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Meu amigo de infância usou minhas fotos para namorar online e, na noite da minha declaração, descobri toda a mentira

Parte 3

Caio olhou primeiro para Rafael, depois para mim. Pela primeira vez desde que eu o conhecia, pareceu não encontrar uma resposta pronta.

— Que exagero — disse, enfim. — Eu só precisava deixar a história convincente.

A frase me atingiu pior do que uma desculpa ruim. “A história.” Minha rotina, meu rosto, minhas roupas, as fotos que eu mandava confiando nele, tudo tinha sido reduzido a material para uma brincadeira.

— Convincente para quem? — perguntei. — Para o homem que você enganou ou para mim, que passei anos acreditando que podia confiar em você?

Caio apertou a mandíbula.

— Júlia, eu ia apagar tudo depois.

— Depois de quê?

Ele não respondeu.

Rafael continuava com o celular na mão, mas não se aproximou de mim novamente. Havia raiva em seu rosto, porém também um cuidado que eu não esperava depois das histórias assustadoras que tinha acabado de ouvir.

— Quero saber exatamente o que você enviou — falei para Caio.

— Não precisa transformar isso num caso.

— Eu não pedi sua opinião.

Um dos rapazes que havia saído com ele baixou os olhos. Era justamente o amigo que, minutos antes, dissera que pretendia se declarar para mim.

Ele passou a língua pelos lábios, nervoso.

— Caio…

— Fica quieto.

— Não. Já fiquei quieto demais.

Caio virou o rosto bruscamente.

O rapaz continuou:

— Você mandava para ele praticamente tudo que a Júlia mandava para você. Foto, comentário sobre prova, onde ela ia passar o fim de semana. Quando ele perguntava alguma coisa, você abria a conversa dela para copiar a resposta.

Meu estômago se contraiu.

Não era uma nova descoberta absurda. Era simplesmente a extensão lógica daquilo que eu já tinha ouvido atrás da porta. Ainda assim, escutar em voz alta fez a traição ganhar outro peso.

— Há quanto tempo vocês sabiam?

O rapaz respirou fundo.

— Desde o começo.

Olhei para os dois amigos que estavam alguns passos atrás de Caio.

Nenhum conseguiu encarar meu rosto.

— E ninguém achou que devia me contar?

— Júlia, eu queria…

— Não quero justificativa.

Minha voz não saiu alta. Isso pareceu incomodar Caio mais do que se eu tivesse gritado.

Ele deu um passo na minha direção.

— Você está fazendo drama por causa de algumas fotos. Eu não mandei nada íntimo.

Recuei.

— Não encosta em mim.

Rafael também se moveu, mas ergui a mão antes que ele interferisse.

Eu não precisava de alguém brigando por mim.

Precisava que Caio entendesse que, dali em diante, quem decidia os limites era eu.

— Você não tinha o direito de mandar foto nenhuma — falei. — Não importa se eu estava de vestido, de moletom ou de pijama. Eu mandei para você.

Caio soltou uma risada nervosa.

— Tá bom. Desculpa. Satisfeita?

Fiquei encarando-o.

Durante anos, eu teria aceitado qualquer pedido de desculpas vindo dele. Talvez tivesse inventado motivos para acreditar que não era tão grave. Talvez até dissesse a mim mesma que ele só era imaturo.

Naquela noite, porém, alguma coisa havia mudado.

— Não.

O sorriso dele sumiu.

— Não estou satisfeita.

Peguei meu celular.

— Rafael, eu quero que você salve a conversa. Não precisa me mandar suas mensagens pessoais, mas quero cópia de tudo que envolver meu nome, minhas fotos e informações sobre mim.

Caio arregalou os olhos.

— Pra quê?

— Para eu saber exatamente até onde você foi.

— Vai me denunciar por uma brincadeira de jogo?

— Ainda não decidi o que vou fazer. Mas você não vai decidir por mim.

Rafael assentiu.

— Eu envio.

Depois olhou diretamente para mim.

— E vou apagar todas as suas fotos do meu celular assim que você confirmar que recebeu os registros de que precisa.

Caio riu com desprezo.

— Agora você virou santo?

Rafael apertou o telefone com força, mas não avançou.

— Não. Eu fui enganado porque confiei em uma pessoa que não existia. Isso já é humilhante o suficiente. Não preciso piorar fazendo com ela o que você fez.

Aquela resposta calou o grupo.

Eu me lembrei das histórias que os amigos de Caio tinham contado. O jogador violento. O rapaz instável. O sujeito que não aceitava ser enganado.

Olhei para Rafael novamente.

Não sabia quais histórias eram verdadeiras, exageradas ou simplesmente fofocas. Mas a pessoa diante de mim havia parado quando mandei que me soltasse, pedido desculpas e, naquele momento, estava respeitando minha decisão.

Caio, que eu conhecia havia quase toda a vida, não conseguia fazer o mesmo.

Meu celular tocou.

Era minha mãe.

Provavelmente queria saber por que eu ainda não tinha enviado nenhuma foto da festa.

Recusei a chamada e escrevi que voltaria para casa cedo.

Caio percebeu.

— Vai mesmo embora por causa disso?

Olhei para ele.

— Não. Estou indo embora porque descobri quem você é quando acha que eu não estou olhando.

Ele respirou fundo.

— Júlia, para com isso. Amanhã você vai estar mais calma.

Aquilo me irritou de um jeito diferente.

— Você ainda acha que sabe o que eu vou fazer amanhã.

Ele abriu a boca.

Não deixei continuar.

— Você disse para todo mundo que eu me declararia para você hoje, não disse?

O rosto do amigo dele mudou.

Caio permaneceu quieto.

Abri minha bolsa e tirei um pequeno pedaço de papel que havia ficado preso no fundo depois que rasguei a carta.

Ainda dava para ver parte da minha letra.

“Caio, eu gosto de você desde…”

Mostrei a ele.

— Você estava certo.

Ele olhou fixamente para o pedaço de papel.

— Eu ia me declarar.

A expressão dele se transformou imediatamente. A arrogância cedeu lugar a algo parecido com alívio.

Como se, apesar de tudo, aquela informação ainda lhe desse algum poder.

— Eu sabia — murmurou.

Rasguei o último pedaço diante dele.

— Ia.

Deixei os restos caírem dentro da bolsa.

— Não vou mais.

Caio ficou pálido.

Não sei se aquilo feriu seu orgulho ou seus sentimentos. Talvez, pela primeira vez, nem ele soubesse a diferença.

— Você está jogando fora anos por causa de uma idiotice.

— Não. Você jogou.

Virei-me para Rafael.

— Mande os registros para este número.

Ditei um telefone secundário que usava no computador e pedi que ele não compartilhasse meu contato principal com ninguém.

Depois caminhei até o ponto onde havia chamado um carro pelo aplicativo.

Caio me seguiu.

— Júlia.

Continuei andando.

— Júlia, olha pra mim.

Parei.

Não por obediência.

Porque não queria que ele confundisse minha saída com fuga.

— O que você quer?

Ele parecia irritado e perdido ao mesmo tempo.

— Eu já pedi desculpa.

— Você disse “desculpa” como quem derruba um copo na mesa.

— O que mais você quer que eu faça?

Pensei antes de responder.

Era uma pergunta importante.

Naquela tarde, se alguém me perguntasse o que eu queria de Caio, eu provavelmente teria dito amor.

Agora minha resposta era outra.

— Pare de usar qualquer foto minha. Apague tudo que salvou para essa conta. Não fale em meu nome. Não procure Rafael fingindo que sou eu. E não tente convencer seus amigos a esconder mais nada.

Ele soltou uma risada amarga.

— Virou advogada agora?

— Não. Só aprendi a dizer não.

Meu carro chegou.

Entrei sem olhar para trás.

Durante o trajeto, Rafael enviou uma pasta com capturas de tela e um vídeo de rolagem da conversa. Não abri tudo de imediato.

Li apenas o suficiente para confirmar que Caio havia usado meses da nossa intimidade cotidiana para construir uma personagem.

Ele copiava minhas frases.

Transformava reclamações minhas sobre provas em mensagens românticas.

Quando eu dizia que estava cansada, ele escrevia para Rafael que “ela” precisava de carinho.

Quando eu mandava uma foto perguntando se determinada roupa estava bonita, minutos depois a mesma imagem aparecia naquela conversa.

Senti vergonha.

Depois percebi que a vergonha estava no lugar errado.

Eu não tinha enganado ninguém.

Não tinha roubado a identidade de ninguém.

Não havia feito nada além de confiar numa pessoa que fazia parte da minha vida desde a infância.

Na manhã seguinte, contei tudo aos meus pais.

Minha mãe ficou tão indignada que queria ligar para a família de Caio imediatamente.

Meu pai perguntou se eu desejava que ele resolvesse aquilo.

Balancei a cabeça.

— Quero que vocês fiquem comigo. Resolver, eu vou resolver.

Guardei as mensagens, fiz cópias e anotei as datas. Também alterei senhas antigas que Caio talvez conhecesse por causa dos anos em que estudávamos e jogávamos juntos.

Depois bloqueei o acesso dele aos meus álbuns privados.

Passei a manhã inteira fazendo coisas que pareciam pequenas.

Mas cada uma delas fechava uma porta que eu havia deixado aberta por confiança.

À tarde, recebi uma mensagem do amigo de Caio.

“Eu devia ter contado. Ele ameaçou envolver os negócios da minha família, mas isso não muda o fato de que fiquei calado. Desculpa.”

Li duas vezes.

Respondi apenas:

“Você teve medo. Eu entendo. Mas eu fui quem pagou por esse silêncio.”

Ele escreveu que entendia.

Não pedi que escolhesse meu lado.

Não precisava.

No fim do dia, Rafael mandou outra mensagem pelo contato secundário.

“Apaguei as fotos. Também denunciei a conta falsa dentro do jogo. Se precisar confirmar alguma coisa sobre a conversa, respondo. Fora isso, não vou incomodar você.”

Fiquei olhando para a tela.

Aquilo foi o oposto do que eu esperava de alguém que, poucas horas antes, surgira correndo atrás de mim como se o mundo estivesse terminando.

Respondi:

“Obrigada por respeitar isso.”

Alguns minutos depois, Caio apareceu diante da minha casa.

Eu o vi pela janela.

Não desci.

Ele tocou o interfone várias vezes até meu pai perguntar se eu queria que o mandasse embora.

— Não.

Peguei o celular e liguei para Caio.

Vi quando ele atendeu do lado de fora do portão.

— Abre — disse.

— Não.

— A gente precisa conversar.

— Amanhã. Em lugar público.

Ele ergueu a cabeça e olhou para a janela.

— Por que lugar público? Você acha que eu vou fazer alguma coisa com você?

— Não sei mais o que esperar de você.

Foi a primeira vez que vi uma frase minha realmente atingi-lo.

Caio ficou quieto.

Eu continuei:

— Amanhã, às duas da tarde. Na cafeteria em frente ao hotel. Quero que você leve o celular e encerre isso na minha frente.

— Encerrar o quê?

— A mentira que você criou usando meu rosto.

Fechei a cortina.

Na manhã seguinte, pouco antes do encontro, recebi uma notificação da plataforma do jogo informando que a denúncia relacionada à conta havia entrado em análise.

Logo depois, outra mensagem chegou.

Era de Caio.

“Se você fizer isso virar um escândalo, não pense que só eu vou sair machucado.”

Li uma vez.

Depois salvei a mensagem junto com todas as outras.

Caio ainda achava que medo era uma forma de me manter perto.

Naquela tarde, eu faria questão de mostrar que não era mais.

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