Fui levar jantar ao meu marido e encontrei a secretária cuidando dele; um mês depois, ele a levou ao aniversário do avô
Parte 3
Rafael ficou parado diante de mim como se eu tivesse anunciado algo muito maior do que pretendia.
— O que significa separar trabalho de casamento?
— Significa que, enquanto estivermos discutindo nossa relação, você não vai mais responder diretamente a mim dentro do grupo. Vou pedir ao conselho para reorganizar sua linha de reporte temporariamente. Você continuará no cargo e será avaliado como qualquer outro executivo.
A expressão dele mudou.
— Vai me afastar porque brigamos?
— Não. Justamente o contrário. Não quero que nossa briga tenha qualquer influência sobre sua carreira. Nem a meu favor, nem contra você.
Ele pareceu procurar alguma contradição na minha resposta.
Não encontrou.
— E Larissa?
— O RH decide onde ela trabalha de acordo com a função dela. Eu não vou demitir uma mulher porque meu marido não soube colocar limites.
A frase o atingiu.
Rafael puxou uma cadeira, mas não se sentou.
— Você está fazendo parecer que tudo foi culpa minha.
— A maior parte foi.
— Ela se aproximou de mim.
— E você é casado comigo, não ela.
O silêncio que se seguiu foi pesado, mas necessário.
Eu não gostava de Larissa. Isso era óbvio.
Ela havia ultrapassado limites desde o primeiro encontro, primeiro falando comigo como se conhecesse meu casamento melhor do que eu, depois demonstrando uma intimidade que não correspondia à relação profissional que dizia ter com Rafael.
Mas eu também sabia onde estava a responsabilidade principal.
Se Rafael tivesse estabelecido um limite claro, Larissa poderia ter tentado cem vezes e não teria chegado a lugar algum.
Ele finalmente se sentou.
— Não aconteceu nada entre nós.
— Eu acredito que você não teve um caso físico.
Ele pareceu aliviado cedo demais.
— Mas isso não resolve o problema.
— O que mais você quer de mim, Marina?
— Sinceridade.
Rafael soltou uma risada curta, sem humor.
— Você acha que eu estou mentindo?
— Acho que você está evitando explicar por que fez questão de manter Larissa perto depois de me prometer o contrário.
Ele apoiou os cotovelos nos joelhos.
Demorou bastante antes de responder.
— Porque com ela eu não sou o marido da Marina Almeida.
Não interrompi.
— Com ela, eu sou o Rafael. O executivo que resolve as coisas. A pessoa que sabe o que está fazendo. Ela pede minha opinião, agradece, me admira.
Seu rosto endureceu, como se a própria confissão o incomodasse.
— Na sua família, por melhor que eu seja, sempre existe uma história antes de mim. Meu pai foi motorista do seu pai. Eu cresci entrando pela porta lateral da casa de vocês. Entrei na empresa da sua família. Casei com a herdeira.
— E você acha que eu usei isso contra você?
— Não diretamente.
— Então não coloque nas minhas costas uma humilhação que eu nunca lhe impus.
Rafael apertou as mãos.
— Você não entende.
— Talvez eu realmente não entenda. Mas você poderia ter conversado comigo. Em vez disso, escolheu uma mulher que alimentava exatamente essa insegurança.
Ele ergueu os olhos.
— Eu gostava da forma como ela me tratava.
Foi a frase mais sincera daquela conversa.
E, por isso mesmo, a mais dolorosa.
Não porque significasse amor.
Não significava.
Também não provava um relacionamento escondido.
Significava algo talvez mais simples e mais difícil de consertar: meu marido gostara de receber de outra mulher um tipo de validação que começou a considerar mais agradável do que o respeito silencioso que existia entre nós.
— Você gostava de ser admirado — eu disse.
Rafael assentiu.
— Sim.
— E quando eu disse que aquilo estava atravessando uma linha, você não quis perder essa sensação.
Ele não respondeu.
Dessa vez, não precisava.
Nos dias seguintes, fiz exatamente o que havia dito.
A estrutura administrativa de Rafael foi ajustada para que ele respondesse temporariamente a outro membro da diretoria. Não houve punição, redução de salário ou retirada de função. Eu simplesmente deixei de ocupar qualquer posição que pudesse tornar impossível distinguir decisões profissionais de decisões pessoais.
Também não interferi no destino de Larissa.
O RH concluiu que seu apoio direto a Rafael não fazia parte da função comercial e encerrou a designação temporária. Ela voltou à própria equipe.
Não houve demissão.
Não havia motivo profissional suficiente para isso.
Em casa, no entanto, a distância aumentou.
Rafael passou a dormir no quarto de hóspedes por iniciativa própria.
Durante quase uma semana, conversamos apenas o necessário.
Eu não estava tentando castigá-lo.
Precisava entender uma coisa muito mais importante: se ele queria continuar casado comigo ou se queria continuar casado com a versão de si mesmo que acreditava ter conquistado ao entrar na minha família.
Na sexta-feira, ele me procurou no escritório de casa.
— Larissa pediu para sair da empresa.
Levantei os olhos do notebook.
— Foi decisão dela?
— Foi.
— Então não tenho nada a comentar.
Rafael fechou a porta.
— Ela disse que não queria mais trabalhar em um lugar onde todo mundo olha para ela como se tivesse tentado destruir um casamento.
— Você contou isso para mim por quê?
— Porque eu me sinto responsável.
— E deveria.
Ele franziu a testa.
— Você não sente nenhuma pena dela?
— Sinto que ela fez escolhas ruins. Também sinto que você permitiu que ela acreditasse que havia espaço para fazer essas escolhas.
Rafael ficou quieto.
Depois disse:
— Ela me perguntou se eu teria ficado com ela se não fosse casado.
Meu peito apertou, mas minha voz não mudou.
— E o que você respondeu?
— Que essa pergunta não importava porque eu era casado.
— Não foi o que eu perguntei.
Rafael desviou o rosto.
Ali estava novamente a mesma hesitação.
A mesma necessidade de proteger alguma coisa que ele ainda não tinha coragem de nomear.
— Eu não respondi mais nada — disse.
Fechei o notebook.
— Então eu vou responder por você.
Ele me encarou.
— Você gostou de saber que ela queria você. Talvez não tivesse intenção de abandonar nosso casamento. Talvez nunca tivesse planejado beijá-la, tocá-la ou ter um caso. Mas gostou de manter uma porta emocional entreaberta porque isso fazia você se sentir desejado.
— Marina…
— E quando eu pedi que fechasse essa porta, você preferiu testar até onde eu suportaria.
Ele se levantou.
— Eu errei. Já admiti.
— Admitir que errou não significa compreender o erro.
— O que você espera? Que eu passe o resto da vida pedindo desculpas?
— Não. Espero que pare de pedir que eu resolva sua culpa por você.
Rafael ficou imóvel.
Eu também me levantei.
Naquele momento, percebi que a decisão pequena que eu vinha adiando já estava tomada.
— Vou passar algumas semanas no apartamento da Vila Nova Conceição.
Ele empalideceu.
— Você está saindo de casa?
— Estou criando distância suficiente para pensar sem transformar cada jantar em interrogatório.
— Isso é separação?
— Por enquanto, é espaço.
Rafael veio até mim.
— E se eu não quiser?
— Casamento exige duas pessoas para continuar. Espaço exige apenas que uma delas reconheça que precisa respirar.
Ele parou.
Foi talvez a primeira vez desde o início de tudo que não tentou transformar minha decisão em provocação, ciúme ou controle.
— Quanto tempo?
— Não sei.
Arrumei poucas coisas naquela noite.
Quando passei pela porta do quarto, vi Rafael sentado na beirada da cama que costumávamos dividir.
Ele não tentou me impedir.
Antes de sair, ouvi sua voz atrás de mim.
— Marina.
Virei-me.
— Eu trouxe Larissa à festa porque queria provar que você não podia decidir quem ficava perto de mim.
A confissão veio tarde, mas finalmente veio inteira.
Ele engoliu em seco.
— E, no momento em que fiz isso, eu sabia que estava machucando você.
Segurei a alça da mala.
Aquilo era exatamente o que eu precisava ouvir.
Não porque tornasse as coisas melhores.
Mas porque, pela primeira vez, Rafael tinha parado de esconder uma escolha consciente atrás de desculpas.
— Então agora você entende por que eu estou indo.
Fechei a porta atrás de mim.
E dessa vez, ele não tentou me seguir.
Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖