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No reality de namoro, diagnostiquei a costela de um astro — e o perfume do galã escondia cheiro de necrotério

Parte 4

— Pode entrar.

Gabriel surgiu acompanhado por uma funcionária da produção e dois seguranças.

Eu tinha aceitado falar com ele sob três condições: a conversa aconteceria numa sala do estúdio com porta de vidro, haveria outras pessoas do lado de fora e ninguém gravaria para usar como conteúdo do programa.

A produção concordou.

Gabriel, aparentemente, não gostou.

Estava sem maquiagem, boné baixo e roupas simples. Em menos de uma semana, parecia ter envelhecido muito mais do que os dias permitiam.

Sentou do outro lado da mesa.

— Está satisfeita?

— Com o quê?

— Com tudo isso.

Sua voz estava baixa.

— Campanhas suspensas. Contratos parados. Meu nome tratado como se eu já tivesse sido condenado.

— Eu não controlo seus contratos.

— Mas começou com você.

Inclinei a cabeça.

— Não. Começou antes de eu conhecer você.

A mandíbula dele endureceu.

— Se você não tivesse feito aquele espetáculo com minhas costelas, ninguém estaria falando disso.

— Eu reconheci uma lesão. A sua ex-namorada já tinha procurado a Justiça antes de eu entrar naquele programa.

Ele desviou os olhos por um instante.

— Ela está usando você.

— Eu nem conheço essa mulher.

— Então por que está do lado dela?

— Não estou escolhendo times.

Gabriel soltou uma risada amarga.

— Claro. Você só olha para minha mão e decide que sou um monstro.

Aquilo me incomodou porque havia uma parte verdadeira na acusação.

No primeiro encontro, eu realmente tinha olhado para seus calos e pensado em uso frequente de força.

Mas pensar não era sentenciar.

— Eu não poderia determinar se você é violento olhando sua mão — respondi. — E não disse isso diante das câmeras.

— Mas pensou.

— Pensei em possibilidades. É meu trabalho trabalhar com hipóteses. Meu trabalho também é descartá-las quando os fatos não confirmam.

Gabriel se inclinou para frente.

— Então descarte agora.

— Não posso.

— Por quê?

— Porque você segurou meu braço depois de eu mandar soltar.

Ele recuou.

— Foi um segundo.

— Continua sendo meu braço.

— Eu estava nervoso.

— Continua sendo meu braço.

— Você tinha acabado de me humilhar.

— Continua sendo meu braço.

Pela primeira vez, não sobrou resposta pronta.

Gabriel esfregou as mãos no rosto.

— Você não entende o que fizeram comigo nesses últimos dias.

— Talvez não. Mas entendo perfeitamente o que você fez comigo naquele corredor.

Ele me encarou.

— Eu não machuquei você.

— Você não decide quanto precisa doer para que eu possa dizer “não encoste em mim”.

A sala ficou quieta.

Do lado de fora, um dos seguranças mudou de posição.

Gabriel voltou a olhar para a mesa.

— Ela também fazia isso.

Não respondi.

— Minha ex — explicou. — Transformava tudo em agressão. Qualquer discussão. Qualquer coisa.

— Isso está sendo investigado.

— Porque ninguém quer ouvir meu lado.

— Então dê seu depoimento.

Ele apertou os dedos.

— Eu já dei.

— Ótimo.

— Ela me arranhou naquela manhã.

Minha atenção aumentou.

Eu não demonstrei.

— Foi ela?

— Quer dizer…

Gabriel parou.

Os olhos dele se moveram até minhas mãos.

Percebeu a própria frase.

Segundo o que havia sido tornado público, a defesa dele afirmava que sequer entrara no apartamento da ex naquela manhã. Dizia que estivera apenas na portaria e saíra depois de descobrir que ela se recusava a falar.

Eu não precisava interrogá-lo.

Não era minha função.

Levantei.

— Nossa conversa acabou.

Gabriel também ficou de pé.

— Espera.

— Você queria falar comigo. Falou.

— Vai correr para a polícia contar isso agora?

— Se eu for perguntada formalmente sobre esta conversa, não vou mentir.

— Lívia…

— E não vou negociar meu depoimento com você.

Ele respirou fundo.

— Eu perdi a cabeça naquela manhã.

Fechei os olhos por um instante.

Quando tornei a encará-lo, já não havia raiva no meu rosto.

Só cansaço.

— Então diga isso às pessoas que estão conduzindo o caso.

— Ela me provocou.

— Não diga isso para mim.

— Você não estava lá.

— Exatamente. Por isso eu não vou julgar a discussão de vocês. Mas conheço essa frase.

Gabriel franziu a testa.

— Que frase?

— “Ela me provocou.” Você também disse que eu tinha humilhado você quando segurou meu braço.

Ele ficou calado.

— O problema — continuei — é que você parece acreditar que, quando uma mulher faz alguma coisa de que você não gosta, isso transforma sua reação em responsabilidade dela.

Seu rosto perdeu a cor.

— Não foi assim.

— Então explique isso onde deve explicar. Não para mim.

Abri a porta.

Gabriel não tentou me impedir.

Naquela tarde, dei ciência à produção de que a conversa tinha terminado sem incidente. Alguns dias depois, fui chamada novamente pelas autoridades e relatei apenas aquilo que tinha sido dito na minha presença.

A frase de Gabriel não encerrou investigação nenhuma.

Não precisava.

Já existiam elementos muito mais importantes.

A medida protetiva havia sido oficialmente comunicada a ele semanas antes. Os registros da portaria mostravam sua entrada no prédio naquela manhã. Mensagens recuperadas do celular da ex-namorada indicavam que ele insistira várias vezes para que ela “resolvesse aquilo antes que alguém descobrisse”.

O prédio também tinha imagens das áreas comuns.

Elas não mostravam o que aconteceu dentro do apartamento, mas confirmavam o horário em que Gabriel subiu e o horário em que desceu.

Ele permanecera lá tempo demais para sustentar a versão de que nunca passara da recepção.

A ex-namorada tinha pequenas lesões documentadas em atendimento médico realizado no mesmo dia.

Os arranhões na mão de Gabriel eram compatíveis com o relato sobre o gato, embora, sozinhos, também não provassem nada.

Foi o conjunto que importou.

Não uma observação genial.

Não um cheiro.

Não uma médica-legista num programa de televisão.

O conjunto.

Gabriel passou a responder ao procedimento relacionado ao descumprimento da medida protetiva e às acusações apresentadas pela ex-namorada. A Justiça definiria a responsabilidade dele com base no processo, e eu me mantive longe de qualquer comentário que pudesse transformar aquilo num julgamento público improvisado.

A emissora rescindiu sua participação no reality por violação das regras de segurança.

Algumas marcas encerraram contratos.

Outras aguardaram o andamento judicial.

Sua carreira não desapareceu num estalar de dedos.

Mas, pela primeira vez, fama não bastou para fazer todos ao redor fingirem que nada tinha acontecido.

Comigo, o resultado também não foi exatamente aquilo que imaginei quando entrei no programa.

Eu deveria durar dois episódios.

Fiquei até a última semana.

Não porque tivesse virado celebridade.

Nem porque a audiência exigisse.

Fiquei porque percebi que podia estar naquele ambiente sem permitir que transformassem meu trabalho num truque de circo.

A produção respeitou as novas regras.

Nenhuma análise médica foi feita sem consentimento.

O episódio do corredor obrigou o programa a revisar os protocolos de segurança e a forma como conflitos entre participantes eram tratados nos bastidores.

E, para meu absoluto espanto, eu comecei a gostar de algumas pessoas dali.

Theo estava no topo dessa lista.

Ele nunca tentou arrancar detalhes sobre Gabriel.

Nunca apareceu com discursos heroicos.

Nunca me perguntou como era trabalhar com cadáveres durante uma refeição.

Isso último, para mim, já era quase uma declaração de amor.

No último episódio, a apresentadora colocou nós dois frente a frente.

— Lívia, você entrou dizendo que ficaria dois programas e iria embora.

— Eu ainda culpo meu diretor.

A plateia riu.

— E agora?

Olhei para Theo.

Ele parecia tranquilo, mas reconheci uma tensão discreta nos dedos que seguravam o cartão da dinâmica.

Finalmente alguma falha anatômica naquele homem.

— Agora eu vou embora um pouco atrasada.

A apresentadora arregalou os olhos.

— Sozinha?

— Do programa, sim.

Ouvi algumas reclamações na plateia.

Theo sorriu.

Não parecia surpreso.

A apresentadora virou para ele.

— E você não vai impedir?

— Ela passou a temporada inteira explicando que homens não têm o direito de segurar uma mulher quando ela quer sair. Seria um momento péssimo para eu discordar.

Dessa vez, eu ri antes da plateia.

Quando as câmeras foram desligadas, Theo me encontrou perto da saída.

Eu já estava com a mochila no ombro.

— Doutora Lívia.

— Senhor Valença.

Ele estendeu a mão.

Exatamente como fizera no primeiro dia.

Olhei para ela.

— Está tentando novamente?

— Estou.

Segurei sua mão.

Temperatura normal.

Pulso discretamente acelerado.

Nenhum cheiro de formol.

— Nervoso?

— Um pouco.

— Interessante.

— Você pretende me diagnosticar ou aceitar um café?

— Depende.

— De quê?

— Esse café vai ser filmado?

— Não.

— Vai ter contrato?

— Não.

— Votação do público?

— Espero que não.

Pensei por dois segundos.

— Então posso considerar.

Três meses depois, eu estava de volta à minha rotina no IML.

Gabriel continuava respondendo aos procedimentos legais. Eu nunca procurei informações além das que precisava conhecer como testemunha.

Meu nome lentamente saiu das tendências.

As pessoas encontraram outro assunto para discutir.

E eu voltei a passar tardes inteiras diante de exames que não davam entrevistas, não tinham assessores e não possuíam milhões de seguidores.

Era reconfortante.

Numa sexta-feira, quando saí do prédio, encontrei Theo apoiado no carro do outro lado da rua.

Nada de câmeras.

Nada de fotógrafos.

Ele segurava dois copos de café.

— Você está atrasado sete minutos — falei.

— Trânsito.

Aproximei-me.

— Postura ruim enquanto espera.

Ele imediatamente endireitou as costas.

— Você vai fazer isso pelo resto da vida?

Peguei um dos copos.

— Se você tiver sorte.

Theo ficou me olhando.

— Isso foi um flerte?

— Não se empolgue.

Começamos a caminhar.

Eu não sabia se aquilo viraria um namoro longo, um relacionamento complicado ou apenas uma lembrança boa.

E, pela primeira vez, não senti necessidade de descobrir antecipadamente.

Passei a vida examinando marcas para reconstruir o que já tinha acontecido.

Naquele fim de tarde, enquanto Theo caminhava ao meu lado e reclamava que eu observava sua postura até quando atravessávamos a rua, percebi que o futuro não precisava ser reconstruído como uma perícia.

Algumas coisas podiam simplesmente ser vividas.

E foi assim que saí de um reality onde deveria permanecer apenas dois episódios levando comigo algo que jamais encontrei numa sala de autópsia: a coragem de parar de analisar cada possibilidade e permitir que uma parte da minha vida começasse sem que eu já soubesse o final.

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