperando que você mudasse sem exigir de mim mesma coragem para ir embora.

— Isso não coloca nossas responsabilidades no mesmo nível.

Olhei para ele.

Augusto continuou:

— Você entrou nesse casamento acreditando que poderia ser amada. Eu entrei sabendo que ainda estava preso a outra pessoa. Não vou usar o fato de você ter aceitado para diminuir o que fiz depois.

Houve um tempo em que eu teria chorado ouvindo aquilo.

Naquela manhã, apenas senti uma espécie de alívio silencioso.

— Obrigada por dizer isso.

Ele assinou.

Depois passei a caneta para a minha mão.

Meu nome saiu firme.

Sofia Nunes.

Não Sofia Ferraz.

Não a esposa do general.

Não a mulher que imitava vestidos de Laura para receber alguns segundos de uma intimidade que nunca lhe pertencera de verdade.

Apenas eu.

Ao sairmos, encontramos Laura no estacionamento.

Augusto parou.

Eu também, embora não soubesse por que ela estava ali.

Laura segurava as chaves do carro e parecia ter acabado de chegar.

— Augusto, precisamos conversar.

Ele olhou para mim por reflexo.

Dessa vez, não como se pedisse permissão.

Talvez apenas porque os três sabíamos o peso daquela cena.

— Nosso divórcio acabou de ser formalizado — falei. — O que vocês fizerem daqui para frente não diz mais respeito a mim.

Laura apertou os lábios.

— Não vim por causa de vocês.

Augusto perguntou:

— Então por quê?

— Porque você parou de falar comigo.

Ele permaneceu sério.

— Eu estabeleci limites.

— Depois de todos esses anos?

— Deveria ter feito isso antes.

Laura soltou uma risada incrédula.

— Então Sofia vai embora e, de repente, eu sou o problema?

Augusto respondeu antes que eu pudesse me afastar.

— Não. Eu sou o problema.

Laura ficou quieta.

— Durante anos — continuou ele —, deixei você acreditar que poderia me chamar a qualquer hora, pedir qualquer coisa e esperar que eu abandonasse o que estivesse fazendo para resolver. Quando me casei, continuei agindo como se nada precisasse mudar. Foi errado com Sofia e também foi errado com você.

— Eu nunca obriguei você.

— Não obrigou.

Ele confirmou sem hesitar.

— Eu escolhi fazer isso.

Laura olhou para mim.

— E agora ela conseguiu o que queria.

Quase achei a frase engraçada.

— O que exatamente você acha que eu queria, Laura?

— Que ele se afastasse de mim.

— Não.

Balancei a cabeça.

— Eu queria que meu marido escolhesse nosso casamento enquanto ainda existia um casamento para escolher.

Ela abriu a boca.

— Agora não quero mais que Augusto escolha nada por minha causa.

Augusto permaneceu em silêncio.

Aproximei-me de Laura.

— Você não destruiu meu casamento sozinha. Mas também não era inocente. Você sabia que ele era casado e continuava testando até onde podia chamá-lo, provocá-lo e puxá-lo de volta para a dinâmica que vocês tinham antes.

O rosto dela se contraiu.

— Nós nos conhecemos desde jovens.

— História não é autorização permanente.

Ela desviou os olhos.

Não havia necessidade de humilhá-la.

Eu não queria vingança.

Só não queria mais fingir que ninguém sabia o que estava fazendo.

Voltei-me para Augusto.

— Espero que você aprenda a colocar limites porque acredita que são necessários. Não porque está tentando me reconquistar.

— Vou tentar.

Corrigi:

— Não tente por mim.

Ele entendeu.

— Certo.

Caminhei em direção ao meu carro.

— Sofia.

Parei.

Augusto veio até mim, mas manteve alguma distância.

— Posso perguntar mais uma coisa?

— Pode.

— Houve algum momento, nesses últimos meses, em que você pensou em voltar?

Eu poderia ter mentido para poupá-lo.

Não fiz isso.

— Pensei.

Ele respirou fundo.

— Quando?

— Quando você me pediu desculpas sem tentar justificar. Quando não interferiu na minha transferência. Quando começou a assumir sua parte sem culpar Laura, o trabalho ou a mim.

Por um instante, esperança apareceu no rosto dele.

Continuei:

— Mas pensar não significa querer fazer.

A esperança desapareceu.

— Eu percebi que a mudança que eu sempre quis ver em você finalmente começou. Só que também percebi outra coisa.

— O quê?

— Eu não preciso voltar para receber o resultado dela.

Augusto levou alguns segundos para responder.

— Entendo.

Dessa vez, acreditei que entendia mesmo.

Voltei para a região de fronteira três dias depois.

O trabalho me recebeu sem cerimônia. Havia pacientes esperando, relatórios atrasados e uma equipe que precisava reorganizar uma rota de atendimento para comunidades mais afastadas.

Era exatamente o que eu queria.

Não porque fosse fácil.

Não era.

Havia dias longos, calor sufocante, deslocamentos cansativos e situações em que sentíamos que os recursos nunca eram suficientes.

Mas eu voltava para o alojamento sabendo quem eu era.

Meses depois, fui selecionada para coordenar parte das ações médicas de uma nova etapa da missão.

Quando recebi a confirmação, lembrei da seleção para a missão de paz da qual havia desistido anos antes.

Na época, eu tinha certeza de que permanecer perto de Augusto era mais importante do que qualquer oportunidade profissional.

Não me odiava por ter feito aquela escolha.

A mulher que eu era naquele momento acreditava profundamente naquele amor.

Mas eu não precisava repetir para sempre uma decisão feita por uma versão antiga de mim.

Augusto ainda enviava mensagens de vez em quando.

Nunca sobre reconciliação.

Às vezes perguntava como estava o trabalho. Outras vezes enviava uma informação administrativa que ainda precisava ser resolvida.

Com o passar dos meses, as mensagens diminuíram.

Isso era bom.

Laura também deixou de ocupar espaço na minha cabeça.

Soube por conhecidos que ela e Augusto não ficaram juntos depois do nosso divórcio. Não perguntei o motivo.

Não me cabia mais.

Talvez ele realmente tivesse entendido que precisava separar amor de obrigação, cuidado de dependência, passado de futuro.

Talvez Laura também precisasse aprender que ser protegida durante anos não significava ter direito eterno à disponibilidade de alguém.

Era problema deles.

Eu tinha o meu próprio caminho.

Quase um ano depois da manhã em que saí da cela disciplinar, voltei por alguns dias ao Sul para uma capacitação.

Passei de carro pela mesma região onde Augusto tinha me esperado com o jipe.

Naquele inverno, não havia neve.

Mesmo assim, reconheci imediatamente os degraus do prédio.

Por alguns segundos, lembrei daquela mulher que havia saído dali depois de vinte e sete ligações ignoradas.

Ela estava exausta.

Tinha acabado de perceber que o homem por quem sacrificara tanto continuaria correndo para outra pessoa sempre que fosse chamado.

Naquele dia, pensei que estava encerrando apenas um casamento.

Eu estava errada.

Estava encerrando uma versão de mim que aceitava migalhas porque tinha medo de perder tudo.

Meu celular tocou.

Era uma colega da equipe médica.

— Doutora Sofia, desculpe incomodar nas suas férias. Confirmaram a nova operação. Queremos saber se você continua interessada em liderar o grupo.

Olhei pela janela para a estrada branca de geada.

Sorri.

— Continuo.

— Tem certeza? Vai ser um período longo.

Dessa vez, minha resposta saiu sem qualquer hesitação.

— Tenho.

Desliguei.

No passado, antes de aceitar qualquer oportunidade, eu me perguntava onde Augusto estaria, quanto tempo ficaríamos separados e se ele sentiria minha falta.

Agora havia apenas uma pergunta importante:

Eu queria ir?

A resposta era sim.

Liguei o carro e segui em frente.

Não porque tivesse esquecido os cinco anos que passei ao lado dele.

Também não porque todas as feridas tivessem desaparecido.

Seguir em frente não apagava o que aconteceu.

Apenas significava que aquelas lembranças já não decidiam meu próximo passo.

Durante muito tempo, achei que amar Augusto era permanecer.

No fim, precisei deixar de amá-lo para descobrir que também sabia partir.

E, pela primeira vez em muitos anos, o futuro diante de mim não parecia um lugar para onde eu precisava seguir alguém.

Parecia meu.

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