Minha colega quis ficar sozinha com o prêmio de R$ 5 milhões, e o braço de Kuan Yin se partiu
Parte 4
Fernanda apareceu naquela mesma noite.
Não parecia a mesma garota que tinha saído da moradia semanas antes dizendo que eu nascera para ser pobre. Estava com o cabelo preso de qualquer jeito, olheiras profundas e uma pasta de documentos debaixo do braço.
Assim que entrou, colocou a pasta sobre a mesa.
— Eu quero acabar com isso.
— Então acaba.
Ela respirou fundo.
— Fica com metade.
— Não.
— Júlia, eu estou falando sério.
— Eu também.
Fernanda abriu a pasta. Havia extratos, comprovantes e papéis do banco. Não toquei em nenhum.
— O dinheiro está acabando comigo.
— Dinheiro não decide sozinho o que você faz.
Ela bateu a mão na mesa.
— Você sabe o que eu quero dizer!
— Sei. Você acha que, se me entregar metade, tudo volta ao normal.
— Foi comprado pelas duas.
Eu quase ri da ironia.
— Agora foi comprado pelas duas?
Fernanda fechou os olhos.
— Tá bom. Eu fui uma idiota.
— Isso ainda é pouco.
Ela me encarou.
— O que você quer que eu diga?
— Nada preparado para me convencer. Quero que você pare de tentar comprar uma solução.
Camila e as outras meninas permaneceram perto da porta. Ninguém interferiu.
Fernanda puxou uma cadeira.
— Desde o assalto, eu não durmo direito. Depois vieram aquelas mensagens. Depois os trezentos mil. Minha mãe recebeu ligação de gente perguntando se eu era a menina que tinha ganhado na loteria.
— Você contou para muita gente.
— Eu sei.
— E publicou sua localização.
— Eu sei.
— E aceitou conselho financeiro de gente que conheceu em festa.
Ela apertou os olhos.
— Eu sei!
O quarto ficou quieto.
Fernanda cobriu o rosto com as mãos.
— Eu achei que cinco milhões significavam que eu nunca mais precisaria ter medo de nada.
Aquela foi provavelmente a primeira frase sincera que ouvi dela desde o sorteio.
— E quando eu falei que não queria o dinheiro, você achou que eu estava tentando manipular você.
— Achei.
— Quando Camila devolveu os vinte mil, você achou que eu tinha colocado ela contra você.
— Sim.
— E quando você insinuou que eu podia ter alguma coisa a ver com o assalto?
Fernanda baixou a cabeça.
— Foi nojento.
Esperei.
Ela continuou:
— Você não teve nada a ver com aquilo. Eu sabia disso quando falei. Eu só estava assustada e queria alguém para culpar.
Camila cruzou os braços.
— E os vinte mil que você me deu?
Fernanda olhou para ela.
— Eu queria que você ficasse do meu lado.
— Inclusive se alguém perguntasse sobre o bilhete?
Fernanda hesitou.
Depois assentiu.
— Sim.
Camila soltou o ar devagar.
— Obrigada por finalmente admitir.
Fernanda voltou os olhos para mim.
— Eu não vou justificar. Eu fiz isso.
Aquilo não apagava nada.
Mas pelo menos, pela primeira vez, ela parava de torcer os fatos.
— E agora? — perguntei.
— Agora eu quero devolver sua parte.
— Eu não quero.
— Mas é sua!
— Era minha quando compramos o bilhete.
Fernanda empalideceu.
Continuei:
— Quando você decidiu que seis reais bastavam para me apagar da história, mostrou o que aquele dinheiro tinha feito com você antes mesmo de cair na sua conta.
— Então você vai deixar eu ficar com tudo?
— Não estou decidindo o que você faz com seu patrimônio. Só estou decidindo o que entra na minha vida.
Ela ficou calada.
— Eu posso depositar sem sua autorização.
Balancei a cabeça.
— Um Pix de milhões não funciona como mandar dinheiro para pagar uma pizza, e você sabe disso. E se tentar usar meus dados ou meu nome sem autorização, vou documentar e tomar as medidas necessárias.
Fernanda respirou fundo.
— Você realmente não quer nem um centavo?
Pensei em meus pais.
Nas contas.
Nos livros usados.
Nos cupons.
No aluguel que eu provavelmente pagaria depois da faculdade.
Claro que aquele dinheiro faria diferença.
Eu não era indiferente a milhões.
Mas toda vez que imaginava aceitar, via a imagem quebrada sobre a escrivaninha.
Talvez alguém dissesse que era superstição.
Talvez fosse.
Ainda assim, eu tinha o direito de escolher o que me deixava dormir em paz.
— Não quero.
Fernanda chorou.
— Então me diz o que fazer.
— Não posso decidir sua vida.
— Mas você disse que eu deveria destruir o bilhete.
— Antes de você receber o prêmio.
— E agora?
Olhei para os documentos.
— Agora o dinheiro existe. Você tem obrigações, segurança para cuidar, bancos para acompanhar e uma investigação em andamento. Procure profissionais registrados, pare de anunciar sua vida na internet e pare de tratar qualquer pessoa como alguém que pode ser comprada.
Ela limpou o rosto.
— E a maldição?
— Não sei se existe maldição.
Fernanda pareceu surpresa.
— Depois de tudo que você falou?
— Eu sei o que acredito sobre a imagem. Não sei explicar tudo o que aconteceu com você.
Apontei para o celular dela.
— Mas sei explicar por que desconhecidos descobriram onde você estava.
Depois apontei para os documentos do investimento.
— E também sei explicar por que você perdeu dinheiro para alguém que não verificou direito.
Ela soltou uma risada triste.
— Então Kuan Yin não teve nada a ver?
— Talvez tenha me feito sair de uma situação antes que ela ficasse pior para mim. Isso já é suficiente.
Fernanda permaneceu sentada por alguns minutos.
Então recolheu os papéis.
Antes de sair, parou diante da minha escrivaninha. A nova imagem de Kuan Yin estava ali.
Inteira.
— Você ainda acha que eu vou morrer?
A pergunta veio baixa, sem ironia.
— Acho que você quase colocou sua vida em risco porque acreditou que dinheiro tornava você mais esperta do que todo mundo.
Ela engoliu em seco.
— Isso não respondeu.
— Então aqui vai a resposta: espero que não.
Fernanda saiu.
Mas nossa história ainda não terminou naquela noite.
Nos meses seguintes, as consequências chegaram devagar, do jeito que consequências reais costumam chegar.
A investigação conseguiu rastrear parte dos R$ 300 mil. Uma parcela foi bloqueada e posteriormente devolvida, enquanto outra continuou presa ao processo. Fernanda precisou lidar com o banco, prestar novos depoimentos e aprender da pior forma que recuperar dinheiro enviado voluntariamente não era simples.
Ela também mudou de telefone, restringiu redes sociais e passou a manter informações pessoais fora da internet.
O prêmio não desapareceu.
Mas já não parecia infinito.
Havia impostos relacionados aos rendimentos posteriores, gastos que ela mal percebera, contratos cancelados, honorários e compras impulsivas que precisou revender com prejuízo.
Nada aconteceu em cinco minutos.
Nenhum banco confiscou tudo.
Nenhuma força misteriosa zerou sua conta.
Fernanda apenas descobriu que ter muito dinheiro não impedia alguém de tomar decisões ruins.
Quanto ao bilhete, nunca entrei na Justiça para pedir metade.
A assistência jurídica da universidade me explicou que os registros que eu possuía poderiam ter relevância numa disputa, mas isso significaria iniciar um processo que eu conscientemente não queria.
Minha escolha surpreendeu muita gente.
— Júlia, você está abrindo mão de milhões — Camila comentou uma vez.
— Eu sei.
— Não se arrepende?
Olhei para ela.
— Às vezes penso no que eu compraria.
Camila sorriu.
— Então se arrepende.
— Não. Imaginar não é a mesma coisa.
Continuei estudando.
Terminei aquele semestre.
Consegui uma vaga de estágio melhor alguns meses depois, não por milagre, mas porque uma professora indicou meu currículo depois de um projeto que eu tinha feito.
Meus pais continuaram trabalhando.
Nossa vida não virou um conto de riqueza repentina.
Mas também não ficou parada.
Fernanda deixou a moradia estudantil antes do fim do ano.
No último dia, apareceu para buscar uma caixa que tinha esquecido.
Nós duas ficamos frente a frente no corredor.
— Júlia.
— Oi.
Ela parecia mais tranquila.
— Eu preciso te pedir desculpa de novo.
Esperei.
— Não pelo dinheiro ter dado problema. Nem porque fiquei com medo depois. Pelo que fiz antes disso.
Ela segurou a caixa contra o corpo.
— Nós compramos aquele bilhete juntas. Eu sabia. No segundo em que vi cinco milhões, comecei a inventar motivos para acreditar que aquilo era só meu.
Não respondi.
— Devolver seis reais para você foi ridículo.
— Foi.
Fernanda fez uma careta, aceitando.
— Tentar comprar a versão da Camila também foi.
— Foi.
— E tentar fazer você assinar aquela declaração foi pior ainda.
— Foi.
Ela soltou um pequeno suspiro.
— Você não facilita.
— Você disse que queria pedir desculpa, não que queria elogio.
Pela primeira vez em muito tempo, nós duas quase sorrimos.
Fernanda ficou séria novamente.
— Eu não espero que a gente volte a ser amiga.
— Ainda bem.
Ela assentiu.
— Eu precisava admitir sem pedir nada em troca.
Aquilo, sim, significava alguma coisa.
Não apagava o que aconteceu.
Não restaurava confiança.
Mas mostrava que talvez ela finalmente tivesse entendido que arrependimento não era outra forma de negociação.
— Espero que você fique bem — eu disse.
— Você também.
Ela caminhou até a saída.
Antes de descer as escadas, virou-se.
— Ainda está com a imagem nova?
— Estou.
— O braço continua no lugar?
Olhei para minha escrivaninha pela porta aberta.
— Continua.
Fernanda assentiu e foi embora.
Nunca nos tornamos amigas novamente.
Camila e eu também não viramos melhores amigas de repente. Mas nossa convivência melhorou. Ela aprendeu a pensar duas vezes antes de escolher um lado só porque parecia mais conveniente, e eu aprendi que evitar uma briga não era a mesma coisa que proteger minha paz.
Meses depois, durante as férias, voltei ao templo com meus pais.
Levei a nova imagem comigo.
Minha mãe perguntou se eu ainda pensava nos R$ 2,5 milhões que poderiam ter sido meus.
— De vez em quando.
— Dói?
Pensei antes de responder.
— Menos do que eu achei que doeria.
Meu pai riu.
— Ainda bem.
Na saída, parei por alguns instantes diante do pátio.
Durante muito tempo, eu tinha pensado que o braço quebrado de Kuan Yin significava apenas uma ameaça: abra mão ou morra.
Agora eu enxergava de outra forma.
Talvez aquele símbolo não tivesse me mandado fugir do dinheiro.
Talvez tivesse me obrigado a perceber, no instante certo, que algumas vitórias cobram um preço que não aparece no saldo da conta.
Eu perdera a chance de ficar milionária da noite para o dia.
Mas não perdi minha voz.
Não assinei uma mentira.
Não aceitei dinheiro para comprar meu silêncio.
E não deixei o medo decidir por mim para sempre.
Voltei para Campinas com meus pais ao meu lado e a imagem inteira dentro da bolsa.
Minha vida continuava simples, construída
aos poucos, sem prêmio gigantesco e sem atalhos.
E, pela primeira vez desde aquele sorteio, isso não me pareceu pouco.
Obrigado por acompanhar e ler a história até o final 🙏 Deixe nos comentários sua opinião, reação ou sugestão. Isso nos ajuda muito a melhorar as próximas histórias. Não se esqueça de seguir a página para não perder as novas histórias de cada dia 📖✨