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No nosso terceiro aniversário de casamento, meu marido levou a assistente a Paris e me deixou sozinha sem saber que eu estava grávida

Parte 3

Na manhã seguinte, Rafael já estava sentado à mesa da cozinha quando desci. Havia duas xícaras de café, como fazia nos primeiros meses do nosso casamento, quando ainda acordava antes de mim só para preparar o que eu gostava.

Não toquei na minha.

— Podemos conversar sem brigar? — perguntou.

— Depende do que você chama de conversar.

Ele respirou fundo e admitiu que mentiu sobre as passagens porque sabia que eu não gostaria de descobrir que Júlia viajaria no mesmo voo. Segundo ele, a presença dela tinha uma justificativa profissional, mas ele evitara a discussão.

— Então você sabia que me incomodaria e escolheu esconder.

— Eu só queria evitar uma discussão desnecessária.

— Você não evitou uma discussão. Você evitou que eu soubesse a verdade.

Rafael abaixou os olhos.

Era exatamente esse tipo de diferença que ele nunca parecia compreender. Para ele, a mentira só se tornava grave quando o resultado era grave. Para mim, o simples fato de ter sido excluída de uma decisão que envolvia nosso aniversário já dizia muito.

Peguei minha bolsa.

Eu tinha consulta com minha obstetra.

Ainda não havia contado a Rafael sobre a gravidez. Durante algumas horas, senti culpa por isso, mas bastava lembrar a cena em Paris para a culpa mudar de lugar.

Eu não estava escondendo um filho por vingança.

Estava tentando entender como contar uma notícia tão grande a alguém em quem eu já não confiava.

No consultório, vi novamente aquela pequena imagem na tela. Meu bebê ainda era minúsculo, mas o coração batia rápido e firme.

Fiquei olhando para o monitor e chorei.

Não de tristeza.

Nem apenas de alegria.

Chorei porque, pela primeira vez desde Paris, percebi com clareza que minhas decisões já não afetavam somente meu casamento.

Eu precisava construir um ambiente em que aquela criança crescesse sem aprender que amor significava suportar humilhação.

Quando voltei para casa, Rafael não estava.

Havia uma mensagem dele dizendo que precisaria passar algumas horas na empresa.

Não respondi.

Preparei os documentos que a advogada havia solicitado e comecei a procurar um apartamento para alugar. Não queria transformar nossa casa numa trincheira durante meses.

Rafael voltou no início da noite.

Parecia cansado.

— Conversei com a Júlia.

Continuei guardando papéis numa pasta.

— E?

— Disse que ela ultrapassou todos os limites em Paris.

Ergui o rosto.

— Foi só ela?

Rafael ficou sério.

— Não.

Aquela pequena resposta foi a primeira coisa honesta que ouvi dele desde a viagem.

Ele se sentou.

— Eu também errei.

— Em qual parte?

— Em várias.

Esperei.

Rafael parecia procurar palavras que não o fizessem parecer tão mal quanto as próprias atitudes.

— Eu devia ter impedido aquele tapa. Devia ter contado que ela iria comigo no voo. E não devia ter defendido a Júlia daquele jeito.

— Você está esquecendo a parte em que acariciou o rosto dela escondido atrás do desfile.

Ele apertou os lábios.

— Eu sei.

— E a parte em que usou uma das piores experiências da minha vida para me humilhar.

— Lívia…

— Não diminua isso.

Ele ficou quieto.

— Eu confiei aquela história a você. Não aos meus amigos. Não à minha família inteira. A você. E, no primeiro momento em que precisou vencer uma discussão, pegou aquilo e jogou na minha cara para proteger outra mulher.

Vi os olhos dele mudarem.

Dessa vez, Rafael não tentou se defender.

— Eu fui cruel.

— Foi.

Ele assentiu lentamente.

Aquilo deveria ter me aliviado.

Não aliviou.

Reconhecer o erro depois de ser confrontado não desfazia o que eu tinha visto.

Rafael perguntou se ainda existia alguma possibilidade de eu desistir do divórcio.

— Não sei.

Era a resposta mais sincera que podia dar.

— Então por que já está procurando apartamento?

Olhei para a tela aberta do notebook.

— Porque eu sei que não consigo continuar vivendo aqui como se estivesse tudo normal.

Ele se levantou.

— Eu posso afastar a Júlia.

— Não faça isso por mim.

— Como assim?

— Se ela agrediu a esposa do presidente da empresa durante uma viagem de trabalho e ultrapassou limites profissionais, resolva isso como presidente. Não transforme uma decisão administrativa num presente para mim.

Rafael me encarou por alguns instantes.

— Você está dizendo que, mesmo que eu a demita, nada muda?

— Estou dizendo que Júlia não fez nossos votos de casamento.

Ele pareceu sentir aquela frase.

Continuei:

— Eu não casei com ela. Ela não me prometeu lealdade. Você prometeu.

Dois dias depois, aluguei um apartamento menor a cerca de vinte minutos dali. Não era tão espaçoso quanto nossa casa, mas tinha uma sala iluminada e um quarto extra que, sem querer, comecei a imaginar como quarto de bebê.

Assinei o contrato sozinha.

Quando Rafael viu as caixas, ficou parado no corredor.

— Você realmente vai sair.

— Vou.

— Antes de decidirmos alguma coisa?

— Eu já decidi que preciso de distância.

Ele passou a mão pelo rosto.

— E se eu não aceitar?

— Você pode não aceitar minha decisão. Não pode impedir que eu a tome.

Naquela tarde, Júlia me mandou uma mensagem pela primeira vez.

“Gostaria de pedir desculpas pessoalmente.”

Não respondi.

Ela insistiu.

“Eu sei que você acha que existe algo entre mim e o Rafael, mas não aconteceu do jeito que você imagina.”

Quase apaguei a mensagem.

Então veio outra.

“Ele dizia que vocês já estavam praticamente separados há meses.”

Meu corpo inteiro ficou imóvel.

Li a frase novamente.

Rafael nunca havia mencionado separação.

Tínhamos problemas, sim. Distância. Discussões pequenas. Rotina. Mas nunca havíamos conversado seriamente sobre terminar o casamento antes de Paris.

Júlia continuou:

“Eu realmente achei que entre vocês não existia mais nada.”

Respondi apenas:

“Quem disse isso a você?”

A mensagem ficou marcada como visualizada.

Ela demorou quase dez minutos.

“Foi isso que eu entendi pelas conversas com ele.”

Não era uma resposta.

Perguntei novamente.

“Rafael disse que nosso casamento tinha acabado?”

Dessa vez ela não respondeu.

Naquela noite, Rafael apareceu no apartamento novo para entregar alguns documentos que eu havia deixado na casa.

Eu o deixei entrar.

Coloquei o celular sobre a bancada, com as mensagens abertas.

— Júlia disse que você falava que nosso casamento já estava praticamente terminado.

Ele leu.

Sua expressão fechou.

— Ela está tentando piorar as coisas.

— Isso é mentira?

— Lívia, você sabe como ela é.

— Eu sei como ela é. Estou perguntando sobre você.

Rafael caminhou até a janela.

— Eu reclamava do nosso casamento.

Meu peito apertou.

— Para sua assistente?

— Às vezes.

— O que você dizia?

— Que estávamos distantes.

— Mais.

— Que você estava sempre ocupada.

Dei uma risada sem humor.

— Mais.

Ele passou alguns segundos em silêncio.

— Que eu não sabia se ainda éramos felizes.

Eu me aproximei.

— Você disse a ela que nosso casamento tinha acabado?

Rafael virou lentamente para mim.

Não respondeu.

E naquele silêncio eu encontrei a única resposta de que ainda precisava.

Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖

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