Home

A amante do meu marido me deu um tapa no aniversário dele — e ele ainda exigiu que eu pedisse desculpas

Parte 3

Fiquei olhando para aquela expressão durante muito tempo.

“Direito de voto.”

Não significava que eu poderia chegar ao Grupo Albuquerque na manhã seguinte e mandar em todo mundo. O advogado fez questão de repetir isso mais de uma vez. O inventário ainda precisava avançar, e a transferência definitiva dependeria das etapas formais de partilha.

Mesmo assim, aquilo mudava a situação.

Rafael passara meses falando da empresa como se a sucessão do avô já estivesse decidida. Em casa, dizia que assumiria uma posição ainda mais importante assim que o inventário acabasse. Minha sogra também tratava o futuro do grupo como uma questão encerrada.

Agora eu entendia por que aquela última página era tão importante.

Parte da influência que Rafael imaginava receber não iria para ele.

Iria para mim.

Naquela noite, ele apareceu em casa pouco depois das dez.

Ouvi a porta bater e continuei sentada à mesa da sala, separando documentos bancários antigos. Pela primeira vez em anos, eu estava organizando tudo o que tinha entregado, pago ou transferido durante nosso casamento.

Rafael entrou sem tirar o paletó.

— Você contratou advogado?

— Contratei.

— Contra mim?

Levantei os olhos.

— Para mim.

Ele soltou uma risada sem humor.

— Você está transformando um divórcio simples em uma guerra.

— Um divórcio simples teria começado com você conversando comigo antes de engravidar sua secretária.

O rosto dele endureceu.

— Não coloque Bianca no meio.

— Ela me deu um tapa no seu aniversário usando uma joia que pertencia à sua avó. Depois você me obrigou a pedir desculpas a ela. Acho que vocês mesmos cuidaram de colocá-la no meio.

Rafael respirou fundo e puxou uma cadeira.

— Quanto você quer?

A pergunta me deixou imóvel.

— Como é?

— Dinheiro. É isso que você está fazendo. Quer mais do que o apartamento? Diga um valor.

Durante cinco anos eu escutara versões diferentes da mesma coisa. Quando eu ajudava, era porque fazia parte da família. Quando eu sofria, era porque precisava preservar a família. Agora que eu queria proteger meus direitos, de repente tudo se resumia a ganância.

Peguei um comprovante bancário e coloquei diante dele.

— Sabe o que é isso?

Rafael olhou rapidamente.

— Não.

— A transferência feita depois que vendi a casa da minha mãe.

Ele empurrou o papel de volta.

— Eu lembro.

— R$ 2,3 milhões, Rafael.

Na época, aquele dinheiro cobriu obrigações urgentes do grupo e ajudou a manter uma operação que estava sufocada. Eu não recebi participação societária em troca. Não exigi juros. Nem sequer pedi um contrato adequado.

Fiz porque acreditava que estávamos construindo alguma coisa juntos.

— Isso foi decisão sua — ele respondeu.

A frase doeu mais do que eu esperava.

Não porque fosse inteiramente falsa.

Eu realmente tinha decidido entregar o dinheiro.

Mas ele sabia por quê.

Sabia quantas vezes prometera que “tudo que era dele também era meu”. Sabia quantas noites eu o segurara enquanto ele dizia que perder a empresa significaria decepcionar o avô e o pai.

— Tem razão — falei. — Foi decisão minha. E eu nunca mais vou usar essa decisão como desculpa para continuar tomando decisões ruins.

Rafael me observou.

— O que aquele advogado contou para você?

Não respondi.

Então ele mudou de estratégia.

A voz ficou mais baixa.

— Mariana, eu sei que fiz tudo da pior maneira possível. Mas Bianca está grávida. Não posso simplesmente abandoná-la.

— Eu não estou pedindo isso.

— Então facilite.

— Facilitar significa eu assinar o que você escolheu, aceitar o que você oferece e desaparecer antes que sua nova família fique desconfortável?

Rafael não respondeu.

Era resposta suficiente.

No dia seguinte, solicitei ao banco meus extratos antigos e entreguei ao advogado todos os comprovantes relacionados ao dinheiro usado durante a crise da empresa. Ele deixou claro que aquela contribuição não me dava automaticamente direito a ações.

Mas documentação era importante.

Não para transformar tudo em uma batalha judicial.

Para impedir que alguém reescrevesse minha história.

Dois dias depois, minha sogra apareceu sem avisar.

Ela entrou na sala segurando a bolsa contra o corpo e nem se sentou.

— Você pretende mesmo contestar Rafael por causa da empresa?

— Eu não estou contestando Rafael.

— Está contratando advogado e pedindo documentos.

— Porque estou me divorciando.

Ela apertou os lábios.

— Depois de tudo que nossa família fez por você…

Dessa vez, eu não consegui deixar passar.

— O que exatamente vocês fizeram por mim?

Ela pareceu ofendida.

— Nós recebemos você.

— Eu era esposa do seu filho, não uma pessoa acolhida por caridade.

— Mariana…

— Quando a empresa precisava de dinheiro, eu era família. Quando seu marido estava internado, eu era família. Quando Rafael precisava que alguém cuidasse da casa enquanto ele passava cada vez mais tempo com Bianca, eu precisava compreender porque era família.

Levantei.

— Mas quando ela me bateu, eu virei o problema.

Minha sogra desviou os olhos.

Foi um movimento pequeno.

Mas eu percebi.

— A senhora sabia dos dois?

Ela demorou demais para responder.

— Eu desconfiava.

— Desde quando?

— Não sei.

— Meses?

Silêncio.

A resposta veio sem palavras.

Senti o estômago apertar.

— E mesmo assim me pediu para preservar a imagem dele.

— Eu estava tentando evitar que tudo desmoronasse.

— Para quem?

Ela me encarou.

— Para todos nós.

Balancei a cabeça.

— Não. A senhora estava evitando que desmoronasse para Rafael.

Minha sogra finalmente se sentou.

Parecia mais velha naquele instante.

— Bianca está grávida. O que você espera que aconteça agora?

— Nada com ela ou com a criança. O filho não tem culpa de nada.

A expressão dela mudou, talvez porque esperasse crueldade e não encontrasse.

— Então aceite o divórcio.

— Eu vou aceitar o divórcio.

Ela arregalou os olhos.

— Vai?

— Sempre quis. Desde o momento em que Rafael me mandou pedir desculpas depois daquele tapa.

Respirei fundo.

— O que eu não vou aceitar é desaparecer deixando que ele decida sozinho quem fica com o quê.

Foi nesse momento que tirei uma cópia da última página do testamento.

Coloquei sobre a mesa.

Minha sogra leu.

Depois leu outra vez.

O sangue pareceu abandonar seu rosto.

— Onde conseguiu isso?

— Com o escritório do seu sogro.

— Rafael sabe?

— Ainda não por mim.

Ela segurou a folha com mais força.

— Isso não pode estar certo.

— O documento é um testamento público. O inventário vai determinar os efeitos dele. Se alguém quiser questionar, existe um procedimento para isso.

Ela continuou olhando para meu nome.

— Meu sogro jamais faria isso.

— Fez.

— A casa antiga…

— Está entre os bens destinados a mim dentro da parte disponível.

Ela levantou rapidamente.

— Rafael precisa saber.

— Vai saber pelos advogados.

— Você pretende tirar a casa dele?

A pergunta quase me fez rir.

— Engraçado. Quando Rafael acreditava que a casa seria dele, ninguém achava estranho ele dizer que eu não tinha direito a nada. Agora que existe um documento dizendo o contrário, eu estou “tirando” alguma coisa?

Minha sogra ficou sem resposta.

Depois que ela saiu, Rafael me ligou seis vezes.

Não atendi.

Na sétima, chegou uma mensagem.

“Você mostrou algum documento para minha mãe?”

Ignorei.

Minutos depois:

“O que meu avô deixou para você?”

Bloqueei a tela.

Naquela tarde, meu advogado me mostrou a escritura feita em Brasília seis meses antes.

Rafael havia declarado intenção de ceder a Bianca, depois da conclusão do inventário, parte das participações que acreditava receber do avô. A escritura não criava participação onde ela não existia e não anulava o testamento.

Mas dizia muito sobre os planos deles.

Bianca não estava simplesmente esperando Rafael se divorciar.

Os dois já tinham planejado como seria a vida depois de mim.

Inclusive financeiramente.

No fim do documento havia uma referência ao futuro casamento entre eles e à intenção de integrar determinados ativos ao planejamento patrimonial do casal.

Fechei a pasta.

A humilhação da festa ganhou outro significado.

Bianca não tinha me dado um tapa apenas porque estava com ciúmes.

Na cabeça dela, eu já era uma mulher ocupando um lugar que os dois haviam dividido entre si.

Esposa.

Casa.

Empresa.

Sobrenome.

Tudo parecia organizado.

Faltava apenas me convencer a assinar e sair.

Na sexta-feira, aceitei encontrar Rafael no escritório dos advogados.

Bianca apareceu com ele.

Não fiquei surpresa.

Ela entrou usando a mesma pulseira de jade.

Sentou-se ao lado de Rafael como se estivesse fazendo questão de marcar posição.

Meu advogado começou explicando que eu concordava com o divórcio, mas que a dissolução do casamento não significava renúncia automática a direitos patrimoniais.

Rafael interrompeu.

— Vamos parar com o juridiquês. O que ela quer?

Respondi antes do advogado.

— Primeiro, quero minha dignidade de volta.

Bianca revirou os olhos.

— Ai, por favor…

Virei para ela.

— Você me bateu na frente de dezenas de pessoas.

— Porque você me provocou.

— Perguntar por uma pulseira não autoriza agressão.

Ela cruzou os braços.

— Você não precisava fazer aquela cena.

— Eu?

Minha voz saiu tão calma que até Rafael olhou para mim de outro jeito.

— Você me deu um tapa. Rafael mandou eu pedir desculpas. A mãe dele me culpou. E agora a cena foi minha?

Bianca abriu a boca, mas não respondeu.

Então tirei uma cópia da escritura de Brasília.

Coloquei diante dela.

— Talvez você queira perguntar ao Rafael sobre isso.

Rafael tentou pegar a folha primeiro.

Bianca foi mais rápida.

Conforme lia, sua expressão mudou.

— Você disse que essas participações eram suas.

Rafael ficou tenso.

— Eu disse que seriam.

— Você disse que estava resolvido.

— Era o que todo mundo esperava.

Ela virou a página.

— E a casa?

Rafael não respondeu.

Bianca ergueu os olhos.

— Você disse que a casa antiga seria nossa depois do casamento.

O silêncio que veio depois foi pesado.

Pela primeira vez desde a festa, eu não era a mulher acuada da sala.

Também não senti prazer.

Apenas clareza.

Rafael havia mentido para mim durante meses.

E, aparentemente, também tinha vendido para Bianca uma vida construída sobre bens que nem sabia se receberia.

Meu advogado colocou a cópia do testamento sobre a mesa.

— A questão patrimonial será tratada pelas vias próprias. Mas existe uma informação que todos aqui precisam conhecer antes de continuar qualquer negociação.

Rafael leu meu nome.

Seu rosto perdeu a cor.

— Isso é impossível.

— Não é — respondi.

Ele olhou para mim com uma mistura de raiva e incredulidade.

— Você sabia disso no meu aniversário?

— Descobri naquela tarde.

— E ficou calada?

— Você também ficou calado muitas vezes, Rafael.

Bianca empurrou a escritura para ele.

— Então você me prometeu uma casa que talvez nem fosse sua?

— Bianca, não é assim.

— E ações que você nem tinha?

— Meu avô sempre deixou claro que…

— O que ele deixou claro está escrito aqui — interrompi.

Rafael bateu a mão na mesa.

— Você vai usar o testamento do meu avô para se vingar de mim?

Respirei fundo.

Aquela era exatamente a pergunta que eu precisava ouvir.

— Não.

Ele pareceu não esperar a resposta.

— Eu não quero sua cadeira, sua vida, sua amante nem seu futuro. Quero apenas que pare de chamar de seu aquilo que nunca teve certeza de possuir.

Fechei minha pasta.

— E existe mais uma coisa.

Rafael ficou olhando para mim.

— A partir de hoje, não negocio mais minha saída como se vocês estivessem me fazendo um favor. Quero o divórcio.

Ele franziu a testa.

— Então assine.

— Vou assinar quando o acordo tratar apenas do que realmente pertence ao casamento. Meu legado será tratado no inventário, sem renúncia. Os outros bens serão apurados corretamente.

Levantei.

— E a pulseira?

Bianca instintivamente tocou o pulso.

Eu a encarei.

— Não quero de volta.

Ela pareceu surpresa.

— Por quê?

— Porque depois daquela noite ela deixou de representar qualquer coisa que eu queira carregar comigo.

Saí da sala.

No corredor, respirei como não respirava havia anos.

Eu ainda não tinha ganhado processo algum.

Ainda não havia partilha concluída.

Ainda não sabia quanto tempo tudo aquilo levaria.

Mas havia tomado minha decisão.

Eu não negociaria minha dignidade para tornar confortável a nova vida de Rafael.

Antes que o elevador chegasse, ouvi passos rápidos.

Rafael surgiu atrás de mim.

— Mariana.

Virei.

Ele segurava a cópia do testamento.

— Se você levar isso até o fim, muda tudo dentro da empresa.

A porta do elevador se abriu.

— Eu sei.

Ele aproximou mais um passo.

— Meu pai, minha mãe, todo mundo vai ficar contra você.

Entrei no elevador.

Antes que as portas fechassem, respondi:

— Então, pela primeira vez, eles vão ter que decidir como agir sem ter certeza de que eu vou ceder.

Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *