Uma semana antes do casamento, recebi um vídeo do meu noivo chamando minha aluna de “esposa”
Parte 3
Li a mensagem da minha mãe três vezes.
“Uma bobagem.”
Era assim que a história tinha chegado até ela.
Pedi ao motorista que me levasse para a casa dos meus pais. Durante o trajeto, meu celular tocou quatro vezes. Minha mãe, meu pai, a mãe de Thiago e novamente minha mãe.
Não atendi nenhuma ligação.
Eu precisava chegar antes que outra pessoa escrevesse a versão da minha vida por mim.
Quando entrei na sala da casa dos meus pais, minha mãe já estava andando de um lado para o outro.
— Finalmente. O que aconteceu?
Meu pai estava sentado no sofá, calado, com o telefone sobre a mesa.
— A mãe do Thiago disse que vocês discutiram, que você ficou nervosa e agora quer cancelar tudo.
Coloquei a bolsa na cadeira.
— Thiago está tendo um caso.
O rosto da minha mãe mudou imediatamente.
— Um caso?
— Com Júlia.
Ela demorou a reconhecer o nome.
— Aquela estudante que passou um tempo na casa de vocês?
Assenti.
Minha mãe levou a mão à boca.
Meu pai se levantou.
— Há quanto tempo?
— Não sei.
— Você tem certeza?
Abri o vídeo.
Não queria mostrar.
Mas também não aceitaria passar os próximos dias respondendo a perguntas sobre uma história que eu não tinha criado.
Entreguei o celular ao meu pai.
Ele assistiu apenas alguns segundos antes de devolver.
Minha mãe sentou.
— Meu Deus…
Ficamos em silêncio.
Depois ela perguntou:
— E o que Thiago disse?
— Que não estava bêbado, que não confundiu ninguém e que está cansado de mim.
A indignação no rosto do meu pai foi imediata.
— E ainda querem casamento?
— Querem a cerimônia.
Minha mãe pareceu não entender.
— Como assim?
— Segundo ele, podemos não registrar nada. Mas eu deveria aparecer na festa para evitar um choque nos pais e comentários da família.
Meu pai bateu a mão na mesa.
— De jeito nenhum.
Foi a primeira vez naquele dia que senti alguém reagir como se o que tinha acontecido comigo fosse realmente grave.
Minha mãe começou a chorar.
— Nove anos, Lívia…
Sentei ao lado dela.
— Eu sei.
Ela segurou minha mão.
— E você? O que vai fazer?
A pergunta me atingiu de uma maneira diferente das ordens de Thiago.
Não era “o que as pessoas vão pensar?”
Não era “e os convidados?”
Era simplesmente: o que eu queria fazer?
— Cancelar.
Minha mãe respirou fundo.
— Então cancela.
Meu pai concordou.
— O prejuízo financeiro a gente resolve depois.
Balancei a cabeça.
— Não quero que vocês paguem nada por isso. Algumas despesas foram minhas, outras dele. Vou separar tudo.
Meu pai ia protestar, mas eu continuei:
— Preciso fazer isso do jeito certo.
Comecei pelos fornecedores.
Buffet.
Espaço.
Fotógrafo.
Decoração.
Música.
Alguns contratos previam multa pelo cancelamento tão perto da data. Outros permitiam devolução parcial.
Não tentei usar a traição como argumento para obrigar ninguém a abrir mão do que estava contratado.
Aquele casamento tinha sido planejado por dois adultos.
Agora precisava ser desmontado por pelo menos um deles.
Enquanto eu fazia as ligações, Thiago continuava enviando mensagens.
“Você contou para seus pais?”
“Não precisa envolver todo mundo.”
“Minha mãe está passando mal.”
“Lívia, atende.”
“Vamos conversar.”
Não respondi.
À noite, fui até nosso apartamento acompanhada pelo meu pai.
Thiago estava lá.
Ele abriu a porta e, quando viu meu pai, o rosto fechou.
— Precisava trazer ele?
Meu pai deu um passo à frente, mas eu toquei no braço dele.
— Eu pedi que viesse comigo porque quero pegar algumas coisas sem discussão.
Thiago abriu espaço.
O apartamento parecia exatamente igual ao que eu tinha deixado poucas horas antes.
Os convites ainda estavam no escritório.
Minha caneca continuava perto da cafeteira.
Na geladeira havia uma lista escrita por mim com as últimas tarefas do casamento.
A banalidade daquilo tudo era quase ofensiva.
Entrei no quarto e comecei a colocar roupas numa mala.
Thiago apareceu na porta.
— Você realmente vai fazer isso?
— Vou.
— Você não precisa levar tudo.
— Hoje não vou levar tudo.
— Então vai voltar?
— Para buscar o resto.
Ele respirou fundo.
— Lívia, eu falei coisas pesadas porque estava irritado.
Continuei dobrando uma blusa.
— Qual delas não era verdade?
Ele não respondeu.
— Você estava bêbado no vídeo?
— Não.
— Confundiu Júlia com outra pessoa?
— Não.
— Teve um caso com ela?
Silêncio.
— Então a parte importante continua sendo verdade.
Thiago se aproximou.
— As coisas aconteceram.
Parei.
— Não. Chuva acontece. Um pneu fura. Um copo cai da mesa.
Olhei para ele.
— Você marcou encontros. Mentiu para mim. Voltou para casa de manhã. Tocou nela sabendo exatamente quem ela era e quem eu era. Isso não “aconteceu”. Você fez.
A mandíbula dele se contraiu.
— E você nunca errou comigo?
— Errei muitas vezes.
— Você vivia trabalhando.
— E isso autorizava você a me trair?
— Não estou dizendo isso.
— Está tentando distribuir culpa para se sentir menos responsável.
Thiago passou a mão pelo rosto.
— Eu me sentia invisível.
Aquela frase quase me fez rir.
— Invisível?
— Sua carreira virou tudo para você.
— Thiago, durante anos eu mudei meus horários por causa dos seus negócios.
— Depois você mudou.
— Cresci. Assim como você.
Ele ficou calado.
Fechei a mala.
— Se estava infeliz, poderia ter terminado.
— Nove anos não se jogam fora assim.
Olhei diretamente para ele.
— Curioso ouvir isso de você.
Thiago desviou os olhos.
Meu pai continuava na sala e não interferiu.
Eu agradeci silenciosamente por isso.
Quando saí do quarto carregando a mala, notei uma pequena caixa sobre o aparador.
Era um presente que eu tinha comprado para Júlia meses antes, quando ela apresentou um trabalho numa conferência.
Uma caneta de boa qualidade, com o nome dela gravado.
Eu nunca havia entregado porque a entrega atrasara.
Fiquei olhando para a caixa por alguns segundos.
Thiago percebeu.
— O que foi?
— Nada.
Guardei a caixa numa gaveta.
Aquela versão de mim, que ainda se preocupava em celebrar cada pequena vitória de Júlia, tinha acabado.
Quando me preparava para sair, Thiago falou:
— Ela mandou o vídeo.
Virei.
— Eu sei. Você praticamente me contou.
— Ela fez isso sem me avisar.
— Isso deveria melhorar alguma coisa?
Ele franziu a testa.
— Estou dizendo que eu não queria que você descobrisse assim.
Senti algo gelado dentro do peito.
— Então você não se arrepende de ter me traído. Só do jeito como fui informada.
— Não distorce.
— Estou apenas ouvindo.
Thiago cruzou os braços.
— Júlia estava pressionando para eu resolver nossa situação antes do casamento.
— E você pretendia fazer o quê?
Ele hesitou.
Foi pouco.
Mas foi suficiente.
— Você pretendia casar comigo mesmo assim.
— Eu ainda estava pensando.
— Enquanto chamava outra mulher de esposa.
Thiago não respondeu.
Saí.
No carro, meu pai permaneceu em silêncio até estarmos a algumas quadras de distância.
Então disse:
— Não vou decidir nada por você.
Olhei para ele.
— Mas não volte por medo dos nove anos que passaram.
Engoli em seco.
— Eu sei.
— Nove anos são muito tempo.
Ele encarou a rua pela janela.
— Justamente por isso você não precisa entregar mais nove.
Aquela noite, dormi no meu antigo quarto.
Ou tentei.
Às três da manhã, abri o vídeo novamente.
Não para me torturar.
Queria entender uma coisa.
Júlia tinha enviado aquilo conscientemente.
Thiago disse que ela queria que eu descobrisse.
Isso significava que ela não estava simplesmente vivendo uma paixão proibida. Ela tinha decidido forçar uma escolha.
Lembrei das lágrimas no laboratório.
“Eu posso terminar com ele se a senhora continuar me orientando.”
Aquilo não fazia sentido.
Se queria Thiago a ponto de mandar o vídeo, por que ofereceria terminar tão depressa?
Não encontrei resposta naquela noite.
Na manhã seguinte, recebi um e-mail da coordenação confirmando que meu pedido de mudança de orientação seria analisado e que, até a decisão, outra professora acompanharia Júlia nas atividades imediatas.
Respondi apenas agradecendo.
Logo depois, Júlia me mandou uma mensagem.
“Professora, eu sei que não tenho direito de pedir nada, mas gostaria de conversar sem o Thiago. Só uma vez.”
Apaguei a notificação.
Cinco minutos depois, outra mensagem chegou.
“Não quero pedir que me perdoe. Só preciso esclarecer uma coisa que falei ontem.”
Não respondi.
Passei a manhã resolvendo o cancelamento do casamento.
À tarde, Thiago apareceu na casa dos meus pais.
Minha mãe abriu a porta, mas não o convidou a entrar.
Eu fui até a entrada.
— O que você quer?
Ele parecia cansado.
— Conversar.
— Já conversamos.
— Minha mãe não está bem.
— Sinto muito.
— Ela está perguntando o que vai falar para todo mundo.
— A verdade é uma opção.
Thiago respirou fundo.
— Você está gostando disso?
Demorei um instante para entender.
— Gostando do quê?
— De me humilhar.
Minha mãe, atrás de mim, ficou tensa.
— Você me traiu e eu estou te humilhando porque não quero fingir um casamento?
— Eu não falei desse jeito.
— Então fala de um jeito melhor.
Ele esfregou a testa.
— Podemos dizer que percebemos que não funcionaria e terminamos.
— Pode dizer isso se quiser.
— E você?
— Se me perguntarem diretamente, não vou mentir.
Os olhos dele endureceram.
— Então quer destruir minha imagem.
— Sua imagem depende do que você fez, não do que eu conto.
Thiago olhou para minha mãe.
Talvez esperasse apoio.
Ela apenas disse:
— Minha filha não vai subir num altar para proteger ninguém.
Ele saiu sem responder.
Eu achava que aquilo seria o pior confronto antes do cancelamento definitivo.
Não foi.
No fim da tarde, Júlia apareceu sozinha na frente da casa dos meus pais.
Eu quase mandei que fosse embora.
Mas ela parecia diferente do dia anterior.
Sem maquiagem.
Sem lágrimas ensaiadas.
Segurava apenas o celular.
— Cinco minutos — disse. — Depois eu nunca mais procuro a senhora.
Cruzei os braços.
— Fale.
Ela respirou fundo.
— Ontem eu disse que os sentimentos simplesmente aconteceram.
— Eu lembro.
— Não foi toda a verdade.
Meu corpo ficou tenso.
Júlia apertou o aparelho entre os dedos.
— No começo eu realmente gostava dele. Depois… comecei a gostar da sensação de ele me escolher.
Não falei nada.
— Eu olhava para a senhora e via tudo que eu queria ter. Carreira. respeito. casa. alguém ao lado. E comecei a pensar que, se ele preferisse a mim, talvez significasse que eu também tinha me tornado alguém importante.
Havia vergonha verdadeira na voz dela.
— Isso não é desculpa.
— Não.
Ela finalmente levantou os olhos.
— E eu mandei o vídeo porque ele me disse que nunca terminaria com a senhora antes do casamento.
Meu estômago se contraiu.
— O quê?
— Ele dizia que depois da cerimônia resolveria tudo com calma.
— Depois da cerimônia?
Júlia assentiu.
— Ele dizia que cancelar naquela altura seria ruim para a família e para a empresa.
A empresa.
Ali estava uma parte que Thiago não mencionara.
— O que a empresa tem a ver?
Júlia pareceu perceber que tinha falado demais.
— Eu não sei exatamente.
— Júlia.
Ela engoliu em seco.
— Ele só dizia que seria péssimo parecer instável agora, porque está negociando com investidores.
Pensei nos últimos meses.
Jantares.
Reuniões.
Fotos profissionais.
Thiago falando muito sobre a expansão da empresa.
O casamento não era apenas um evento familiar para ele.
Também era parte da imagem que tinha construído.
— Você tem certeza do que ouviu?
— Tenho.
— Ele disse isso na sua frente?
— Mais de uma vez.
Eu não precisava de uma gravação para saber se aquilo seria juridicamente relevante.
Não era.
Mas emocionalmente explicava sua obsessão absurda pela cerimônia.
Thiago não queria preservar nossos pais.
Queria preservar a própria aparência de estabilidade.
Júlia continuou:
— Quando percebi que ele realmente subiria no altar com a senhora e depois continuaria me encontrando, fiquei com raiva.
— E decidiu me mandar o vídeo.
Ela assentiu.
— Queria obrigá-lo a escolher.
— E esperava que ele escolhesse você.
Os olhos dela se encheram.
— Sim.
— Escolheu?
Júlia abaixou o rosto.
— Ontem, depois que a senhora foi embora, nós discutimos.
Esperei.
— Ele disse que eu tinha estragado tudo.
A ironia quase me sufocou.
— Então agora você veio me contar porque ele ficou bravo com você?
— Em parte.
Pelo menos ela não mentiu.
— E porque percebi uma coisa.
— Qual?
— Eu achava que tinha vencido alguma coisa.
A voz dela falhou.
— Só que quando ele chegou ao laboratório, não estava preocupado comigo. Estava preocupado com o que a senhora faria.
Lembrei de Thiago correndo para defendê-la.
Naquele momento eu tinha interpretado diferente.
— Ele perguntou se eu tinha machucado você.
— Porque tinha medo de um escândalo. Depois, quando ficamos sozinhos, a primeira coisa que ele perguntou foi se alguém tinha ouvido nossa conversa.
Fechei os olhos por um instante.
Tudo nele parecia girar em torno de controle.
Do que seria contado.
De quem saberia.
De como pareceria.
— Júlia, você me feriu.
Ela começou a chorar.
— Eu sei.
— E eu não vou voltar a orientar você.
Ela assentiu.
— Eu entendo.
— Também não vou cuidar das consequências das suas escolhas.
— Eu sei.
— Então por que veio?
Júlia respirou fundo.
— Porque, apesar do que fiz, a senhora foi a pessoa que mais me ajudou quando eu não tinha ninguém. E continuar deixando que ele faça a senhora achar que tudo foi culpa sua seria pior.
Pela primeira vez desde que ela chegara, não senti vontade de responder.
Não a perdoei.
Mas também não precisei destruí-la.
— Vá embora, Júlia.
Ela assentiu.
Deu alguns passos e parou.
— Professora.
— O quê?
— Ele vai tentar fazer a cerimônia acontecer.
Franzi a testa.
— Como?
— Não sei. Só ouvi ele dizendo ao telefone que “sábado vai acontecer de qualquer jeito”.
Meu casamento seria no sábado.
Faltavam quatro dias.
Na manhã seguinte, recebi uma ligação do espaço onde a festa seria realizada.
A gerente parecia constrangida.
— Senhora Lívia, preciso confirmar uma informação.
— Claro.
— Ontem a senhora solicitou o cancelamento do evento.
— Sim.
— Seu noivo entrou em contato hoje cedo e pediu para retirar o cancelamento.
Apertei o celular com força.
— Ele não pode fazer isso sozinho.
— Exatamente por isso estamos ligando. O contrato foi assinado pelos dois, então qualquer alteração precisa respeitar as condições previstas.
Fechei os olhos.
Thiago não estava tentando salvar nosso relacionamento.
Estava tentando salvar o casamento sem a noiva.
— Não autorizo a reversão.
— Entendido. Vamos registrar.
Depois de desligar, abri finalmente as dezenas de mensagens dele.
A última tinha sido enviada minutos antes.
“Você está complicando tudo sem necessidade. Se não quer casar, tudo bem. Mas sábado você vai aparecer e vamos encerrar isso de forma civilizada.”
Li uma vez.
Depois outra.
E respondi pela primeira vez desde que saí do apartamento:
“Não, Thiago. Sábado eu não vou interpretar sua esposa para proteger a sua imagem.”
A resposta veio quase imediatamente.
“Então não me deixa outra opção.”
Fiquei olhando para aquelas palavras.
Quatro dias antes, eu teria sentido medo.
Naquele momento, senti outra coisa.
Clareza.
Thiago ainda acreditava que podia decidir o que eu faria.
E foi ali que tomei uma decisão simples, mas definitiva: eu não passaria os próximos quatro dias reagindo aos movimentos dele.
Eu me anteciparia.
Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖