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O irmão mais velho do meu noivo perdeu a memória, me chamou de esposa e jogou fora os R$ 4 milhões que eu receberia

Parte 3

A pergunta ficou entre nós.

Eu poderia ter respondido que estava cansada. Que eram muitos dias de hospital, remédios, consultas e confusão. Poderia dizer que sentia apenas culpa por ter deixado a situação ir longe demais.

Mas, quando tentei falar, nenhuma dessas respostas pareceu verdadeira.

— Eu não sei — admiti.

Henrique desviou o rosto.

Não fez drama. Não chorou. Não tentou me convencer de que éramos um casal. Aquilo, de alguma forma, doeu mais.

— Tudo bem — disse ele. — Pelo menos essa resposta é sua.

Naquela noite, Henrique dormiu no quarto de hóspedes com a porta fechada.

Na manhã seguinte, não me chamou de amor.

Também não perguntou o que eu queria no café da manhã como vinha fazendo desde que saíra do hospital. Preparou café para os dois, colocou minha xícara sobre a mesa e se sentou do outro lado.

A distância entre nossas cadeiras parecia maior que a cidade inteira.

— Eu vou devolver o dinheiro — falei.

Henrique ergueu os olhos.

— Não precisa fazer isso por mim.

— Não estou fazendo por você.

Peguei o celular.

Eu já tinha usado uma quantia pequena para comprar roupas e itens de necessidade para ele. Separei esses gastos, transferi de volta o restante e mandei uma mensagem para Gabriel dizendo que acertaria as despesas do período de recuperação diretamente com ele, sem pagamento extra.

Gabriel me ligou quase no mesmo instante.

Atendi no corredor.

— Você ficou maluca? — foi a primeira coisa que ouvi.

— Não.

— Então por que devolveu?

— Porque não vou mais receber dinheiro para fingir uma relação que não existe.

— A gente combinou isso para proteger meu irmão.

— No começo, sim. Agora ele já sabe a verdade.

Silêncio.

— Você contou?

— Contei.

Gabriel soltou um palavrão baixo.

— O médico falou para evitar choque.

— O médico falou para evitar trauma desnecessário, não para manter seu irmão vivendo dentro de uma mentira durante meses.

— E como ele está?

Olhei pela porta da cozinha.

Henrique estava lavando a própria xícara.

— Magoado.

— Ótimo. Pelo menos está consciente o bastante para ficar magoado.

Aquela frieza me incomodou mais do que deveria.

— Gabriel, ele é seu irmão.

— Eu sei. É justamente por isso que estou tentando resolver o problema.

— Nem tudo é um problema que se resolve com dinheiro.

Do outro lado, ele ficou em silêncio.

Talvez fosse a primeira vez que eu dizia algo assim para Gabriel.

Talvez fosse a primeira vez que dizia algo assim para mim mesma.

Quando voltei para a cozinha, Henrique já estava pronto para sair.

— Temos consulta às onze — disse.

— Eu lembro.

No hospital, o neurologista fez novos testes. Explicou que pequenos fragmentos poderiam voltar de maneira irregular e que forçar lembranças costumava mais atrapalhar do que ajudar.

Henrique contou sobre o restaurante.

O médico ouviu com atenção.

— Não tente completar o restante da cena apenas porque lembra de uma parte — orientou. — Memória não é um quebra-cabeça em que qualquer peça parecida serve. Deixe as recordações voltarem no tempo delas.

No carro, Henrique repetiu baixinho:

— Não complete com qualquer peça parecida.

— É um bom conselho.

— Principalmente para alguém que conseguiu inventar um casamento inteiro.

Eu quis responder, mas ele sorriu de leve.

Era a primeira piada que fazia desde que soubera da verdade.

Nos dias seguintes, estabelecemos uma convivência estranha.

Eu parei de agir como esposa.

Henrique parou de me tratar como esposa.

Dividíamos o apartamento como duas pessoas que sabiam coisas demais uma sobre a outra para serem desconhecidas e coisas de menos para saber exatamente o que eram.

Descobri que, sem a amnésia transformando tudo em romance, ele continuava sendo organizado demais, acordava cedo demais e tinha a irritante mania de corrigir a posição dos objetos na cozinha.

Ele descobriu que eu escondia chocolate atrás dos potes de farinha e que passava horas respondendo mensagens de trabalho sem perceber que estava com fome.

Nada daquilo era grande.

Talvez por isso fosse perigoso.

Uma tarde, encontrei Henrique tentando preparar o almoço.

— Você sabe cozinhar? — perguntei.

— Aparentemente, o Henrique sem memória jurava que cozinhava para a esposa.

— Ele também jurava outras coisas.

Henrique tossiu.

— Não precisa lembrar dessa parte.

Ri antes que conseguisse me controlar.

Ele riu também.

Foi rápido.

Depois nós dois ficamos constrangidos.

Naquela noite, Gabriel apareceu para buscar alguns documentos de Henrique.

Ele entrou no apartamento e olhou ao redor.

— Você ainda está aqui?

Henrique cruzou os braços.

— É bom ver você também.

Gabriel ignorou o sarcasmo e se virou para mim.

— Precisamos conversar sobre o casamento.

Henrique imediatamente ficou sério.

— Não precisa falar disso na minha frente — disse. — A decisão é de vocês.

A frase me surpreendeu.

O Henrique de antes do acidente teria feito algum comentário ácido.

O Henrique que acreditava ser meu marido teria discutido com Gabriel.

Aquele simplesmente pegou os documentos e foi para o quarto.

Gabriel esperou a porta fechar.

— Nossas famílias já estão organizando tudo para o fim do ano.

— Eu sei.

— Então?

— Então nada.

Ele me encarou.

— Você está pensando em desistir por causa do meu irmão?

— Não coloque Henrique no meio.

— Ele já está no meio.

— Porque você colocou.

Gabriel passou a mão pelo rosto.

— Eu pedi para você cuidar dele por algumas semanas. Não pedi para transformar isso em novela.

— E eu não pedi para ele perder a memória.

— Você sabe o que quero dizer.

Sabia.

Era justamente esse o problema.

Nosso noivado sempre tinha sido tratado assim: como uma decisão sensata, limpa, previsível. As duas famílias tinham negócios próximos, interesses compatíveis e décadas de convivência.

Gabriel era educado comigo.

Eu era educada com ele.

Não havia grandes brigas.

Também não havia nenhuma pergunta sobre o que eu realmente queria.

Durante muito tempo, achei que isso era maturidade.

Talvez fosse apenas comodidade.

Depois que Gabriel foi embora, Henrique saiu do quarto.

— Eu ouvi meu nome algumas vezes.

— Desculpa.

— Não precisa.

Ele ficou olhando para a porta fechada.

— Eu realmente era contra o casamento?

— Muito.

— E nunca expliquei por quê?

— Você dizia que eu estava interessada no dinheiro da família.

Henrique fez uma careta.

— Eu devia ser insuportável.

— Era bastante competente nisso.

Ele aceitou a provocação.

Mas aquela mesma noite trouxe outra lembrança.

Henrique estava colocando um copo de água sobre a bancada quando deixou o vidro escapar.

Ele ficou parado, respirando rápido.

— Henrique?

— Eu lembrei de Gabriel.

Aproximei-me devagar.

— De quando?

— Antes do acidente. No escritório.

Ele fechou os olhos.

— Eu estava discutindo com ele sobre você.

Meu corpo ficou tenso.

— O que vocês disseram?

— Não sei tudo.

Henrique pressionou os dedos contra a testa.

— Eu disse que estava errado sobre alguma coisa. E Gabriel respondeu que eu estava complicando um acordo que não era meu.

— Só isso?

— Por enquanto.

O médico tinha alertado.

Não completamos as lacunas.

Na manhã seguinte, Henrique decidiu voltar temporariamente para a casa da família Azevedo.

A notícia me atingiu de um jeito absurdo.

— Você quer ir embora?

— Preciso.

Ele ajeitou a alça da bolsa.

— Eu estava usando você como ponto de segurança porque minha cabeça decidiu que você era minha esposa. Agora sei que não é justo continuar dependendo de você dessa forma.

— Não está me incomodando.

Henrique me olhou diretamente.

— Está me fazendo bem demais. Esse é o problema.

Meu coração bateu mais forte.

Ele continuou:

— Eu não sei quanto do que sinto é meu e quanto nasceu da confusão. Você também não sabe. Então precisamos parar de fingir que isso não importa.

Eu queria discordar.

Não consegui.

Henrique voltou para a casa da família, mas continuamos nos vendo nas consultas.

Sem o peso da convivência diária, comecei a perceber com mais clareza uma verdade inconveniente.

Eu sentia falta dele.

Não do homem que me chamava de esposa.

Sentia falta de Henrique.

Da voz.

Das provocações.

Da mania de alinhar as xícaras.

Até das críticas antigas, porque agora eu sabia discutir com ele em vez de apenas engolir.

Duas semanas depois, Gabriel marcou um jantar comigo.

Foi direto:

— Precisamos confirmar a data do casamento civil.

Pousei os talheres.

— Não vai ter casamento.

Ele ficou imóvel.

— O quê?

— Vou cancelar o noivado.

— Por causa de Henrique.

— Não.

— Você espera mesmo que eu acredite?

— Estou cancelando porque percebi que passei meses tentando convencer seu irmão de que eu era adequada para casar com você, quando nunca parei para perguntar se eu queria casar com você.

Gabriel me encarou.

Não parecia devastado.

Parecia surpreendido.

Aquilo também me deu uma resposta.

— Nossas famílias vão ficar furiosas — disse.

— Vão superar.

— Existem negócios envolvidos.

— Então que os negócios sejam resolvidos com contratos. Não com casamento.

Ele se recostou.

Depois de um tempo, soltou o ar.

— Você mudou.

— Acho que comecei.

No dia seguinte, encontrei Henrique no hospital.

Depois da consulta, fomos até a cafeteria.

Contei sobre o cancelamento.

Ele segurou a xícara com as duas mãos.

— Você fez isso por mim?

A pergunta era cuidadosa.

Eu respondi sem hesitar:

— Não. Fiz por mim.

Henrique sorriu.

Um sorriso verdadeiro.

— Fico feliz.

— Só isso?

— Só isso.

— Você é muito irritante.

— Essa parte da personalidade já voltou.

Revirei os olhos.

Henrique ficou sério outra vez.

— Tem mais uma coisa.

— O quê?

— Lembrei de outro pedaço da noite do acidente.

Meu corpo enrijeceu.

— Eu estava no carro indo até sua casa.

— Minha casa?

Ele confirmou.

— Eu tinha descoberto que estava errado sobre você.

Minha garganta secou.

— E por que estava indo me procurar?

Henrique sustentou meu olhar.

— Para pedir desculpas.

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