Ele voltou no almoço para cuidar da esposa febril — e a encontrou tremendo sob o chuveiro
Parte 3
Bruno endireitou o corpo na cadeira.
Camila, ainda pálida, puxou o lençol um pouco mais para cima.
— Alterados como? — perguntou ele.
O médico explicou que o quadro ainda parecia compatível com uma infecção viral, mas alguns resultados exigiam acompanhamento. As plaquetas estavam mais baixas do que o esperado e, considerando a febre, a fraqueza intensa e o período do ano, seria necessário investigar dengue.
Ele deixou claro que aquilo ainda não significava que Camila estivesse em estado grave. Mas também não era uma situação para simplesmente tomar um antitérmico, voltar para casa e ignorar os sintomas.
Bruno sentiu uma mistura estranha de alívio e medo. Alívio porque, pelo menos, havia uma explicação possível. Medo porque finalmente compreendia que encontrar Camila no chão não tinha sido um exagero provocado por uma gripe comum.
— Você estava sentindo mais alguma coisa? — perguntou.
Camila demorou antes de responder.
— Dor no corpo. Dor atrás dos olhos também.
Bruno franziu a testa.
— Desde quando?
— Desde ontem de manhã.
Ele ficou olhando para ela, sem acreditar.
Na noite anterior, quando a febre começara, Camila dissera apenas que estava cansada. De manhã, insistira que havia dormido mal e que ficaria bem. Em nenhum momento mencionara que os sintomas já tinham começado horas antes.
— Por que você não me contou?
Camila baixou os olhos.
— Porque você já estava preocupado com o serviço.
A resposta o atingiu de uma forma que ele não esperava.
Nos últimos meses, a oficina estava trabalhando com equipe reduzida. Bruno chegava cansado, reclamava dos carros acumulados, dos prazos apertados e dos clientes impacientes. Nunca tinha dito a Camila que os problemas dela eram um peso.
Mas, sem perceber, talvez tivesse transformado suas próprias preocupações em algo tão grande dentro de casa que ela começara a medir cada necessidade antes de pedir ajuda.
— Camila, trabalho nenhum vale você ficar caída no banheiro sem conseguir chamar ninguém.
Ela apertou os lábios.
— Eu achei que ia passar.
— Mas não passou.
A firmeza na voz dele não era acusação. Era medo atrasado.
Camila desviou o olhar e uma lágrima correu discretamente pela lateral do rosto.
— Eu não queria te dar mais uma coisa para resolver.
Bruno sentiu o peito apertar.
Ele pensou nas vezes em que ela dissera “deixa que eu faço”, “não precisa”, “eu me viro”. Sempre interpretara aquelas frases como independência. Naquele momento, começou a enxergar outra coisa: Camila tinha aprendido a pedir o mínimo possível.
E aquilo também tinha a participação dele.
Não porque Bruno fosse indiferente. Pelo contrário. Mas havia se acostumado a acreditar quando ela dizia que estava tudo bem, mesmo quando o rosto dela dizia o contrário.
— Você não é um problema para eu resolver — disse. — É minha esposa. Se você está mal, eu preciso saber.
Camila enxugou o rosto com as costas da mão.
— Eu sei.
— Não. Acho que nós dois esquecemos disso em algum momento.
O médico pediu que ela permanecesse em observação durante a noite. Seriam repetidos alguns exames, principalmente para verificar se a hidratação ajudaria e se as plaquetas continuariam caindo.
Bruno avisou à oficina que não voltaria naquele dia.
A resposta do encarregado foi curta: “Cuida dela. Amanhã a gente se fala.”
Aquilo tirou de seus ombros um peso que, em grande parte, ele mesmo havia colocado ali.
Pouco depois, Bruno voltou rapidamente para casa apenas para buscar uma muda de roupa, carregador de celular e alguns documentos. Ao entrar, viu a sacola do mercado ainda sobre a mesa.
O arroz, o gengibre e o cheiro-verde continuavam ali.
Ele ficou parado diante da sacola por alguns segundos.
Horas antes, seu maior receio era que Camila não tivesse forças para comer a canja. Agora, só queria ouvi-la reclamar que a sopa tinha pouco sal.
Antes de sair, Bruno passou pelo banheiro.
O chão já estava seco, mas a toalha molhada permanecia amontoada perto do box. Ele se lembrou da esposa encolhida contra a parede, tremendo.
Aquela imagem não sairia tão cedo de sua cabeça.
Quando voltou ao pronto atendimento, Camila estava acordada. Parecia um pouco melhor depois do soro, mas continuava muito cansada.
— Você foi para casa?
— Fui buscar umas coisas.
— E a oficina?
— Continua existindo sem mim.
Ela soltou um sorriso fraco.
— Milagre.
Bruno aproximou a cadeira.
— Sabe o que eu percebi?
— O quê?
— Que você vive dizendo para eu não me preocupar. E eu vivo aceitando.
Camila respirou fundo.
— Não quero que você fique se culpando.
— Não estou fazendo isso. Só estou dizendo que não quero continuar do mesmo jeito.
Ela ficou quieta.
Bruno explicou que não pretendia vigiar cada espirro dela nem tratá-la como alguém incapaz. O que queria era simples: quando algo estivesse errado, os dois precisavam parar de competir para ver quem suportava mais em silêncio.
Camila olhou para ele por alguns instantes.
— Então você também vai ter que fazer isso.
— Fazer o quê?
— Parar de dizer que está tudo bem quando chega em casa com dor nas costas e mal consegue jantar.
Bruno quase sorriu.
Ela tinha razão.
— Fechado.
Perto da meia-noite, o resultado do teste confirmou dengue.
O médico voltou a explicar os sinais de alerta e os cuidados necessários. A hidratação teria papel fundamental, e Camila precisaria evitar alguns medicamentos comuns que poderiam aumentar o risco de sangramento. Como ela ainda apresentava muita fraqueza e os exames exigiam acompanhamento, permaneceria sob observação.
Bruno ouviu cada orientação atentamente.
Camila, ao lado, parecia finalmente aceitar que não sairia dali naquela noite.
De madrugada, a febre voltou a subir.
Ela acordou assustada, dizendo que estava com muito frio. Bruno chamou a enfermagem, ajudou a ajeitar a manta e ficou segurando sua mão enquanto a equipe fazia nova avaliação.
— Você pode dormir um pouco — ela disse depois.
— Daqui a pouco.
— Você está sentado nessa cadeira faz horas.
— Estou treinando para virar decoração do hospital.
Camila soltou uma risada fraca.
Era a primeira risada desde que ele abrira a porta do banheiro.
Na manhã seguinte, novos exames mostraram que as plaquetas ainda haviam diminuído, mas os demais sinais permaneciam estáveis. O médico explicou que precisariam acompanhar a evolução com atenção antes de pensar em liberação.
Bruno telefonou para a oficina.
Dessa vez, não pediu desculpas cinco vezes antes de explicar.
Disse apenas que Camila continuava em observação e que precisaria ficar com ela.
O encarregado respondeu que organizaria a escala.
— Sua esposa precisa de você aí. Quando tiver uma previsão, me avisa.
Bruno desligou e olhou para a tela.
Camila percebeu.
— Ele brigou?
— Não.
— Então por que essa cara?
— Porque passei a manhã inteira ontem imaginando que o mundo ia acabar se eu faltasse algumas horas.
Ela mexeu devagar a cabeça.
— Você faz isso.
— Eu sei.
Naquele mesmo dia, depois de receber mais hidratação e conseguir comer um pouco, Camila pareceu melhorar. A cor voltou discretamente ao rosto, e ela conseguiu se sentar sem sentir tanta tontura.
Bruno abriu a marmita que tinha comprado para si, mas ela apontou para o purê.
— Me dá um pouco?
Ele levantou uma sobrancelha.
— Você quer comer?
— Um pouco.
Foi uma coisa pequena.
Ainda assim, Bruno sorriu como se tivesse recebido a melhor notícia do dia.
No fim da tarde, porém, Camila começou a sentir uma dor abdominal que não tinha antes.
Primeiro, tentou ignorar.
Mudou de posição na maca e disse que talvez fosse por ter ficado tanto tempo sem comer.
Bruno percebeu que ela apertava a lateral do abdômen com a mão.
— Está doendo?
— Um pouco.
— Quanto é “um pouco”?
— Bruno…
— Camila.
Ela fechou os olhos.
— Está piorando.
Dessa vez, ele não deixou que ela terminasse a frase dizendo que passaria.
Chamou imediatamente a enfermagem.
O médico examinou Camila outra vez e pediu novos exames. A tranquilidade das horas anteriores desapareceu rapidamente.
Bruno permaneceu ao lado da esposa enquanto ela era levada para outra sala de avaliação.
A dor aumentava.
Camila respirava fundo e tentava não demonstrar medo.
Antes que a porta se fechasse, ela estendeu a mão.
Bruno segurou seus dedos.
— Eu estou aqui.
— Não vai embora?
— Nem se você mandar.
Ela tentou sorrir.
Pouco depois, o médico voltou.
Explicou que a nova dor era um sinal de alerta e, considerando a evolução das plaquetas e o quadro geral, Camila precisaria ser transferida para internação para acompanhamento mais rigoroso.
Bruno assentiu sem hesitar.
Camila fechou os olhos por um instante.
Dessa vez, não disse que era exagero.
Não disse que ficaria bem sozinha.
Apenas segurou a mão do marido e murmurou:
— Ainda bem que você voltou para casa ontem.
Bruno sentiu a garganta fechar.
Porque os dois sabiam que, se ele tivesse chegado algumas horas mais tarde, aquela história poderia ter começado de uma maneira muito diferente.
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