Meu antigo colega famoso fingiu estar com câncer e eu transferi todas as minhas economias — depois o encontrei no hospital
Parte 3
Caio deixou o celular sobre a mesa e olhou para mim como se esperasse uma explosão. Eu não gritei. Talvez porque o medo que eu sentia naquele momento fosse muito maior do que a raiva. A ideia de milhares de desconhecidos discutindo meu corpo, meu diagnóstico e minhas chances de sobreviver me deu mais náusea do que o cheiro da comida.
— Eu não vou participar de programa nenhum — falei.
— Eu sei.
— E ninguém vai contar o que eu tenho.
— Não vai sair da minha boca.
Peguei minha bolsa, guardei o frasco de remédios e me levantei. Caio tentou acompanhar, mas eu levantei a mão.
— Hoje não.
— Helena, eu posso pelo menos levar você para casa.
— Eu vim de carro.
Era mentira. Eu tinha ido de aplicativo porque às vezes sentia tontura depois das consultas. Mas não queria estar ao lado dele quando finalmente perdesse o controle.
No banheiro do restaurante, tranquei uma cabine e chorei em silêncio.
Não chorei porque estava com câncer. Eu já tinha feito isso no dia em que a biópsia confirmou o diagnóstico.
Chorei porque, desde então, tinha organizado minha vida inteira em pequenos compartimentos. Trabalho de um lado. Consultas de outro. Remédios dentro de uma nécessaire que ninguém via. Exames escondidos numa gaveta. Júlia recebendo desculpas. Minha mãe acreditando que eu estava apenas trabalhando demais.
Eu precisava desse controle.
E agora uma única fotografia podia arrancá-lo das minhas mãos.
Quando voltei para casa, havia mais de vinte chamadas perdidas de Júlia.
Atendi.
— Helena, o que você estava fazendo num hospital de oncologia com Caio Valente?
— Júlia…
O silêncio dela veio primeiro.
Depois, uma voz muito menor.
— Você não estava visitando ninguém, estava?
Fechei os olhos.
Eu poderia inventar outra mentira. Poderia dizer que uma colega trabalhava ali, que Caio tinha gravado uma campanha, que a foto tinha sido tirada fora de contexto.
Mas estava cansada.
— Não.
Júlia começou a respirar depressa.
— Aquela dor…
— Fiz endoscopia. Depois biópsia. É um tumor no estômago.
Ela não respondeu.
— Os médicos disseram que é operável — continuei. — Ainda estou fazendo a avaliação completa. Não é o laudo falso que Caio mandou. Não estou em estágio terminal.
— Há quanto tempo você sabe?
— Quase dois meses.
— Dois meses?
A voz dela se quebrou.
— E você me disse que estava comprando roupa.
— Eu sei.
— Você deixou eu fazer piada com seu dinheiro, Helena.
Essa frase me acertou.
— Eu não sabia como contar.
Júlia chorou, ficou com raiva, me chamou de teimosa e depois chorou de novo. Não disse que tudo ficaria bem. Não prometeu milagres. Apenas perguntou a data da próxima consulta e informou, sem pedir autorização, que viria para Campinas.
Dessa vez, não discuti.
Na manhã seguinte, acordei com uma mensagem de Caio.
【Não contei nada. Pedi ao programa que removesse os trechos da nossa conversa dos perfis oficiais.】
Logo depois, outra.
【Eles disseram que o material já tinha sido replicado e querem conversar com você. Eu disse que você não tem interesse.】
E mais uma.
【Se preferir, não mando mais mensagens. Só queria que soubesse disso.】
Fiquei olhando para a tela.
Pela primeira vez desde o Réveillon, ele não tentou transformar a tensão em piada.
Respondi apenas:
【Obrigada.】
O hospital me ligou naquela tarde. Os exames mostravam que não havia sinal de metástase à distância e a equipe indicava cirurgia. O médico explicou que eu provavelmente precisaria retirar uma parte importante do estômago e que o tratamento posterior dependeria do resultado definitivo da cirurgia.
Eu ouvi tudo anotando.
Perguntei sobre tempo de internação.
Perguntei sobre alimentação.
Perguntei quando poderia voltar ao trabalho.
Perguntei sobre os efeitos do tratamento.
Quando desliguei, minhas mãos tremiam tanto que mal consegui segurar a caneta.
Naquele momento, percebi uma coisa que vinha evitando havia semanas: esconder o diagnóstico não me tornava mais forte. Só me obrigava a enfrentar cada decisão sozinha.
Contei aos meus pais naquela noite.
Minha mãe chorou. Meu pai ficou andando de um lado para o outro da sala, fazendo perguntas práticas porque era a única forma que tinha de lidar com o medo.
Não foi bonito.
Também não foi insuportável.
Quando terminaram de falar, minha mãe segurou minha mão e perguntou:
— Por que você achou que precisava esconder isso da gente?
Eu não soube responder.
Talvez porque estivesse acostumada a parecer tranquila. Talvez porque, no ensino médio, eu fosse a garota lenta que nunca dava trabalho. Depois virei a adulta que pagava as próprias contas, resolvia os próprios problemas e dizia que estava tudo bem antes mesmo de alguém perguntar.
Naquela madrugada, abri a gaveta onde guardava meus exames.
Não escondi mais nada.
Dois dias depois, Caio publicou um vídeo curto nas redes sociais.
Não mencionou minha doença.
Sentado sozinho diante da câmera, sem maquiagem de estúdio ou cenário de programa, ele falou:
— Quero corrigir uma coisa. Na virada do ano, participei de uma brincadeira em que enviei um diagnóstico falso a uma antiga colega de escola. Ela acreditou e me transferiu todas as economias que tinha naquele momento. Eu achei que seria uma cena engraçada. Não foi.
Continuei assistindo.
— Eu também permiti que parte da nossa conversa privada fosse exibida. Independentemente da intenção do programa, eu poderia ter recusado. Não recusei. Isso foi responsabilidade minha.
Ele respirou fundo.
— A pessoa envolvida não pediu exposição, não quer participar de nenhum conteúdo e merece privacidade. Por isso, pedi a retirada do material dos canais oficiais e não voltarei ao programa para continuar essa história. Peço que parem de procurar informações pessoais sobre ela.
O vídeo acabou.
Não houve declaração romântica.
Nenhuma tentativa de posar como herói.
Ele sequer disse meu nome completo.
Horas depois, uma coluna de entretenimento informou que Caio tinha desistido da segunda participação prevista no programa e aberto mão do cachê daquela gravação. A emissora também publicou uma nota dizendo que não faria novos conteúdos comigo e retirou o trecho completo dos canais oficiais.
A internet, claro, não desapareceu.
Cópias continuaram circulando.
Mas as perguntas sobre o hospital diminuíram.
Júlia chegou a Campinas no sábado com uma mochila grande demais para quem dizia que ficaria só dois dias.
— Trouxe roupa para uma semana — falei.
— Coincidência.
— Você sempre foi péssima mentirosa.
— Aprendi com você.
Ela me acompanhou à consulta pré-operatória. Minha mãe iria ficar comigo durante a internação, e meu pai cuidaria das coisas de casa. Aos poucos, o que parecia um enorme buraco escuro começou a virar uma sequência de tarefas concretas.
Exames.
Papéis.
Jejum.
Data.
Cirurgia.
Recuperação.
Ainda havia medo, mas agora o medo tinha nome.
Na véspera da internação, Caio apareceu na portaria do meu prédio.
Não subiu.
Mandou uma mensagem.
【Posso falar com você cinco minutos? Se disser não, vou embora.】
Fiquei quase um minuto olhando para a tela antes de descer.
Ele estava encostado num carro simples da produção, de boné e camiseta, sem qualquer tentativa de chamar atenção.
— Soube que a cirurgia é amanhã — disse.
Franzi a testa.
— Júlia?
— Ela me mandou uma mensagem dizendo apenas: “Se você fizer outra idiotice, eu acabo com sua carreira.”
Apesar de tudo, soltei uma risada.
Caio também sorriu.
— Interpretei isso como confirmação.
Ele me entregou uma pequena sacola.
Dentro havia um caderno antigo de capa azul.
Reconheci imediatamente.
— Isso era meu.
— Você deixou comigo no último dia de aula.
Abri.
Entre anotações de matemática e redações antigas, havia desenhos ridículos feitos por ele nas margens.
Na última página, uma frase escrita com a letra adolescente de Caio:
“Helena demora dois segundos para entender tudo, então talvez demore alguns anos para perceber que eu gosto dela.”
Meu peito apertou.
Fechei o caderno.
— Você escreveu isso?
— Aos dezessete anos.
— E nunca me mostrou.
— Eu ia mostrar. Depois fui embora para São Paulo, comecei a fazer testes, você entrou na faculdade e… a vida aconteceu.
Balancei a cabeça.
— Caio, amanhã eu vou operar. Não quero transformar isso numa história romântica.
— Nem eu.
O jeito sério dele me surpreendeu.
— Não vim pedir nada. Só queria devolver uma coisa que era sua e dizer que sinto muito. Não pelo que aconteceu depois que descobri sua doença. Pelo que fiz antes de saber dela. Eu não deveria ter precisado descobrir que você estava doente para entender que aquilo foi errado.
Foi a primeira desculpa dele que não veio acompanhada de explicação.
Apertei o caderno contra o peito.
— Eu ainda estou com raiva.
— Você tem direito.
— E ainda não sei se consigo voltar a confiar em você.
— Também tem direito.
Ficamos em silêncio.
Dessa vez, o silêncio não me incomodou.
Antes de entrar novamente no prédio, falei:
— Depois da cirurgia… se eu estiver bem, talvez a gente tome um café.
O olhar dele se iluminou.
— Como colegas de escola?
— Começa daí.
Caio assentiu.
— Está bom.
Subi para o apartamento com o caderno nas mãos.
Naquela noite, organizei minha pequena mala para o hospital. Coloquei documentos, roupas confortáveis, carregador, chinelos e o caderno azul.
Antes de dormir, recebi uma última mensagem dele.
【Não precisa responder. Boa cirurgia amanhã, Helena.】
Eu não respondi.
Mas, pela primeira vez desde o diagnóstico, apaguei a luz sem sentir que precisava enfrentar o dia seguinte completamente sozinha.
Na manhã seguinte, já deitada na cama do hospital, vi minha mãe segurando minha bolsa, meu pai fingindo que não estava nervoso e Júlia reclamando do café da máquina.
Respirei fundo.
A enfermeira abriu a porta e avisou:
— Helena, está na hora.
Minha mãe apertou minha mão.
Eu me sentei devagar.
O medo ainda estava ali.
Só que, desta vez, fui eu quem deu o primeiro passo em direção à porta.
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