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No meu casamento, o padrinho despejou cachaça na minha cabeça, meu sogro me deu um tapa — e eu fui embora

Parte 3

Na manhã da entrevista, Camila me emprestou uma blusa branca e uma calça social. Diante do espelho, tentei cobrir a marca já amarelada na bochecha com maquiagem, mas parei no meio. Não queria entrar naquele escritório parecendo alguém que precisava esconder o que tinha acontecido. Lavei o rosto e saí como estava.

A entrevista durou pouco mais de quarenta minutos. Falei sobre meus projetos anteriores, mostrei meu portfólio e expliquei que tinha deixado o último emprego por uma mudança pessoal que não tinha dado certo. Não contei detalhes. Pela primeira vez desde o casamento, consegui passar quase uma hora falando sobre algo que não envolvia Rafael.

No fim, a coordenadora disse que precisava conversar com os sócios antes de decidir. A vaga era para um projeto de três meses, com possibilidade de extensão. Saí sem garantia nenhuma, mas com uma sensação que havia esquecido: eu ainda sabia fazer alguma coisa além de tentar agradar uma família que nunca tinha me considerado suficiente.

Quando voltei ao apartamento de Camila, havia uma mensagem da minha mãe. Ela dizia que parte das minhas roupas, documentos e objetos pessoais ainda estava na casa onde eu viveria com Rafael. Sônia se recusava a separar qualquer coisa enquanto eu não aparecesse pessoalmente.

Liguei para Rafael.

— Quero minhas coisas.

— Então volta para Goiânia e a gente conversa.

— Não preciso conversar para pegar o que é meu.

— Você é minha esposa, Mariana. Não pode simplesmente desaparecer.

Aquela frase me incomodou mais do que eu esperava.

— Eu não desapareci. Eu fui embora na sua frente.

Rafael soltou o ar com força.

— Você sabe o que eu quis dizer.

— Sei. Você quis dizer que eu devia continuar disponível quando fosse conveniente para você.

Ele elevou a voz e começou a dizer que eu estava distorcendo tudo. Segundo ele, a brincadeira do padrinho tinha saído do controle, o pai dele tinha perdido a cabeça por causa da garrafa, e todos tinham cometido erros.

— Todos? — perguntei. — Qual foi o seu?

Houve uma pausa.

— Mariana…

— Você ficou sentado.

— Eu não sabia que meu pai ia bater em você.

— Antes do seu pai me bater, seu amigo já tinha despejado uma garrafa na minha cabeça. E você ficou sentado.

Ele tentou dizer que eu estava nervosa demais naquele momento e que interferir poderia piorar a situação.

Foi então que entendi uma coisa simples.

Rafael sempre encontrava explicações para não agir.

Se a mãe dele fazia um comentário humilhante, ele dizia que era “o jeito dela”. Se o pai decidia algo por nós, ele dizia que não valia a pena discutir. Se algum amigo passava dos limites, eu devia aprender a levar na brincadeira.

Eu é que sempre precisava me adaptar.

— Vou a Goiânia amanhã — falei. — Quero pegar minhas coisas. Não vou discutir nosso relacionamento dentro da casa da sua família.

— Então onde?

— Em lugar público.

— Você está agindo como se eu fosse algum criminoso.

Fechei os olhos.

— Estou agindo como alguém que aprendeu a não depender mais da boa vontade de vocês.

Antes de desligar, Rafael me avisou que o padrinho tinha registrado uma ocorrência por causa do ferimento. A informação não me surpreendeu. Eu sabia que quebrar uma garrafa na cabeça de alguém não desapareceria só porque eu tinha sido humilhada antes.

Naquela tarde, procurei orientação jurídica. Não queria alguém que me prometesse vitória nem que transformasse o caso numa vingança. Eu queria entender exatamente onde estava pisando.

Expliquei a sequência inteira: a bebida, as risadas, o golpe que dei, o tapa de Carlos e os vídeos gravados por convidados.

A orientação foi direta. Eu também poderia registrar formalmente a agressão que sofri e apresentar as gravações disponíveis para mostrar o contexto, mas isso não apagaria automaticamente minha responsabilidade pelo ferimento do padrinho.

Saí daquela conversa estranhamente mais tranquila.

Assumir a minha parte não significava aceitar a culpa por tudo.

Na manhã seguinte, Camila insistiu em viajar comigo. Recusei no início, mas ela foi objetiva.

— Eu não vou falar por você, não vou decidir nada por você e não vou bancar heroína. Só não quero que você faça essa viagem sozinha.

Aceitei.

Voltamos para Goiânia de ônibus.

Durante o caminho, minha mãe mandou diversas mensagens. Em todas, pedia que eu evitasse “mais confusão”.

Respondi apenas que buscaria meus pertences.

Quando chegamos, marquei o encontro com Rafael numa cafeteria perto de um shopping. Ele apareceu sozinho, usando a mesma expressão cansada que costumava fazer quando queria que eu me sentisse culpada por obrigá-lo a discutir.

Sentou-se na minha frente.

— Você bloqueou meu número.

— Sim.

— Jogou fora anos de relacionamento por causa de uma noite.

— Não foi por causa de uma noite.

Ele franziu a testa.

— Então por quê?

Olhei para ele.

— Porque naquela noite eu enxerguei todos os outros anos de uma vez.

Rafael se recostou na cadeira.

Contei quantas vezes eu tinha cedido para evitar conflito com Sônia. Quantas decisões Carlos tinha tomado sobre o nosso casamento sem me consultar. Quantas vezes Rafael tinha pedido que eu relevasse uma piada, uma cobrança, uma crítica ou uma invasão porque era mais fácil pedir silêncio a mim do que impor limites aos outros.

Ele balançou a cabeça.

— Você está juntando coisas pequenas para justificar uma decisão enorme.

— Para você eram pequenas porque nunca caíam sobre você.

A garçonete deixou duas xícaras na mesa.

Nenhum de nós tocou nelas.

Rafael baixou a voz.

— Eu fiquei com raiva quando você foi embora.

— Eu percebi pelas dezessete mensagens.

Ele desviou o olhar.

— Eu não devia ter falado daquele jeito.

Esperei.

Nenhum pedido de desculpas veio depois.

A frase ficou incompleta entre nós.

Perguntei quando poderia pegar minhas coisas.

— Minha mãe quer que você vá lá conversar.

— Não.

— Mariana, para de tratar minha mãe como inimiga.

— Eu não estou tratando ninguém como inimigo. Só estou colocando uma condição simples: quero meus pertences sem ser obrigada a participar de outra humilhação.

Rafael apertou a mandíbula.

— Você ainda é minha esposa.

— E estou procurando me divorciar.

A expressão dele mudou.

Até então, talvez acreditasse que eu estivesse apenas esperando que alguém viesse me buscar.

— Você está falando sério?

— Estou.

Ele passou as duas mãos pelo rosto.

— Por causa daquela festa?

— Não. Por causa do que aquela festa revelou.

Rafael ficou vários segundos olhando para a mesa.

Depois disse que não aceitaria uma decisão tomada “no calor do momento”.

Dessa vez, eu não discuti.

— Você não precisa aceitar para que eu saiba o que quero.

Saí da cafeteria.

No estacionamento, Camila me esperava dentro do carro alugado. Assim que entrei, meu celular tocou.

Era minha mãe.

Atendi.

Ela estava chorando.

— Filha, eu fui buscar suas coisas.

Fiquei imóvel.

— Como assim?

— Fui até lá. A Sônia disse que você tinha que aparecer. Eu disse que não. Disse que suas roupas, documentos e objetos eram seus e que eu levaria tudo.

Eu não soube o que responder.

Minha mãe respirou fundo.

— Ela começou a gritar comigo. E eu… eu gritei de volta.

Apesar de tudo, um sorriso curto escapou.

— Você gritou com a Sônia?

— Não se acostuma.

A vontade de rir durou pouco.

Então ela disse algo que me atingiu de outro jeito.

— Mariana, eu passei a vida inteira ensinando você a suportar coisas só para ninguém ficar com raiva. Quando pedi para você voltar para aquele salão, eu fiz a mesma coisa de novo.

Fechei os olhos.

— Mãe…

— Eu devia ter levantado daquela cadeira.

Não respondi imediatamente.

Ela continuou.

— Não estou pedindo que você me perdoe agora. Só estou dizendo que entendi.

Quando desliguei, fiquei olhando para o movimento do estacionamento.

Eu ainda estava machucada.

Ainda tinha medo do dinheiro acabar.

Ainda não sabia se conseguiria o emprego.

Ainda teria de lidar com a ocorrência registrada pelo padrinho, com o divórcio e com tudo o que tinha deixado para trás.

Mas alguma coisa tinha mudado.

Não era porque os problemas tinham desaparecido.

Era porque, pela primeira vez, eu não estava tentando convencer ninguém de que tinha o direito de sentir o que sentia.

Naquela mesma tarde, registrei formalmente o que tinha acontecido comigo durante a festa e entreguei a indicação dos vídeos que mostravam a sequência do episódio. Também deixei claro que não negaria o golpe que tinha dado no padrinho.

Eu queria que tudo fosse analisado como realmente havia acontecido.

Sem me transformar em santa.

Sem deixar que me transformassem na única culpada.

Antes de voltar para Brasília, encontrei minha mãe.

Ela tinha colocado minhas roupas e documentos em três malas.

Quando me entregou a última, segurou minha mão.

Não pediu que eu voltasse para Rafael.

Não mencionou vergonha.

Não falou sobre o que os parentes diriam.

Só perguntou:

— Você tem onde ficar?

— Tenho por enquanto.

Ela assentiu.

— E dinheiro?

— Pouco.

Abriu a bolsa.

Imediatamente balancei a cabeça.

— Não, mãe.

Ela não insistiu.

Foi uma mudança pequena, mas eu percebi.

Ela guardou a carteira e disse:

— Então, se precisar de alguma coisa, você me fala.

No ônibus de volta, recebi uma ligação do escritório onde tinha feito a entrevista.

A coordenadora disse que gostaram do meu portfólio e queriam que eu começasse na segunda-feira.

Fechei os olhos.

O contrato ainda era temporário.

O salário resolveria apenas o básico.

Eu continuava sem casa própria, sem economias e com uma separação inteira pela frente.

Mesmo assim, quando desliguei, senti uma coisa que não sentia havia muito tempo.

Orgulho.

Camila, sentada ao meu lado, percebeu.

— Conseguiu?

Assenti.

— Segunda-feira.

Ela sorriu.

— Então segunda-feira você começa de novo.

Olhei pela janela.

— Não.

Camila franziu a testa.

— Não?

Respirei fundo.

— Eu comecei de novo quando atravessei a porta daquele hotel.

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