Meu marido pediu o divórcio após sete anos — e, ao voltarmos aos dezessete, decidiu escolher outra garota
Parte 3
A pergunta de Sofia me deixou imóvel.
Eu poderia ter contado tudo. Poderia dizer que, em outra vida, Renato e eu tínhamos nos casado, dividido um apartamento, contas, férias, domingos preguiçosos e sete anos de casamento até que ele decidiu que me conhecia demais para continuar me amando.
Mas Sofia tinha dezessete anos.
Para ela, aquilo não tinha acontecido.
E, por mais que eu estivesse carregando trinta e um anos de lembranças dentro daquele corpo adolescente, eu não tinha o direito de colocar sobre os ombros dela uma história que não lhe pertencia.
— É uma coisa entre mim e ele — respondi.
Sofia franziu a testa.
— Isso não responde.
— Eu sei.
Renato já estava a poucos metros de nós.
Sofia virou-se quando ele se aproximou.
— Você disse que vocês só eram amigos de infância.
Renato olhou para mim antes de responder.
— E somos.
— Então por que parece que vocês estão brigando por alguma coisa que aconteceu há dez anos?
A frase quase me fez prender a respiração.
Renato ficou rígido.
Sofia soltou uma risada nervosa.
— Foi jeito de falar. Mas vocês entendem coisas que ninguém mais entende. Às vezes você fala com a Helena como se estivesse cobrando algo dela. E ela responde como se já estivesse cansada de você.
Renato colocou as mãos nos bolsos.
— Você está pensando demais.
O rosto de Sofia endureceu.
— E você está decidindo demais o que eu penso.
Ela saiu antes que ele pudesse responder.
Renato fez menção de segui-la, mas parou.
— Não se mete.
Aquilo me irritou.
— Eu não disse uma palavra sobre você.
— Ela veio falar com você.
— Porque está percebendo que alguma coisa não fecha.
Renato soltou o ar devagar.
— Eu resolvo.
— Claro. Você sempre resolve tudo sozinho.
Ele me encarou.
Reconheci aquela expressão. Durante o casamento, Renato fazia exatamente aquilo quando acreditava que uma discussão tinha ultrapassado o limite que ele considerava racional. Em vez de continuar, fechava o rosto e passava a agir como se o assunto já estivesse encerrado.
Na época, eu confundia autocontrole com maturidade.
Agora enxergava outra coisa.
Era uma maneira elegante de nunca permanecer numa conversa em que pudesse estar errado.
— Helena, não começa.
— Eu não comecei nada.
Coloquei a mochila no ombro.
— Mas talvez você devesse parar de tratar Sofia como se já soubesse quem ela é.
Ele congelou.
Foi pequeno, quase imperceptível.
Mas eu conhecia Renato demais.
— Do que você está falando?
— Você sabe que bebida ela gosta. Sabe onde prefere sentar no cinema. Sabia até qual filme ela queria ver antes de ela contar na escola.
— Ela me disse.
— Quando?
Renato não respondeu.
Meu peito apertou.
Não era ciúme.
Talvez tivesse sido, na primeira semana. Talvez alguma parte mesquinha de mim tivesse se sentido substituída ao ver meu ex-marido adolescente sorrindo para outra garota com a mesma facilidade que um dia sorrira para mim.
Mas aquilo era diferente.
— Você conheceu a Sofia depois do nosso divórcio?
A pergunta saiu antes que eu pudesse reconsiderar.
Renato continuou calado.
E esse silêncio foi resposta suficiente.
Naquela noite, não consegui estudar.
Na primeira vida, Sofia tinha saído do nosso círculo logo depois do ensino médio. Eu sabia apenas que cursara arquitetura em outra cidade. Renato e eu nunca falávamos sobre ela.
Ou eu acreditava que nunca falávamos.
Dois dias depois, Sofia terminou o que quer que existisse entre os dois.
Não fez escândalo.
Renato chegou à escola sozinho, e ela passou a manhã inteira com outras amigas.
Júlia, naturalmente, descobriu antes do intervalo.
— Brigaram feio.
— Como você sabe?
— Porque a Camila ouviu a Sofia falando no banheiro que ele é “estranhamente controlador”.
Olhei para ela.
— Controlador?
— Parece que ele sabe o que ela vai pedir antes de ela pedir. Escolhe as coisas por ela e fica irritado quando ela muda de ideia.
Meu estômago revirou.
Aquilo fazia sentido.
Renato não estava começando uma vida nova.
Estava tentando reproduzir uma versão dela que já conhecia.
Na saída, ele estava sentado sozinho num banco próximo à quadra.
Passei direto.
— Helena.
Continuei andando.
— Eu sei que você ouviu.
Parei.
— Ouvi o quê?
— Sobre a Sofia.
— Não é da minha conta.
Ele riu sem humor.
— Você sempre foi péssima em fingir indiferença.
Virei-me.
— E você sempre confundiu conhecer meus hábitos com saber tudo sobre mim.
A frase o atingiu.
Por um momento, vi o homem do nosso casamento.
Não o empresário seguro.
O outro.
Aquele que chegava tarde, tirava o relógio em silêncio e parecia cada vez mais distante, como se procurasse uma porta de saída que eu não conseguia enxergar.
Renato abaixou a voz.
— Depois do divórcio, encontrei Sofia.
Meu coração bateu mais forte.
Ele continuou:
— Foi por acaso. Num evento de trabalho, alguns meses depois.
Eu não disse nada.
— Conversamos. Ela contou que tinha gostado de mim naquela época. Disse que, depois que começamos a namorar, preferiu se afastar.
Renato passou a mão pelos cabelos.
— Parecia tão… diferente.
Entendi antes que ele terminasse.
— Você pensou que tinha escolhido errado.
Ele me olhou.
— Pensei em como teria sido.
Doía ouvir aquilo.
Mesmo depois de tudo, doía.
Mas havia uma diferença importante entre aquela dor e a que senti na noite do divórcio.
Naquela época, eu acreditava que a resposta dele definiria o meu valor.
Agora não.
— E quando voltamos, você decidiu testar.
Renato apertou a mandíbula.
— Não foi um teste.
— Então o que foi?
— Uma oportunidade.
— Para quê?
Ele perdeu a paciência.
— Para não repetir a mesma vida!
Alguns alunos que ainda estavam no pátio olharam na nossa direção.
Renato abaixou a voz.
— Você realmente quer que eu faça tudo igual? Quer que eu passe mais quatorze anos seguindo exatamente o mesmo caminho só porque foi assim na primeira vez?
— Não.
Minha resposta o fez parar.
— Eu não quero que você repita nada.
Aproximei-me um pouco.
— Quero que pare de fingir que nosso casamento fracassou porque você não escolheu Sofia aos dezessete anos.
Renato ficou branco.
— Eu nunca disse isso.
— Não precisava.
Ele se levantou.
— Você acha que sabe tudo porque foi minha esposa.
— Não. Justamente o contrário. Eu finalmente entendi que nunca soube o que você calava.
A raiva desapareceu do rosto dele aos poucos.
— Helena…
— Sofia não é uma vida nova. Ela é uma pessoa. E você entrou nessa história sabendo coisas sobre uma mulher adulta que ela ainda nem se tornou.
Ele desviou o olhar.
— Não fiz nada de errado.
— Talvez não de propósito.
Respirei fundo.
— Mas você não está conhecendo ela. Está comparando cada coisa que ela faz com uma lembrança sua.
Renato não respondeu.
Eu me afastei.
— Foi exatamente isso que você fez comigo no fim.
Ele ergueu a cabeça.
— O quê?
— Parou de olhar para quem eu era e começou a olhar para quem você achava que eu tinha virado.
Naquela noite, chorei.
Não pelo Renato adolescente.
Nem por Sofia.
Chorei pelo casamento que eu finalmente estava conseguindo enxergar de fora.
Durante meses, depois do pedido de divórcio, eu me torturei tentando descobrir em qual momento deixara de ser interessante. Se eu deveria ter viajado mais, mudado de emprego, feito surpresas, cortado o cabelo, falado menos sobre contas, reclamado menos do cansaço.
Eu acreditava que, se tivesse continuado parecendo a garota pela qual Renato se apaixonara, talvez ele não tivesse ido embora.
Agora percebia a armadilha.
Ele também tinha mudado.
Nós dois tínhamos.
Mas Renato transformara o próprio desconforto com a vida adulta numa sentença sobre nós.
E eu aceitei carregar a culpa.
Os meses seguintes foram mais tranquilos.
Sofia manteve distância dele.
Eu me concentrei nos estudos e fui classificada para a etapa estadual da olimpíada. Não ganhei medalha, mas a preparação me apresentou a possibilidades que eu nunca havia considerado.
Comecei a pensar em cursar Economia em Belo Horizonte.
Na primeira vida, nem sequer havia preenchido formulários para universidades fora de São Paulo.
Dessa vez, preenchi.
Quando contei para minha mãe, ela perguntou:
— Mas você sempre quis ficar aqui.
Quase respondi que não sabia se aquele desejo tinha sido realmente meu.
Em vez disso, disse:
— Quero conhecer outras opções.
No último ano do ensino médio, Renato e eu nos tornamos quase estranhos.
Não havia hostilidade.
Apenas distância.
Sofia voltou a falar comigo aos poucos e, certa tarde, sentou ao meu lado na biblioteca.
— Acho que fui injusta com você naquele dia.
— Qual deles?
Ela sorriu sem graça.
— O primeiro. Quando fiz parecer que você estava sendo cruel comigo.
Fechei o livro.
— Você estava com ciúme.
— Estava.
Ela mexeu na ponta da caneta.
— E queria que ele percebesse.
Pelo menos era sincera.
— Funcionou.
Sofia balançou a cabeça.
— Por uns dias.
Depois ficou séria.
— Você estava certa sobre uma coisa.
— Qual?
— Ele não gostava de mim.
Meu peito apertou.
— Sofia…
— Tudo bem.
Ela sorriu, mas sem alegria.
— Acho que ele gostava de uma possibilidade. Não de mim.
Aquela frase ficou comigo.
Na semana seguinte, Renato me procurou depois da aula.
Dessa vez, não havia arrogância em sua voz.
— Você vai mesmo para Belo Horizonte?
— Se eu passar.
— E se passar em São Paulo também?
— Ainda vou pensar.
Ele assentiu.
— Na outra vida, você nunca quis ir embora.
— Na outra vida, eu nunca me perguntei se queria.
Renato olhou para o chão.
— Eu também não.
Por um momento, senti pena dele.
Não o tipo de pena que exige perdão.
Apenas a tristeza de reconhecer que duas pessoas podem se amar e, ainda assim, crescer sem aprender a se enxergar.
— Helena…
— Oi.
— Quando pedi o divórcio, eu achava que o problema era saber exatamente o que você ia dizer antes de você abrir a boca.
Esperei.
Renato respirou fundo.
— Agora estou começando a achar que o problema era eu ter parado de escutar porque acreditava que já sabia.
Meu coração se apertou.
Era a primeira vez que ele assumia alguma parte daquilo sem colocar a rotina, o tempo ou a familiaridade no banco dos réus.
Mas não era suficiente para apagar o passado.
E, pela primeira vez, eu não precisava que fosse.
— Talvez — respondi.
Ele levantou os olhos.
— Só isso?
— O que você queria que eu dissesse?
Renato demorou.
— Não sei.
Sorri de leve.
— Então descubra.
Passei por ele.
Quase no fim do corredor, Renato chamou meu nome outra vez.
Virei-me.
Ele estava parado no mesmo lugar.
— Se a gente não tivesse lembrado da outra vida… você acha que teria aceitado minha declaração naquele dia?
A pergunta doeu de uma maneira inesperadamente doce.
Pensei na garota que eu tinha sido.
Naquele garoto que atravessava a cidade para me trazer bolo.
Em todas as coisas boas que existiram antes de virarem lembranças dolorosas.
— Acho que sim.
Renato sorriu.
Foi um sorriso pequeno.
— Eu também acho.
Continuei andando.
Naquela noite, abri o site de inscrições e confirmei minha candidatura para Belo Horizonte.
Meu dedo ficou alguns segundos sobre o botão.
Depois cliquei.
Não porque quisesse fugir de Renato.
Mas porque, pela primeira vez em duas vidas, eu estava escolhendo um futuro sem perguntar antes se ele caberia nos planos de outra pessoa.
Duas semanas depois, chegou o resultado.
Eu tinha sido aprovada.
E, quando levantei os olhos da tela, Renato estava parado do outro lado da sala, observando meu sorriso como quem finalmente entendia que eu realmente iria embora.
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