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Minha sogra jogou um diamante de R$ 150 milhões no lixo e exigiu meu divórcio diante do próprio filho

Parte 3

Não esperei Caio terminar a ligação.

Saí da casa da minha sogra e pedi um carro até o apartamento onde eu havia morado antes de me casar. O imóvel permanecera fechado durante aqueles três anos, cuidado apenas por uma administradora. Eu sempre dizia a Caio que o mantinha por razões sentimentais, e ele nunca demonstrara interesse suficiente para perguntar quanto valia ou por que eu nunca o vendera.

Naquela noite, quando abri a porta, encontrei móveis cobertos e um silêncio quase estranho. Coloquei a caixa com a Lágrima do Mar Profundo sobre a mesa e fiquei alguns minutos olhando para ela. Aquela pedra havia sobrevivido a um leilão internacional, a cofres, mudanças e décadas de valorização para terminar, naquela tarde, numa lixeira cheia de cascas de frutas.

O problema não era o diamante.

Era eu ter precisado daquela cena para perceber onde eu mesma havia me colocado.

Meu celular começou a tocar. Caio ligou cinco vezes seguidas. Depois vieram as mensagens.

“Que história é essa do Grupo Horizonte?”

“Você conhece alguém lá dentro?”

“Sofia, atende.”

A última foi diferente.

“Precisamos conversar antes que você faça alguma besteira.”

Sentei no sofá e li novamente.

Antes que eu fizesse alguma besteira.

Até ali, ele ainda acreditava que o perigo estava em mim.

Na manhã seguinte, fui à sede administrativa do Grupo Horizonte, na região da Faria Lima. Fazia muito tempo que eu não entrava pela recepção principal. Durante os anos em que escondi minha posição, costumava usar o estacionamento privativo e subir diretamente para os andares executivos, justamente para reduzir a possibilidade de aparecer em fotos ou encontrar alguém conhecido de Caio.

Dessa vez, entrei pela porta da frente.

A recepcionista me reconheceu imediatamente.

— Bom dia, presidente Sofia.

Algumas pessoas ergueram a cabeça. Eu quase tive o impulso automático de pedir discrição.

Não pedi.

— Bom dia.

Subi para a reunião com as diretorias financeira, jurídica, comercial e de compliance. O relatório da Rocha Soluções já estava sobre a mesa.

Foi desconfortável lê-lo.

Nos últimos dezoito meses, a empresa de Caio acumulara atrasos em três contratos relevantes. Em dois deles, as equipes técnicas haviam emitido notificações formais sobre qualidade. Havia ainda um contrato chegando ao fim do prazo, cuja renovação dependeria de indicadores que a empresa dele não atingira.

Eu conhecia parte daqueles problemas.

Não em detalhes.

Sempre que o nome da Rocha Soluções aparecia em relatórios de fornecedores, eu pedia que a equipe aplicasse primeiro medidas corretivas e preservasse a relação comercial caso houvesse possibilidade real de melhoria.

Não era ilegal.

Mas era uma proteção.

Uma proteção que Caio jamais soube que recebia.

— Quero uma coisa muito clara — falei aos diretores. — O meu divórcio não pode ser motivo para nenhuma decisão comercial.

O diretor jurídico assentiu.

— Já separamos os fundamentos contratuais. Nos contratos com descumprimentos documentados, podemos aplicar as medidas previstas. Nos demais, o grupo apenas deixará de conceder exceções e decidirá sobre renovação pelos critérios normais.

— Perfeito.

Eu poderia ter usado meu poder para esmagá-lo.

Depois do que havia acontecido, uma parte ferida de mim até desejava assistir àquela empresa desaparecer.

Mas eu não queria me transformar naquilo que eles já acreditavam que eu fosse.

— Façam o que deveria ter sido feito se eu nunca tivesse interferido a favor dele.

O diretor financeiro fechou a pasta.

— Isso muda bastante coisa.

— Eu sei.

— A Rocha Soluções depende do grupo para quase quarenta por cento do faturamento anual.

Aquilo doeu mais do que eu esperava.

Não porque Caio perderia contratos.

Mas porque percebi o tamanho da rede que construí em silêncio ao redor dele.

Eu ajudara a manter aquele negócio de pé enquanto ele voltava para casa falando sobre como havia vencido sozinho.

Saí da reunião perto do meio-dia.

Havia vinte e três chamadas não atendidas.

Também havia uma mensagem da minha sogra.

“Não pense que vai nos intimidar com nomes de empresa. Caio não precisa de você.”

Pouco depois veio outra.

“A verdadeira oportunidade dele agora é muito maior.”

Eu sabia a quem ela se referia.

À suposta herdeira.

Durante o almoço, comentei casualmente o nome da família que aquela mulher dizia representar. O diretor financeiro franziu a testa.

— Eles não têm filha com esse nome.

Levantei os olhos.

— Tem certeza?

— Conhecemos a estrutura societária porque analisamos uma parceria com eles no ano passado. Os dois herdeiros trabalham fora do Brasil. Posso pedir ao compliance apenas uma checagem pública, se isso tiver relação com negócios do grupo.

Neguei com a cabeça.

— Não precisa. Não é problema nosso.

Eu não queria transformar aquela descoberta numa investigação pessoal.

Mas a frase permaneceu comigo.

Eles não têm filha com esse nome.

À tarde, Caio finalmente apareceu no meu apartamento.

Eu não havia dado o endereço.

Ele ainda tinha uma cópia antiga das chaves do prédio e provavelmente conseguira convencer o porteiro a interfonar.

Quando abri a porta, ele parecia ter envelhecido alguns anos desde o jantar.

— O que você fez?

Nem “como você está”.

Nem “podemos conversar”.

Só aquilo.

— Entrei na minha casa.

— Não estou falando disso.

Ele mostrou o celular.

— Três contratos em revisão. Um cliente suspendeu a renovação. Meu diretor comercial está dizendo que outras propostas ficaram em espera porque o Grupo Horizonte pediu atualização de documentação.

— E?

— E você disse ontem que isso aconteceria.

— Disse.

— Como sabia?

Não respondi imediatamente.

Caio entrou dois passos no apartamento e olhou ao redor.

Pela primeira vez, pareceu perceber que aquele lugar não combinava com a imagem de uma mulher sem patrimônio.

— Você conhece alguém no Grupo Horizonte?

— Conheço.

— Quem?

— Muita gente.

Ele apertou o maxilar.

— Sofia, isso não é brincadeira. Minha empresa tem quase cem funcionários. Você não pode usar algum amante poderoso ou algum amigo rico para se vingar porque minha mãe não gostou de um presente.

A raiva veio rápido.

Não por ele imaginar que eu tinha um amante.

Mas pela facilidade com que transformava três anos de casamento numa narrativa na qual eu só poderia ter acesso a poder através de outro homem.

— Você realmente acredita que a única forma de eu influenciar alguma coisa seria dormindo com alguém importante?

Ele percebeu que havia ido longe demais.

— Eu não quis dizer assim.

— Disse exatamente assim.

— Tá bom. Desculpa. Mas me explica.

Fui até uma gaveta e retirei uma pasta com documentos que eu precisava levar para o escritório.

Caio tentou ver.

Não deixei.

— Sua empresa recebeu notificações por atrasos, falhas de qualidade e descumprimento de indicadores. Você sabia?

Ele mudou de expressão.

— Toda empresa recebe reclamação.

— Não foi isso que perguntei.

— Algumas entregas atrasaram.

— E quantas vezes o Grupo Horizonte concedeu prazo extra?

Caio não respondeu.

Eu já tinha minha resposta.

Ele sabia muito bem que sua empresa vinha sobrevivendo em cima de tolerâncias sucessivas.

Apenas nunca se perguntara por que.

— Os contratos não estão sendo encerrados porque sua mãe jogou meu presente no lixo — falei. — Estão sendo tratados como deveriam ter sido desde o início.

— Você está falando como se mandasse naquela empresa.

Fechei a pasta.

— Talvez você devesse ter perguntado um pouco mais sobre a mulher com quem se casou.

Ele riu de nervoso.

— Você passou três anos dentro de casa.

— Foi uma escolha.

— Você nem tinha emprego.

— Eu nunca disse que não tinha trabalho.

Caio passou a mão pelos cabelos.

— Isso é ridículo.

Meu celular recebeu uma notificação de agenda.

Na manhã seguinte haveria uma reunião presencial do comitê de fornecedores estratégicos. A Rocha Soluções fora convocada para apresentar um plano de correção antes da decisão sobre dois contratos.

— Amanhã você terá oportunidade de explicar os problemas da sua empresa diretamente ao Grupo Horizonte.

— Eu já sei. Meu diretor comercial recebeu a convocação.

— Ótimo.

— E você?

— Eu também estarei lá.

Ele soltou uma risada curta.

— Vai fazer o quê? Me esperar na porta?

Não respondi.

Caio me encarou mais alguns segundos e foi embora irritado, dizendo que eu estava transformando o divórcio num espetáculo.

Naquela noite, minha sogra publicou fotos do jantar nas redes sociais.

Em uma delas, a suposta herdeira aparecia ao lado de Caio.

Não havia nada explicitamente romântico.

Mas a legenda falava sobre “novos ciclos” e “pessoas que sabem somar”.

Eu desliguei a tela.

Aquilo já não me machucou como teria machucado uma semana antes.

Na manhã seguinte, escolhi um terno escuro que não usava havia anos. Prendi o cabelo, coloquei apenas brincos pequenos e desci para o carro do grupo.

Quando cheguei à sede, a reunião já estava sendo preparada.

Sentei na cadeira principal.

À minha direita ficaram o diretor jurídico e a diretora de compliance. À esquerda, os responsáveis por compras e operações.

Às dez em ponto, a porta se abriu.

Caio entrou acompanhado de dois executivos da Rocha Soluções.

Ele vinha falando com um deles e só levantou os olhos quando ouviu a diretora de compliance dizer:

— Bom dia. Antes de começarmos, gostaria de apresentar formalmente a presidente do conselho e acionista controladora do Grupo Horizonte, Sofia Torres.

Caio parou no meio da sala.

O rosto perdeu a cor.

Seus olhos foram de mim para os diretores e depois voltaram lentamente.

Eu fechei a pasta diante de mim.

— Pode se sentar, Caio. Agora vamos falar dos seus contratos.

Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖

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