Depois de ser ignorada três vezes pelo professor que só enxergava Taís, decidi sair do roteiro que haviam escrito para mim
Parte 4
A final começou às oito da manhã de um sábado.
O laboratório principal estava cercado por arquibancadas e painéis transparentes de segurança. Professores, estudantes e representantes de empresas acompanhavam os protótipos sendo levados para as plataformas.
Meu mecha de teste não era o mais bonito.
Nem de longe.
Alguns concorrentes tinham usado acabamento impecável, carenagens personalizadas e sistemas de controle que pareciam saídos de uma apresentação comercial.
O meu mostrava parafusos, articulações e pequenas marcas dos inúmeros ajustes que eu havia feito.
Minha tia olhou para ele antes de eu entrar na área restrita.
— Nervosa?
— Muito.
— Ótimo.
— Ótimo?
— Quem não sente nada antes de uma prova dessas provavelmente não entendeu a dificuldade.
Respirei fundo.
— Algum último conselho?
Ela sorriu.
— Sim. Não tente impressionar ninguém. Faça a máquina funcionar.
Foi tudo.
Nenhuma solução secreta.
Nenhuma instrução final.
Eu entrei.
Taís ocupava a plataforma ao lado.
Seu protótipo continuava mais sofisticado do que o meu.
Quando nossos olhos se cruzaram, ela desviou rapidamente.
Bruno estava nas arquibancadas.
Longe o bastante para não ajudá-la.
A primeira fase da final parecia simples: caminhada em linha reta com peso constante.
Meu sistema completou o percurso.
Taís também.
Na segunda, o peso aumentava a cada volta.
Na terceira, o protótipo precisava mudar de direção em intervalos irregulares.
Foi aí que começaram os problemas.
Uma vibração apareceu na perna esquerda do meu equipamento.
Pequena.
Mas conhecida.
Eu havia visto aquele comportamento dezenas de vezes durante os testes.
Parei o protótipo.
O cronômetro continuava correndo.
Um murmúrio atravessou as arquibancadas.
Por um segundo, senti a velha urgência de procurar alguém com os olhos.
Um professor.
Minha tia.
Qualquer pessoa.
Então coloquei as mãos sobre a bancada e forcei a mente a voltar para o problema.
A vibração havia começado depois do aumento de carga.
Não era o motor.
Não era o eixo principal.
Examinei o anel de fixação.
A folga era mínima.
Quase invisível.
Sorri sem perceber.
Era praticamente a mesma dúvida que Bruno havia ignorado meses antes.
Só que agora eu sabia responder.
Reduzi a pressão em um ponto, redistribuí a carga e substituí uma peça do travamento.
Perdi quase oito minutos.
Quando religuei o sistema, o protótipo voltou ao percurso.
Na plataforma ao lado, Taís estava enfrentando um problema pior.
O mecanismo do quadril havia entrado em modo de proteção.
Ela desmontou uma tampa.
Recolocou.
Tentou reiniciar.
Nada.
De onde eu estava, conseguia ver Bruno se inclinando na arquibancada.
Taís também percebeu.
Olhou para ele.
Por puro hábito.
Bruno fez um movimento quase imperceptível com a cabeça, como se estivesse prestes a indicar alguma coisa.
Um fiscal imediatamente levantou a mão.
— Professor, nenhuma comunicação com os competidores.
Bruno recuou.
Taís ficou pálida.
Durante alguns segundos, apenas encarou a máquina.
Eu voltei para a minha.
Não senti satisfação.
Meses antes, talvez eu tivesse sentido.
Naquele momento, só pensei que aquilo era exatamente o problema de ensinar alguém oferecendo respostas antes mesmo de a pessoa aprender a formular perguntas.
Taís conseguiu colocar o sistema novamente em funcionamento.
Mas perdeu muito tempo.
Quando faltavam quinze minutos, quatro participantes ainda tinham condições reais de completar a prova.
Eu estava entre eles.
Meu braço direito começou a apresentar atraso de resposta.
Corrigi o software.
O joelho esquerdo voltou a vibrar.
Reduzi a velocidade.
Um dos concorrentes abandonou por superaquecimento.
Outro terminou o percurso, mas ultrapassou o limite de instabilidade permitido.
Quando meu protótipo cruzou a última marca, eu não sabia minha colocação.
Só sabia que tinha terminado.
Afastei as mãos dos controles.
Elas tremiam.
A nova professora me encontrou na saída da área técnica.
— Bom trabalho.
— Acho que perdi muito tempo naquele primeiro reparo.
— Talvez.
Ela apontou para o protótipo.
— Mas você diagnosticou sozinha, corrigiu e terminou.
Ouvi aplausos alguns minutos depois.
Os resultados apareceram no painel.
Terceiro lugar.
Depois segundo.
Meu nome ainda não tinha surgido.
Meu coração batia tão forte que fiquei tonta.
Então apareceu:
1º lugar — Luna Ferreira.
Fechei os olhos.
Não gritei.
Não pulei.
Apenas fiquei parada, tentando aceitar que aquilo era real.
Minha tia foi a primeira pessoa que abracei quando saí da área restrita.
— Eu consegui.
— Conseguiu.
— Eu realmente consegui.
Ela apertou meu ombro.
— Não. Você aprendeu a conseguir. É melhor.
Taís terminou em quarto lugar.
Quando os participantes começaram a se reunir para a cerimônia, ela se sentou sozinha perto da lateral do palco.
Bruno foi até ela.
Não ouvi o início da conversa.
Mas vi Taís balançar a cabeça.
Depois ouvi sua voz subir.
— Você sabia que isso ia acontecer!
Bruno respondeu alguma coisa em tom baixo.
— Não diga que eu precisava aprender a resolver sozinha agora. Durante meses, toda vez que eu demorava dois minutos, você vinha e mostrava a resposta.
Algumas pessoas próximas viraram o rosto.
Taís parecia perto de chorar.
— Eu achava que era boa porque tudo parecia fácil.
Bruno endureceu a expressão.
— Você é boa.
— Então por que eu não sabia o que fazer quando você não estava do meu lado?
Ele não conseguiu responder.
Eu desviei o olhar.
Não queria transformar aquele momento em outra disputa.
Pouco depois, fui chamada ao palco.
Recebi o certificado, a medalha e a confirmação da bolsa de desenvolvimento.
Quando colocaram o troféu nas minhas mãos, lembrei da primeira aula.
Da mão erguida.
Da pergunta ignorada.
Da vergonha que senti quando toda a sala riu e Bruno simplesmente foi embora.
Naquela época, eu teria dado qualquer coisa para que ele reconhecesse meu potencial.
Agora aquilo já não tinha importância.
Após as fotos oficiais, alguém chamou meu nome.
Virei.
Bruno vinha subindo os degraus do palco carregando um buquê.
Exatamente como eu havia visto naquela estranha sequência meses antes.
Por um segundo, um arrepio percorreu meus braços.
Então os comentários voltaram.
【Chegou a cena!】
【Agora ela vai se emocionar porque finalmente recebeu a atenção do protagonista!】
【Ele reconheceu o talento dela!】
Bruno parou diante de mim.
Seu sorriso era gentil.
— Parabéns, Luna. Você fez um excelente trabalho.
— Obrigada.
Ele me entregou as flores.
Eu não estendi as mãos.
O sorriso dele vacilou.
— Eu gostaria que você soubesse que sempre reconheci seu potencial.
Quase ri.
— Sempre?
Bruno baixou um pouco a voz.
— Talvez nossas diferenças tenham causado alguns mal-entendidos.
— Não houve mal-entendido.
Algumas pessoas próximas ficaram quietas.
Continuei:
— Eu fazia perguntas e o senhor escolhia não responder. Depois oferecia ajuda à Taís sem que ela pedisse. Isso aconteceu várias vezes.
— Luna, não acho que este seja o lugar para…
— Foi o senhor que subiu ao palco.
Ele ficou em silêncio.
Respirei fundo.
Não queria humilhá-lo.
Só não permitiria que ele reescrevesse o que tinha acontecido.
Bruno tentou mudar o rumo da conversa.
— De qualquer maneira, se tiver qualquer dúvida técnica daqui para frente, pode me procurar. Podemos conversar sobre seus projetos.
Olhei para as flores.
Depois para ele.
A cena era exatamente aquela que eu tinha visto antes de tudo começar.
Então sorri.
— Das minhas dúvidas, minha tia cuida. Não precisa se preocupar comigo.
Inclinei discretamente a cabeça para o lado do palco.
Taís estava de pé, olhos vermelhos, observando Bruno.
— Se está com tempo sobrando, talvez seja melhor ir conversar com a Taís. Ela está quase chorando ali.
Bruno ficou sem reação.
Algumas pessoas disfarçaram o constrangimento.
Eu desci do palco.
Os comentários explodiram diante dos meus olhos.
【Isso não era para acontecer!】
【Ela deveria estar tentando conquistar o Bruno!】
【Por que ela simplesmente foi embora?】
Outro surgiu em vermelho.
【Porque nunca foi obrigação dela participar da história de amor deles.】
Dessa vez, eu sorri.
Nas semanas seguintes, as consequências apareceram de forma bem menos dramática do que aqueles comentários pareciam desejar.
Ninguém foi expulso.
Nenhuma carreira acabou de um dia para o outro.
O departamento analisou as avaliações da disciplina de Bruno e conversou com alunos das duas turmas.
Minha reclamação não era a única sobre tratamento desigual.
Bruno continuou lecionando, mas deixou de coordenar as sessões abertas de orientação naquele semestre. Também precisou adotar critérios mais claros para atendimento individual e registrar os horários de acompanhamento dos alunos.
Era uma consequência proporcional.
Ele não era um monstro.
Era um professor que havia permitido que preferência pessoal interferisse no trabalho.
E finalmente precisou reconhecer isso.
Encontrei Bruno novamente quase dois meses depois, perto do laboratório.
Ele me chamou.
Pensei em seguir andando.
Mas parei.
— Eu devia ter respondido às suas perguntas — disse.
Não havia flores.
Nem plateia.
— Sim.
Ele respirou fundo.
— Também não deveria ter feito você pensar que precisava competir pela minha atenção.
Fiquei surpresa.
Não porque fosse uma grande declaração.
Mas porque era a primeira vez que ele descrevia claramente o que tinha feito, sem dizer que eu havia entendido errado.
— Espero que trate os próximos alunos de maneira diferente.
— Vou tentar.
— Não tente. Faça.
Bruno assentiu.
E foi tudo.
Eu não precisava perdoá-lo.
Também não precisava odiá-lo para sempre.
Taís teve um caminho mais difícil.
Depois da competição, ela continuou no curso, mas passou a frequentar sessões coletivas de laboratório em vez de depender exclusivamente de Bruno.
No início, reclamava de tudo.
Depois começou a perguntar.
Perguntas de verdade.
Algumas semanas mais tarde, estávamos trabalhando em bancadas próximas quando ela me chamou.
— Luna.
— O quê?
Ela mostrou uma peça.
— Por que isso continua ficando solto depois da montagem?
Olhei para o mecanismo.
Por um instante, quase achei graça.
— Qual foi a primeira coisa que você testou?
Taís franziu a testa.
— Você não vai me dar a resposta?
— Não.
— Que irritante.
— Pois é.
Ela analisou a peça outra vez.
Depois de alguns minutos, mudou a posição de uma arruela.
— É a distribuição de carga?
— Agora você está perguntando a coisa certa.
Ela sorriu de canto.
Não nos tornamos melhores amigas.
Também não precisávamos.
Bastava termos parado de enxergar uma à outra como inimigas obrigatórias.
Minha bolsa de desenvolvimento me permitiu entrar em um projeto maior no laboratório avançado.
Eu ainda cometia erros.
Ainda fazia perguntas.
Muitas.
A diferença era que já não sentia vergonha disso.
Minha tia continuava sendo a pessoa mais exigente quando eu levava algum problema para casa.
— O que você já tentou?
Essa era sempre sua primeira frase.
E eu tinha aprendido a gostar dela.
Os comentários apareciam cada vez menos.
Uma vez, durante uma apresentação, surgiu apenas uma linha.
【Sem a coadjuvante empurrando a trama, os protagonistas parecem tão comuns.】
Olhei para Bruno no fundo da sala.
Depois para Taís, concentrada em seu próprio projeto.
Talvez fossem mesmo.
Talvez todos nós fôssemos.
Pessoas comuns, cometendo erros comuns, tentando melhorar ou escolhendo não melhorar.
E isso era muito melhor do que viver como personagem de alguém.
No fim daquele ano, coloquei meu primeiro protótipo premiado numa pequena exposição do instituto.
Ao lado dele, havia a peça antiga do conjunto número cinco.
O encaixe frouxo.
A dúvida que ninguém quis responder.
Uma estudante do primeiro período parou diante dela.
— Luna, posso perguntar uma coisa?
Virei imediatamente.
— Claro.
Ela apontou para o mecanismo.
— Por que essa parte ficava solta?
Sorri.
Puxei uma cadeira para perto da bancada.
— Vem cá. Primeiro me mostra o que você acha que está acontecendo.
Enquanto ela começava a explicar, percebi que não havia mais nenhuma frase flutuando diante dos meus olhos.
Nenhum protagonista.
Nenhuma coadjuvante.
Nenhum roteiro dizendo quem deveria vencer ou quem precisava desaparecer.
Só havia uma pergunta, alguém disposto a aprender e outra pessoa disposta a escutar.
E foi assim que percebi que minha maior vitória nunca tinha sido o troféu: tinha sido recuperar o direito de escolher quem eu queria ser.
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