Meu marido passou a quinta noite fora; agradeci à secretária no grupo da empresa e pedi o divórcio
Parte 3
Só ouvi o restante do áudio na manhã seguinte.
“Quando meu pai adoeceu e eu assumi a presidência, Júlia já me acompanhava em praticamente todas as reuniões externas. Muitos clientes achavam que nós dois éramos um casal. Minha mãe dizia que não valia a pena corrigir todo mundo, porque misturar casamento com negócios só traria comentários e distrações. Quando você começou a aparecer nos eventos, eu percebi que teria de explicar muita coisa. Fui adiando. Depois ficou pior. Eu sei que parece absurdo, mas eu achava que estava protegendo você dessa exposição.”
Parei o áudio antes do fim.
Não senti alívio.
Também não senti raiva imediata.
O que senti foi algo mais doloroso: clareza.
Não tinha sido distração.
Não tinha sido apenas excesso de trabalho.
Caio sabia que as pessoas confundiam Júlia com sua companheira e, em vez de corrigir a impressão, preferiu preservá-la porque aquilo era mais conveniente para os negócios.
Eu tinha sido escondida por decisão.
Minha própria sogra sabia.
E, durante três anos, os dois tinham tratado aquilo como uma escolha administrativa.
Liguei para Mateus.
— Quero acrescentar uma coisa. Não vou mais dizer que “não quero absolutamente nada” antes de você analisar todos os documentos.
Ele demorou menos de um segundo para responder.
— Ótimo.
— Não estou querendo tirar nada dele.
— Eu sei.
— Só não quero assinar uma renúncia no impulso para provar que não sou interesseira.
A voz de Mateus ficou firme.
— Isso é exatamente o que eu queria ouvir.
Naquela tarde, Caio pediu uma reunião.
Não aceitei encontrá-lo sozinha.
Marcamos no escritório de Mateus.
Quando cheguei, minha sogra já estava lá.
Foi a primeira surpresa.
A segunda foi perceber que Caio parecia tão incomodado com a presença dela quanto eu.
— Eu não convidei minha mãe — ele disse.
— Eu vim porque alguém precisa impedir vocês de destruir três anos de casamento por causa de uma mensagem irresponsável — ela respondeu.
Sentei-me em frente aos dois.
— Então vamos poupar tempo. Meu casamento não acabou por causa de uma mensagem. A mensagem só foi a primeira vez que eu parei de fingir que o casamento ainda estava funcionando.
Minha sogra se inclinou para a frente.
— Você sabe como é a vida de um presidente de grupo empresarial. Caio não podia ficar apresentando detalhes da vida íntima para clientes.
— Dizer “esta é minha esposa” virou detalhe íntimo?
Ela não respondeu diretamente.
— Júlia sempre teve boa relação com os clientes. Mudá-la de posição de uma hora para outra teria criado ruído.
— Então vocês preferiram criar ruído dentro da minha casa.
Caio fechou os olhos por um instante.
— Mãe, chega.
Ela virou para ele.
— Você vai ficar do lado dela depois de ela te humilhar diante da empresa inteira?
Foi a primeira vez que vi Caio responder à própria mãe sem medir cada palavra.
— Eu dei motivo.
Minha sogra ficou imóvel.
Eu também.
Ele continuou:
— Eu sabia o que os funcionários pensavam. Sabia o que alguns clientes pensavam. Marina me perguntou diversas vezes por que eu não a apresentava. Eu sempre inventava alguma justificativa porque era mais fácil do que admitir que eu tinha deixado a situação chegar longe demais.
— Não diga isso desse jeito — a mãe dele retrucou.
— Que jeito? O verdadeiro?
O silêncio caiu sobre a sala.
Mateus não interferiu.
Aquela não era uma vitória para mim.
Eu não queria que Caio finalmente me defendesse diante da mãe.
Eu queria que ele tivesse feito isso enquanto ainda éramos casados de verdade.
Depois da reunião, minha sogra saiu primeiro.
Caio permaneceu sentado.
— Eu posso corrigir tudo.
— Pode corrigir sua postura daqui para a frente. Isso não significa que eu precise continuar casada com você.
Ele apertou as mãos.
— Eu nunca tive um relacionamento físico com Júlia.
— Você continua insistindo nessa frase porque ela é a única parte da história na qual acredita ser inocente.
— E não é importante?
— É. Mas não é suficiente.
Inclinei-me um pouco para a frente.
— Você dormiu na casa dela cinco vezes sem me avisar. Levou essa mulher a eventos em que deveria ter me apresentado. Deixou funcionários e clientes acreditarem que ela ocupava um lugar que não era dela. Sua mãe ligava para Júlia quando havia problemas no nosso casamento. E você olha para tudo isso e acha que a única pergunta relevante é se vocês foram para a cama?
Ele baixou os olhos.
— Quando você coloca assim…
— Não fui eu que coloquei assim, Caio. Foi você que viveu assim.
Dois dias depois, recebi uma ligação de um número que não estava salvo.
Era Júlia.
Minha primeira vontade foi desligar.
Não desliguei.
— Dona Marina, eu sei que provavelmente sou a última pessoa com quem a senhora quer falar.
— Provavelmente.
Ela respirou fundo.
— Eu queria esclarecer algumas coisas.
— Não preciso de detalhes íntimos.
— Não é isso.
Fiquei em silêncio.
— O senhor Caio realmente dormiu no meu apartamento nas cinco ocasiões. Foi no quarto de hóspedes. Eu sei que, dizendo assim, continua parecendo horrível. E eu deveria ter recusado.
Não havia tremor dramático na voz dela.
Só desconforto.
— Por que não recusou?
— Porque eu passei anos tratando aquele tipo de proximidade como parte do trabalho.
Aquilo me surpreendeu.
— Explique.
— Eu viajava com ele, acompanhava jantares, recebia clientes, cuidava da agenda, resolvia problemas pessoais quando ele estava ocupado. Com o tempo, parei de perceber quando alguma coisa deixava de ser responsabilidade profissional. E, para ser completamente sincera… eu sabia que muita gente achava que nós tínhamos alguma coisa.
— E isso nunca incomodou você?
Júlia demorou para responder.
— Às vezes, sim. Mas também me dava importância dentro da empresa.
Era uma resposta feia.
Justamente por isso, pareceu verdadeira.
— Caio dizia alguma coisa sobre mim?
— Dizia que a senhora não gostava de eventos corporativos. Que preferia ficar longe da empresa. Que vocês tinham uma vida muito reservada.
Fechei os olhos.
Eu tinha ido a todos os eventos para os quais ele realmente me convidara.
Pouquíssimos.
— Então você acreditava que eu escolhia ficar escondida.
— No começo, sim. Depois… comecei a achar estranho. Mas nunca perguntei.
— Porque a situação também era conveniente para você.
— Sim.
Não havia desculpa capaz de transformar aquilo em inocência.
Mas pelo menos ela não tentou fingir que era.
— Não estou ligando para pedir que a senhora volte para ele — continuou Júlia. — Só não quero que a senhora descubra essas coisas por boatos.
— E o que vai acontecer agora?
— Pedi para deixar de responder diretamente a ele. Enquanto a empresa decide a nova estrutura, outra pessoa está centralizando a agenda.
— Foi Caio que mandou?
— Não. Fui eu que pedi.
Depois de desligar, permaneci algum tempo parada diante da janela.
Descobrir que não tinha existido uma relação sexual entre eles não mudou minha decisão.
Talvez, meses antes, eu tivesse agarrado aquela informação como uma salvação.
“Ele não me traiu de verdade.”
“Foi só trabalho.”
“Eu exagerei.”
Durante anos eu tinha usado pequenas desculpas para continuar suportando grandes ausências.
Agora eu finalmente entendia que fidelidade não era apenas não beijar outra pessoa.
Era também não construir com outra mulher a intimidade, a rotina e a aparência pública que você se recusava a construir com a própria esposa.
Mateus terminou de analisar meus documentos na semana seguinte.
A casa da represa era exclusivamente minha.
Meus investimentos anteriores ao casamento também.
As ações do Grupo Azevedo que Caio já possuía antes da união continuavam sendo patrimônio particular dele.
Havia, no entanto, valores e investimentos formados durante o casamento que precisavam ser incluídos corretamente na partilha.
— Você quer abrir mão? — Mateus perguntou.
Olhei para os números.
Meses antes, eu teria dito sim apenas para provar que não estava me divorciando por dinheiro.
Dessa vez, balancei a cabeça.
— Quero que seja feito conforme a lei. Nem um centavo a mais. Nem um centavo a menos.
Mateus sorriu discretamente.
— Essa é uma decisão muito diferente de querer vingança.
— Estou cansada de me diminuir para que ninguém possa me acusar de ser inconveniente.
Naquela mesma semana, voltei ao apartamento acompanhada apenas pelo funcionário do condomínio.
Caio estava no trabalho.
Recolhi minhas roupas, livros, documentos e alguns objetos pessoais.
Deixei tudo que era dele exatamente onde estava.
Ao entrar no closet vazio do lado que eu tinha ocupado durante três anos, percebi algo estranho.
Eu não estava abandonando uma casa.
Estava deixando um lugar onde havia passado tempo demais esperando alguém voltar.
Quando já estava fechando a última mala, ouvi a porta do apartamento.
Caio entrou.
Parou ao me ver.
— Você podia ter avisado.
— Estou pegando minhas coisas. Não preciso fazer cerimônia.
Ele observou as malas.
— Marina, eu falei com o conselho.
Não respondi.
— Vou corrigir a estrutura da secretaria executiva. Também vou esclarecer a situação com os funcionários.
— Faça porque é o certo, não para me convencer a voltar.
— Eu sei.
Pela primeira vez, ele não tentou negociar aquela frase.
Abaixou a cabeça e então disse:
— Quero pedir seis meses.
— Para quê?
— Para provar que posso mudar.
— Mudança não é moeda para comprar outra chance.
O rosto dele endureceu de dor.
— Então você já decidiu tudo.
— Decidi que o divórcio continua.
Ele respirou fundo.
— E se eu fizer tudo certo?
— Então você vai se tornar uma pessoa melhor. Isso não significa que eu tenha obrigação de ser sua esposa enquanto isso.
Caio ficou em silêncio.
Puxei a mala até a porta.
Antes que eu saísse, ele falou:
— Você tinha razão sobre uma coisa.
Parei.
— Eu transformei você em alguém invisível.
Não respondi.
— Não porque tivesse vergonha de você. Foi covardia. Eu deixei minha mãe, a empresa e a conveniência decidirem o lugar que você ocupava. E, quando percebi, já tinha feito você acreditar que pedir o mínimo era exigir demais.
Virei-me.
Ele parecia exausto.
— Diga isso para as pessoas diante das quais você me apagou.
Caio ergueu os olhos.
— Eu vou.
— Não por mim. Pela verdade.
Saí.
Na reunião de negociação marcada para a semana seguinte, Caio apareceu sem a mãe e sem qualquer diretor da empresa.
Só ele e seu advogado.
Mateus sentou-se ao meu lado.
Discutimos patrimônio.
Prazos.
Responsabilidades.
Nada foi resolvido em cinco minutos.
Nada desapareceu com uma assinatura mágica.
Mas, pela primeira vez, estávamos tratando o fim daquele casamento como dois adultos diante das consequências das próprias escolhas.
Quando a reunião parecia terminar, Caio pegou o celular.
— Antes de continuarmos, tem uma coisa que eu preciso fazer.
Abriu o mesmo grupo corporativo em que eu havia mandado minha mensagem naquela madrugada.
Olhou para mim.
— Você disse que eu deveria contar a verdade diante das pessoas diante das quais eu apaguei você.
Meu coração acelerou.
Caio começou a digitar.
Então virou a tela na minha direção.
— Eu vou enviar. Mas quero que você leia antes.
Li a primeira linha.
“Bom dia. Sobre a mensagem enviada por Marina Figueiredo na semana passada, preciso esclarecer que a responsabilidade pelo que aconteceu é minha.”
Levantei os olhos.
— Se vai fazer isso, Caio, faça por inteiro.
Ele assentiu.
E apertou “enviar”.
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