Fugi do templo do meu pai achando que ele era um charlatão — até enxergar um presságio terrível no meu primeiro dia de faculdade
Parte 4
A pergunta ficou entre nós enquanto, do outro lado do portão, pessoas que eu nunca tinha visto continuavam esperando por respostas que eu não devia a nenhuma delas. Durante anos, minha solução para tudo tinha sido fugir da montanha. Naquele momento percebi que fugir outra vez talvez apenas mudasse o endereço do problema.
— Primeiro você fala — respondi. — Depois eu decido.
Meu pai olhou para um banco de concreto perto da entrada.
Sentamos ali.
Júlia ficou a certa distância, impedindo que algumas pessoas se aproximassem.
— Você quer saber se sou um charlatão — ele começou.
— Quero.
— Não sou.
— Nossa, que investigação completa.
Ele me lançou aquele olhar paciente que sempre me irritava.
— Mas também não sou um deus.
Aquilo me fez calar.
Meu pai explicou que o que praticava tinha duas partes. Uma vinha de tradição, estudo, observação, símbolos, calendários e métodos transmitidos por seu próprio mestre. A outra ele nunca conseguira explicar completamente.
Era a mesma coisa que eu tinha sentido ao olhar para Júlia.
Uma percepção.
Um aviso.
Algo que aparecia antes da razão.
— E funciona sempre? — perguntei.
— Não.
A resposta me surpreendeu.
— Então vocês erram?
— Claro.
— Mas aquelas pessoas…
— Algumas confundem orientação com certeza. Por isso existem regras.
Meu pai apontou discretamente para o grupo de empresários.
— Quanto mais dinheiro uma pessoa tem, mais acostumada ela fica a comprar respostas. Só que certas respostas não estão à venda.
— E você aceita dinheiro.
— Aceito contribuições.
— Pai.
— Também aceito dinheiro.
Pelo menos era sincero.
Ele explicou que o templo precisava de manutenção, impostos, comida, materiais e reparos. As raízes medicinais que vendia ajudavam bastante, principalmente nos meses em que quase ninguém aparecia. Quando pessoas ricas insistiam em fazer doações grandes depois de uma consulta, ele aceitava dentro de limites.
— E por que elas chamam você de mestre?
— Porque gostam de títulos.
— E você deixa.
— Você queria que eu mandasse chamar de quê? Seu pai?
Quase ri.
Segurei.
Ainda tinha assuntos importantes.
— Você queria que eu herdasse aquilo.
— Queria que alguém continuasse cuidando do templo.
— Eu.
— Você era a única outra pessoa morando lá.
— Então você queria decidir minha vida.
Meu pai respirou fundo.
— Nisso eu errei.
A resposta me pegou desprevenida.
Ele não tentou justificar.
Não disse que era para meu bem.
Apenas admitiu.
— Depois que sua mãe morreu, fiquei com medo de perder tudo o que restava da nossa família — continuou. — O templo, você, os ensinamentos. Passei anos falando como se seu talento criasse uma obrigação. Não cria.
Minha garganta apertou.
Eu tinha imaginado aquela discussão centenas de vezes.
Em todas as versões, ele insistia.
Na realidade, ele estava aceitando minha escolha.
— Então por que ficou tão contrariado quando passei na universidade?
— Porque você estava indo embora sem saber cozinhar direito.
— Eu sei cozinhar.
— Macarrão instantâneo não é cozinhar.
— Não mude de assunto.
Ele sorriu.
— Também fiquei preocupado porque fiz aquela consulta.
— Água sobre Montanha.
— Obstáculo.
— Acertou.
— Não gosto de acertar quando é você.
A brincadeira desapareceu no final da frase.
Foi quando finalmente entendi uma coisa simples.
Meu pai não tinha tentado me impedir porque queria uma sucessora obediente.
Ele estava com medo.
Só não sabia dizer de um jeito normal.
Levantei do banco.
O grupo do portão ainda esperava.
Alguns começaram a se aproximar quando perceberam que nossa conversa terminara.
Um homem que eu reconhecia da manhã anterior foi o primeiro.
— Mestre, finalmente o senhor chegou.
Meu pai ficou sentado.
— Vim buscar minha mochila.
O homem apontou para mim.
— Sua filha pode me receber? Pago R$ 200 mil por meia hora.
— Pergunte a ela.
Ele realmente deixou a decisão comigo.
O empresário se virou.
— É uma questão sobre uma aquisição. Preciso saber se devo assinar.
Por reflexo, meus olhos foram para o rosto dele.
Vi tensão.
Cansaço.
Uma marca estranha perto das têmporas.
Senti aquela impressão chegando.
Parei.
Eu podia tentar interpretar.
Mas não queria.
— Não.
Ele achou que eu estava respondendo sobre o negócio.
— Então não devo assinar?
— Não. Eu não vou responder.
O homem franziu a testa.
— Estou oferecendo R$ 200 mil.
— Use parte desse dinheiro para contratar uma boa auditoria jurídica e financeira.
Algumas pessoas riram.
Ele não.
— Seu pai poderia responder.
— Meu pai responde por ele. Eu respondo por mim.
Atrás de mim, ouvi meu pai soltar um pequeno “hum” de aprovação.
O empresário saiu contrariado.
Veio uma mulher.
— Só quero saber se minha filha vai voltar para o namorado.
— Converse com sua filha.
Outro homem perguntou sobre eleição interna numa empresa.
Recusei.
Um terceiro queria números para aposta.
Meu pai finalmente se levantou.
— Esse eu também quero ouvir.
Empurrei o ombro dele.
— Para.
Em menos de vinte minutos, a maioria percebeu que não receberia consultas improvisadas na porta da universidade.
Alguns foram embora.
Os antigos clientes do meu pai aproveitaram para cumprimentá-lo.
Vi então uma versão dele que eu raramente observava.
Ele não bajulava ninguém.
Não mudava o tom por causa de dinheiro.
Um empresário falava com ele da mesma maneira que um senhor simples que cuidava do estacionamento do campus.
E meu pai respondia aos dois com a mesma atenção.
Talvez eu tivesse confundido teatralidade com desonestidade.
A túnica.
O incenso.
As moedas.
Os rituais.
Tudo aquilo parecia tão absurdo para mim que eu nunca tinha parado para observar a forma como ele realmente tratava as pessoas.
Júlia se aproximou quando o movimento diminuiu.
— Posso fazer uma pergunta?
— Depende.
Ela sorriu.
— Não é sobre meu futuro.
— Então pode.
Ela tirou o lenço Gucci da bolsa.
— Você ainda pretende lavar isso antes de devolver?
Olhei para a mancha de terra que eu tinha deixado no tecido no dia anterior.
— Pretendo.
— Fique com ele.
— Não quero.
— Então considere pagamento.
Meu rosto fechou.
Júlia imediatamente levantou as mãos.
— Calma. Pagamento pelo serviço de lavanderia que você vai ter para limpar sua própria sujeira.
Eu ri.
Dessa vez não consegui evitar.
Foi a primeira vez desde que descera da montanha que senti alguma coisa próxima de normalidade.
Mas os dias seguintes provaram que normalidade seria um conceito relativo.
Os vídeos continuaram circulando.
A administração da universidade precisou pedir que pessoas de fora não bloqueassem a entrada.
Recebi mensagens oferecendo dinheiro, presentes e até um carro em troca de consultas particulares.
Recusei todas.
Uma semana depois, um homem tentou enviar um relógio caríssimo para o alojamento.
Mandei devolver.
Meu pai aprovou.
— Você está aprendendo.
— A dizer não?
— Essa é uma das partes mais difíceis.
Ele ficou alguns dias em São Paulo.
Não para me vigiar.
Foi o que ele garantiu.
Na prática, aparecia todos os dias com comida.
Também trouxe minha mochila correta.
Quando a abriu, encontrei roupas dobradas, meus livros e um pote enorme de raízes secas.
— Pai.
— Faz bem para a saúde.
— Eu moro com outras pessoas. Vão pensar que guardo galhos de árvore debaixo da cama.
— Se perguntarem, cobre pela consulta.
Joguei uma almofada nele.
Ainda assim, naquela semana comecei a fazer algo que nunca tinha feito voluntariamente.
Pedi que me ensinasse.
Não para largar a faculdade.
Não para voltar ao templo.
Não para me tornar a sucessora que ele imaginara.
Eu só queria entender o que estava acontecendo comigo.
Começamos pelas regras.
Nunca criar medo para aumentar dependência.
Nunca prometer cura.
Nunca substituir médico, advogado ou qualquer profissional necessário.
Nunca usar informações íntimas que alguém não pediu para ouvir.
Nunca transformar uma possibilidade em sentença.
E, principalmente, nunca achar que perceber alguma coisa tornava alguém superior aos outros.
— Esse é o erro que acaba com muita gente — meu pai explicou. — Um acerto faz a pessoa acreditar que nunca mais vai errar.
Anotei essa frase.
Com o tempo, compreendi que as moedas não eram uma máquina de respostas.
A leitura dependia de contexto.
Minha percepção também.
O caso de Júlia tinha sido intenso porque o risco era imediato.
Nem todo rosto carregava um aviso.
Nem toda sensação significava alguma coisa.
E, sim, às vezes eu interpretava errado.
Curiosamente, descobrir que eu podia errar me deixou mais tranquila.
Significava que eu ainda precisava pensar.
Ainda precisava estudar.
Ainda precisava ser responsável.
Eu não era uma personagem escolhida pelo destino.
Era apenas uma garota com uma habilidade incomum e um pai muito menos inútil do que eu imaginava.
Dois meses depois, voltei à Serra da Mantiqueira num fim de semana.
O templo parecia exatamente igual.
Uma telha continuava torta.
A porta rangia.
O pequeno pátio estava cheio de folhas.
Meu pai colocou a velha túnica e perguntou se eu finalmente tinha voltado para assumir meu lugar.
— Vim visitar.
— Posso sonhar.
— Sonhe baixo.
Ele apontou para a placa do templo.
— Um dia isso será seu.
— Pai.
— O terreno também.
— Pai.
— E as raízes.
— Fico só com as raízes.
Ele riu.
Naquele mesmo dia, apareceu um casal simples da cidade próxima.
Não chegou de Bentley.
Veio num carro antigo.
A mulher estava nervosa.
O marido parecia constrangido.
Meu pai os recebeu sem cobrar nada.
Conversou mais do que fez qualquer ritual.
No fim, sugeriu que procurassem orientação jurídica sobre um problema de herança, porque aquilo não seria resolvido com previsão.
Quando eles saíram, coloquei as mãos na cintura.
— Então o famoso mestre manda clientes procurarem advogado?
— Frequentemente.
— Isso é péssimo para sua reputação de homem misterioso.
— Por isso uso a túnica.
Olhei para ele e balancei a cabeça.
Durante anos eu tinha enxergado apenas o que confirmava minha própria opinião.
Um homem desleixado.
Uma bolsa velha.
Raízes espalhadas.
Gente rica chegando.
Uma túnica teatral.
Eu montara minha conclusão antes mesmo de fazer as perguntas.
Meu pai não era perfeito.
Tinha sido insistente.
Tinha tentado empurrar para mim um futuro que eu não queria.
E sua mania de responder perguntas com outras perguntas continuava insuportável.
Mas não era um golpista.
Eu precisei sair da montanha para finalmente enxergá-lo.
No domingo à tarde, preparei minha mochila para voltar a São Paulo.
Dessa vez conferi três vezes se era a minha.
Meu pai me acompanhou até o começo da trilha.
— Vai voltar nas férias?
— Talvez.
— Posso preparar seu quarto.
— Ele continua sendo meu quarto.
— Posso preparar sua túnica.
— Nem pense nisso.
Andei alguns metros.
Então parei.
Voltei e retirei da mochila um pequeno pacote com papéis amarelos e um pincel.
Meu pai arqueou as sobrancelhas.
— Você não disse que isso era coisa de charlatão?
— Estou levando para estudar.
— Claro.
— Não sorria assim.
— Não estou sorrindo.
Estava.
Desci a trilha sem fugir.
Essa foi a diferença.
Eu continuaria na universidade.
Terminaria meu curso.
Construiria minha própria profissão e decidiria sozinha quanto espaço aquela herança estranha teria na minha vida.
Se um dia ajudasse alguém com aquilo, seria porque eu escolhera fazê-lo.
Não porque meu pai tinha decidido meu destino.
Nem porque pessoas ricas estavam dispostas a pagar por respostas.
Antes de a trilha fazer a curva, ouvi sua voz atrás de mim:
— Menina!
Virei.
Ele levantou uma sacola.
— Você esqueceu suas raízes!
— Pode ficar com elas!
— São ótimas!
— Tchau, pai!
Continuei andando.
Dessa vez, nenhum cachorro apareceu.
Nenhum ônibus quebrou.
Nenhuma peça de metal caiu perto de mim.
Quando cheguei a São Paulo, Júlia mandou uma mensagem dizendo que o apartamento finalmente estava seguro e que queria pagar um café.
Aceitei o café.
Recusei qualquer consulta.
Na semana seguinte, ainda havia algumas pessoas esperando perto da universidade.
Depois foram diminuindo.
Perceberam que a “filha do mestre” não vendia certezas.
E foi melhor assim.
Quanto a mim, finalmente entendi que não precisava escolher entre negar completamente de onde eu vinha e deixar que aquilo decidisse quem eu seria.
Meu pai tinha me dado um conhecimento.
A vida me daria muitos outros.
O caminho, porém, continuaria sendo meu.
E, pela primeira vez desde que deixei a montanha, segui em frente sem sentir que estava fugindo de alguma coisa.
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