Depois do funeral do meu pai, vendi tudo para pagar as dívidas — e Rafael jogou dinheiro no balcão para me humilhar
Parte 4
Quando cheguei à loja, a discussão já tinha parado.
Bianca estava perto da vitrine, de braços cruzados.
Rafael permanecia alguns passos atrás dela.
Marina organizava alguns papéis no balcão com a expressão de quem preferia estar em qualquer outro lugar.
Assim que Bianca me viu, soltou uma risada curta.
— Finalmente.
Fechei a porta atrás de mim.
— Marina disse que vocês estavam discutindo por minha causa.
Rafael respondeu primeiro.
— Isso não precisava ter chegado a esse ponto.
— Que ponto?
Bianca virou-se para ele.
— Está vendo? É exatamente isso. Ela sempre fala como se não soubesse de nada.
Voltei os olhos para Bianca.
— Eu realmente não sei do que você está falando.
Ela pegou o celular e colocou sobre o balcão.
Na tela havia mensagens de conhecidos comentando que Rafael ainda perguntava por mim, que havia ido à loja outras vezes e que nosso término talvez não tivesse sido tão simples quanto parecia.
Eu li rapidamente.
— Eu não mandei nenhuma dessas mensagens.
— Mas todo mundo fala de você — Bianca retrucou.
— Isso é um problema de todo mundo, não meu.
— Você gosta disso.
Respirei fundo.
— Bianca, eu passei os últimos meses vendendo a casa do meu pai, resolvendo dívidas e trabalhando. Não tenho tempo para administrar fofoca.
Ela abriu a boca para responder, mas Rafael interveio.
— Eu já falei isso para ela.
Bianca virou o rosto lentamente.
— Você falou?
— Falei.
— Então agora você defende a Lívia?
Rafael pareceu perder a paciência.
— Não estou defendendo ninguém. Estou dizendo que ela não fez nada.
A frase caiu sobre o ambiente de maneira inesperada.
Não porque fosse extraordinária.
Mas porque era a primeira vez que Rafael admitia, diante de outra pessoa, que havia me acusado injustamente.
Bianca riu sem humor.
— Interessante. Quando eu disse que ela estava seguindo você, você acreditou em mim.
Rafael apertou os lábios.
— Eu estava errado.
Marina ergueu discretamente os olhos.
Eu não disse nada.
Bianca pareceu ainda mais irritada.
— Errado sobre o quê?
— Sobre ela estar me seguindo.
— Só isso?
Rafael respirou fundo.
— E sobre algumas outras coisas.
Bianca olhou para mim como se aquela conclusão fosse culpa minha.
— Você conseguiu o que queria.
Foi então que senti algo mudar dentro de mim.
Meses antes, talvez eu tivesse tentado me explicar.
Talvez tivesse dito que nunca quis Rafael de volta.
Talvez implorasse para acreditarem em mim.
Dessa vez, não.
— Não.
Minha voz saiu calma.
— Eu não consegui o que queria.
Dei um passo até o balcão.
— O que eu queria era que meu pai ainda estivesse vivo. Queria não ter precisado vender a casa em que cresci. Queria não ter aprendido, em poucas semanas, quantas pessoas somem quando o dinheiro acaba.
Bianca permaneceu imóvel.
— Rafael nunca foi o centro do que aconteceu comigo.
Olhei para ele.
— Nem quando nós terminamos.
Depois voltei para ela.
— E definitivamente não é agora.
Rafael abaixou os olhos.
Bianca pegou o celular.
— Então por que ele continua vindo aqui?
— Pergunte a ele.
Foi a resposta mais simples que eu poderia dar.
E, provavelmente, a única necessária.
Bianca virou-se para Rafael.
Ele demorou a falar.
— Porque eu fui injusto.
Ela franziu a testa.
— O quê?
— Eu fui injusto com ela.
Rafael parecia desconfortável, mas continuou.
— Eu achei que a Lívia estava tentando se aproximar de mim. Achei que ela estava usando a situação para provocar alguma reação.
Soltou o ar.
— Depois percebi que ela estava realmente tentando sobreviver àquilo tudo.
Bianca riu.
— E agora você sente pena?
— Não.
Ele olhou para mim.
— Acho que sinto vergonha.
Eu não esperava ouvir aquilo.
Mas também não senti a satisfação que talvez tivesse imaginado.
Algumas palavras chegam tarde demais para produzir alívio.
Rafael colocou as mãos nos bolsos.
— Naquele dia, eu joguei dinheiro no balcão na frente de todo mundo.
Sua voz ficou mais baixa.
— Não havia necessidade.
Caio e Bruno não estavam ali.
Não havia plateia.
Nem amigos incentivando.
Talvez por isso ele finalmente conseguisse ouvir as próprias palavras.
— Eu quis fazer você entender que tinha acabado — continuou. — Mas fiz isso como se você fosse alguém tentando comprar minha atenção.
Assenti devagar.
— Foi exatamente assim que pareceu.
— Eu sei.
Bianca afastou-se dele.
— Então foi para isso que você me trouxe aqui?
— Eu não trouxe você.
— Eu vim porque você não parava de falar que precisava esclarecer as coisas.
Rafael fechou os olhos por um instante.
— Bianca, isso não é sobre voltar com a Lívia.
— Claro que não.
A ironia na voz dela era evidente.
Eu peguei minha bolsa.
— Vocês precisam resolver o relacionamento de vocês sem me colocar no meio.
Bianca olhou para mim.
— Muito conveniente.
— Não. Muito necessário.
Apontei para a bolsa que ela tinha deixado em consignação.
— Você pode vender isso, ficar com isso, devolver, jogar fora. Não me interessa.
Então olhei para Rafael.
— E você não me deve uma reconciliação.
Ele pareceu surpreso.
— Eu sei.
— Mas me devia reconhecer o que fez.
Minha garganta apertou, porém continuei.
— Agora reconheceu.
Rafael assentiu.
— Desculpa.
Não era uma declaração perfeita.
Não apagava nada.
Mas, pela primeira vez, não vinha acompanhada de justificativa.
Eu aceitei a existência daquele pedido de desculpas sem transformá-lo em absolvição.
— Eu ouvi.
Foi tudo o que respondi.
Saí da loja antes deles.
Naquela noite, chorei outra vez.
Não porque quisesse Rafael de volta.
Chorei porque algumas feridas só começam a doer de verdade depois que a gente deixa de correr.
Nos meses seguintes, continuei trabalhando no leilão.
Passei a receber mais responsabilidade na avaliação de lotes e aprendi a negociar com pessoas que tinham muito dinheiro, mas nem sempre entendiam o valor do que compravam.
Eu descobri que sabia fazer aquilo.
Não porque tivesse nascido rica.
Mas porque prestava atenção.
Meu pai havia me ensinado muito sem perceber.
Às vezes, quando eu segurava uma garrafa antiga contra a luz para verificar a conservação, lembrava dele explicando safras durante o jantar.
Antes, eu revirava os olhos.
Agora sorria.
O processo do inventário continuou avançando.
Não houve solução milagrosa.
Alguns bens foram vendidos por valores menores do que eu gostaria.
Algumas negociações demoraram.
Existiram taxas, prazos e noites em que precisei refazer contas três vezes.
Mas cada obrigação quitada estava documentada.
Cada decisão passava por mim.
Quando surgiu a possibilidade de preservar um pequeno imóvel que ainda fazia parte do patrimônio, analisei os números e decidi vendê-lo também.
Muita gente talvez considerasse sentimental demais manter alguma coisa apenas por memória.
Eu já tinha aprendido o contrário.
Memória não paga juros.
E vender um imóvel não apaga uma família.
Com os recursos obtidos e as negociações feitas ao longo dos meses, o espólio finalmente chegou a um ponto administrável.
Os credores reconhecidos foram sendo pagos dentro do processo correto.
Quando recebi o documento que confirmava a quitação da última obrigação relevante, fiquei sentada diante da mesa durante vários minutos.
Não gritei.
Não comemorei.
Apenas passei a mão sobre o papel.
Pensei em tudo o que tinha sido vendido.
Na mansão.
Nos carros.
Nos quadros.
Nas bolsas.
Na adega.
Na Romanée-Conti.
Pensei na tarde em que fiquei sentada na calçada, abraçada a uma bolsa velha, acreditando que minha dignidade tinha desaparecido junto com o dinheiro.
Eu estava errada.
Ela só tinha mudado de forma.
Algumas semanas depois, encontrei Rafael por acaso em um café perto do trabalho.
Dessa vez, foi realmente por acaso.
Ele estava sozinho.
Nós nos vimos ao mesmo tempo.
Rafael hesitou.
Eu também.
Então ele caminhou até minha mesa.
— Posso?
Apontei para a cadeira.
— Por alguns minutos.
Ele se sentou.
— Soube que o inventário está terminando.
— Está.
— E você continua trabalhando com os leilões?
— Continuo.
Ele sorriu de leve.
— Parece que você gosta.
— Gosto.
Houve uma pausa confortável o suficiente para não parecer hostil e distante o suficiente para não parecer íntima.
— Bianca e eu terminamos — contou.
Não perguntei por quê.
Ele percebeu.
— Você não vai perguntar?
— Não é da minha conta.
Rafael soltou uma pequena risada.
— Você realmente mudou.
— Você já disse isso.
Ele assentiu.
— Acho que agora entendo melhor.
Fiquei esperando.
— Eu conhecia você quando tudo era fácil.
Olhou para a xícara.
— Quando ficou difícil, eu achei que você continuaria sendo aquela mesma pessoa que resolvia tudo com dinheiro ou influência.
— E eu não era?
— Talvez fosse um pouco.
Eu quase sorri.
— Provavelmente.
Ele levantou os olhos.
— Mas eu usei isso para justificar coisas que não tinham justificativa.
A sinceridade dele me surpreendeu mais do que qualquer tentativa de reconciliação teria surpreendido.
— Espero que você não faça isso de novo com outra pessoa.
Rafael entendeu.
Não insistiu.
— Eu também espero.
Levantou-se.
— Fica bem, Lívia.
— Você também.
Ele saiu.
E, quando a porta do café fechou, eu percebi que não havia nenhuma vontade de correr atrás dele.
Não havia raiva.
Não havia esperança.
Só encerramento.
Pouco tempo depois, recebi uma proposta para assumir oficialmente uma área de consignação especializada do leilão.
O salário não me transformaria novamente numa mulher rica.
Também não era isso que eu procurava.
Aceitei porque gostava do trabalho.
Porque era meu.
Porque ninguém tinha me dado aquilo por pena.
Na primeira semana no novo cargo, o rapaz do boné apareceu mais uma vez.
Dessa vez estava sem máscara.
— Então agora você manda aqui?
— Não exagera.
— Quer dizer que ainda posso reclamar da minha família?
— Desde que compre alguma coisa de vez em quando.
Ele colocou a mão no peito.
— Isso é exploração comercial.
— Isso é sobrevivência empresarial.
Nós dois rimos.
Nada além disso aconteceu.
E estava tudo bem.
Eu já não precisava que alguém aparecesse para mudar minha vida.
Ao sair do trabalho naquela noite, parei diante de uma vitrine.
Havia uma bolsa parecida com uma das que eu tinha vendido meses antes.
Olhei para o preço.
Em outra época, talvez tivesse entrado sem pensar.
Agora apenas sorri e continuei andando.
Não porque eu não pudesse desejar coisas bonitas.
Mas porque, finalmente, sabia distinguir aquilo que tinha valor daquilo que apenas custava caro.
Meu pai tinha ido embora.
A antiga casa também.
Meu antigo relacionamento terminara.
A vida que eu conhecia não existia mais.
Ainda assim, quando caminhei pela rua iluminada, não me senti vazia.
Pela primeira vez desde o funeral, não estava tentando salvar o passado.
Estava construindo alguma coisa que era realmente minha.
E isso, descobri, valia mais do que tudo o que eu tinha sido obrigada a vender.
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