Meu marido faltou ao funeral da minha mãe e pediu o divórcio porque a amante estava grávida
Parte 3
— Você sabia? — repeti.
Caio continuou olhando para algum ponto da mesa, como se a resposta pudesse aparecer na madeira. Minha sogra se apressou em falar por ele.
— Isso foi preparado pelos advogados. Caio não lê cada linha de um documento.
Eu me virei para ela.
— Engraçado. Quando é para decidir com quem ele dorme, Caio é um homem adulto. Quando é para tentar tirar oito por cento de uma empresa do meu nome, vira uma criança que não sabe o que assina?
Caio ergueu a cabeça.
— Chega.
— Não. Chega foi o que eu deveria ter dito anos atrás.
Ele respirou fundo e finalmente admitiu:
— Eu sabia que as ações seriam devolvidas para a família.
A palavra “devolvidas” me feriu.
— Devolvidas? Elas não pertencem à família. Pertencem a mim.
— Meu avô colocou essas ações no seu nome porque gostava de você.
— E?
— E ele acreditava que nosso casamento duraria.
Senti uma espécie de frio atravessar meu peito.
— Então, na sua cabeça, o amor do seu avô por mim tinha prazo de validade igual ao seu?
Caio ficou calado.
Não precisei de mais nada.
Durante sete anos, ouvi que eu fazia parte da família. Sentei à mesa em aniversários, acompanhei internações, organizei jantares, viajei com eles, ajudei Caio nos períodos em que ele trabalhava até de madrugada e suportei minha sogra tratando cada escolha minha como se fosse inadequada.
Bastou eu deixar de ser útil como esposa para tudo se transformar em “patrimônio da família”.
Olhei para Renata.
— Você sabia disso também?
Ela ficou visivelmente desconfortável.
— Eu sabia que vocês estavam se separando.
— Nós não estávamos.
Ela franziu a testa.
Caio tentou interromper.
— Marina…
— Deixa ela responder.
Renata olhou para ele e depois para mim.
— Caio me disse que o casamento de vocês já tinha acabado há meses. Disse que vocês só não tinham formalizado.
Algo dentro de mim se partiu, mas não da mesma maneira que no funeral.
Desta vez, não senti vontade de desabar.
Senti clareza.
— Ontem minha mãe foi enterrada e eu ainda acreditava que era casada — falei. — Então não, Renata. Nosso casamento não tinha acabado há meses. Ele apenas estava levando duas vidas e dando uma versão diferente para cada mulher.
Renata empalideceu.
Minha sogra apertou o braço dela novamente.
— Não dê atenção. Ela está tentando criar conflito porque não aceita o divórcio.
Aquilo me fez virar devagar.
— Eu aceito o divórcio.
Caio me encarou.
Minha própria voz me surpreendeu.
— O que eu não aceito é ser traída, humilhada e ainda pagar para sair.
O silêncio que veio depois foi diferente.
Até então, todos pareciam acreditar que eu lutaria para manter Caio.
Minha sogra tinha me tratado como uma mulher desesperada para continuar casada. Caio provavelmente esperava lágrimas, súplicas e promessas de que eu aceitaria qualquer condição se ele desistisse da amante.
Mas eu já não queria salvá-lo de uma decisão que ele tinha tomado repetidas vezes.
Queria salvar a mim mesma das consequências dela.
Voltei-me para o advogado.
— Quero uma cópia integral da proposta. Meu advogado vai responder.
— Seu advogado? — Caio perguntou.
— Sim.
— Desde quando você tem um advogado?
— Desde que descobri que o seu estava preparando documentos para eu transferir meu patrimônio gratuitamente.
Augusto permaneceu quase todo o tempo calado.
Quando saímos da sala, ele me acompanhou até o elevador.
— Marina, minha equipe pode indicar alguns profissionais, se você quiser.
— Agradeço. Mas quero escolher alguém que não trabalhe para o senhor e que não tenha qualquer relação com os Almeida.
Um leve sorriso apareceu no rosto dele.
— Sua mãe faria exatamente essa exigência.
A frase me pegou desprevenida.
Dentro do elevador, perguntei:
— Como o senhor conheceu minha mãe?
Augusto demorou um pouco para responder.
— Eu tinha vinte e quatro anos. Houve um acidente numa estrada durante uma tempestade. Seu pai já tinha morrido, e sua mãe trabalhava perto dali. Ela foi uma das pessoas que me ajudaram antes da chegada do socorro. Se tivesse ido embora com medo, como muita gente fez, talvez eu não estivesse aqui.
Eu nunca tinha ouvido aquela história.
— Por que ela nunca me contou?
— Porque Marta não gostava de transformar ajuda em dívida.
As portas do elevador se abriram.
Antes de sairmos, ele acrescentou:
— Durante trinta anos, sua mãe nunca me pediu dinheiro, emprego ou favor. Alguns meses atrás, ela apenas disse uma coisa: “Se minha filha ligar um dia, escute.”
Meus olhos arderam.
Não perguntei como minha mãe sabia que eu poderia precisar.
Talvez mães percebam as rachaduras que as filhas insistem em chamar de cansaço.
Naquela tarde, procurei uma advogada especializada em direito de família e questões societárias. Escolhi uma profissional sem ligação com nenhum dos dois grupos empresariais.
Levei a ela o acordo, o anexo e os documentos que eu tinha sobre as ações.
Ela foi direta.
— Não assine nada enquanto não entendermos exatamente o que está sendo negociado. O divórcio é uma coisa. A titularidade das suas ações é outra. Eles misturaram as duas para pressionar você.
Foi a primeira vez, desde o funeral, que senti os pés firmes no chão.
Não porque alguém prometeu que eu venceria.
Mas porque finalmente comecei a fazer perguntas antes de obedecer.
Voltei ao apartamento que eu dividia com Caio apenas para pegar roupas e documentos pessoais.
Quando entrei, percebi que algumas coisas dele já não estavam lá.
Camisas.
Relógios.
A mala que ele usava em viagens curtas.
Meu casamento tinha começado a desaparecer daquele lugar antes mesmo de eu saber que havia terminado.
Na escrivaninha do quarto, encontrei uma pasta antiga com documentos que eu guardava desde a época em que o avô de Caio ainda estava vivo.
Lá estava uma cópia do registro da transferência das ações para meu nome.
Sem condição de devolução.
Sem prazo.
Sem qualquer frase dizendo que eu deixaria de ser titular caso o casamento acabasse.
Também encontrei correspondências de assembleias dos últimos anos endereçadas a mim.
Em várias delas, eu havia dado procuração para Caio me representar.
Eu confiava nele.
A ironia quase me fez rir.
Fotografei tudo e levei comigo.
Na saída, Caio apareceu.
Não sei se alguém o avisou ou se ele ainda tinha acesso ao sistema do prédio.
Ele entrou e fechou a porta.
— Precisamos conversar sem o Augusto no meio.
— Augusto não está no meio. Você colocou a Renata no meio.
Ele apertou os lábios.
— Não quero discutir sobre isso.
— Então veio falar sobre o quê?
— Sobre as ações.
Claro.
Não sobre minha mãe.
Não sobre a traição.
Não sobre sete anos de casamento.
Sobre as ações.
Caio caminhou até a sala.
— Meu pai está furioso.
— Imagino.
— Você não entende o impacto que isso pode causar.
— Explica.
— Oito por cento parece pouco, mas você continua sendo acionista. Isso significa direito a receber informações, participar de certas decisões e acompanhar assembleias. Meu pai não aceita que uma ex-esposa permaneça ligada à empresa.
Cruzei os braços.
— Então façam uma proposta justa para comprar minha participação.
— Você sabe que não é tão simples.
— Ontem parecia simples. Bastava eu assinar de graça.
Ele passou a mão no rosto.
— Foi um erro.
— Foi uma escolha.
— Marina, eu não queria te machucar.
A frase quase me ofendeu.
— Você faltou ao funeral da minha mãe.
Ele baixou a voz.
— Renata passou mal. Eu estava com ela.
Fechei os olhos por um instante.
Ali estava o “algo mais importante”.
Enquanto eu enterrava minha mãe, Caio estava cuidando da mulher com quem me traía.
Quando abri os olhos, minha decisão já estava tomada.
— Então fique com ela.
Ele me encarou.
— O quê?
— Você escolheu. Eu finalmente entendi isso.
— Não transforma tudo em uma frase.
— Foram meses de escolhas, Caio. Talvez anos. A frase só serve para eu parar de fingir que ainda existe alguma coisa para salvar.
Ele se aproximou.
— Você vai pedir quanto pelas ações?
— Não vou inventar um número.
— Marina…
— Uma avaliação independente vai dizer quanto valem. Depois eu decido se quero vender.
O rosto dele endureceu.
— Meu pai não vai aceitar.
Peguei minha bolsa.
— Seu pai não precisa aceitar que as ações são minhas. Os registros já dizem isso.
Passei por Caio e abri a porta.
Antes que eu saísse, ele falou:
— Se você insistir nisso, minha família vai reagir.
Parei.
— Foi exatamente essa ameaça que sua mãe fez ontem.
— Não estou ameaçando.
— Então pare de falar como ela.
Fui para o apartamento da minha mãe.
Passei a noite entre caixas, roupas e fotografias.
Chorei quando encontrei uma xícara com a marca de batom dela.
Chorei quando abri a geladeira e vi o pote de geleia que ela sempre comprava para mim.
Mas não liguei para Caio.
Na manhã seguinte, minha advogada me telefonou.
— Marina, recebemos uma comunicação formal do Grupo Almeida.
Sentei na beirada da cama.
— O que eles querem?
— Convocar uma assembleia extraordinária. Há uma proposta de reorganização do capital.
Meu coração acelerou.
— Isso pode mexer nas minhas ações?
— Pode afetar sua posição, dependendo de como for estruturada. Mas eles precisam respeitar seus direitos e os prazos aplicáveis. Não faça nada antes de analisarmos.
Olhei para a fotografia da minha mãe sobre a cômoda.
A família Almeida tinha entendido que eu não assinaria.
Agora tentaria outro caminho.
Minha advogada respirou fundo do outro lado da linha.
— Tem mais uma coisa. O documento está marcado como urgente e Caio aparece como um dos proponentes da operação.
Fechei os olhos.
Até aquele momento, uma parte pequena e idiota de mim ainda queria acreditar que ele só tinha sido covarde.
Naquele instante, entendi que Caio não estava apenas escolhendo outra mulher.
Ele estava escolhendo, conscientemente, me tirar do caminho.
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