Minha irmã tentou roubar meu colar de R$ 250 mil para ajudar a colega a “mudar de vida”
Parte 3
No estacionamento da residência estudantil, Bianca colocou as bolsas no porta-malas do carro sem olhar para ninguém. Seus olhos estavam inchados, e a marca avermelhada no rosto ainda deixava evidente tudo o que havia acontecido em casa. Eu esperava que ela começasse a defender Larissa novamente assim que saíssemos do prédio. Em vez disso, entrou no banco traseiro e ficou calada.
Minha mãe sentou ao lado dela. Meu pai foi comigo na frente. Durante o caminho, ninguém tentou preencher o silêncio com sermão. Pela janela, as luzes de São Paulo passavam rapidamente, enquanto Bianca mantinha as mãos juntas sobre o colo, apertando os próprios dedos.
Quando chegamos, ela levou as bolsas para o quarto e começou a colocar as roupas de volta no armário. Minha mãe ficou à porta observando. Depois de alguns minutos, perguntou: — Tem mais alguma coisa sua com a Larissa? Bianca demorou para responder. — Acho que sim.
A palavra “acho” deixou meu pai alerta.
Sentamos os quatro na sala. Bianca pegou o celular e começou a lembrar, item por item, de coisas que havia emprestado nos últimos meses. Um tênis. Uma bolsa pequena. Um casaco. Um secador de cabelo. Perfumes. Produtos de maquiagem. Dinheiro para refeições e corridas de aplicativo que Larissa prometera devolver.
Não era uma fortuna comparada ao colar.
Mas também não era pouco.
O problema maior não estava no valor. Estava no padrão.
Sempre havia uma justificativa. Uma entrevista. Um evento. Uma emergência. Uma semana difícil. Uma conta inesperada. E sempre que Bianca hesitava, Larissa encontrava uma forma de transformar a recusa em defeito de caráter.
— Se você não empresta, é porque nunca passou necessidade.
— Para você é fácil falar.
— Eu achei que você não fosse igual às meninas ricas que olham os outros de cima.
— Se fosse minha amiga de verdade, entenderia.
Bianca repetia aquelas frases em voz baixa, como quem finalmente escutava o que havia ouvido durante meses.
Minha mãe perguntou:
— E o que você recebia em troca?
Bianca pareceu ofendida.
— Amizade não é troca.
— Eu sei. É exatamente por isso que estou perguntando.
Minha irmã ficou quieta.
Naquela noite, ninguém mexeu mais no assunto.
Na manhã seguinte, Bianca voltou para a universidade.
Eu esperava uma ligação antes do almoço. Ela não aconteceu. À tarde, mandei apenas uma mensagem perguntando se estava tudo bem. Bianca respondeu com duas palavras: “Estou pensando.”
Não insisti.
Dois dias depois, ela apareceu em casa sem avisar.
Entrou no meu quarto e colocou uma bolsa sobre a cama.
— Achei isso no armário da Larissa.
Era uma das bolsas que ela havia mencionado.
— Ela devolveu?
— Não exatamente.
Bianca sentou na ponta da cama.
Contou que, naquela manhã, foi até o quarto pedir os objetos restantes. Larissa havia reagido mal. Disse que algumas coisas tinham sido presentes, não empréstimos. Bianca respondeu que nunca havia dado aquela bolsa. Larissa disse que não lembrava.
— E o tênis?
— Disse que uma prima está usando.
— O secador?
— Disse que quebrou.
Eu respirei fundo.
Bianca levantou a mão antes que eu falasse.
— Não fui lá brigar.
Aquilo me surpreendeu.
— E o que você fez?
— Pedi que ela separasse tudo o que ainda tivesse e me entregasse até amanhã.
— E ela aceitou?
Bianca soltou uma risada sem humor.
— Disse que eu virei sua cópia.
Não respondi.
Ela passou a mão pelo tecido da bolsa.
— Depois falou que sabia que isso ia acontecer. Que família rica sempre coloca dinheiro acima das pessoas.
— E o que você disse?
Bianca me encarou.
— Perguntei por que nossa amizade dependia tanto das minhas coisas.
A frase ficou entre nós.
— Ela respondeu?
— Ficou com raiva.
Bianca abaixou os olhos.
— Falou que eu estava sendo ingrata. Disse que, quando eu cheguei à universidade, era insegura, não sabia me vestir, não sabia falar com ninguém e que foi ela quem me ajudou a me enturmar.
Aquilo fazia algum sentido. Bianca sempre fora protegida demais pelos nossos pais. Quando entrou na universidade, estava ansiosa, e Larissa parecia ter sido uma das primeiras pessoas com quem criou proximidade.
— E isso é verdade? — perguntei.
— Em parte.
Bianca respirou fundo.
— Ela me apresentou para algumas pessoas. Ficava comigo no intervalo. Me ajudou quando tive dificuldade numa matéria. Não estou inventando que ela foi boa comigo.
Eu assenti.
Aquilo era importante.
Larissa não precisava ter sido um monstro desde o primeiro dia para que a relação tivesse se tornado abusiva.
— Talvez seja justamente por isso que você demorou tanto para perceber — falei.
Bianca não respondeu.
No dia seguinte, ela recebeu uma sacola com algumas peças.
Nem tudo voltou.
O tênis continuava com a suposta prima. O secador estava realmente quebrado. Um perfume caro havia acabado. Parte dos cosméticos já tinha sido usada. Não existia maneira sensata de desfazer aquilo.
Minha mãe ficou furiosa quando viu.
Meu pai, porém, fez algo inesperado.
— Chega.
Ele apontou para Bianca.
— Não vamos atrás de cada gota de creme, cada borrifada de perfume e cada corrida de aplicativo. Você emprestou. Você permitiu. Foi manipulada, mas também tomou decisões.
Bianca ficou vermelha.
— Pai…
— Escuta até o fim.
Ele se sentou diante dela.
— O que você tentou fazer com o colar da sua irmã foi muito mais grave do que tudo isso. Se quiser aprender alguma coisa, começa assumindo sua parte.
Minha irmã apertou os lábios.
Meu pai continuou:
— Larissa pode ter pressionado. Pode ter usado sua culpa. Pode ter se aproveitado da sua generosidade. Mas foi você quem decidiu que o direito da sua irmã valia menos do que a aprovação da sua amiga.
Bianca começou a chorar.
Dessa vez, ninguém interrompeu.
Ela olhou para mim.
— Eu sei.
Fiquei calada.
— Eu fiquei tão preocupada em provar para ela que eu não era mimada… — Bianca continuou. — Toda vez que eu dizia não para alguma coisa, parecia que eu estava confirmando tudo o que ela dizia sobre mim.
— E por isso você decidiu provar que era uma boa pessoa usando o que era meu?
Ela fechou os olhos.
— Sim.
A resposta não apagou minha raiva.
Mas foi a primeira vez que ela assumiu exatamente o que havia feito sem acrescentar um “mas”.
Três dias depois, veio a festa pela qual toda aquela confusão tinha começado.
Bianca não foi.
Larissa foi.
Eu só soube porque minha irmã voltou para casa mais cedo naquela noite. Ela entrou na cozinha usando jeans, camiseta e tênis, sentou à mesa e ficou mexendo numa caneca vazia.
— Ela me mandou mensagem — disse.
— Pedindo alguma coisa?
— Não.
Bianca respirou fundo.
— Disse que eu tinha estragado tudo. Que ela passou vergonha porque teve de ir “parecendo qualquer pessoa”.
Minha mãe, que preparava café, parou.
Bianca continuou:
— Eu perguntei se a festa tinha sido boa. Ela respondeu que eu não tinha o direito de agir como se me importasse depois de abandonar uma amiga quando ela mais precisava.
Eu quase falei, mas Bianca terminou:
— Então bloqueei.
Minha mão, que segurava um copo, ficou imóvel.
— Bloqueou?
Ela assentiu.
— No WhatsApp. Nas redes sociais. Em tudo.
Minha mãe colocou a xícara na frente dela.
— Tem certeza?
Bianca encarou o café.
— Não.
Depois levantou os olhos.
— Mas fiz mesmo assim.
Nas semanas seguintes, a situação ficou menos dramática e mais difícil.
Larissa não desapareceu apenas porque foi bloqueada.
As duas estudavam no mesmo campus. Tinham conhecidos em comum. Compartilhavam alguns horários e, por enquanto, ainda pertenciam ao mesmo círculo social.
Bianca começou a ouvir comentários.
Que havia ficado arrogante.
Que sua família controlava sua vida.
Que a irmã “rica” tinha invadido a residência e agredido uma estudante.
Essa parte era verdadeira.
Eu tinha ido até lá e perdido o controle.
Quando Bianca me contou, não tentei me defender.
— Eu não deveria ter batido nela.
Minha irmã me olhou, surpresa.
— Você está arrependida?
— Estou dizendo que foi errado.
Eu podia continuar acreditando que Larissa havia manipulado Bianca e, ao mesmo tempo, reconhecer que partir para a violência havia criado outro problema.
— E o que eu faço quando falarem disso? — Bianca perguntou.
— Não minta por mim.
Ela franziu a testa.
— Fale que aconteceu. Você não precisa transformar ninguém em santa ou vilã para contar a verdade.
Bianca ficou alguns segundos pensando.
— Ela vai usar isso para dizer que tudo o que falou sobre você estava certo.
— Talvez.
— Isso não te incomoda?
— Muito.
Inclinei-me na direção dela.
— Mas eu não vou te ensinar a combater manipulação com mentira.
Aquela conversa mudou alguma coisa entre nós.
Até então, Bianca me via como a irmã mais velha que sempre tinha certeza de tudo. Naquele momento, talvez tenha percebido que assumir um erro não fazia alguém perder autoridade.
Às vezes fazia exatamente o contrário.
Uma semana depois, Bianca me ligou no meio da tarde.
A voz dela estava estranhamente firme.
— Estou na residência.
— Aconteceu alguma coisa?
— A Larissa está aqui.
Sentei direito.
— E?
— Ela trouxe o tênis.
— Ótimo.
— E quer conversar.
— Você quer conversar com ela?
Houve uma pausa.
— Quero.
— Então conversa.
— Você não vai vir?
Eu entendi o que ela estava pedindo.
Não era proteção.
Era permissão.
— Não — respondi. — Essa parte é sua.
Bianca desligou.
Só me contou o que aconteceu naquela noite.
As duas foram até uma área comum do prédio, onde havia outras pessoas por perto, mas ficaram afastadas o suficiente para conversar sem plateia.
Larissa começou dizendo que tudo havia saído do controle.
Disse que não queria perder a amizade.
Disse que sentia falta de Bianca.
Minha irmã perguntou:
— Você sente falta de mim ou das coisas que eu fazia por você?
Larissa ficou ofendida.
— Que pergunta ridícula.
— Então responde.
— Claro que sinto sua falta.
— Do quê?
Larissa não conseguiu responder de imediato.
Bianca ficou esperando.
Então Larissa mudou de assunto.
Disse que Bianca também havia se beneficiado da amizade. Que ela a ajudara socialmente. Que a apresentara a pessoas. Que passara noites conversando quando Bianca estava insegura.
Bianca concordou.
— Eu sei. E sou grata por isso.
Larissa relaxou.
Mas minha irmã continuou:
— Só que gratidão não significa que eu tenha de dizer sim para tudo.
Larissa cruzou os braços.
— Eu nunca pedi tudo.
— Não. Você só fazia parecer que cada “não” provava que eu era uma pessoa ruim.
Larissa ficou irritada.
— Você está repetindo discurso da sua família.
— Não.
Bianca respirou.
— Estou repetindo coisas que você disse.
Foi então que Larissa perdeu a paciência.
— Quer saber? Talvez eu realmente tenha exagerado algumas vezes. Mas você também adorava bancar a generosa.
Bianca ficou imóvel.
Larissa continuou:
— Você gostava de chegar com coisa boa, emprestar, pagar corrida, pedir comida para todo mundo. Não coloca tudo nas minhas costas agora.
Minha irmã levou alguns segundos para responder.
— Talvez eu gostasse mesmo.
A sinceridade desarmou Larissa por um instante.
— Eu queria que vocês gostassem de mim — Bianca admitiu. — E você percebeu isso.
Larissa não negou.
— Mas isso não significa que você podia usar isso sempre que queria alguma coisa.
— Eu não usei você.
— Então por que pediu um colar de R$ 250 mil?
Larissa revirou os olhos.
— Eu nem toquei naquele colar.
— Mas queria usar.
— Sim.
— E quando eu disse que minha irmã provavelmente não deixaria?
Larissa ficou calada.
Bianca terminou:
— Você disse que ela era egoísta. Disse que, se eu fosse sua amiga de verdade, daria um jeito.
Larissa olhou ao redor.
Não havia mais como fingir que aquela frase nunca existira.
Então respondeu:
— Eu estava nervosa com a festa.
— E eu quase traí a confiança da minha irmã por causa do seu nervosismo.
Larissa suspirou.
— Bianca, você está exagerando.
Minha irmã se levantou.
— Foi exatamente isso que eu precisava ouvir.
— O quê?
— Que você ainda acha pequeno.
Bianca pegou o tênis que havia colocado ao lado da cadeira.
Larissa também se levantou.
— Vai acabar nossa amizade por causa de roupa, maquiagem e um colar que eu nem cheguei a usar?
Bianca olhou para ela.
— Não.
E então disse a frase que, quando me contou depois, me fez entender que alguma coisa nela realmente havia mudado:
— Estou acabando porque, quando eu disse não, você me fez sentir culpada. E quando eu fiz uma coisa terrível tentando agradar você, sua primeira reação foi dizer que o problema era só meu.
Larissa ficou sem resposta.
Bianca colocou o tênis dentro da bolsa.
— O resto eu não quero mais.
— Como assim?
— O perfume acabou. O secador quebrou. Algumas coisas sumiram. Não vou passar meses discutindo objeto por objeto.
Ela abriu a porta.
— Só quero que, daqui para a frente, você não peça mais nada a mim.
Larissa ainda tentou:
— Você vai se arrepender.
Bianca parou.
Dessa vez, não voltou para discutir.
— Talvez.
E saiu.
Quando terminou de me contar, estávamos sentadas no meu quarto.
Peguei o colar de diamantes da caixa.
Bianca ficou tensa.
Coloquei a joia sobre a cama, entre nós.
— Sabe o que é isso para mim?
Ela olhou para o colar.
— R$ 250 mil.
Balancei a cabeça.
— Não.
Passei os dedos pela corrente.
— É uma coisa que comprei quando meu trabalho começou a dar resultado. Eu lembro exatamente de quantas noites fiquei acordada, quantos clientes perdi, quantas vezes achei que não conseguiria.
Bianca me encarou.
— Por isso fiquei tão furiosa quando vi você tentando pegar.
Ela começou a chorar novamente.
— Eu sinto muito.
Dessa vez, a desculpa não veio acompanhada de explicação.
Nem de Larissa.
Nem de pobreza.
Nem de amizade.
Nem de pressão.
Apenas:
— Eu sinto muito.
Fechei a caixa.
— Eu ainda não confio em você como antes.
Bianca assentiu.
— Eu sei.
— E isso não volta de um dia para o outro.
— Eu sei.
Levantei o olhar.
— Mas pode começar a voltar.
Ela respirou fundo.
Naquela noite, foi a primeira vez desde que eu a encontrei em cima daquela cadeira que senti que talvez minha irmã estivesse finalmente entendendo que limite não era crueldade.
E que generosidade sem limite podia virar apenas outra maneira de abandonar a si mesma.
No dia seguinte, porém, Bianca voltou da universidade com uma notícia que nos obrigaria a enfrentar Larissa uma última vez.
— Ela pediu mudança de quarto — disse.
Minha mãe pareceu aliviada.
Mas Bianca completou:
— Antes de sair, ela contou para várias pessoas que eu estou acusando ela de roubo.
Meu pai franziu a testa.
— Você acusou?
— Não.
Bianca colocou o celular sobre a mesa.
— E é por isso que amanhã eu vou falar com ela pessoalmente.
Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖