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Meu marido sempre escolhia a antiga paixão, até perder nosso filho e me ouvir falar em divórcio

Parte 3

Rafael não dormiu naquela noite.

Eu também não.

Pela manhã, saí cedo e fui trabalhar. Não queria discutir mais antes de entender o que eu mesma desejava. Pela primeira vez em anos, parei de organizar minhas decisões a partir daquilo que Rafael poderia sentir.

Durante o almoço, procurei uma advogada de família indicada por uma colega. Não fui até lá esperando que outra pessoa resolvesse minha vida. Eu precisava apenas entender quais passos seriam necessários para transformar uma decisão emocional em algo concreto.

Expliquei que éramos casados sob o regime de comunhão parcial de bens, que ambos trabalhávamos e que havia um apartamento comprado durante o casamento. Também tínhamos uma conta conjunta para despesas da casa, embora cada um mantivesse sua própria conta profissional. A advogada explicou com calma que não havia razão para tomar decisões precipitadas nem para esconder dinheiro.

Saí do escritório com uma lista pequena.

Organizar meus documentos.

Separar minhas despesas pessoais.

Guardar os comprovantes relativos ao imóvel.

E decidir se eu realmente queria seguir com a dissolução do casamento.

A parte estranha era que, depois de tudo, essa última pergunta já não parecia difícil.

Quando cheguei em casa, Rafael estava na sala.

— Você foi falar com alguém sobre o divórcio?

Tirei os sapatos.

— Fui.

Ele ficou de pé.

— Já?

A palavra me irritou.

— Já?

Rafael percebeu.

— Eu não quis dizer…

— Você teve anos para me fazer sentir que eu era sua esposa. Eu não preciso de mais anos para decidir se quero continuar sendo.

Ele passou a mão pelo rosto.

— Me dá uma chance.

— Eu te dei várias.

— Eu não sabia que estava fazendo tanto mal.

Soltei uma risada curta.

— Eu falava.

— Eu sei.

— Eu chorava.

— Eu sei.

— Eu pedia para você não levar a Lívia para tudo.

Ele fechou os olhos.

— Eu sei.

— Então não diga que não sabia.

Rafael não tentou se defender.

Aquilo era novo.

Por muito tempo, eu havia escutado explicações sobre como eu interpretava demais, exigia demais ou complicava situações simples. Agora, pela primeira vez, ele parecia entender que as situações só eram simples para quem nunca pagava o preço delas.

— Eu sabia que você estava incomodada — disse. — O que eu não entendi foi quanto.

— Porque você nunca quis entender.

A frase permaneceu entre nós.

Rafael sentou novamente.

— Talvez você tenha razão.

Eu esperava outra justificativa.

Não veio.

— Quando a Lívia voltou, eu senti coisas que achei que já tinham acabado — ele admitiu. — Não estou dizendo que queria voltar com ela. Não queria. Mas eu gostava de ser importante para ela de novo. Gostava de lembrar daquela época. E fui egoísta o suficiente para achar que podia manter aquilo sem afetar nosso casamento.

Meu peito apertou, mas não senti surpresa.

Era quase um alívio ouvir uma verdade que combinava com tudo o que eu havia vivido.

— Você gostava de ter as duas coisas.

Rafael me encarou.

— Acho que sim.

— Uma esposa esperando em casa e uma antiga paixão te olhando como se você ainda fosse o homem de dez anos atrás.

Ele baixou os olhos.

— Sim.

A palavra foi pequena.

Mas encerrou anos de dúvidas.

Não tinha havido, segundo ele, um caso físico.

Naquele momento, percebi que isso já não importava tanto quanto eu imaginava.

Rafael não precisava ter beijado Lívia para me abandonar emocionalmente.

Ele não precisava dormir com ela para destruir momentos que pertenciam ao nosso casamento.

Não precisava mentir sobre um hotel ou esconder um quarto de motel.

Bastava o que havia feito diante dos meus olhos.

Naquela mesma semana, Lívia me ligou.

Eu quase não atendi.

Talvez tivesse sido melhor não atender, mas alguma parte de mim queria descobrir o que ela diria agora que Rafael finalmente colocara distância entre os dois.

— Camila, eu sei que vocês estão passando por uma fase ruim.

— Quem te contou?

Ela hesitou.

— O Rafael não precisa contar tudo. Eu percebi que ele está diferente.

— Então fala logo o que você quer.

Lívia respirou fundo.

— Eu nunca quis destruir seu casamento.

Olhei pela janela do escritório.

— Não?

— Eu admito que talvez tenha me aproximado demais. Só que o Rafael sempre dizia que estava tudo bem. Quando eu perguntava se podia ir junto, ele deixava. Quando eu ligava, ele atendia. Quando eu precisava de alguma coisa, ele aparecia.

Aquilo, estranhamente, não me deixou mais irritada com ela.

Deixou tudo mais claro.

Lívia continuou:

— Eu não obriguei o Rafael a nada.

— Nisso você tem razão.

Ela ficou em silêncio.

— Você sabia que eu não gostava — acrescentei.

— Sabia.

— E continuou.

— Eu achei que…

— Não importa o que você achou.

Minha voz permaneceu firme.

— Você ultrapassou limites porque podia. Mas quem tinha compromisso comigo era ele.

Do outro lado, Lívia não respondeu.

— Não vou disputar Rafael com você — continuei. — Nem agora nem nunca. Se ele quiser ficar perto de você, é escolha dele. Só não vai mais fazer isso sendo meu marido.

Desliguei.

Naquela noite, contei a Rafael sobre a ligação.

Ele ficou visivelmente incomodado.

— Ela não tinha o direito de te procurar.

— Não é esse o ponto.

— Então qual é?

— Ela disse uma coisa verdadeira.

Rafael franziu a testa.

— Que você sempre deixou.

Ele permaneceu parado.

— Era você quem abria a porta.

A culpa que eu carregava desde o início começou a mudar de forma.

Durante muito tempo, eu me perguntava o que Lívia tinha que eu não tinha.

Talvez fosse mais bonita.

Mais interessante.

Talvez conhecesse uma versão de Rafael à qual eu jamais teria acesso.

Agora eu percebia quanto tempo desperdiçara tentando competir por um lugar que um marido deveria oferecer sem competição.

Lívia podia pedir.

Quem dizia sim era ele.

Depois daquela conversa, Rafael parou de pedir que eu esquecesse o passado.

Começou a reconhecer fatos específicos.

— Eu errei quando levei a Lívia ao musical sem te perguntar.

Dias depois:

— Eu errei naquele fim de semana. Não devia ter ido embora sem você.

Outra vez:

— Eu nunca deveria ter comprado o mesmo presente para as duas.

Eu ouvia.

Não discutia.

Também não confundia arrependimento com reparação.

Certa noite, enquanto organizávamos documentos do apartamento, Rafael encontrou uma caixa pequena no fundo de uma gaveta.

Era o colar.

O presente do meu aniversário.

Ele segurou a caixa por alguns segundos.

— Você guardou.

— Guardei porque foi caro.

Ele fez um movimento quase imperceptível de dor.

— Eu achei que tinha feito uma coisa bonita.

— No começo, fez.

Rafael levantou os olhos.

— Depois tirou de mim o significado.

Ele fechou a caixa.

— Eu queria voltar no tempo.

— Eu não.

Sua expressão mudou.

Continuei:

— Se eu voltasse, provavelmente tentaria ser ainda mais compreensiva. Talvez me esforçasse ainda mais para não parecer ciumenta. Talvez aguentasse por mais tempo.

Peguei a caixa da mão dele.

— Eu prefiro ser a pessoa que sou agora.

Foi a primeira vez que percebi aquilo claramente.

Eu ainda estava machucada.

Ainda acordava algumas noites lembrando da maca do hospital.

Ainda sentia uma pontada quando via uma criança pequena na rua.

Mas já não queria voltar a ser a mulher que aceitava migalhas porque tinha medo de perder o casamento.

Dois dias depois, pedi que Rafael dormisse no quarto de hóspedes.

Ele concordou.

Não discutiu.

Também pedi que começássemos a separar formalmente nossas finanças pessoais, mantendo apenas as despesas necessárias do imóvel até decidirmos o que fazer com ele.

Novamente, Rafael concordou.

A mudança mais importante, porém, não estava nas contas.

Estava na forma como eu deixara de esperar que ele aprovasse minhas decisões.

Alguns dias depois, voltamos juntos ao escritório da advogada.

Rafael quis ir.

Eu aceitei porque, se realmente pretendíamos encerrar o casamento sem transformar tudo numa guerra, ele precisava ouvir as mesmas informações.

A proposta era simples.

Como o apartamento havia sido comprado durante o casamento, poderíamos vendê-lo e dividir o valor líquido proporcionalmente ao que cabia a cada um conforme o regime de bens, ou um de nós poderia ficar com o imóvel mediante compensação financeira ao outro.

Não havia filhos vivos.

Não havia disputa por empresa.

Não havia motivo para uma batalha longa.

Quando saímos, Rafael parou na calçada.

— Você parece aliviada.

Pensei antes de responder.

— Estou.

Ele engoliu em seco.

— Isso dói mais do que se você estivesse com raiva.

— Eu passei anos com raiva.

Rafael olhou para os carros passando.

— E eu chamava sua raiva de exagero.

— Chamava.

Ele ficou quieto.

Depois perguntou:

— Existe alguma coisa que eu possa fazer para você reconsiderar?

Eu sabia que aquela pergunta viria.

Talvez meses antes eu tivesse esperado por ela.

Talvez tivesse imaginado Rafael finalmente me escolhendo e dizendo que faria qualquer coisa.

Mas a mulher que desejava ouvir aquilo já não existia.

— Existe algo que você pode fazer.

Os olhos dele se levantaram rapidamente.

— O quê?

— Respeitar minha decisão mesmo que ela não seja a que você quer.

O rosto de Rafael desabou.

Ele demorou a responder.

— Você já decidiu?

Respirei fundo.

— Decidi.

— Camila…

— Eu quero o divórcio.

Ele ficou imóvel.

Eu podia ouvir o trânsito, pessoas caminhando, uma moto acelerando na esquina.

Rafael passou a língua pelos lábios secos.

— E se eu mudar?

— Muda por você.

— E se eu nunca mais falar com a Lívia?

— Faça isso se achar que é certo.

— E se eu passar o resto da vida provando que…

Interrompi.

— Eu não quero passar o resto da minha vida esperando a prova.

Foi então que ele finalmente compreendeu.

Não era mais uma ameaça dita numa discussão.

Não era uma tentativa de assustá-lo.

Eu não queria que Rafael corresse atrás de mim.

Não queria vencê-lo.

Queria apenas sair.

Naquela noite, porém, quando chegamos ao apartamento, encontramos Lívia esperando perto da portaria.

Rafael a viu antes de mim.

Seu rosto se fechou.

— O que você está fazendo aqui?

Lívia olhou para nós dois.

— Eu precisava falar com você.

— Não precisava.

Ela pareceu surpresa com a frieza dele.

— Rafael, eu…

Ele deu um passo para trás.

— Tudo que eu fiz nesses últimos meses foi usar você como desculpa para não assumir as minhas escolhas. Não vou fazer isso de novo.

Lívia ficou pálida.

— Eu nunca pedi que você destruísse seu casamento.

— Não.

Rafael assentiu.

— Eu destruí sozinho.

Depois olhou para mim.

Não havia pedido de perdão em seu rosto.

Só vergonha.

Ele voltou-se para Lívia.

— Não me procura mais.

Ela abriu a boca, mas Rafael passou por ela e entrou no prédio.

Fiquei parada por alguns segundos.

Lívia me encarou.

— Era isso que você queria?

Balancei a cabeça.

— Não.

Ela pareceu confusa.

— Então o quê?

Olhei para a porta por onde Rafael havia desaparecido.

— Eu queria que ele tivesse feito isso enquanto ainda importava.

Passei por ela.

Quando cheguei ao apartamento, Rafael estava na sala.

Havia colocado sobre a mesa a proposta preliminar de divórcio.

Ao meu lado, deixou uma caneta.

E, dessa vez, não tentou me convencer a guardá-la.

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