Meu padrasto parecia um chefe de gangue e eu morria de medo dele — até encontrar o desabafo que ele fez sobre mim
Parte 3
Fiquei sentada na cama com o celular nas mãos, sem saber se queria rir, chorar ou desaparecer debaixo do cobertor.
Voltei ao início do perfil de Mauro.
Dessa vez, não li como uma desconhecida curiosa. Li sabendo que cada “minha filha” era eu. Cada dúvida constrangida era sobre alguma coisa que eu tinha feito sem imaginar que ele estava prestando atenção.
Havia uma publicação de quase um ano antes.
“Minha enteada vai começar numa escola nova. É estranho oferecer para levar e buscar? Não quero que ela ache que estou tentando controlar a vida dela.”
Lembrei imediatamente daquela época.
Minha mãe havia perguntado se eu queria que Mauro me levasse de carro. Eu respondi depressa que preferia ônibus, porque o ponto ficava perto e eu já conhecia o caminho.
Ele nunca voltou a oferecer.
Na época, pensei que tivesse ficado aliviado por não precisar se preocupar comigo.
No perfil, porém, a postagem seguinte dizia:
“Ela prefere ir sozinha. Tudo bem. Talvez eu tenha de aprender a respeitar o espaço dela.”
Outra, alguns meses depois:
“Comprei um computador melhor para ela estudar. É melhor dizer que fui eu ou deixar minha esposa entregar? Tenho medo de parecer que estou tentando comprar carinho.”
Minha garganta fechou.
O computador tinha aparecido no meu aniversário.
Minha mãe disse apenas que era “da casa”.
Eu agradeci aos dois, mas, como Mauro estava no corredor, imaginei que o presente tivesse sido ideia dela.
Continuei rolando a tela.
“Minha filha tirou nota alta na prova. Quero parabenizar, mas ela fica tensa quando falo sério. Como um pai elogia uma adolescente sem parecer que está fazendo discurso?”
Nos comentários, alguém tinha respondido:
“Só diga parabéns.”
Mauro escreveu:
“Parece simples quando você fala.”
Pela primeira vez, enxerguei algo que nunca havia considerado.
Talvez eu não fosse a única pessoa com medo naquela casa.
Meu medo vinha do tamanho dele, da voz grave, das tatuagens, da experiência que eu tinha tido com meu pai biológico.
O medo de Mauro era diferente.
Ele parecia apavorado com a possibilidade de ultrapassar uma fronteira que eu nunca tinha explicado.
A lembrança das vezes em que ele saía da sala voltou à minha cabeça.
Procurei alguma postagem sobre isso.
Não precisei ir longe.
“Quando minha esposa está conversando com a filha, devo sair para elas terem privacidade? Às vezes fico e parece que a menina fecha a expressão. Então vou para outro lugar. Não quero ocupar um espaço que era das duas antes de mim.”
Fiquei olhando para aquelas palavras durante tanto tempo que a tela escureceu.
Toquei nela novamente.
Eu tinha certeza absoluta de que Mauro levantava quando eu chegava porque não queria ficar perto de mim.
Ele, aparentemente, levantava porque achava que eu não queria ficar perto dele.
A situação era tão absurda que soltei uma risada curta.
Depois meus olhos encheram de lágrimas.
Não era tristeza exatamente.
Era uma mistura de alívio, vergonha e raiva de todas as conclusões que eu tinha construído sozinha.
Mas também não podia culpar apenas a mim.
Mauro tinha quase quarenta e cinco anos.
Eu tinha dezesseis.
Ele era o adulto.
Se estava tão preocupado, poderia ter conversado comigo.
Ao mesmo tempo, lembrei do rosto dele quando me perguntou sobre a camisa rosa.
Aquele homem enfrentava funcionários, fornecedores, clientes furiosos e problemas na estrada sem levantar a voz.
Mas quase não conseguia perguntar à própria enteada se uma roupa tinha ficado boa.
Fechei o perfil.
Desci para tomar água.
Mauro estava sozinho na cozinha, encostado na bancada, comendo uma fatia de bolo diretamente do prato.
Quando me viu, imediatamente pousou o garfo.
— Sua mãe falou que é para deixar metade.
Olhei para o bolo.
— E você deixou?
Ele encarou o pedaço gigantesco no próprio prato.
— Tecnicamente.
Quase ri.
Mauro pareceu perceber.
Por alguns segundos, ficamos naquela situação estranha em que os dois sabiam que poderiam conversar, mas nenhum deles sabia como começar.
Então decidi testar uma coisa.
— Como foi o trabalho hoje?
A reação dele foi tão intensa que quase me arrependi.
Mauro endireitou o corpo.
— O trabalho?
— É.
— Foi… normal.
Esperei.
Ele continuou:
— Um caminhão deu problema no sistema de freio. Outro atrasou uma entrega porque teve acidente na estrada. O fornecedor de peças mandou dois itens errados.
Parou de repente.
— Estou falando demais?
— Não.
— Ah.
Peguei água.
Ele apontou para o bolo.
— Quer?
— Você não tem que guardar metade?
— Posso cortar mais fino para sua mãe.
Dessa vez, ri de verdade.
Mauro também.
Foi uma conversa pequena.
Ridiculamente pequena.
Mesmo assim, quando subi para o quarto, abri o perfil quase automaticamente.
Vinte minutos depois, apareceu uma nova postagem.
“Ela perguntou como foi meu trabalho.”
Apenas isso.
Nos comentários, alguém escreveu:
“E?”
Mauro respondeu:
“E nada. Só estou registrando.”
Outro usuário perguntou:
“Você ficou feliz?”
Ele escreveu:
“Muito.”
Coloquei o celular sobre o peito.
Senti uma culpa leve.
Eu não tinha feito nada de errado de propósito, mas pela primeira vez percebi como meu silêncio também tinha construído uma parede.
Nos dias seguintes, comecei a experimentar pequenas mudanças.
Não mudanças enormes.
Eu ainda não conseguia abraçá-lo de repente ou chamá-lo de pai.
Nem sabia se algum dia faria isso.
Mas comecei a dizer “bom dia” primeiro.
Quando Mauro estava vendo futebol na sala, às vezes sentava no outro sofá em vez de fugir para o quarto.
Perguntei sobre a oficina.
Ele perguntou sobre a escola.
Descobri que Mauro não entendia absolutamente nada de literatura, mas era muito bom com matemática.
Ele descobriu que eu era péssima para estacionar bicicletas até no bicicletário.
Numa quarta-feira, cheguei em casa frustrada por causa de um trabalho de física.
Mauro estava lavando as mãos na área de serviço.
Olhou para minha expressão.
— Aconteceu alguma coisa?
Minha reação automática seria dizer “nada”.
Quase disse.
Mas parei.
— Tenho que montar uma estrutura para um trabalho. A professora quer uma ponte de palitos que aguente peso.
Ele secou as mãos.
— Posso ver?
Levei o material até a mesa.
Mauro analisou meu projeto com uma concentração tão séria que parecia estar avaliando uma ponte verdadeira.
— Aqui vai quebrar.
— Por quê?
Ele apontou.
— Porque você está distribuindo o peso só nessas duas áreas.
Pegou um lápis.
— Se fizer triangulação aqui e aqui, melhora.
Sentamos juntos durante quase uma hora.
Ele não fez o trabalho por mim.
Apenas explicou.
Quando terminamos, a estrutura parecia muito melhor.
Minha mãe chegou e encontrou nós dois inclinados sobre a mesa, discutindo a quantidade de palitos.
Ela ficou parada perto da porta.
— O que está acontecendo?
Mauro respondeu sem olhar:
— Engenharia.
— Vocês dois?
— Não atrapalha.
Minha mãe olhou para mim.
Eu sorri.
Ela não falou nada, mas seu rosto mudou.
Mais tarde, ouvi os dois conversando na cozinha.
Minha mãe disse:
— Ela está mais à vontade com você.
Mauro respondeu baixo:
— Acho que sim.
— Eu falei que você precisava parar de parecer que ia prender alguém num porão.
— A roupa não fez tudo.
— Claro que não.
Ele ficou calado.
Depois perguntou:
— Você acha que estou forçando?
Minha mãe soltou um suspiro.
— Mauro, você pergunta isso desde antes de a gente casar.
Meu corpo parou no corredor.
— Eu só não quero substituir ninguém.
— Ninguém está pedindo isso.
— O pai dela…
Minha mãe cortou:
— O pai dela fez o papel que escolheu fazer. Você não precisa competir com ele.
A voz de Mauro ficou mais baixa.
— Às vezes tenho medo de ela achar que estou tentando ocupar um lugar que não é meu.
Minha mãe respondeu:
— Então pergunta para ela qual lugar ela aceita que você ocupe.
Voltei para o quarto antes que percebessem que eu estava ouvindo.
Aquela frase ficou comigo.
Qual lugar eu aceitava que Mauro ocupasse?
Eu não sabia.
Mas já sabia qual não queria mais.
Não queria que ele fosse apenas “o marido da minha mãe”.
Na sexta-feira, a escola enviou uma mensagem avisando que haveria uma apresentação dos trabalhos no sábado seguinte e que familiares poderiam participar.
Minha mãe teria plantão no trabalho durante parte da manhã.
Fiquei alguns minutos olhando para o aviso.
Então fui até a sala.
Mauro estava desmontando o controle remoto porque alguns botões haviam parado de funcionar.
— Mauro?
Ele levantou os olhos.
— Oi.
— Sábado tem apresentação daquele trabalho da ponte.
— Ah. Deu certo?
— Ainda não testamos.
Ele esperou.
Respirei fundo.
— Se você não estiver ocupado… pode ir.
A chave de fenda parou na mão dele.
— Eu?
— Você me ajudou.
Ele limpou a garganta.
— Claro.
Olhou para o controle remoto, depois para mim.
— Quer dizer, se você realmente quiser.
— Estou convidando.
— Então eu vou.
Subi para o quarto com o coração estranhamente leve.
Abri o perfil.
Dessa vez, não havia postagem nova.
Fiquei encarando a caixa de comentários da publicação original.
Durante semanas, eu tinha sido apenas uma observadora.
Então criei coragem e escrevi usando minha própria conta, sem foto reconhecível:
“Talvez sua filha também ache que você não gosta dela.”
Demorou quase uma hora.
Então chegou a resposta.
“Por que ela pensaria isso?”
Escrevi:
“Porque você disse que sai quando ela entra na sala. Talvez, para ela, isso pareça rejeição.”
Mauro respondeu alguns minutos depois:
“Nunca pensei nisso.”
Depois:
“Eu saio porque acho que ela quer ficar sozinha com a mãe.”
Meu peito apertou.
Digitei:
“E você já perguntou?”
Ele respondeu:
“Não.”
“Por quê?”
A resposta demorou.
“Porque fico nervoso perto dela.”
Sorri com os olhos ardendo.
Eu estava prestes a responder quando outra mensagem apareceu.
“Você parece entender adolescentes. Posso perguntar mais uma coisa?”
“Pode.”
“Ela me convidou para uma apresentação na escola. Isso significa que estamos melhorando ou estou imaginando demais?”
Ri baixinho.
Digitei:
“Significa que ela quer você lá.”
Mauro respondeu apenas:
“Obrigado.”
Fechei o aplicativo.
Olhei para a porta do quarto.
Eu poderia continuar escondida atrás de um perfil anônimo.
Poderia deixar Mauro conversando com uma desconhecida sem saber que estava, na verdade, falando comigo.
Mas aquilo começava a parecer covardia.
Desci.
Ele estava na sala, sentado no sofá, usando a camiseta azul-clara que eu tinha elogiado.
Parou de olhar para o celular quando me viu.
Senti as pernas pesadas.
Mesmo assim, caminhei até ele.
— Mauro.
— Oi?
Sentei na poltrona em frente.
Respirei fundo.
— Eu preciso te contar uma coisa.
A expressão dele ficou séria imediatamente.
— Aconteceu alguma coisa?
— Eu encontrei aquele seu perfil.
O celular escorregou alguns centímetros da mão dele.
E, pela primeira vez desde que eu o conhecia, vi Mauro ficar completamente sem palavras.
Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖