Na véspera do casamento, meu noivo escolheu outra mulher diante de todos — e destruiu o que ainda restava entre nós
Parte 3
Rafael apareceu no hospital dois dias depois.
Eu acabava de sair de uma reunião quando o encontrei esperando no corredor próximo ao meu escritório. Estava de uniforme, com olheiras profundas e uma expressão que misturava cansaço e irritação.
— A gente precisa conversar.
— Aqui não.
— Então me diz onde.
Olhei para o relógio.
— Tenho vinte minutos antes da próxima avaliação. Podemos falar na cafeteria.
Ele pareceu ofendido por eu tratar nossa situação como um compromisso encaixado na agenda, mas me acompanhou.
Quando sentamos, Rafael foi direto ao ponto.
— Volta para casa.
— Não.
— Mariana, para com isso.
— Você veio conversar ou me dar ordem?
Ele recuou.
Durante anos, Rafael estivera acostumado a uma versão minha que tentava resolver conflitos antes que crescessem. Eu explicava, negociava, dava tempo, compreendia sua rotina militar e aceitava seus silêncios.
Talvez por isso minha recusa parecesse tão estranha para ele.
— Camila não vai ficar para sempre — disse. — Ela só precisa melhorar.
— Espero sinceramente que melhore.
— Então qual é o problema?
Olhei para ele por alguns segundos.
— O problema é que você ainda acha que o problema é ela.
Rafael ficou em silêncio.
— Camila não prometeu se casar comigo. Ela não passou dez anos construindo uma vida ao meu lado. Ela não me deixou no altar. Não foi ela quem decidiu que podia oferecer meu quarto, minhas coisas e minha casa como se eu não existisse.
— Eu estava tentando protegê-la.
— Às minhas custas.
— O irmão dela morreu por mim!
A voz dele subiu e algumas pessoas olharam.
Eu permaneci calma.
— E você sobreviveu. Eu entendo a culpa que sente. O que eu não aceito é que transforme essa culpa em uma obrigação para todos ao seu redor.
Ele apertou as mãos sobre a mesa.
— Você não sabe como foi.
— Não. Eu não estava lá.
Inclinei-me um pouco para a frente.
— Mas também não estava lá quando o irmão dela pediu que você entregasse sua própria vida em troca da dele.
Rafael abriu a boca e fechou novamente.
Meu celular vibrou.
Levantei.
— Meu tempo acabou.
— Mariana.
Parei.
— Eu ainda amo você.
Aquela frase teria destruído minhas defesas uma semana antes.
Naquele momento, apenas doeu.
— Amor não dá autorização para humilhar alguém, Rafael.
Voltei ao trabalho.
Naquela noite, sentei com minha mãe à mesa da cozinha e começamos a separar as páginas dos cadernos.
Algumas podiam ser salvas.
Outras tinham perdido quase toda a tinta.
Minha mãe segurou uma folha cuidadosamente.
— Quantos anos tem isso?
— Esse caderno específico? Uns seis.
Ela respirou fundo.
— E ele disse que comprava outro?
Assenti.
Minha mãe não respondeu.
Talvez soubesse que qualquer comentário naquele momento apenas aumentaria minha dor.
Continuamos trabalhando até quase duas da manhã.
Nos dias seguintes, usei todas as horas livres para reconstruir o que conseguia. Alguns registros profissionais estavam nos arquivos do hospital, outros em apresentações antigas, artigos e documentos no computador.
Mas havia comentários pessoais que nunca poderiam ser recuperados.
Lições que eu havia escrito depois de noites difíceis.
Erros que nunca queria repetir.
Observações feitas à mão depois de cirurgias que mudaram minha carreira.
Eram muito mais do que papel.
A destruição deles acabou me ensinando alguma coisa que eu deveria ter percebido antes: eu estava tentando convencer Rafael a respeitar coisas que ele já deveria saber que eram importantes simplesmente porque eram importantes para mim.
Uma semana depois, voltei ao apartamento.
Não fui sozinha.
Meu pai e minha mãe me acompanharam.
Não porque eu tivesse medo de Rafael, mas porque eu não queria ficar presa em outra discussão emocional.
Rafael estava de serviço.
Camila abriu a porta.
O sorriso dela desapareceu quando viu meus pais.
— Doutora Mariana?
— Vim buscar minhas coisas.
Ela segurou a porta.
— Rafael sabe?
— Não preciso da autorização dele para levar o que é meu.
Camila deu passagem.
A sala parecia ainda mais diferente.
Havia novas almofadas, objetos decorativos que eu nunca escolheria e fotografias que não conhecia sobre um aparador.
Meu quadro continuava desaparecido.
Minha orquídea também.
Fui direto ao quarto de hóspedes.
Minha mãe começou a dobrar roupas enquanto meu pai carregava caixas.
Depois fui ao quarto principal.
Camila correu atrás.
— Algumas coisas minhas estão aí.
— Eu não estou interessada nas suas coisas.
Abri o armário.
Metade das minhas roupas havia sido empurrada para um canto.
O pijama feito pela minha mãe estava dobrado sobre uma cadeira.
Peguei-o.
Minha mãe viu.
Não disse nada.
Mas percebi sua expressão mudar.
Camila pareceu desconfortável.
— Eu lavei.
— Ótimo.
Coloquei o pijama dentro da mala.
Enquanto recolhia meus objetos, ela finalmente perguntou:
— Você realmente vai terminar com Rafael?
Continuei dobrando uma blusa.
— Já terminei.
— Mas vocês estavam juntos havia tanto tempo.
— Estávamos.
Camila torceu os dedos.
— Ele fala muito de você.
— Imagino.
— Você não está com ciúme?
Olhei para ela.
A pergunta parecia sincera, e isso me surpreendeu.
— Não mais.
Ela ficou claramente desconcertada.
Foi nesse momento que compreendi algo.
Talvez Camila tivesse passado aquelas semanas acreditando que existia uma disputa.
Ela e eu.
A mulher frágil que precisava ser protegida contra a noiva fria que não compreendia a dívida de Rafael.
Mas eu não estava mais disputando ninguém.
— Se você acha que venceu alguma coisa, Camila, está enganada.
O rosto dela empalideceu.
— Eu não disse isso.
— Eu sei.
Fechei a mala.
— Mas também quero que entenda outra coisa. Rafael pode cuidar de você se essa for a escolha dele. Só que eu não vou me sacrificar para tornar essa escolha confortável.
Quando saímos do prédio, encontramos Rafael chegando.
Ele parou ao ver as caixas.
— O que é isso?
Meu pai respondeu antes de mim:
— As coisas da minha filha.
Rafael olhou para mim.
— Você veio aqui sem falar comigo?
— Eu vim buscar o que é meu.
— Mariana, isso está passando dos limites.
Quase sorri.
— Curioso você falar de limites agora.
Ele acompanhou nossos passos até o carro.
— Não leva tudo.
Parei.
— Por quê?
A resposta demorou.
— Porque parece definitivo.
Meu peito apertou.
Houve um tempo em que eu teria largado as caixas naquele instante apenas por ouvir aquela vulnerabilidade na voz dele.
Mas lembrei do altar.
Do quarto.
Do pijama.
Dos cadernos.
— É definitivo, Rafael.
Ele ficou parado na calçada enquanto entrávamos no carro.
Dois dias depois, recebi uma ligação dele perto das onze da noite.
Eu estava revisando um caso quando vi seu nome.
Quase ignorei.
Algo me fez atender.
— O que aconteceu?
A voz dele estava estranha.
— Estou no hospital.
Meu coração acelerou por reflexo.
— Você se machucou?
— Não.
Houve alguns segundos de silêncio.
— É a Camila.
Fechei os olhos.
— Ela teve outra crise?
— Sim.
Rafael parecia exausto.
Ele explicou que precisava voltar à unidade militar naquela noite. Camila entrou em pânico quando soube que ficaria sozinha e começou a dizer que ele também pretendia abandoná-la.
Rafael tentou acalmá-la.
Não conseguiu.
Dessa vez, chamou a equipe responsável pelo tratamento.
Camila foi levada novamente para atendimento psiquiátrico.
— Foi a coisa certa — eu disse.
— Eu sei.
Era a primeira vez que ele dizia aquilo sem tentar justificar alguma coisa.
— Mariana…
Esperei.
— Acho que você tinha razão.
Senti um cansaço imenso.
— Sobre o quê?
— Eu achei que estava ajudando.
— Talvez estivesse tentando.
— Mas eu deixei tudo ficar fora de controle.
Não respondi.
Rafael continuou:
— Ela passou a achar que eu precisava estar disponível o tempo inteiro. Se eu ia trabalhar, ela chorava. Se eu falava com você, ela entrava em crise. Eu comecei a perceber que estava piorando as coisas.
Encostei-me na cadeira.
— Rafael, isso precisa ser tratado por profissionais. Você não pode substituir uma equipe médica.
— Eu sei agora.
Outra pausa.
— E ela falou uma coisa.
Meu estômago se contraiu.
— O quê?
Ele respirou lentamente.
— Sobre seus cadernos.
Fiquei imóvel.
— Ela contou que derramou aquela água de propósito.
Por alguns segundos, não ouvi mais nada.
Rafael continuou falando, mas minha atenção ficou presa àquela frase.
— Ela disse que sabia que eu ficaria do lado dela. Disse que queria que você perdesse a paciência na minha frente.
Fechei os olhos.
Não senti a explosão de raiva que imaginei que sentiria.
Senti tristeza.
Uma tristeza profunda e quase tranquila.
— Mariana?
— Estou aqui.
— Eu preciso ver você.
— Para quê?
A resposta dele veio baixa.
— Porque finalmente entendi o que eu fiz.
Olhei para os cadernos parcialmente recuperados sobre minha mesa.
— Entender agora não apaga o que aconteceu.
— Eu sei.
— Espero que saiba mesmo.
— Posso ir amanhã?
Fiquei alguns segundos em silêncio.
— Pode.
Na manhã seguinte, quando saí do centro cirúrgico, Rafael estava esperando por mim.
Dessa vez, não parecia irritado.
Parecia derrotado.
Ele se levantou quando me viu.
E as primeiras palavras que disse foram:
— Camila também admitiu que colocou o pé na porta de propósito naquele dia.
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