Meu pai trocou minha mãe indígena por uma artista famosa — e meu noivo decidiu se casar com a melhor amiga grávida
Parte 3
Na véspera do casamento, eu quase não dormi.
Não por medo de viajar.
Eu tinha medo de que alguma coisa desse errado antes de conseguirmos sair.
Minha mãe dormia no quarto ao lado, com uma mochila pequena pronta perto da porta. Tudo o que ela levaria de quase três décadas de vida cabia ali: algumas roupas, fotografias antigas, seus documentos e um tecido bordado pela própria mãe.
Eu tinha duas malas.
Uma para roupas.
Outra com livros, anotações e documentos profissionais.
No começo da manhã, recebi uma ligação de Henrique.
Não atendi.
Ele ligou de novo.
Depois uma terceira vez.
Por fim, mandou uma mensagem dizendo que precisava falar comigo antes de viajar para Brasília com Natália.
Aquilo me fez rir.
Durante anos, eu havia parado tudo sempre que Henrique dizia que “precisava conversar”.
Naquele dia, não parei.
Fui ao hospital, finalizei as últimas pendências e entreguei minha identificação funcional provisória. Eu havia pedido afastamento definitivo do posto alguns dias antes, explicando que aceitara uma oportunidade internacional de pesquisa.
Minha coordenadora me abraçou.
— Você devia estar feliz.
— Estou.
— Não parece.
Olhei pela janela.
— Acho que algumas felicidades começam parecendo luto.
Ela não perguntou mais nada.
Na saída, encontrei Henrique me esperando no estacionamento.
Ele estava sozinho.
Parecia ter passado a noite acordado.
— Você pediu desligamento.
Parei.
— Quem contou?
— Eu perguntei.
— Isso não responde.
Henrique passou as mãos pelo rosto.
— Você vai embora.
Não era uma pergunta.
— Vou.
O choque dele me surpreendeu.
Por alguns segundos, parecia que a possibilidade de eu realmente seguir minha vida nunca tinha passado por sua cabeça.
— Para onde?
— Para fora do país.
— Por quanto tempo?
— Não sei.
Ele se aproximou.
— Tainá, espera. Você não pode decidir uma coisa dessas agora.
— Posso.
— Por causa de mim?
— Não.
— Então por quê?
Encarei-o.
— Porque eu recebi uma oportunidade que já deveria ter aceitado. Porque minha mãe precisa sair daqui. Porque eu não quero mais construir uma vida em volta de pessoas que sempre me pedem para esperar.
Henrique ficou imóvel.
— Eu nunca pedi isso.
— Você me pediu um ano.
Ele fechou os olhos.
— Eu estava desesperado.
— E escolheu me transformar em plano de reserva.
— Não foi assim.
— Foi exatamente assim.
Henrique respirou fundo.
— Natália engravidou numa noite em que eu estava bêbado.
A frase me atingiu, mas não da maneira que ele esperava.
Talvez meses antes eu tivesse chorado.
Naquele momento, apenas perguntei:
— E as outras noites?
Ele franziu a testa.
— Que outras noites?
— Aquelas em que você continuou escondendo de mim. Aquelas em que discutiu casamento com ela. Aquelas em que decidiu levá-la para Brasília. Aquelas em que me disse para esperar.
Henrique não respondeu.
— A traição pode ter começado em uma noite — continuei. — Mas todo o resto aconteceu sóbrio.
Ele abaixou a cabeça.
Foi a primeira vez que não tentou justificar imediatamente.
— Eu achei que conseguiria consertar.
— Sem abrir mão de nada.
Ele ergueu os olhos.
— Eu não quero perder você.
— Já perdeu.
A frase saiu tranquila.
E talvez por isso tenha doído mais nele.
Henrique se aproximou outra vez.
— Cancela a viagem.
Balancei a cabeça.
— Não.
— Eu termino tudo com Natália.
— Ela está grávida do seu filho. Você não deve abandoná-la. Deve assumir suas responsabilidades.
— Então o que você quer que eu faça?
— Nada por mim.
Pela primeira vez, eu realmente quis dizer aquilo.
— Cuide do seu filho. Resolva sua vida. Mas pare de achar que existe uma versão do futuro em que eu fico sentada esperando você terminar.
Ele tentou tocar minha mão.
Eu dei um passo para trás.
— Adeus, Henrique.
Quando cheguei em casa, minha mãe estava sentada diante de uma caixa aberta.
Dentro havia cartas antigas de Marcelo.
Cartas de quando ele era jovem.
Promessas.
Desculpas.
Declarações.
Jaciara pegou uma delas.
— Eu guardei tudo isso porque achava que provava que ele tinha me amado.
Sentei ao lado dela.
— Talvez tenha amado.
Ela me olhou.
— Isso melhora alguma coisa?
Demorei a responder.
— Não.
Minha mãe sorriu tristemente.
— Eu também acho que não.
Ela colocou as cartas de volta.
Não levou nenhuma.
No início da tarde, Helena apareceu.
Sozinha.
Eu nunca havia conversado diretamente com ela.
Era realmente bonita.
Elegante.
Tinha uma presença que chamava atenção sem esforço.
Durante anos, minha mãe ouvira pessoas compararem as duas como se mulheres fossem objetos em uma vitrine.
Helena entrou sem arrogância.
— Eu queria falar com Jaciara.
Minha mãe surgiu atrás de mim.
— Pode falar.
Helena apertou a bolsa entre os dedos.
— Marcelo me disse que vocês vão ao casamento amanhã.
Minha mãe não respondeu.
— Eu não quero nenhum escândalo.
Aquela frase apagou qualquer possibilidade de simpatia.
— Escândalo? — perguntei.
Helena olhou para mim.
— Eu sei que a situação é delicada.
— Delicada para quem?
— Tainá, eu não vim brigar.
Minha mãe levantou a mão.
— Deixe ela falar.
Helena respirou fundo.
— Marcelo me contou que vocês nunca foram oficialmente casados.
Jaciara assentiu.
— Não fomos.
— Então eu não tirei um marido de ninguém.
Minha mãe ficou quieta.
Helena continuou:
— Sei que vocês tiveram uma vida juntos, mas as pessoas mudam. Marcelo merece ter a oportunidade de viver uma relação compatível com a fase atual dele.
Eu senti minhas unhas entrando na palma da mão.
Mas Jaciara continuou calma.
— Você sabe por que ele nunca oficializou comigo?
Helena hesitou.
— Ele disse que você não gostava de burocracia.
Minha mãe soltou uma risada baixa.
— Eu pedi durante vinte anos.
Helena perdeu a cor.
— Como?
— Pedi quando Tainá nasceu. Pedi quando compramos nossa primeira casa. Pedi quando ele foi promovido. Pedi quando comecei a adoecer.
Minha mãe não levantou a voz.
— Sempre aparecia uma desculpa. Família. Trabalho. Documentos. Transferência. Depois ele dizia que o que importava era o amor.
Helena desviou os olhos.
— Eu não sabia.
— Agora sabe.
Helena ficou alguns instantes em silêncio.
Então perguntou:
— Você quer que eu cancele o casamento?
Jaciara a encarou.
— Não.
Até eu me surpreendi.
— Quero que você faça o que quiser com a verdade que acabou de ouvir.
Minha mãe apontou para a porta.
— O que Marcelo faz daqui para frente não é mais meu problema.
Helena foi embora sem dizer mais nada.
Naquela noite, Marcelo apareceu furioso.
— O que vocês disseram a Helena?
Minha mãe estava terminando de fechar a mochila.
— A verdade.
— Você não tinha direito.
Jaciara ergueu o rosto.
— Não tinha direito de contar a minha própria história?
— Você quer destruir meu casamento.
— Seu casamento não depende de mim.
Marcelo me viu perto da porta.
Seus olhos foram diretamente para as malas.
— O que é isso?
Ninguém respondeu.
Ele caminhou até elas.
— Vocês vão embora?
Minha mãe se colocou entre ele e as bagagens.
— Sim.
— Para onde?
— Não interessa.
— Jaciara.
— Não.
Foi a primeira vez que ouvi minha mãe dizer aquela palavra a ele sem hesitar.
Marcelo ficou chocado.
— Você não pode desaparecer desse jeito.
— Posso.
— Depois de tudo que fiz por vocês?
Minha mãe deu uma risada.
— O que você fez, Marcelo?
Ele abriu a boca.
Ela não deixou.
— Eu cuidei de você quando estava ferido. Criei nossa filha praticamente sozinha durante suas transferências. Trabalhei para sustentar esta casa quando seu salário atrasava. Esperei você durante anos. E agora você quer usar a própria presença como se fosse um favor.
Marcelo ficou vermelho.
— Eu nunca obriguei você a fazer nada.
Minha mãe assentiu lentamente.
— É verdade.
Fechou a mochila.
— E essa foi a frase que finalmente me libertou.
Ele olhou para mim.
— Você colocou essas ideias na cabeça dela.
— Não.
Minha mãe respondeu antes de mim.
— Minha filha só teve coragem antes de mim.
Marcelo começou a andar de um lado para o outro.
— Vocês estão agindo por impulso.
— A documentação está sendo preparada há dias — falei.
Ele parou.
— Documentação?
Percebi imediatamente meu erro.
Os olhos dele mudaram.
— Que documentação?
Minha mãe segurou meu braço.
— Marcelo, saia.
Ele não saiu.
— Vocês estão planejando sair do país?
Silêncio.
Aquilo bastou.
Marcelo ficou pálido.
— Você não vai levar sua mãe assim.
— Minha mãe não é uma mala.
— Você entendeu.
— Entendi perfeitamente.
Ele apontou para mim.
— Amanhã vocês vão ao casamento. Depois conversamos sobre essa viagem.
Minha mãe abriu a porta.
— Não existe “depois”.
Marcelo hesitou.
Pela primeira vez, talvez tenha percebido que estava realmente perdendo o controle.
Antes de sair, disse:
— Vocês não vão fazer nenhuma besteira.
Fechei a porta.
Minha mãe me encarou.
Nós duas sabíamos que, a partir daquele instante, ele tentaria descobrir nosso horário.
Peguei o celular e liguei para o líder comunitário que havia se oferecido para ajudar.
— Precisamos mudar a saída.
A resposta veio sem perguntas.
— Já esperávamos por isso.
Na manhã seguinte, enquanto o casamento de Marcelo e Helena começava em um salão lotado na cidade, minha mãe e eu deixamos a aldeia por uma estrada secundária.
Um carro da comunidade nos levaria até uma rodoviária em outra cidade.
De lá, seguiríamos para Curitiba e depois para São Paulo.
Horas antes, uma tempestade havia atingido a serra.
Houve queda de barreira em uma estrada próxima.
Ninguém morreu, mas o trânsito foi interrompido.
Foi quando alguém teve a ideia.
Não haveria denúncia falsa.
Nenhuma comunicação oficial.
Apenas uma informação lançada no lugar certo.
Durante a cerimônia, alguns moradores entraram no salão visivelmente alarmados.
— Marcelo!
Meu pai se virou diante dos convidados.
Henrique também estava ali.
O homem que entrou apontou para a serra.
— Houve um deslizamento! Disseram que Jaciara e Tainá estavam naquela direção!
O salão inteiro mergulhou em confusão.
Henrique derrubou a cadeira.
Marcelo saiu correndo.
E enquanto todos olhavam para a montanha, minha mãe e eu seguíamos na direção oposta.
Sentada ao meu lado dentro do carro, Jaciara apertou minha mão.
— Tainá…
— Sim?
Ela olhou pela janela.
— Desta vez, não quero voltar.
Apertei seus dedos.
— Nem eu.
Meu celular começou a vibrar sem parar.
Henrique.
Marcelo.
Henrique novamente.
Depois uma mensagem de um número que eu não esperava.
Helena.
Abri.
Havia apenas uma frase:
“Marcelo descobriu que vocês estão indo embora. Ele está tentando chegar até vocês antes da rodoviária.”
Levantei os olhos.
Na estrada à frente, o trânsito começava a diminuir.
E atrás de nós, muito longe ainda, um veículo surgiu rápido demais na curva.
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