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Fugi do templo do meu pai achando que ele era um charlatão — até enxergar um presságio terrível no meu primeiro dia de faculdade

Parte 3

Fiquei encarando Álvaro como se ele tivesse acabado de afirmar que meu pai podia voar. Júlia permanecia ao lado dele, ainda segurando o talismã manchado, enquanto ao nosso redor se formava um círculo de curiosos. Meu primeiro impulso foi negar tudo e sair andando. O segundo foi perguntar exatamente quanto dinheiro meu pai tinha arrancado daquele homem.

— O senhor deve estar confundindo — falei. — Meu pai mora num templo velho, cava raízes na montanha e passa metade do tempo usando uma sacola que ele nem sabe que é de grife.

Álvaro soltou uma risada curta.

— Essa sacola era minha.

Pisquei.

— Como?

— Eu deixei algumas coisas no templo anos atrás. A bolsa estava junto. Seu pai achou resistente e resolveu usá-la para carregar raízes.

Fechei os olhos.

Aquilo explicava muita coisa que eu preferia não saber.

Álvaro não tentou transformar meu pai num santo. Disse apenas que havia procurado o templo num período em que tomava decisões precipitadas por causa de problemas na empresa. Meu pai não lhe dera números de loteria, não prometera riqueza e nem cobrara uma fortuna para “quebrar maldição”.

Na verdade, segundo ele, meu pai tinha se recusado a responder a maior parte das perguntas.

— Seu pai me disse uma coisa que me deixou furioso na época — contou Álvaro. — Falou que eu não precisava de previsão, precisava parar de tomar decisões importantes quando estava com medo. Mandou que eu revisasse documentos, conversasse com minha família e voltasse depois de uma semana se ainda quisesse uma consulta.

Aquilo soava irritantemente como meu pai.

Álvaro tinha voltado.

Dessa vez, mais calmo.

E meu pai fizera uma leitura que, segundo ele, o ajudara a perceber um risco que já existia diante dos próprios olhos.

— Ele não resolveu minha vida — Álvaro acrescentou. — Só me fez enxergar o que eu estava ignorando.

Eu não sabia o que responder.

Durante anos eu imaginara empresários sendo enganados por frases vagas e fumaça de incenso. Nunca tinha considerado que talvez eles voltassem porque meu pai se recusava justamente a dizer o que queriam ouvir.

A situação piorou quando um dos vídeos gravados na entrada começou a circular entre os estudantes.

Ainda naquela tarde, desconhecidos me abordaram no corredor.

Uma garota pediu que eu dissesse se o namorado a traía.

Um rapaz queria saber se passaria num concurso.

Outro perguntou quais números deveria escolher numa aposta.

— Não sei — respondi às três perguntas.

— Mas você salvou a Júlia — insistiu o rapaz.

— Eu percebi um risco. É diferente.

Eu estava repetindo uma frase que ouvira meu pai dizer centenas de vezes.

Quando percebi isso, fiquei ainda mais irritada.

Passei o restante do dia tentando resolver assuntos normais: carteirinha, documentação, horário das aulas, informações sobre moradia estudantil. Mas tudo parecia ter mudado. Em qualquer rosto que eu observava por tempo demais, detalhes começavam a se destacar de uma maneira que antes eu jamais tinha notado.

Não eram palavras flutuando sobre a cabeça das pessoas.

Era muito mais sutil.

Uma cor incomum na pele.

Uma contração perto dos olhos.

Um brilho estranho.

Uma sensação que surgia primeiro no peito e só depois se organizava na minha cabeça.

Meu pai passara a infância inteira me ensinando a observar pessoas.

Eu só nunca tinha percebido que aquilo era treinamento.

Quando eu tinha oito anos, ele perguntava qual visitante estava ansioso antes de entrar no templo.

Aos dez, me fazia dizer quem tinha vindo por vontade própria e quem havia sido levado por outra pessoa.

Mais tarde, me ensinou os hexagramas como se fossem apenas um jogo de memória.

Eu reclamava.

Ele dizia:

— Aprenda primeiro. Acredite depois, se quiser.

Na época, eu achava aquilo uma bobagem típica dele.

Agora a frase me incomodava como uma pedra dentro do sapato.

No fim da tarde, Júlia insistiu em me levar ao apartamento depois que o técnico concluiu o reparo. Eu não queria ir, mas precisava devolver o lenço e, no fundo, também queria saber se o talismã tinha escurecido por causa da tinta, da umidade ou de alguma coisa que eu não conseguia explicar.

O apartamento ficava num prédio moderno a poucos minutos da universidade.

Quando entramos, ainda havia cheiro de obra recente.

O técnico mostrou o aquecedor desligado e explicou o problema que tinha encontrado.

A conexão já tinha sido refeita.

A ventilação também seria corrigida.

Tudo parecia normal.

Até eu passar perto de um armário estreito junto à área de serviço.

O papel amarelo que Júlia carregava dobrou sozinho no meio.

Parei.

— Não mexe nisso.

— No quê?

Apontei para o armário.

Júlia chamou o técnico de volta.

Ele pareceu pouco convencido, mas abriu o compartimento e verificou as conexões próximas. Depois de alguns minutos, chamou outro funcionário.

Havia uma segunda mangueira flexível, ligada a um ponto que alimentava o fogão, escondida atrás do móvel planejado.

A instalação tinha sido feita de forma inadequada.

O vazamento era pequeno.

Tão pequeno que não aparecera na primeira inspeção rápida.

O técnico ficou sério.

Desligou o registro geral.

Júlia apertou o talismã entre os dedos.

Eu fiquei olhando para o papel.

— Isso não pode estar acontecendo.

Ela soltou uma risada nervosa.

— Está literalmente acontecendo.

— Eu desenhei isso sem nem saber direito o que estava fazendo.

— Talvez você soubesse.

A frase me atingiu de uma maneira desagradável.

Porque talvez ela estivesse certa.

Naquela noite, liguei para meu pai.

Ele atendeu no segundo toque.

— Já chegou?

Nenhuma preocupação.

Nenhuma pergunta.

Apenas aquele tom tranquilo.

— Pai.

— Hum?

— Você sabia que eu ia pegar sua mochila?

— Não.

A resposta veio rápida demais para parecer inventada.

— Então por que ela estava do lado da minha?

— Porque você deixou sua mochila ao lado da minha.

— E por que não me impediu?

— Eu encontrei você no caminho.

— Você podia ter dito que eu estava com a mochila errada!

Ele ficou quieto por um instante.

— Podia.

— Pai!

Ouvi sua risada baixa do outro lado.

— Se eu contasse, você voltaria para trocar?

Pensei.

— Não.

— Então pronto.

Cerrei os dentes.

— Hoje eu vi uma coisa na testa de uma garota.

O tom dele mudou.

— Que coisa?

Expliquei tudo.

O metal que caiu.

As moedas.

O aquecedor.

O papel que escureceu.

A segunda conexão.

Ele ouviu sem interromper.

Quando terminei, perguntei:

— Isso é real?

Meu pai demorou alguns segundos para responder.

— Você viu acontecer.

— Não foi isso que eu perguntei.

— Então faça a pergunta certa.

Eu odiava quando ele falava assim.

— Você é mesmo um mestre?

Ele começou a tossir.

Eu conhecia aquela tosse.

Era a tosse que usava para disfarçar risadas.

— Estou falando sério.

— Eu também.

— Então responda.

— Menina, eu passei dezoito anos dizendo que você tem talento. Você passou dezoito anos dizendo que eu era um vigarista. Agora quer que eu resolva essa discussão em dois minutos pelo telefone?

Afastei o celular da orelha para não gritar.

— Tem gente rica vindo atrás de mim!

— Já?

A surpresa dele pareceu genuína.

— O que quer dizer com “já”?

— Nada.

— Pai.

— Não aceite dinheiro.

— Eu não ia aceitar.

— Não diga às pessoas quanto tempo elas vão viver. Não mexa com doença como se substituísse médico. Não prometa resultado. Não use medo para fazer alguém depender de você.

Fiquei em silêncio.

Ele recitou aquelas regras sem hesitar.

Não pareciam regras de um golpista.

— E se eu não quiser nada disso?

A resposta veio sem brincadeira.

— Então não faça.

Aquilo me desmontou mais do que qualquer revelação.

Passei anos convencida de que meu pai queria me prender à montanha.

— Você disse que eu tinha que herdar o templo.

— Eu disse que você tinha capacidade.

— Não é a mesma coisa.

— Exatamente.

Olhei pela janela do quarto onde estava hospedada temporariamente.

— Eu quero estudar.

— Então estude.

— Quero ter uma profissão normal.

— Tenha.

— E não quero um monte de gente me seguindo.

— Essa parte talvez dê um pouco mais de trabalho.

Antes que eu perguntasse o que ele queria dizer, alguém bateu à porta do quarto.

Era Júlia.

Atrás dela estava o segurança do prédio.

E atrás dele havia três pessoas que eu nunca tinha visto.

Uma mulher segurava um cartão de visita.

Um homem carregava uma pasta.

O terceiro vestia um terno que provavelmente custava mais do que toda a mobília do meu quarto.

— Como eles descobriram onde estou? — perguntei.

Júlia fez uma expressão de culpa.

— O vídeo se espalhou.

O homem de terno se aproximou.

— Desculpe incomodar. Conheço seu pai há muitos anos.

Outro nome.

Outro empresário.

Outro visitante antigo do templo.

Recusei atendê-los.

Na manhã seguinte, havia mais.

Não na porta do quarto, porque a administração do alojamento impediu a entrada.

Na entrada da universidade.

Dois carros importados.

Depois quatro.

Depois sete.

Ao chegar para a primeira aula, encontrei um grupo esperando perto do portão.

Alguns eram antigos clientes do meu pai.

Outros tinham ouvido falar de Júlia.

Um homem ofereceu R$ 50 mil por uma consulta particular.

Uma mulher disse que pagaria R$ 120 mil se eu dissesse se ela deveria vender a participação em uma empresa.

Outro quis saber se o filho deveria se casar.

Meu estômago embrulhou.

Eu entendia naquele instante por que meu pai parecia tão cansado depois de certos dias.

Gente desesperada não queria orientação.

Queria certeza.

E estava disposta a pagar qualquer preço por ela.

— Eu não vou atender ninguém — declarei.

Alguns aceitaram.

Outros insistiram.

Quando tentei atravessar o grupo, um homem segurou meu braço.

— É só uma pergunta.

Puxei meu braço de volta.

— Para o senhor pode ser só uma pergunta. Para mim, é a minha vida.

Ele pareceu ofendido.

Naquele momento, ouvi um som conhecido.

Uma tosse exagerada.

Virei devagar.

Meu pai estava parado do outro lado da rua.

Sem a túnica elegante.

Sem pose de mestre.

Usava uma calça velha, sandálias gastas e carregava nas costas outra sacola enorme cheia de raízes.

Ele observou os carros importados, depois olhou para mim.

E sorriu.

— Eu avisei que sua descida teria obstáculos.

Minha raiva voltou inteira.

Atravessei o portão na direção dele.

— Você vai me explicar tudo.

Ele inclinou a cabeça.

— Tudo é muita coisa.

— Então comece explicando por que metade dos milionários de São Paulo parece conhecer você.

Pela primeira vez desde que o vi, meu pai não respondeu imediatamente.

Apoiou a sacola no chão.

Depois me encarou com uma seriedade que fez desaparecer toda vontade de brincar.

— Certo. Mas antes você precisa decidir uma coisa.

— O quê?

Ele apontou para a multidão atrás de mim.

— Se vai passar a vida fugindo do que sabe fazer ou se vai aprender a controlar isso antes que os outros tentem controlar por você.

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