Meu avião fez um pouso de emergência, mas o aeroporto estava iluminado, vazio e coberto de sangue
Parte 4
— Como eu chego até esse ginásio?
A funcionária me encarou com evidente cansaço.
— Agora você não chega. A área ainda está com acesso restrito.
— Minha mãe está lá.
— Eu entendo.
— Não, você não entende.
Ouvi minha própria voz subir e me obriguei a controlar o tom. A mulher diante de mim provavelmente repetia aquela conversa havia horas para dezenas de famílias desesperadas.
— Desculpa. Só preciso saber se alguém está indo buscar aquelas pessoas.
Ela respirou fundo.
— Existem equipes fazendo transferências. Mas os veículos estão sendo enviados por prioridade médica e segurança da rota.
Olhei outra vez para a tela.
— Dá para confirmar que o grupo ainda está lá?
— A última atualização é de duas horas atrás.
Duas horas.
Depois de tudo o que tínhamos visto no aeroporto, duas horas pareciam uma vida inteira.
A mãe da menina havia se aproximado e ouviu parte da conversa.
— Não faça nenhuma loucura.
— Não pretendo.
Dessa vez eu realmente queria dizer aquilo.
Minha vontade era pegar qualquer carro e sair dirigindo até o ginásio. Mas eu tinha acabado de atravessar uma rodovia cheia de veículos abandonados e visto o que acontecia quando alguém doente se aproximava.
Ir sozinha não seria coragem.
Seria apenas desespero.
Procurei o comandante.
Ele estava ajudando a registrar os passageiros do voo.
Contei sobre minha mãe.
— Se houver uma transferência oficial para aquela área, vou tentar entrar nela — falei.
Ele assentiu.
— Isso é diferente de sair escondida.
— Eu sei.
— Você sabe agora.
Quase sorri.
Pouco depois, o sistema de som do abrigo chamou pessoas que tivessem parentes em três pontos de emergência secundários. O ginásio estava entre eles.
Corri até a mesa.
As equipes haviam conseguido abrir uma rota de acesso.
Dois ônibus fechados sairiam acompanhados de veículos de apoio para buscar os evacuados.
Não permitiriam que familiares fossem juntos.
Minha primeira reação foi discutir.
Parei antes de abrir a boca.
— Quanto tempo?
— Não podemos prometer.
Olhei para a fila de pessoas à minha volta.
Pais.
Filhos.
Casais.
Todos esperando alguém.
Voltei para perto da menina e de sua mãe.
A garota estava sentada no chão, desenhando num pedaço de papel que uma voluntária havia lhe dado.
— O que é isso?
— Um avião.
No desenho, havia um bonequinho perto de uma porta.
— Esse é o Ju?
Ela assentiu.
— Ele está ajudando todo mundo a sair.
Minha garganta apertou.
Sentei ao lado dela.
— Acho que ele ia gostar.
A mãe da garota me entregou uma garrafa de água.
— Você precisa comer alguma coisa.
Só então percebi que estava há muitas horas vivendo de goles de água e adrenalina.
Comi um sanduíche sem sentir gosto.
O homem de terno apareceu pouco depois.
Não carregava notebook.
Não discutia ao telefone.
Sentou numa cadeira de plástico próxima e passou a mão pelo rosto.
— Minha mulher e meus filhos estavam viajando — disse.
Eu me virei para ele.
Era a primeira vez que falávamos de algo que não envolvia reclamações ou perigo.
— Conseguiu contato?
Ele assentiu.
— Estão em Belo Horizonte. Seguros.
Sorriu de um jeito cansado.
— Passei o voo inteiro enlouquecido porque uma reunião importante poderia acontecer sem mim.
Olhou ao redor.
— Agora eu nem lembro qual era o assunto.
Não havia nada a responder.
Ficamos em silêncio.
Duas horas depois, o primeiro veículo de resgate retornou.
As pessoas se levantaram todas ao mesmo tempo.
Não vinha do ginásio.
Trouxe idosos e famílias de outro ponto.
Mais uma hora.
Nada.
Então uma equipe médica entrou rapidamente por uma das portas laterais.
Começaram a preparar uma área isolada.
Meu estômago se contraiu.
Uma mulher perto de mim começou a perguntar se havia infectados entre os resgatados.
Ninguém respondia.
Por alguns minutos, o medo se espalhou pelo abrigo mais rápido que qualquer informação.
Foi quando o coordenador pegou o microfone.
— Atenção. Os veículos que foram ao ginásio municipal já iniciaram o retorno.
Parei de respirar.
— Algumas pessoas apresentam desidratação e ferimentos leves. Até o momento, não há sinais do quadro neurológico entre os passageiros resgatados.
Minhas pernas fraquejaram.
A mãe da menina segurou meu braço.
— Ouviu?
Assenti.
— Ouvi.
Os portões abriram quase quarenta minutos depois.
O primeiro ônibus entrou.
Depois o segundo.
Pessoas desciam devagar, muitas enroladas em mantas, outras apoiadas umas nas outras.
Procurei um casaco conhecido.
Um jeito de andar.
O cabelo grisalho que minha mãe se recusava a pintar porque dizia que “já tinha pago caro demais para chegar naquela idade e não ia fingir que não chegou”.
Não vi.
O primeiro ônibus esvaziou.
Nada.
Começaram a descer passageiros do segundo.
Uma senhora baixa surgiu na porta.
Meu coração disparou.
Não era ela.
Depois veio um casal.
Um homem de muletas.
Duas adolescentes.
Outra mulher.
E então vi uma sacola de mercado.
Verde, com uma alça remendada.
Eu mesma tinha reclamado daquela sacola umas cinquenta vezes.
— Mãe?
A mulher que descia os degraus levantou o rosto.
Por um momento, ela ficou parada.
Então gritou meu nome.
Corri.
Um funcionário tentou pedir que aguardássemos a triagem, mas minha mãe abriu os braços e eu não consegui fazer outra coisa além de abraçá-la.
Ela cheirava a suor, poeira e álcool de limpeza.
Nunca senti um cheiro tão bom.
— Você está viva.
— E você também!
Ela segurou meu rosto entre as mãos.
— Seu voo não aparecia em lugar nenhum. Eu pensei que…
— Eu pousei em Campinas.
— Campinas?
Ela me encarou como se aquilo fosse a parte mais absurda da história.
Comecei a rir.
Depois chorei.
Ela chorou também.
A triagem confirmou que estava bem.
Minha mãe contou o que acontecera.
Pouco depois da mensagem sobre a comida, sirenes começaram a tocar na rua. Primeiro ela pensou em ficar em casa. Então a vizinha do andar de baixo bateu na porta dizendo que ônibus estavam retirando todos.
— E a panela? — perguntei.
Minha mãe me lançou aquele olhar conhecido.
— Desliguei o fogo.
Claro que tinha desligado.
O ônibus havia saído do bairro, mas encontrou um bloqueio quando uma confusão começou na avenida. O motorista mudou a rota seguindo orientação de uma equipe de emergência e levou os passageiros para o ginásio.
Ficaram presos ali durante a noite porque duas ruas de acesso haviam sido fechadas.
— Tinha comida?
— Algumas bolachas.
— Água?
— Pouca.
Ela abriu a sacola verde.
Dentro havia duas garrafas vazias, documentos, uma blusa e um pequeno pote de plástico.
Eu reconheci imediatamente.
— Não acredito.
Minha mãe levantou o pote.
— Eu tinha acabado de colocar a carne aqui quando começaram a mandar todo mundo sair.
— Você levou comida numa evacuação?
— E ia deixar estragar?
Ri outra vez.
Dessa vez algumas pessoas em volta também sorriram.
Nas horas seguintes, as autoridades divulgaram informações mais claras. O surto havia começado quase simultaneamente em vários pontos muito movimentados, e hospitais estavam tentando identificar a origem. Algumas regiões continuavam fechadas.
Ninguém prometia que tudo voltaria ao normal rapidamente.
Mas as áreas afetadas estavam sendo isoladas.
As comunicações começavam a retornar.
E, pela primeira vez, havia organização onde antes só existia silêncio.
Passamos dois dias naquele centro.
Minha mãe dormia numa cama improvisada ao lado da minha.
A menina do avião e a mãe ficaram numa ala próxima.
O homem de terno ajudava a distribuir caixas de água.
Às vezes eu o observava e pensava em como um único dia podia arrancar todas as camadas desnecessárias de uma pessoa.
Soube depois que parte da tripulação permaneceu prestando depoimentos e auxiliando as equipes responsáveis pelo aeroporto.
Sobre Júlio, tivemos uma confirmação que nenhum de nós queria receber.
Ele não havia sobrevivido.
A notícia doeu.
Mas não apagou o que ele fez.
A comissária que escapou graças a ele fez questão de registrar detalhadamente a sequência dos acontecimentos. Outros passageiros também prestaram depoimento.
Meses depois, soubemos que a família dele recebeu uma homenagem oficial da companhia.
Não transformava perda em justiça.
Não trazia ninguém de volta.
Mas dizia claramente uma coisa: ele não tinha sido apenas mais um nome numa lista.
Quando finalmente autorizaram moradores do nosso bairro a retornar, fui com minha mãe até o apartamento.
O corredor estava sujo.
Algumas portas haviam sido danificadas durante a evacuação.
A nossa ainda estava fechada.
Minha mãe colocou a chave na fechadura.
Antes de entrar, segurou meu braço.
— A comida deve estar horrível.
— Mãe…
— Estou avisando.
Abriu a porta.
Tudo estava quase exatamente como deixara.
A manta no sofá.
Os óculos sobre a mesa.
Minha caneca favorita no escorredor.
Na cozinha, a panela continuava sobre o fogão desligado.
Minha mãe colocou as mãos na cintura.
— Eu sabia que tinha desligado.
Encostei na pia e comecei a chorar.
Ela não perguntou por quê.
Apenas ficou ao meu lado.
Naquela noite não comemos a carne ensopada.
Jogamos tudo fora e pedimos comida quando os serviços do bairro voltaram a funcionar.
Antes de dormir, abri nossa conversa no celular.
A última mensagem dela continuava lá.
“Deixei carne ensopada com tomate para você.”
Embaixo, a minha resposta:
“Tá bom, mãe. Só não vai comer escondido antes de eu chegar.”
Durante aqueles dois dias, eu havia imaginado centenas de vezes que aquelas palavras seriam a despedida definitiva.
Não foram.
Continuaram sendo a última mensagem que recebi dela naquela noite, mas deixaram de ser a última coisa que eu teria da minha mãe.
Algumas semanas depois, voltamos a uma rotina possível.
Não igual à anterior.
Possível.
A menina do avião mandou para a companhia o desenho que havia feito de Júlio. A mãe dela me enviou uma foto.
O bonequinho estava na porta de um avião, segurando os braços abertos.
Acima dele, escrito com letras tortas:
“Ele ajudou a gente a chegar.”
Guardei a imagem.
Porque era verdade.
Ju não pôde voltar para casa.
Mas fez com que outras pessoas voltassem.
Eu passei muito tempo acreditando que chegar em casa significava encontrar tudo como havia deixado.
Depois daquela viagem, entendi de outra maneira.
Casa não era a panela no fogão.
Nem o apartamento.
Nem mesmo a cidade.
Casa era minha mãe reclamando que eu não comia direito enquanto colocava comida demais no meu prato.
Era a menina abraçando o coelho no aeroporto.
Era uma mulher desconhecida segurando minha mão quando eu tinha medo.
Era gente escolhendo proteger os outros mesmo quando ninguém sabia como aquela noite terminaria.
Meses depois, quando embarquei novamente num avião pela primeira vez, minhas mãos ficaram frias assim que coloquei o cinto.
Pensei em desistir.
Então ouvi uma criança algumas fileiras atrás perguntar à mãe:
— Avião pode cair?
Fechei os olhos.
A resposta veio logo depois.
— Senta direitinho. Vai ficar tudo bem.
Sorri sem perceber.
Nem sempre fica tudo bem do jeito que imaginamos.
Mas, naquela viagem, eu aprendi que mesmo quando o chão parece desaparecer, ainda podemos escolher quem ser enquanto procuramos um caminho de volta.
E, naquela noite, quando abri a porta de casa e ouvi minha mãe reclamando da bagunça que eu tinha deixado na sala, soube que finalmente havia chegado.
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