A filha de Renata revelou a segunda casa do pai — e a amante vivia com a poupança de dez anos dela
Parte 3
A reunião dos sócios estava marcada para as dez da manhã de segunda-feira.
Marcelo saiu de casa antes das sete, vestido com o terno azul-marinho que costumava usar nos encontros mais importantes. Na cozinha, tomou café em pé e sequer perguntou por que Renata estava tão quieta.
Antes de sair, aproximou-se dela.
— Quando eu voltar, nós precisamos decidir como vai ficar nosso casamento.
Renata segurou a xícara com as duas mãos.
— Concordo.
Ele pareceu interpretar a resposta como uma abertura.
— Eu não quero guerra, Renata. Se você tiver bom senso, ninguém precisa sair machucado.
Ela quase perguntou se ele realmente acreditava que ninguém já estava machucado.
Mas não perguntou.
Às nove e vinte, Lívia ligou.
O pedido de divórcio havia sido distribuído, junto com documentos mostrando as transferências, as alterações societárias recentes, a tentativa de obter a anuência de Renata e os indícios de movimentação patrimonial para parentes e para Camila.
A advogada foi cuidadosa ao explicar.
— Não espere que tudo seja bloqueado de uma hora para outra. Pedimos preservação de bens específicos, proibição de novas transferências das participações discutidas sem comunicação ao processo e apresentação de documentos. O juiz vai analisar.
Renata olhou pela janela.
— E a reunião?
— Pode acontecer. O ponto é que eles agora correm o risco de fazer qualquer nova movimentação sabendo que existe uma disputa formal.
Pouco depois das onze, Marcelo ligou.
Renata deixou tocar uma vez antes de atender.
— Você entrou com divórcio?
A voz dele estava baixa, mas carregada de raiva.
— Entrei.
— Sem falar comigo?
Renata demorou um segundo para responder.
— Você comprou um apartamento para sua amante sem falar comigo. Transferiu participações da empresa sem falar comigo. Tirou dinheiro do patrimônio que construímos sem falar comigo. Acho que a fase das consultas mútuas terminou faz tempo.
Do outro lado, Marcelo soltou o ar com força.
— Você não entende o que está fazendo.
— Então me explica.
— Essas transferências foram planejamento empresarial.
— Inclusive a parte da Camila?
Silêncio.
— Ela trabalha na empresa.
— E dorme com você.
Marcelo mudou o tom.
— Não vou discutir isso pelo telefone.
— Ótimo.
Renata encerrou a chamada.
Duas horas depois, a sogra apareceu em sua casa sem avisar.
Renata estava sozinha; Sofia ainda ficaria na escola até o fim da tarde.
A mulher entrou com o rosto tenso.
— Você perdeu a cabeça?
— Não.
— Colocou advogado no meio da empresa do meu filho!
Renata permaneceu perto da porta.
— Coloquei advogado no meu divórcio.
— É a mesma coisa quando você começa a questionar patrimônio.
Renata sentiu uma clareza dolorosa.
Durante anos, ouvira aquela família falar sobre a empresa como se ela fosse um organismo sagrado, algo que justificava ausências, feriados perdidos, jantares cancelados e agora até traição.
— A senhora sabia que Marcelo estava transferindo participações?
A sogra desviou os olhos.
— Questões de empresa são complicadas.
— Sabia da casa em Alphaville?
A mulher ficou imóvel.
Isso foi resposta suficiente.
Renata continuou:
— A senhora pediu que eu aceitasse a amante. Agora veio pedir que eu aceite perder dinheiro também?
— Ninguém está roubando você.
— Então por que tanta preocupação com o meu advogado?
A sogra ergueu a voz.
— Porque você pode destruir tudo que ele construiu!
Renata não recuou.
— Ele não construiu sozinho.
A frase ficou entre as duas.
Renata lembrou dos primeiros anos do casamento. Marcelo ainda tinha uma empresa pequena, três funcionários e mais dívidas do que contratos. Ela trabalhava, pagava uma parte maior das despesas de casa e buscava Sofia na creche quando ele precisava visitar clientes.
Não exigira reconhecimento.
Nunca imaginara que precisaria.
— Eu não estou pedindo a empresa inteira — disse Renata. — Estou pedindo que ninguém esconda ou esvazie aquilo que legalmente precisa ser considerado na partilha.
A sogra ficou vermelha.
— Você vai se arrepender.
— Talvez. Mas não vou me arrepender mais do que me arrependo de ter acreditado em todos vocês.
Quando a mulher foi embora, Renata percebeu que suas pernas tremiam.
Sentou-se no sofá e chorou.
Não pelo casamento apenas.
Chorou pela quantidade de anos em que interpretara silêncio como paz.
Pela quantidade de vezes em que cedeu para “não criar problema”.
E chorou porque começava a entender que a versão obediente dela era exatamente a versão que todos esperavam recuperar.
Naquela mesma tarde, Lívia conseguiu uma informação importante por meio dos documentos societários apresentados no processo.
A reunião tinha aprovado uma proposta de aumento de capital.
O pai de Marcelo, a irmã dele e Camila fariam novos aportes e aumentariam proporcionalmente suas participações.
Marcelo ficaria com uma fatia menor.
— Isso por si só não é ilegal — explicou Lívia. — Empresas fazem aumento de capital o tempo todo. O problema é saber se esses aportes são reais, de onde vem o dinheiro e se a operação está sendo usada para reduzir artificialmente o valor econômico da participação dele justamente enquanto vocês se separam.
Renata franziu a testa.
— Então eles podem dizer que colocaram dinheiro novo que, na verdade, saiu de recursos que já eram nossos?
— Essa é uma das hipóteses que teremos de verificar. Hipótese, Renata. Não conclusão.
A diferença importava.
Renata não queria vencer inventando o que não conseguia provar.
Queria que cada fato fosse sustentado.
Nos dias seguintes, a tensão dentro de casa se tornou insuportável.
Marcelo passou a dormir no quarto de hóspedes.
Falava pouco com Renata, mas começou a mandar mensagens longas.
Num momento, dizia que Camila tinha sido “um erro emocional”.
No seguinte, acusava Renata de estar destruindo a empresa por vingança.
Depois dizia que ainda a amava.
Renata percebeu que todas as mensagens tinham uma coisa em comum.
Nenhuma assumia responsabilidade pelo dinheiro.
Ela respondeu apenas uma vez:
“Não estou discutindo nossa relação por mensagem. Questões sobre patrimônio serão tratadas no processo.”
Marcelo apareceu na cozinha segundos depois.
— Você virou outra pessoa.
Renata guardava compras no armário.
— Não. Só parei de facilitar.
— Lívia está colocando coisas na sua cabeça.
Ela se virou.
— Foi a Lívia que comprou o apartamento para Camila?
Ele ficou calado.
— Foi a Lívia que transferiu participações para sua família?
Marcelo endureceu o rosto.
— Você não conhece a situação da empresa.
— Então apresente os documentos.
— Você acha que negócio funciona assim?
— Acho que casamento também não funcionava do jeito que você decidiu.
Marcelo passou a mão pelos cabelos.
— Eu precisava proteger a empresa.
— De quem?
Ele demorou.
— De riscos.
— Eu sou o risco?
A pergunta saiu mais baixa do que Renata pretendia.
Marcelo não respondeu diretamente.
— Quando um casamento entra em crise, uma empresa familiar pode ser afetada. Meu pai e minha irmã ficaram preocupados.
Renata sentiu o estômago se contrair.
— Quando eles começaram a ficar preocupados?
Marcelo desviou o olhar.
Foi pequeno.
Quase imperceptível.
Mas ela conhecia aquele gesto.
Era o mesmo que ele fizera diante dos documentos do apartamento.
— Antes de eu descobrir Camila? — perguntou.
Marcelo apertou os lábios.
— Não importa.
Importava.
Muito.
Renata procurou Lívia no dia seguinte.
— Quero saber quando começou a primeira transferência societária.
A data constava nos registros.
Nove meses antes.
Muito antes de Sofia revelar a segunda casa.
E mais de seis meses depois de a sogra admitir que já sabia da relação com Camila.
Lívia colocou as datas lado a lado.
— Isso não prova que foi tudo planejado para um divórcio. Mas demonstra que a movimentação começou enquanto Marcelo mantinha a relação extraconjugal e sua família já sabia dela.
Renata ficou encarando os papéis.
Então percebeu outra coisa.
A primeira alteração societária tinha ocorrido poucas semanas depois de uma viagem de Marcelo com o pai.
Na época, ele dissera que os dois estavam renegociando contratos.
Agora ela não tinha certeza de mais nada.
O processo avançou.
O juiz não impediu a empresa de operar, mas determinou que Marcelo não realizasse novas transferências ou onerações das participações societárias discutidas sem informar ao processo e ordenou a apresentação de documentos sobre alterações recentes, além de preservação de certos ativos identificados até análise mais completa.
Também foram solicitadas informações que permitiriam rastrear melhor algumas movimentações.
Quando Marcelo recebeu a decisão, chegou em casa furioso.
— Você conseguiu o que queria.
Renata estava ajudando Sofia com uma atividade escolar.
— Agora não.
— Precisamos conversar.
— Depois que ela terminar.
Marcelo olhou para a filha.
Talvez pela primeira vez tenha percebido que aquela menina de oito anos estava no centro de tudo, ainda que ninguém devesse colocá-la no meio.
Ele saiu da sala.
Mais tarde, Renata o encontrou esperando no escritório.
Sobre a mesa havia uma cópia da decisão.
— A empresa está sendo tratada como se eu fosse criminoso — disse ele.
— Ninguém chamou você de criminoso.
— Estão questionando cada decisão que tomei.
— Porque você tomou decisões patrimoniais importantes enquanto escondia uma relação e tentava me fazer assinar uma anuência sem explicar direito.
Marcelo bateu a mão na mesa.
— Eu estava tentando evitar que você levasse metade do que meu pai construiu!
Renata congelou.
Não pelo tom.
Pelas palavras.
— O que seu pai construiu?
Marcelo percebeu o erro.
Tarde demais.
Renata aproximou-se da mesa.
— A empresa foi criada depois que nós casamos.
— O dinheiro inicial veio da minha família.
— E tudo o que veio depois?
Ele não respondeu.
— Os anos em que eu paguei a maior parte das contas porque você reinvestia tudo? O dinheiro que eu coloquei quando faltou caixa? Os R$ 1,38 milhão? Isso também foi seu pai que construiu?
— Eu vou devolver esse dinheiro.
— Quando?
— Quando as coisas se estabilizarem.
Renata balançou a cabeça.
— Você não entende. Não é só o dinheiro.
Marcelo baixou a voz.
— Então o que você quer?
Ela demorou.
Durante dias, todos tinham feito aquela pergunta como se houvesse uma resposta secreta.
Vingança.
Empresa.
Casa.
Dinheiro.
Mas Renata finalmente sabia.
— Quero que você pare de decidir sozinho o que eu tenho direito de saber, de possuir e de escolher.
Marcelo ficou olhando para ela.
Renata continuou:
— E quero uma casa separada para mim e para Sofia enquanto o processo continua. Não vou mais morar aqui com você.
— Você vai levar minha filha?
— Sofia não é propriedade sua nem minha. Vamos organizar a convivência de forma responsável.
Ele riu sem humor.
— Foi a Lívia que te ensinou a falar assim?
Renata abriu a porta do escritório.
— Não. Foi você.
Nos dias seguintes, ela alugou um apartamento menor, perto da escola de Sofia.
Não levou móveis caros.
Não esvaziou a casa.
Levou roupas, objetos pessoais, livros da filha e o necessário para começarem.
Marcelo tentou transformar a mudança em chantagem emocional.
— Quando a Sofia perguntar por que os pais não moram mais juntos, o que você vai dizer?
Renata respondeu:
— Que adultos às vezes precisam morar separados para cuidar melhor da família. Não vou contar detalhes que uma criança não precisa carregar.
A resposta o desarmou.
Na última noite antes da mudança, Sofia entrou no quarto da mãe segurando um coelho de pelúcia.
— Mãe, foi por causa daquela casa?
Renata sentiu o coração apertar.
Ajoelhou-se diante dela.
— Nada disso é culpa sua.
— Eu não devia ter contado?
— Devia me contar qualquer coisa que deixar você confusa ou preocupada. Sempre.
Sofia a abraçou.
Renata fechou os olhos e decidiu naquele instante que nenhuma briga de adulto transformaria a filha em mensageira, testemunha emocional ou arma.
Na manhã da mudança, Lívia telefonou.
Sua voz estava diferente.
— Renata, chegaram documentos sobre algumas movimentações que pedimos para esclarecer.
Renata parou no corredor.
— E?
— A casa de Alphaville ficou ainda mais importante.
— Por quê?
— Porque parte do dinheiro usado na compra veio de uma operação registrada como distribuição e posterior transferência para seu sogro. Só que os valores começaram a circular logo depois de resgates feitos em investimentos formados durante o casamento.
Renata encostou-se à parede.
— Dá para provar?
— Dá para provar o caminho de uma parte relevante. O restante ainda precisa ser esclarecido.
Renata respirou fundo.
Lívia continuou:
— Mas apareceu outra coisa. O pai de Marcelo declarou que os valores foram um empréstimo feito pelo filho.
— Empréstimo?
— Sim.
— Então existe contrato?
Houve uma pausa.
— É isso que eu quero descobrir.
Renata entendeu o peso da resposta.
Se Marcelo sustentava que quase R$ 6 milhões tinham sido emprestados ao pai, aquele crédito também podia integrar a discussão patrimonial.
Se não havia empréstimo real, surgia outra pergunta: por que dinheiro do casal terminara num imóvel colocado em nome do sogro?
Renata olhou as caixas empilhadas ao redor.
Até então, Marcelo tentara convencê-la de que ela estava atacando a família.
Agora, pela primeira vez, parecia que seria ele quem precisaria explicar por que a família inteira tinha recebido partes de um patrimônio que, até pouco tempo antes, ele dizia estar apenas “protegendo”.
Renata apertou o celular.
— Lívia, peça o contrato.
A advogada respondeu:
— Já pedi.
Renata olhou para a porta aberta do apartamento onde vivera tantos anos.
E soube que a próxima conversa com Marcelo não seria sobre perdão.
Seria sobre aquilo que ele havia feito com tudo que os dois construíram.
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