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Meu namorado de dez anos disse que era solteiro diante da minha melhor amiga e ainda aceitou a aproximação dela

Parte 3

Lucas não acreditou no término.

Nos três primeiros dias, agiu como se eu estivesse apenas esperando que ele viesse me convencer. Mandou mensagens dizendo que me daria tempo para “esfriar a cabeça”. Depois escreveu que podíamos jantar no restaurante onde tínhamos comemorado meu aniversário no ano anterior.

Não respondi.

Quando percebeu que eu não estava cedendo, a irritação deu lugar à ansiedade.

— Você vai continuar me evitando até quando? — perguntou, encostado ao lado da máquina de café no escritório.

— Não estou evitando você. Estou trabalhando.

— Nós temos dez anos juntos.

— Tínhamos.

Ele fechou a mandíbula.

— Você fala isso com muita facilidade.

Quase respondi que fácil tinha sido dizer que era solteiro.

Mas eu estava cansada de vencer discussões que não mudavam nada.

Peguei meu café e saí.

Naquela tarde, Clara me mandou uma mensagem.

“Podemos conversar?”

Fiquei olhando para a tela por um tempo.

Parte de mim queria ignorá-la. Outra parte precisava compreender até onde chegava aquela história.

Marcamos um café em Pinheiros, longe da empresa e dos lugares onde Lucas costumava aparecer.

Clara chegou primeiro.

Assim que me viu, sua expressão mudou.

— Marina, aconteceu alguma coisa entre você e o Lucas?

Sentei devagar.

— Por que está perguntando?

Ela hesitou.

— Porque depois daquela noite ele ficou estranho comigo.

— Estranho como?

— Distante. Irritado. Quando falei da brincadeira da festa, ele disse que eu não devia levar aquilo a sério.

Senti uma pontada amarga.

— E você levou?

Clara baixou os olhos para a xícara.

— Na hora, um pouco.

A resposta doeu, mas pelo menos foi sincera.

— Ele nunca disse que tinha alguém? — perguntei.

— Não.

Meu silêncio fez Clara levantar o rosto.

— Marina… por que está perguntando assim?

Eu não pretendia contar tudo.

Durante dez anos, proteger nosso segredo tinha virado um hábito automático.

Mesmo depois do fim, meu primeiro impulso ainda era proteger Lucas.

Então me dei conta de como aquilo era absurdo.

— Porque Lucas e eu namorávamos.

Clara ficou imóvel.

— Namoravam quando?

— Desde a faculdade.

Ela me encarou, esperando que eu completasse.

— Terminamos esta semana.

Sua expressão perdeu completamente a cor.

— Você está dizendo que… naquela noite…

— Sim.

— Há quanto tempo vocês estavam juntos?

— Dez anos.

Clara deixou a xícara sobre o pires com cuidado.

— Marina, eu não sabia.

Procurei algum sinal de mentira.

Conhecia Clara havia anos. Sabia como ela apertava os lábios quando escondia alguma coisa, como mexia no cabelo quando ficava nervosa, como desviava os olhos quando se sentia culpada.

Naquele momento, ela apenas parecia chocada.

— Você nunca desconfiou? — perguntei.

— Eu sabia que vocês eram próximos na faculdade. Depois, na empresa… você sempre dizia que estava ocupada, que não queria falar de relacionamento. Quando eu perguntava se existia alguém, você mudava de assunto.

Era verdade.

Eu tinha ajudado Lucas a esconder nossa relação até das pessoas que poderiam ter me protegido dela.

Clara respirou fundo.

— Mas ele falava comigo.

— Sobre o quê?

— Coisas normais. Trabalho, lembranças da faculdade, aniversários. Nos últimos meses, começou a perguntar mais da minha vida. Se eu estava saindo com alguém. Se ainda pensava naquela promessa.

Meu estômago se contraiu.

— Ele perguntou isso?

— Duas vezes.

Clara pegou o celular, mas não o empurrou na minha direção como se estivesse revelando uma prova milagrosa.

— Posso mostrar, se quiser.

Balancei a cabeça.

— Não preciso.

Eu acreditava nela porque aquilo combinava com algo muito mais importante do que qualquer mensagem: a forma como Lucas havia agido diante de mim.

Clara continuou:

— Achei que ele estava brincando. Depois da reunião de turma, comecei a pensar que talvez não estivesse.

— E você gostaria que não estivesse?

Ela demorou a responder.

— Eu gostei do Lucas na faculdade. Talvez uma parte de mim ainda gostasse da ideia do que nós poderíamos ter sido.

A sinceridade me machucou, mas também tornou a situação estranhamente mais clara.

— Só que eu jamais teria feito aquilo se soubesse de vocês.

— Eu deveria ter contado.

— Ele deveria ter contado.

Aquilo me atingiu de um jeito diferente.

Durante dez anos, eu assumira para mim metade da responsabilidade por um segredo que Lucas insistia em manter.

Clara estava certa.

Eu poderia ter falado.

Mas quem passava uma década prometendo que “em breve” me assumiria era ele.

— Marina — ela disse com cuidado —, naquela noite, quando perguntei se ele estava solteiro, ele poderia ter dito não.

— Eu sei.

— E não disse.

— Eu sei.

— Isso não foi culpa sua.

Fiquei olhando a rua pela janela.

Não queria consolo.

Queria entender.

— Clara, quando vocês fizeram aquela promessa?

— No último ano da faculdade.

Lembrei imediatamente.

Eu e Lucas já namorávamos.

Senti um frio atravessar meu corpo.

— Vocês fizeram aquilo quando ele já estava comigo.

Clara abriu a boca e fechou de novo.

— Eu não fazia ideia.

Naquele instante, não precisei de nenhuma descoberta extraordinária.

A verdade estava na cronologia.

Lucas não tinha apenas escondido nosso namoro depois.

Mesmo enquanto me dizia que nosso segredo servia para “proteger a relação”, fazia promessas de futuro com outra mulher como se continuasse disponível.

Voltei para casa com uma sensação diferente.

A dor continuava ali.

Mas a confusão estava diminuindo.

Naquela noite, Lucas apareceu na portaria do meu prédio.

O porteiro ligou.

— Dona Marina, tem um senhor chamado Lucas querendo subir.

Olhei para a porta da sala.

Durante anos, aquela informação teria feito meu coração acelerar.

— Não autorize.

Pouco depois, meu celular tocou.

— Você mandou o porteiro me impedir de subir?

— Mandei.

— Marina, isso está ficando ridículo.

— É meu apartamento.

— Eu só quero conversar.

— Nós já conversamos.

— Não conversamos nada. Você decidiu tudo sozinha.

Respirei fundo.

— Terminar uma relação não exige votação, Lucas.

Ele ficou em silêncio.

Depois sua voz mudou.

— A Clara falou com você?

— Falou.

— O que ela disse?

A rapidez daquela pergunta me chamou atenção.

— Por que você está preocupado?

— Não estou preocupado.

— Então por que perguntou?

Ele elevou a voz.

— Porque vocês duas sempre conversaram sobre mim!

Fechei os olhos.

— Ela me contou sobre a promessa.

Silêncio.

— Marina…

— Vocês fizeram aquela promessa quando nós já estávamos namorando.

— Era brincadeira de faculdade.

— Então por que, dez anos depois, você disse que estava solteiro?

Ele não respondeu.

— E por que perguntou a Clara nos últimos meses se ela ainda lembrava disso?

Do outro lado, ouvi apenas sua respiração.

Não havia explicação que coubesse ali.

— Você está procurando motivo para me transformar num monstro — ele disse finalmente.

— Não. Eu passei dez anos procurando motivos para você não ser um.

Desliguei.

Chorei naquela noite.

Chorei de um jeito feio, cansado, sem nenhum orgulho.

Não apenas pelo fim.

Chorei pela garota de vinte anos que acreditara quando Lucas disse “depois da formatura”.

Pela mulher de vinte e cinco que aceitara esperar “a promoção”.

Pela mulher de vinte e oito que ouviu mais uma vez que “não era o momento”.

E pela mulher de trinta que precisou assistir ao namorado declarar-se solteiro para finalmente entender que talvez nunca existisse um momento.

No dia seguinte, fiz algo pequeno.

Abri minhas redes sociais.

Durante anos, eu evitava publicar lugares, viagens e comemorações porque precisava garantir que ninguém percebesse quando Lucas estava comigo.

Apaguei aquele cuidado da minha rotina.

Não publiquei indireta.

Não expus Lucas.

Apenas postei uma foto minha tomando café numa padaria perto de casa.

Parecia ridículo chamar aquilo de liberdade.

Mas, para mim, era.

À tarde, pedi formalmente ao meu gestor para que, quando possível, eu não fosse designada a projetos que dependessem diretamente de Lucas.

Não inventei acusações.

Disse apenas que havia uma situação pessoal encerrada e que queria preservar o ambiente profissional.

Meu gestor concordou.

Eu estava começando a separar minha vida da dele.

Na sexta-feira, encontrei o homem do encontro marcado.

Quase cancelei.

Não porque ainda esperasse por Lucas, mas porque não queria usar ninguém para provar coisa alguma.

Acabei indo.

Contei logo no início:

— Saí de uma relação longa recentemente. Não estou pronta para começar outra.

Ele sorriu.

— Então podemos só tomar café.

Foi exatamente o que fizemos.

Não houve paixão instantânea.

Não houve promessa.

Quando voltei para casa, senti alívio.

Eu podia conhecer alguém sem precisar transformar essa pessoa no novo centro da minha vida.

No domingo à noite, recebi uma mensagem de Clara.

“Eu falei com Lucas.”

Logo depois veio outra.

“Perguntei se ele pretendia ficar comigo.”

Meu coração apertou.

A terceira mensagem demorou um pouco mais.

“Ele disse que não sabia.”

Fiquei olhando.

Então apareceu a última:

“Mas quando perguntei se teria assumido você naquela festa caso eu não tivesse feito aquela pergunta, ele também não soube responder.”

Fechei os olhos.

Eu já não precisava de mais provas.

Na manhã seguinte, encontrei Lucas esperando perto do estacionamento da empresa.

Seu rosto estava cansado.

— Precisamos terminar aquela conversa.

— Não temos nada para terminar.

Ele segurou a porta antes que eu entrasse.

— Temos, sim.

Seu olhar estava diferente.

Não havia mais aquela certeza arrogante de que eu acabaria voltando.

— Você quer saber por que eu nunca contei sobre nós?

Fiquei parada.

Durante dez anos, eu tinha esperado por aquela resposta.

Agora, pela primeira vez, não sabia se ainda precisava ouvi-la.

Lucas respirou fundo.

— Então escuta até o fim.

Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖

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