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Meus pais ricos desprezaram minha cartomancia, até eu impedir o pior na escola e expor a primeira mentira da filha adotiva

Parte 3

Aluguei um quarto mobiliado numa pequena pensão perto da escola. Não havia lustre, closet nem banheiro maior que o quarto onde eu dormia no abrigo, mas a janela recebia sol pela manhã e ninguém entrava sem bater. Com o dinheiro que eu havia guardado fazendo consultas antes de ser encontrada pelos Lins, eu conseguia pagar alguns meses de aluguel e despesas básicas.

A mensalidade daquele ano letivo já estava paga, portanto continuei estudando normalmente. Meu pai mandou três mensagens no primeiro dia. Minha mãe mandou sete. Nenhum deles escreveu “desculpa”.

As mensagens variavam entre “volte para conversarmos” e “você está levando isso longe demais”. Respondi apenas que estava segura e que continuaria frequentando as aulas. Depois silenciei o grupo da família.

Na escola, Samuel não fez nenhuma pergunta quando viu que eu estava chegando de ônibus em vez de sair do carro dos meus pais. Apenas colocou sobre minha carteira um pão de queijo e uma caixinha de suco.

— O Deus da Fortuna mandou.

— O Deus da Fortuna tem bom gosto.

Ele sorriu.

Percebi que as olheiras continuavam ali, mas estavam menos profundas.

Samuel havia ido à psicóloga da escola. Depois, com ajuda dela, conversara com um médico e começara a tratar seriamente a insônia e as crises de ansiedade. Não me contou detalhes, e eu também não perguntei.

Naquela semana, ele me mostrou o cordão vermelho.

— Isso aqui realmente não tem poder nenhum, tem?

Inclinei a cabeça.

— Como ousa insultar uma relíquia espiritual raríssima que me custou dois reais e cinquenta?

Ele soltou uma risada curta.

Depois ficou sério.

— Estou perguntando de verdade.

Girei uma das moedas antigas entre os dedos.

— Algumas coisas têm o poder que a gente dá a elas. O cordão não fez você dormir. Você decidiu ir para a cama. E decidiu procurar ajuda depois.

— E como você sabia das três da manhã?

— Segredo profissional.

Ele estreitou os olhos.

— Charlatã.

— Cliente ingrato.

A verdade era mais complicada. Eu realmente gostava de rituais, símbolos e técnicas antigas que aprendera ao longo dos anos, mas também aprendera a observar pessoas porque, no abrigo, isso podia ser a diferença entre evitar uma briga e entrar numa.

Samuel tinha tremores leves nas mãos, olhos muito irritados, três latas de energético sobre a carteira e um relógio inteligente que mostrava uma frequência cardíaca alta mesmo quando estava sentado. Quando mencionei três da manhã, sua expressão havia entregado o resto antes que dissesse qualquer coisa.

Às vezes eu acertava por observação.

Às vezes por experiência.

E algumas vezes havia coincidências que eu preferia deixar sem explicação.

Não precisava convencer ninguém.

No fim daquela semana, minha mãe apareceu na saída da escola.

Estava sozinha.

Não usava o sorriso social que costumava vestir quando falava com professores ou outros pais.

— Podemos conversar?

Sentamos numa cafeteria pequena do outro lado da rua.

Ela passou vários segundos mexendo numa colher dentro de uma xícara que já não precisava ser mexida.

— Seu pai está muito bravo.

— Imagino.

— Ele acha que você está tentando nos punir.

— Eu estou tentando respirar.

Minha mãe levantou os olhos.

— Júlia não está bem desde que você saiu.

— E eu estava bem quando vocês me acusaram duas vezes sem me perguntar o que aconteceu?

Ela abriu a boca, mas não respondeu imediatamente.

Continuei:

— Mãe, eu não quero tirar o lugar da Júlia. Nem o quarto dela, nem a atenção dela, nem os amigos dela. Eu só não aceito que meu lugar dependa de eu estar sempre errada para ela continuar parecendo certa.

Minha mãe baixou o olhar.

— Ela tem medo de perder a família.

— Eu também tive.

A frase saiu mais baixa do que eu pretendia.

Por alguns instantes, nenhuma de nós disse nada.

— Eu passei anos imaginando como seria ter mãe e pai — falei. — Quando vocês apareceram, pensei que talvez eu finalmente tivesse chegado ao lugar onde não precisaria provar que merecia ficar. Só que, desde o primeiro dia, tudo que faço parece um teste.

Ela apertou a alça da bolsa.

— Nós não soubemos lidar com a situação.

— Ainda não sabem.

Quando me levantei, minha mãe tentou segurar minha mão.

Não puxei.

Mas também não sentei novamente.

— Eu posso voltar a conversar quando vocês estiverem prontos para falar do que fizeram, e não só do que querem que eu faça.

Foi minha primeira regra.

Pequena.

Mas minha.

Dois dias depois, Júlia apareceu na pensão.

O interfone tocou perto das oito da noite.

Quando desci, ela estava na entrada usando um casaco caro, braços cruzados e uma expressão que oscilava entre raiva e cansaço.

— Então é aqui que você mora?

— Por enquanto.

— Parece horrível.

— Ninguém me chama de charlatã no café da manhã. Compensa.

Ela respirou fundo.

— Papai ainda não desbloqueou meu cartão.

— Eu não sou o banco.

— Você sabe que isso aconteceu por sua causa.

Balancei a cabeça.

— Aconteceu porque você mentiu.

Júlia avançou um passo.

— Antes de você aparecer, estava tudo bem.

Dessa vez não havia amiga filmando.

Não havia meus pais por perto.

Só nós duas.

— Para você — respondi.

Os olhos dela ficaram úmidos, mas a voz permaneceu dura.

— Você não entende. Eu passei a vida inteira ouvindo que eles me escolheram. Depois descobriram que você estava viva e começaram a procurar você. Desde então, qualquer pessoa que entra naquela casa fica olhando para mim como se eu fosse uma substituta prestes a vencer a validade.

Aquilo me atingiu.

Não porque justificasse suas mentiras.

Mas porque, pela primeira vez, Júlia estava falando algo verdadeiro.

— Eu nunca pedi para você perder nada.

— Você não precisa pedir. Você tem o sangue deles.

— E durante dezoito anos eu não tive nem o endereço deles.

Ela ficou calada.

— Júlia, eu não sou sua inimiga.

— É fácil dizer isso quando você é a filha que estava faltando.

— E é fácil me tratar como inimiga porque assim você não precisa admitir que está com medo.

Ela me encarou.

— Volta para casa.

Fiquei surpresa.

Júlia rapidamente completou:

— Volta e fala para eles que a história do bar não foi nada demais. Diz que você exagerou. Se você parar de fazer todo mundo pensar que eu sou uma mentirosa, as coisas voltam ao normal.

Ali estava a condição.

Outra vez.

Eu precisava diminuir a verdade para que ela recuperasse conforto.

— Não.

— Helena…

— Eu não vou inventar uma mentira para consertar a consequência de uma mentira sua.

O rosto dela endureceu.

— Então não diga que quer uma irmã.

— Eu quero uma irmã. Só não quero uma dona.

Júlia virou-se.

Antes de sair, olhou para mim.

— Você vai se arrepender.

— Talvez. Mas dessa decisão eu não volto atrás.

Na manhã seguinte, meu pai ligou.

A voz dele estava tão controlada que fiquei imediatamente alerta.

— Venha aqui hoje à noite.

— Para quê?

— Júlia nos contou sobre a conversa de vocês.

Fechei os olhos.

— E o que exatamente ela contou?

— Que você exigiu dinheiro para parar de falar sobre ela na escola.

Demorei alguns segundos para responder.

— Quanto dinheiro?

Houve uma pausa.

— O quê?

— Ela disse quanto eu exigi?

— Venha para casa.

À noite, fui.

Não porque tivesse medo da acusação.

Fui porque estava cansada de resolver tudo através de mensagens.

Júlia já estava na sala. Minha mãe estava sentada ao lado dela. Meu pai permanecia em pé, perto da janela.

Coloquei minha bolsa numa poltrona.

— Vamos começar.

Meu pai franziu a testa.

— Júlia disse que você pediu dinheiro.

Olhei diretamente para ela.

— Quanto?

Ela hesitou.

— Cinquenta mil reais.

— Quando eu pedi?

— Ontem.

— Onde?

— Aqui.

Quase sorri.

— Ontem eu não entrei nesta casa.

Júlia mudou de expressão.

— Eu quis dizer na sua pensão.

— Em que lugar da pensão?

— No seu quarto.

— Você nunca subiu.

Minha mãe virou lentamente o rosto para ela.

Júlia percebeu tarde demais.

— A gente conversou lá fora primeiro e depois…

— Não.

Minha voz permaneceu calma.

— A recepção não permite visitante nos quartos depois das sete. Você chegou às oito. Conversamos na entrada e você foi embora.

— Você está mentindo.

— Então explique por que eu pediria cinquenta mil reais.

— Para ficar quieta!

— Sobre algo que papai e mamãe já sabem?

Júlia abriu a boca.

Nenhuma resposta saiu.

Meu pai cruzou os braços.

— Júlia.

Ela olhou para ele.

— Me dá seu celular.

Foi como se a temperatura da sala tivesse caído.

Júlia agarrou o aparelho com as duas mãos.

— Não.

Meu pai falou novamente:

— Se Helena está inventando tudo, você não tem motivo para continuar mudando sua história. Quero entender o que está acontecendo.

— Vocês não têm direito!

Minha mãe se levantou.

— Ninguém vai arrancar seu celular. Mas chega de respostas diferentes, Júlia. Primeiro você estava estudando. Depois só foi buscar uma amiga no bar. Depois Helena humilhou você sem motivo. Agora ela entrou num quarto onde você nem sequer esteve.

O rosto de Júlia perdeu a cor.

Foi quando percebi que, pela primeira vez desde que eu chegara naquela família, meus pais não estavam olhando para mim esperando que eu cedesse.

Estavam olhando para ela esperando a verdade.

Júlia recuou um passo e apertou o celular contra o peito.

— Vocês querem a verdade?

A voz dela tremeu.

— Então vão ter.

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