Home

Durante oito anos fui o segredo dele; na noite em que ficou noivo de outra, ele pediu que eu não esperasse

Parte 3

Marina chegou ao café vinte minutos antes do horário que combinamos. Quando entrei, ela já estava sentada perto da janela, com o celular sobre a mesa e uma expressão completamente diferente da mulher que, dois dias antes, me mandava fotos do noivado do próprio tio.

Sentei na frente dela.

— Você está me assustando — ela disse. — Meu tio nunca me ligou para perguntar de uma amiga minha. Aliás, eu nem sabia que vocês se conheciam fora daquele projeto da sua empresa.

Eu não sabia por onde começar sem transformar oito anos em uma sequência absurda de frases.

Então comecei pelo início.

Contei que conhecera Henrique quando eu tinha vinte e quatro anos. Contei como o relacionamento começara discretamente, como ele havia pedido segredo, como prometera que aquilo seria temporário. Falei do apartamento, das viagens em horários escolhidos para não cruzarmos com conhecidos, das datas comemorativas celebradas um dia antes ou depois para que ele estivesse livre para a família.

Marina não me interrompeu.

Quanto mais eu falava, mais seu rosto perdia a cor.

Quando terminei, ela ficou alguns segundos olhando para mim.

— Oito anos?

Assenti.

— Você e o meu tio estão juntos há oito anos?

— Estávamos.

Ela levou a mão até a boca.

— Meu Deus, Lívia.

— Eu sei.

— E eu fiquei te mandando foto do noivado.

— Você não sabia.

— Eu fiquei dizendo que eles formavam um casal bonito.

— Marina, você não sabia.

Ela abaixou a cabeça e respirou fundo.

— Ele sabia que eu era sua amiga?

Pensei antes de responder.

— Sabia seu nome. Eu falava de você. Mas nunca deixei claro que você era sobrinha dele quando começamos nossa amizade. Quando percebi a coincidência, fiquei com medo de criar problema. Depois parecia tarde demais para explicar.

Ela ergueu os olhos.

— Então vocês dois esconderam isso de mim.

A frase doeu porque era verdadeira.

— Sim.

— Só que por motivos muito diferentes.

Não tentei me defender.

Marina ficou em silêncio por alguns minutos. Depois perguntou:

— Foi por isso que ele me ligou ontem?

— Provavelmente.

— O que ele disse para você?

Contei sobre a ligação. Sobre Henrique afirmar que o noivado era uma aliança familiar. Sobre dizer que não amava Vitória. E, principalmente, sobre a ideia de que tudo poderia continuar entre nós enquanto a negociação das famílias se estabilizava.

Marina fechou os olhos.

— Não acredito.

— Eu também não queria acreditar.

— Minha família pode ser complicada, Lívia, mas ninguém colocou uma arma na cabeça dele. Meu avô pressiona, manipula, faz chantagem emocional… isso eu conheço. Mas meu tio é um homem de trinta e tantos anos e dirige metade do grupo. Ele sabe dizer não quando quer.

Aquela frase confirmou o que eu já havia sentido ao assistir ao vídeo do noivado.

Henrique podia ter sido pressionado.

Mas escolhera esconder.

Escolhera mentir.

E, principalmente, escolhera presumir que eu aceitaria.

Marina pegou o celular.

— Eu vou ligar para ele.

— Não.

Ela me encarou.

— Por quê?

— Porque eu não te contei para transformar você em mensageira. Eu te contei porque você é minha melhor amiga e eu não quero continuar mentindo.

— Vitória precisa saber.

— Eu sei.

A resposta saiu antes que eu pudesse pensar.

Marina ficou quieta.

Eu também.

Até aquele momento, eu ainda não tinha decidido o que fazer em relação à noiva de Henrique. Parte de mim queria desaparecer e nunca mais olhar para aquela família. Outra parte sabia que ir embora em silêncio significaria permitir que ele mantivesse a mesma mentira, apenas trocando a mulher escondida.

— Você vai contar para ela? — Marina perguntou.

— Ainda não sei como.

— Eu consigo o contato dela.

Balancei a cabeça.

— Não quero fazer isso pelas costas de ninguém. Não quero mandar mensagem anônima, nem foto velha, nem criar escândalo.

— Então o quê?

Olhei pela janela.

— Se Henrique acha que existe alguma explicação aceitável, ele pode dar essa explicação na frente dela.

Marina demorou um pouco para entender.

Quando entendeu, seus olhos se arregalaram.

— Você quer colocar os dois frente a frente?

— Não. Eu quero parar de participar de conversas escondidas.

Naquela mesma tarde, Henrique voltou a tentar contato. Dessa vez usou meu e-mail pessoal.

“Por favor, me encontre. Só uma vez. Depois disso, se você ainda quiser ir embora, eu respeito.”

Li duas vezes.

Havia algo quase irônico na maneira como ele transformava meu direito de terminar o relacionamento em uma concessão que ele poderia “respeitar”.

Respondi:

“Eu converso com você uma última vez, mas não em segredo. Se seu noivado é apenas uma obrigação familiar e você acredita que não fez nada errado, Vitória pode estar presente.”

A resposta dele veio três minutos depois.

“Não envolva a Vitória nisso.”

Fiquei encarando a tela.

Depois respondi:

“Ela já está envolvida. Você colocou um anel na mão dela.”

Henrique não respondeu por quase uma hora.

Quando respondeu, a mensagem tinha mudado de tom.

“Você está tentando destruir minha família e minha empresa por vingança?”

Senti uma tristeza estranha.

Era sempre assim.

Enquanto eu sofria em silêncio, era amor.

No momento em que deixava de facilitar a vida dele, virava vingança.

Escrevi:

“Não quero sua empresa, seu dinheiro nem sua família. Só não vou mais ajudar você a esconder suas escolhas.”

Não houve resposta.

Nos dias seguintes, mergulhei no trabalho. A transferência dos projetos relacionados ao Grupo Tavares levou mais tempo do que eu esperava. Alguns colegas fizeram perguntas, mas minha gerente respeitou minha privacidade.

Também comecei a procurar um apartamento.

Nada parecido com o imóvel amplo que Henrique alugava para mim.

Escolhi um lugar menor, em Vila Mariana, perto do metrô, dentro do que meu próprio salário permitia. Quando assinei o contrato, olhei meu nome no documento durante alguns segundos.

Era uma coisa simples.

Ainda assim, me emocionou.

Aquele apartamento seria meu porque eu tinha escolhido morar ali.

Não porque alguém precisava de um lugar discreto onde pudesse me visitar.

No quarto dia, a portaria do escritório avisou que havia flores para mim.

Mandei devolver.

No quinto, chegou uma caixa com um relógio que eu tinha admirado meses antes numa vitrine.

Também devolvi.

No sexto, Henrique parou de mandar presentes.

Naquela noite, porém, Marina ligou.

— Meu tio veio falar comigo.

Sentei na cama do hotel.

— O que ele queria?

— Saber o que você me contou.

Meu coração apertou.

— E você respondeu?

— Disse que não era problema meu explicar a vida que ele escolheu esconder.

Apesar de tudo, quase sorri.

Marina continuou:

— Ele está desesperado, Lívia.

— Porque eu fui embora?

— Porque ele perdeu o controle da situação.

A frase ficou pairando entre nós.

— Tem diferença — ela acrescentou.

Eu sabia.

Durante anos, confundira a insistência de Henrique com amor. Naquele momento começava a perceber que parte do que ele chamava de cuidado vinha acompanhada da certeza de que eu sempre estaria disponível.

— E a Vitória? — perguntei.

Marina hesitou.

— Ela percebeu que tem alguma coisa errada.

Meu estômago se contraiu.

— Como?

— Meu tio começou a faltar em compromissos que os dois tinham com as famílias. Ontem eles discutiram. Eu não estava lá, mas minha mãe comentou que Vitória perguntou se existia outra pessoa.

— E ele negou?

— Não sei.

Fechei os olhos.

A resposta veio no dia seguinte.

Eu estava saindo do escritório quando encontrei Henrique parado do outro lado da rua.

Dessa vez ele não tentou entrar no prédio.

Apenas esperou.

Eu poderia ter voltado.

Poderia ter chamado um carro pela garagem.

Mas estava cansada de mudar de caminho para evitar um homem que durante oito anos me ensinara a viver escondida.

Atravessei a rua.

Henrique parecia ter envelhecido em uma semana. Estava sem gravata, com a barba por fazer e olheiras profundas.

— Você finalmente veio — ele disse.

— Tenho cinco minutos.

— Eu não consigo dormir.

— Isso não é problema meu.

Ele passou a mão pelo rosto.

— Lívia, eu errei em não te contar.

— Não foi só isso.

— Eu sei.

— Sabe mesmo?

Henrique olhou ao redor, como se temesse que alguém reconhecesse aquele homem acostumado a controlar cada detalhe.

— Eu não queria perder você.

— Então resolveu ficar com duas.

— Não fala assim.

— Como eu deveria falar?

Ele apertou a mandíbula.

— O acordo com os Sampaio é importante para a empresa. Meu avô deixou claro que, se eu recusasse, poderia perder espaço no grupo. Eu achei que conseguiria ganhar tempo, estabilizar a situação e depois…

— Depois o quê?

Ele não respondeu.

Aproximei um pouco o rosto.

— Você se divorciaria dela? Romperia o noivado? Contaria sobre mim? Qual era o plano, Henrique?

Silêncio.

Ali estava a verdade.

Não havia plano.

Só havia a expectativa de que eu continuasse esperando.

— Você não sabia o que faria — falei. — Só sabia que eu ficaria onde você me deixou.

Ele tentou segurar meu braço.

Afastei-me antes.

— Não encosta em mim.

A mão dele caiu ao lado do corpo.

— Eu amo você.

Ouvir aquilo já não me causava o efeito de antes.

— Talvez ame — respondi. — Mas você ama muito mais a vida que construiu sem precisar assumir o preço das suas escolhas.

Henrique respirou fundo.

— Vitória perguntou se existe outra pessoa.

— E o que você disse?

Ele desviou os olhos.

Foi suficiente.

— Você mentiu de novo.

— Eu não podia contar naquele momento.

— Claro que não. Nunca é o momento certo quando a verdade pode custar alguma coisa para você.

Ele ergueu a voz.

— Você acha que é fácil? Se esse noivado acabar agora, a negociação com os Sampaio pode ser suspensa. Meu avô vai me responsabilizar. O conselho inteiro vai cair em cima de mim.

— E eu deveria ter pena?

Henrique me encarou.

— Eu estou tentando explicar o que está em jogo.

— Não. Você está explicando o que sempre esteve em jogo para você.

Pela primeira vez, percebi que não estava chorando.

Nem tremendo.

Nem tentando convencê-lo a me escolher.

Eu só o via com uma clareza que oito anos de amor tinham me impedido de ter.

— Amanhã às sete da noite — falei. — No café do hotel onde foi o seu noivado.

Ele franziu a testa.

— Para quê?

— Você queria uma última conversa.

— Sim.

— Então vai ter.

— Só nós dois?

Balancei a cabeça.

— Não.

A expressão dele mudou.

— Lívia…

— Vitória vai estar lá.

— Eu disse para não envolver ela.

— E eu disse que não participo mais de encontros secretos.

Ele deu um passo na minha direção.

— Você não pode fazer isso.

Eu quase sorri.

Durante oito anos, ele tinha decidido onde eu podia aparecer, com quem eu podia falar, quais fotografias eu podia guardar e quanto tempo eu deveria esperar.

Finalmente, aquela frase não tinha mais poder sobre mim.

— Posso, Henrique.

Dei um passo para trás.

— E amanhã você vai ter duas opções: contar a verdade na frente dela ou me ver contar e decidir se ainda quer continuar mentindo.

Virei as costas.

Ele chamou meu nome.

Não parei.

Porque daquela vez a decisão não era entre Henrique e Vitória.

Era entre voltar a ser o segredo dele ou finalmente voltar a ser dona da minha própria vida.

E eu já tinha escolhido.

Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *