No enterro do meu pai, meu marido alugou um parque para a ex — e disse que nosso casamento existia só no papel
Parte 3
Rafael encerrou a ligação e permaneceu alguns segundos olhando para o celular, como se esperasse que a tela desmentisse o que acabara de ouvir. O barulho do parque continuava ao redor de nós, mas ninguém parecia prestar atenção à música ou às luzes. Os repórteres haviam percebido que aquela noite deixara de ser uma história romântica.
— Você preparou isso enquanto seu pai ainda estava vivo? — ele perguntou.
— Meu pai preparou o que precisava ser preparado para proteger o Grupo Almeida. Eu apenas cumpri a vontade dele.
— Ele confiava em mim.
— Não confunda ajuda com confiança ilimitada.
Rafael avançou um passo.
— Durante três anos eu mantive o Grupo Barreto funcionando.
— Depois que meu pai abriu portas que estavam fechadas para você, renegociou prazos e colocou o nome dele em reuniões nas quais ninguém mais queria ouvir sua empresa.
Os olhos dele endureceram.
Eu conhecia aquele olhar.
Era o mesmo que Rafael usava em reuniões quando alguém contrariava uma decisão sua. Durante anos, eu havia interpretado aquela firmeza como segurança. Naquela noite, enxerguei o que realmente existia por trás dela: a certeza de que todos acabariam cedendo.
Dona Helena segurou o braço do filho.
— Não discuta aqui. Essa mulher está aproveitando a morte do próprio pai para nos atacar.
Virei-me para ela.
— Não use meu pai para se defender.
Minha voz saiu baixa, mas Helena ficou imóvel.
— Hoje, no velório dele, a senhora exigiu acesso aos documentos do Grupo Almeida. Disse que eu deveria entregar a administração para Rafael porque uma mulher da família Barreto não deveria “ficar aparecendo em reuniões”. E ainda pediu a chave do cofre.
Algumas câmeras se voltaram para Helena.
Ela percebeu e imediatamente mudou de postura.
— Eu estava preocupada com você. Uma filha perde o pai e fica vulnerável.
— Curioso. Sua forma de demonstrar preocupação foi pedir minhas ações.
Rafael passou a mão pelo rosto.
— Chega.
Olhei para ele.
— Concordo.
— Você vai suspender essa notificação agora.
Não consegui evitar um sorriso curto.
— Ainda acha que pode me dar ordens?
— Mariana, pense no que está fazendo. Se as linhas forem realmente suspensas, fornecedores vão pressionar, contratos podem travar, funcionários vão ficar preocupados.
— Você deveria ter pensado nisso antes de presumir que o Grupo Almeida continuaria sustentando o seu para sempre.
Ele se aproximou mais.
— Você está misturando casamento com negócios.
— Quem tentou misturar foi sua mãe quando exigiu minhas ações no velório.
Rafael ficou em silêncio.
Aquilo me confirmou algo simples: Helena não tivera aquela ideia sozinha.
— Você sabia — eu disse.
Ele desviou o olhar por um instante.
Foi mínimo.
Mas eu vi.
— Sabia o quê?
— Que sua mãe iria me pressionar para entregar os documentos amanhã.
— Ela queria evitar instabilidade.
— Não minta para mim hoje. Pelo menos hoje.
Camila, que permanecera alguns passos atrás, finalmente falou.
— Rafael, do que ela está falando?
Ele não respondeu.
Camila se aproximou.
— Você me disse que a família dela estava praticamente fora dos negócios. Disse que o Grupo Almeida estava enfraquecido depois da doença do pai dela e que vocês só precisavam terminar algumas formalidades.
Meu olhar foi até Rafael.
Ele fechou os olhos por um segundo.
Aquilo não era uma grande revelação para mim. Havia meses eu percebia como Rafael tratava meu trabalho: como se fosse temporário, como se minha posição existisse apenas enquanto meu pai estivesse vivo.
Mas ouvir aquilo em voz alta, diante dele, confirmou a extensão de sua arrogância.
— Então era isso — falei. — Você realmente acreditava que, depois do enterro, eu assinaria tudo.
— Não era assim.
— Como era?
— Eu estava tentando proteger as duas empresas.
— Colocando apenas você no controle das duas.
Rafael apertou os lábios.
Camila recuou um passo.
— Rafael, você disse que estava se separando porque queria viver nossa história. Não falou nada sobre assumir a empresa dela.
— Isso não tem relação com você.
A frase saiu rápida demais.
Camila ficou imóvel.
Vi o momento exato em que algo mudou em seu rosto.
Até então, ela havia participado daquela noite acreditando que era a protagonista de uma grande reconciliação romântica. De repente, percebeu que também existiam poder, patrimônio e negócios misturados àquela história.
— Não tem relação comigo? — repetiu.
— Camila, não começa.
Ela soltou uma risada nervosa.
— Você fecha um parque inteiro, chama imprensa, diz que vai me dar um casamento e agora manda eu não começar?
Rafael olhou ao redor.
— Não é hora.
— Foi você quem escolheu a hora.
Pela primeira vez naquela noite, concordei com Camila.
Meu celular vibrou.
O advogado Renato informou que os documentos haviam sido protocolados e que os bancos participantes da antiga reestruturação já tinham sido comunicados oficialmente sobre o fim das garantias vinculadas ao Grupo Almeida.
Não era uma sentença de falência.
Não era um botão mágico capaz de destruir uma empresa em minutos.
Era pior para Rafael justamente porque era real.
A partir dali, ele teria de explicar aos credores como manteria o Grupo Barreto funcionando sem a proteção que tratara durante três anos como se fosse patrimônio próprio.
Mostrei a mensagem a ele.
— Está protocolado.
— Você pode voltar atrás.
— Posso negociar o pagamento. Voltar ao que existia antes, não.
Rafael respirou fundo.
— Quanto você quer?
A pergunta me feriu mais do que deveria.
— Ainda não entendeu.
— Todo mundo quer alguma coisa.
— Eu quero que o Grupo Barreto pague o que deve ao Grupo Almeida dentro das condições previstas. Quero que parem de tratar o patrimônio do meu pai como se fosse uma extensão do seu. E quero que você fique longe da administração da minha empresa.
— Sua empresa?
— Sim.
— Seu pai mal foi enterrado e você já fala como se tudo fosse seu.
Eu senti o sangue subir ao rosto.
Mas não gritei.
— Meu pai passou os últimos meses me preparando para assumir responsabilidades que você nunca respeitou. Se isso incomoda, o problema é seu.
Helena avançou novamente.
— Você não tem experiência para administrar um grupo daquele tamanho.
— Tenho trabalhado lá há anos.
— Ao lado do seu pai.
— E Rafael trabalhava ao lado de quem quando o Grupo Barreto quase quebrou?
Ela abriu a boca, mas não respondeu.
O silêncio foi suficiente.
Um dos assessores de Rafael se aproximou e cochichou alguma coisa em seu ouvido. Ele empalideceu outra vez.
— O que foi? — perguntou Helena.
Rafael ignorou a mãe.
Olhou diretamente para mim.
— Dois fornecedores suspenderam novos pedidos.
— Então converse com eles.
— Um dos bancos quer reunião antes da abertura do mercado.
— Vá à reunião.
— Você fala como se isso não fosse afetar ninguém.
— Vai afetar. É por isso que eu lhe dei três anos para cumprir obrigações que você conhecia.
Ele me encarou.
A raiva começou a substituir o medo.
— Seu pai nunca me cobrou dessa forma.
— Meu pai acreditava que você devolveria a ajuda quando tivesse condições.
— E eu estava fazendo isso.
— Estava?
Rafael ficou calado.
Nos últimos meses, o Grupo Barreto havia anunciado expansão, comprado participação em novos projetos e elevado seus gastos de representação. Rafael se comportava como se a fase de crise tivesse sido apagada da história.
Enquanto isso, compromissos antigos continuavam sendo adiados.
Meu pai sabia.
Por isso, semanas antes de morrer, começara a organizar tudo.
Não para se vingar.
Para impedir que eu herdasse também a obrigação de sustentar uma empresa que não era nossa.
— Quando meu pai percebeu que você não pretendia regularizar a situação, ele decidiu encerrar as garantias no momento adequado — expliquei. — A procuração que deixou comigo me autoriza a concluir esse processo e representar a holding nos atos que já estavam preparados.
Rafael abaixou a voz.
— E você esperou até hoje.
— Eu esperei até você transformar o funeral dele num anúncio público de que eu não significava nada.
Ele não respondeu.
A verdade era simples.
Se Rafael tivesse comparecido ao velório, demonstrado respeito e procurado conversar comigo sobre as empresas, eu ainda executaria as decisões do meu pai. Mas talvez a conversa tivesse acontecido numa sala fechada, longe das câmeras.
Foi ele quem escolheu o palco.
Eu apenas me recusei a sair dele humilhada.
Camila tirou do dedo uma pequena joia que Rafael lhe dera naquela noite e colocou na mão dele.
— Eu vou embora.
Rafael virou-se depressa.
— Camila.
— Não.
— Você está entendendo tudo errado.
— Talvez. Mas hoje você disse que queria viver com honestidade. Então começa sendo honesto.
Ela apontou discretamente para mim.
— Você ainda é casado com ela. O pai dela morreu hoje. E você me trouxe para um parque cheio de câmeras.
Rafael tentou segurá-la.
Camila afastou o braço.
— Eu aceitei vir porque você me fez acreditar que essa história já estava encerrada entre vocês. Não vou ficar aqui enquanto você briga por empresa, ação e dinheiro.
Helena ficou indignada.
— Depois de tudo o que meu filho fez por você?
Camila olhou para ela.
— Esse é exatamente o tipo de frase que a senhora deveria parar de usar.
E foi embora.
Rafael deu dois passos para segui-la, mas seu assessor apareceu novamente.
— Rafael, o conselho está solicitando sua presença amanhã às nove. Todos os conselheiros confirmaram.
Ele parou.
Olhou para Camila desaparecendo pela saída.
Depois para mim.
Pela primeira vez naquela noite, Rafael parecia incapaz de decidir qual perda deveria tentar impedir primeiro.
Eu guardei o celular.
— Amanhã às nove eu também estarei lá.
— Você não faz parte do conselho do Grupo Barreto.
— Não. Mas o Grupo Almeida é o principal credor envolvido na reestruturação que vocês agora terão de explicar.
Passei por ele.
Helena me chamou.
— Mariana!
Parei, mas não me virei.
— Você vai destruir uma família por causa de orgulho?
Respirei fundo.
— Não, Dona Helena.
Então olhei por cima do ombro.
— Eu só parei de permitir que a sua família destruísse a minha.
Saí do parque sem esperar resposta.
Na manhã seguinte, pouco antes das nove, atravessei as portas da sede do Grupo Barreto com a pasta do meu pai nas mãos.
Rafael já estava na sala de reuniões.
E, quando me viu entrar ao lado do advogado Renato, percebeu que aquela conversa não seria sobre como recuperar o controle sobre mim.
Seria sobre quanto controle ele ainda tinha sobre a própria vida.
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