Passei seis meses grudada nele porque o sistema disse que ele gostava disso — então descobri que era justamente o contrário
Parte 4
Na manhã seguinte, cheguei à cozinha às oito e dezessete.
Bruno já estava sentado à mesa.
Havia duas canecas.
Uma com café preto.
Outra com leite e açúcar.
Olhei para ele.
— Você colocou açúcar no meu?
— Duas colheres.
— Eu uso uma e meia.
— Isso não existe.
— Existe sim.
Bruno empurrou o açucareiro na minha direção.
— Resolve.
Sorri.
Aquilo parecia pequeno.
Talvez fosse.
Mas, durante seis meses, eu teria tomado café amargo só para combinar com ele.
Naquela manhã, coloquei meia colher de açúcar e bebi exatamente como gostava.
Bruno observou.
— Melhor?
— Muito.
— Ótimo.
Ficamos alguns minutos comendo sem falar.
Eu não senti necessidade de preencher o silêncio.
Ele também não.
Depois, Bruno pousou a caneca.
— Agora minha pergunta.
— Qual?
— Você ainda quer ficar comigo?
Minha mão parou.
Era uma pergunta simples.
Mas não existia resposta simples.
Eu queria sobreviver.
Queria completar a missão.
Também gostava dele.
Talvez tivesse começado como uma tarefa, mas seis meses convivendo com alguém deixavam marcas que nenhum sistema conseguia calcular.
Ao mesmo tempo, eu já não queria responder apenas para aumentar uma porcentagem.
— Eu quero descobrir se gosto de ficar com você quando não estou tentando te conquistar.
Bruno inclinou a cabeça.
— Isso é um sim ou um não?
— É um “ainda não sei”.
Ele ficou em silêncio.
Esperei irritação.
Em vez disso, ele assentiu.
— Justo.
— Você não ficou bravo?
— Fiquei.
— Então por que concordou?
— Porque prefiro uma resposta que me incomoda a uma mentira conveniente.
A frase me atingiu em cheio.
O sistema surgiu.
“Compatibilidade: 68%.”
Ignorei.
Bruno percebeu minha distração.
— O que foi?
— Nada.
Pela primeira vez, era verdade.
Durante as semanas seguintes, nossa relação mudou de forma quase banal.
Não houve declaração dramática.
Não houve beijo na chuva.
Não houve uma cena perfeita capaz de resolver todos os problemas.
Houve conversa.
Muita conversa atrasada.
Eu descobri que Bruno precisava de silêncio depois dos jogos porque ficava exausto mentalmente.
Ele descobriu que eu gostava de conversar à noite, mas não precisava de resposta para cada frase.
Eu descobri que ele odiava gente mexendo em suas coisas sem pedir.
Ele descobriu que eu detestava quando ele usava o próprio silêncio como forma de evitar conflitos.
Algumas conversas terminavam mal.
Outras melhoravam as coisas.
Uma noite, discutimos porque Bruno cancelou um jantar sem avisar.
Antigamente eu teria fingido que não me importava se isso aumentasse alguma pontuação.
Depois dos comentários, talvez eu tivesse respondido friamente só para parecer independente.
Dessa vez, falei o que realmente pensava.
— Eu entendo que aconteceu um problema. O que me irritou foi você decidir sozinho que eu não precisava saber.
Bruno colocou o celular sobre a mesa.
— Eu achei que você fosse exagerar.
— E eu achei que você tinha aprendido a parar de decidir minha reação antes de conversar comigo.
Ele fechou a boca.
Depois de alguns segundos, respondeu:
— Você tem razão.
Não houve desculpa perfeita.
Mas ele avisou da próxima vez.
Eu também mudei.
Quando Bruno demorava para responder mensagens, parei de imaginar imediatamente que alguma coisa estava errada.
Quando queria companhia, eu perguntava.
— Posso ficar aqui enquanto você joga?
Algumas vezes ele dizia:
— Pode.
Outras:
— Hoje prefiro ficar sozinho.
E eu simplesmente saía.
Não era rejeição.
Era limite.
Quanto mais aprendíamos isso, mais os números subiam.
Compatibilidade: 72%.
76%.
81%.
O índice de rejeição chegou a 3%.
Então, faltando cinco dias para o prazo, a janela do sistema apareceu de forma diferente.
Vermelha.
“Falha de sincronização narrativa detectada.”
Meu coração disparou.
“Rota original incompatível com eventos atuais.”
“Correção automática será iniciada.”
— O que isso significa?
O sistema não respondeu.
Os comentários voltaram de uma vez.
【Finalmente! Vai corrigir a história!】
【Então a garota fria original vai aparecer?】
【Era óbvio que essa rota não podia continuar.】
【O vilão precisa voltar pro papel dele.】
Senti o sangue gelar.
Na manhã seguinte, uma garota que eu nunca tinha visto apareceu diante da sala de Bruno.
Ela era bonita.
Discreta.
Expressão tranquila.
Os comentários enlouqueceram.
【ELA!】
【A garota fria e fofa!】
【Agora sim!】
Parei a alguns metros.
Meu primeiro impulso foi entrar em pânico.
O antigo eu teria corrido para Bruno, agarrado seu braço e marcado território.
O eu dos últimos dias talvez virasse as costas para parecer indiferente.
Mas eu já não queria ser nenhuma dessas duas pessoas.
Aproximei-me normalmente.
Bruno estava conversando com a garota.
Quando me viu, fez um gesto.
— Vem aqui.
Fui.
— Essa é Marina. Ela entrou agora no grupo do projeto de pesquisa.
Marina sorriu.
— Oi.
— Oi.
Só isso.
Nenhuma faísca mágica.
Nenhum olhar de destino.
Nenhuma música invisível.
Bruno continuou falando sobre o projeto.
Os comentários ficaram confusos.
【Por que ele não reagiu?】
【Na história original ele ficava interessado imediatamente.】
【Talvez porque a protagonista esteja aqui?】
Então percebi algo.
Eles não estavam vendo pessoas.
Estavam esperando cenas.
O sistema também.
Para ambos, Bruno era uma função narrativa.
Um vilão que deveria agir conforme uma sequência pré-definida.
Talvez eu tivesse feito a mesma coisa durante seis meses.
Tratado aquele homem como uma fórmula.
Naquela noite, o sistema enviou outra mensagem.
“Correção narrativa insuficiente.”
“Compatibilidade atual com rota original: 9%.”
“Recomendação: interromper vínculo com alvo atual e aguardar reassociação.”
Fiquei encarando a frase.
Interromper vínculo.
Depois de tudo, o sistema estava sugerindo que eu largasse Bruno para esperar o protagonista verdadeiro.
— Não.
A janela piscou.
“Confirme.”
— Eu disse não.
“Risco elevado de falha da missão.”
— Então mude a missão.
Silêncio.
— Você me vinculou ao homem errado. Eu passei seis meses seguindo dados errados. Agora quer corrigir seu erro me mandando abandonar uma pessoa real como se ele fosse um arquivo na pasta errada?
Nenhuma resposta.
— Não vou fazer isso.
A tela mudou.
“Se a usuária rejeitar a correção, deverá concluir o vínculo atual por critério de autenticidade.”
— Ótimo.
“Requisito final: decisão recíproca e consciente, sem manipulação comportamental.”
Meu coração bateu mais forte.
Aquilo significava que a porcentagem sozinha não bastava.
Bruno precisava me escolher sabendo quem eu realmente era.
E eu precisava escolhê-lo sem usar o sistema para moldar minha personalidade.
Na mesma noite, sentei diante dele na sala.
— Preciso conversar.
Bruno fechou o notebook.
— Você tá com aquela cara.
— Que cara?
— Cara de quem vai dizer alguma coisa que eu não vou gostar.
— Provavelmente.
Ele apontou para o sofá.
— Fala.
Eu não podia contar toda a verdade sobre o mundo original sem saber o que aconteceria.
Mas podia contar a parte importante.
— Quando a gente começou, eu estava desesperada pra fazer você gostar de mim. Então comecei a agir de um jeito que eu achava que você queria.
Bruno não interrompeu.
— Depois percebi que tinha entendido tudo errado e fiz o contrário. Também não funcionou, porque continuava não sendo eu.
— Eu sei dessa parte.
— Não sabe tudo.
Respirei fundo.
— Eu ainda tenho medo de perder você.
Ele me observou.
— Isso não parece exatamente uma revelação.
— A diferença é que antes eu faria qualquer coisa pra impedir. Agora eu não quero mais fazer.
A expressão dele mudou.
Continuei:
— Se a gente ficar junto, eu quero que seja porque você conhece meus defeitos, meus limites e minhas manias. Não porque eu aprendi a representar o tipo de mulher que você prefere.
Bruno passou o polegar pela borda da caneca.
— E o que você acha que eu prefiro agora?
Pensei.
— Não sei.
— Finalmente.
Franzi a testa.
— Isso era pra ser romântico?
— Não sou bom nisso.
— Percebi.
Ele soltou uma risada curta.
Depois ficou sério.
— Quer saber o que eu prefiro?
Assenti.
— Gente que fala quando alguma coisa incomoda. Gente que não invade meu espaço. Gente que também consegue me mandar parar de ser idiota.
— Muito específico.
— Aprendi nos últimos dias.
Meu peito apertou.
Bruno continuou:
— E você?
— O quê?
— O que você prefere?
A pergunta quase me fez rir.
Durante tanto tempo, ninguém tinha perguntado isso.
Nem o sistema.
Nem os comentários.
Nem eu mesma.
— Eu gosto de alguém que respeite quando eu preciso me afastar. Que não use silêncio pra me punir. Que saiba conversar mesmo quando é desconfortável.
Bruno assentiu.
— Mais alguma coisa?
— Que me deixe colocar uma colher e meia de açúcar no café sem reclamar.
— Isso vai ser difícil.
— Então talvez não dê certo.
— A gente negocia.
Sorri.
A janela do sistema apareceu.
“Compatibilidade: 88%.”
Ainda não era suficiente.
Faltavam dois dias.
Na manhã seguinte, Bruno foi treinar.
Eu fiquei em casa lendo.
Nenhuma estratégia.
Nenhuma cena programada.
Quando ele voltou, sentou no chão ao lado do sofá.
— Você não foi.
— Não estava a fim.
— Entendi.
Depois de alguns minutos, ele apoiou a cabeça no meu joelho.
Fiquei imóvel.
— Bruno.
— Hum?
— Você odeia gente grudenta.
— Odeio.
— Então sai.
— Não.
— Você percebe a contradição?
Ele abriu um olho.
— Você não está grudada em mim.
— Você está grudado em mim.
— É diferente.
— Claro.
Passei a mão pelo cabelo dele.
Porque tive vontade.
Nada apareceu na tela.
Nenhuma porcentagem.
Nenhum comentário.
Só a respiração dele ficando mais lenta.
Naquela noite, dormimos em quartos separados outra vez.
Na manhã seguinte, faltava um dia para o prazo.
O sistema não apareceu.
Passei o dia inquieta.
Bruno percebeu.
— Tem alguma coisa errada?
— Estou pensando.
— Isso costuma ser perigoso.
Joguei uma almofada nele.
Ele segurou.
— Melhorou.
À noite, fomos caminhar pelo campus depois da aula.
Parados perto da quadra, Bruno enfiou as mãos nos bolsos.
— Eu estava pensando também.
— Perigoso.
— Muito engraçada.
Ele olhou para mim.
— Você perguntou por que eu nunca terminei com você.
Assenti.
— Acho que minha resposta estava incompleta.
Esperei.
— Eu estava irritado. Bastante. Mas quando você parou de aparecer, eu percebi que não queria que você desaparecesse.
Meu coração acelerou.
— Isso não significa que eu queira voltar ao jeito de antes — ele acrescentou. — Não quero.
— Nem eu.
— Mas quero você.
A janela do sistema surgiu.
“Decisão recíproca detectada.”
Meu peito travou.
Bruno continuou, sem enxergar nada.
— Não uma versão que concorda comigo em tudo. Nem a que finge não se importar. Você.
As letras diante dos meus olhos mudaram.
“Vínculo autêntico confirmado.”
“Missão concluída.”
Fechei os olhos.
Nenhuma explosão.
Nenhuma música.
Apenas um peso enorme desaparecendo de dentro do meu peito.
Quando abri os olhos novamente, Bruno ainda estava ali.
— Por que você está chorando?
Toquei o rosto.
Nem tinha percebido.
— Alívio.
— Eu sou tão assustador assim?
Ri no meio das lágrimas.
— Você não faz ideia.
O sistema exibiu uma última mensagem.
“Retorno ao mundo original cancelado.”
“Usuária autorizada a permanecer neste mundo.”
Logo abaixo veio a informação sobre a recompensa financeira prevista no contrato.
Mas, naquele momento, nem pensei na fortuna.
Eu ia continuar viva.
Não porque aprendi a ser a garota perfeita.
Mas porque finalmente parei de representar.
Meses depois, nossa relação ainda não era perfeita.
Bruno continuava gostando de silêncio.
Eu continuava falando demais quando ficava animada.
Às vezes discutíamos.
Às vezes eu dormia no quarto de hóspedes porque queria espaço.
Às vezes ele aparecia na porta e perguntava:
— Café amanhã?
E eu respondia:
— Oito e meia.
— Oito e quinze.
— Você é insuportável.
— E você continua aqui.
Eu continuava.
Não por obrigação.
Não por sistema.
Não por comentários.
Porque escolhia.
E, curiosamente, os comentários nunca voltaram a prever nosso futuro.
De vez em quando surgia algum.
【Essa história não era assim.】
【O vilão mudou.】
【A protagonista saiu completamente do roteiro.】
Sempre que eu via, sorria.
Eles estavam errados em uma coisa.
Bruno não tinha mudado para caber na história.
Eu também não.
Nós apenas tínhamos parado de viver como personagens escritos por alguém de fora.
Naquela noite, sentei ao lado dele enquanto jogava.
Não no colo.
No sofá.
Depois de alguns minutos, Bruno olhou para mim.
— Não vai me dar salgadinho?
Peguei um.
Comi.
— Compra o seu.
Ele me encarou.
Então começou a rir.
E eu percebi que aquela risada valia mais do que qualquer porcentagem que um sistema pudesse calcular.
Pela primeira vez desde que ganhei uma segunda vida, eu não precisava conquistar ninguém para merecer continuar nela.
Eu só precisava vivê-la como eu mesma.
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