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Depois do funeral do meu pai, vendi tudo para pagar as dívidas — e Rafael jogou dinheiro no balcão para me humilhar

Parte 3

Eu poderia simplesmente ter ignorado Rafael.

Uma parte de mim queria fazer exatamente isso.

Mas havia outra parte, aquela que tinha passado semanas engolindo insultos, interpretações injustas e olhares de desprezo, que sabia que fugir daquela conversa significaria carregar tudo aquilo comigo por muito mais tempo.

Por isso, no dia seguinte, voltei à loja de Marina.

Não levei bolsas.

Não levei joias.

Não fui vender nada.

Quando atravessei a porta, Rafael já estava esperando.

Ele estava sozinho.

Marina percebeu a tensão e se afastou para o fundo da loja sem interferir.

Rafael me analisou em silêncio. Eu havia mudado pouco por fora desde nosso último encontro, mas alguma coisa dentro de mim já não era a mesma.

— Obrigado por vir — disse ele.

— Você pediu para falar.

— Eu queria esclarecer algumas coisas.

Puxei uma cadeira.

— Então esclareça.

Ele pareceu incomodado com minha objetividade.

— Estão dizendo que eu te abandonei quando sua família perdeu tudo.

— E isso te incomoda?

— Claro que incomoda.

— Mais do que o que aconteceu comigo?

A pergunta fez seus olhos se estreitarem.

Rafael passou a mão pelo cabelo.

— Não começa.

— Eu não comecei nada. Você me chamou.

Ele respirou fundo.

— Nossa relação já estava ruim antes da morte do seu pai.

Aquilo era verdade.

Eu não precisava distorcer o passado para admitir que havia problemas entre nós.

— Estava — concordei. — E eu nunca disse o contrário.

— Então você entende que o término não aconteceu por causa das dívidas.

— Eu entendo que nosso relacionamento terminou.

Inclinei levemente o corpo para a frente.

— O que eu não entendo é por que o fim de uma relação te deu o direito de me tratar como lixo.

Rafael não respondeu.

Continuei:

— Eu estava vendendo minhas coisas. Você entrou naquela loja, decidiu que eu estava perseguindo você, jogou dinheiro no balcão e me mandou desaparecer.

— Eu estava nervoso.

— Eu também estava.

Minha voz não se alterou.

— Eu tinha acabado de enterrar meu pai.

Ele desviou o olhar.

— Caio disse que você…

— Caio não estava vivendo a minha vida.

A interrupção fez Rafael fechar a boca.

— E Bianca também disse que…

— Bianca também não estava vivendo a minha vida.

Apoiei as mãos sobre o colo.

— Você podia ter perguntado. Em vez disso, preferiu acreditar na versão em que eu era uma mulher desesperada correndo atrás de você.

Rafael apertou a mandíbula.

— Eu achei que você não tinha aceitado o fim.

— Eu estava ocupada demais calculando dívidas para perseguir alguém.

O silêncio entre nós ficou pesado.

Por um momento, vi desconforto no rosto dele.

Não arrependimento completo.

Talvez nem culpa suficiente.

Mas, ao menos, desconforto.

Era mais do que eu tinha visto até então.

— E o dinheiro? — perguntou. — Você aceitou o cheque.

— Aceitei.

Não tentei esconder.

— Eu precisava.

Ele pareceu acreditar que tinha encontrado um argumento.

— Então…

— Então nada.

Minha voz ficou mais firme.

— Precisar de dinheiro não significa que eu tenha vendido o direito de ser tratada com dignidade.

A expressão dele mudou.

— Eu nunca disse isso.

— Não precisou dizer.

Levantei-me.

— Foi assim que você agiu.

Rafael também se levantou.

— Lívia, espera.

Parei.

— Eu não vim aqui para brigar.

— Nem eu.

— Então por que parece que você está tentando me culpar por tudo?

Por um instante, quase ri.

— Eu não estou culpando você por tudo. As dívidas do meu pai não são culpa sua. A falência da imagem que as pessoas tinham da minha família não é culpa sua. A fuga dos meus amigos não é culpa sua.

Olhei diretamente para ele.

— Mas a maneira como você me tratou é.

Dessa vez, Rafael não respondeu.

Peguei minha bolsa.

— Era só isso?

— Você mudou.

A frase me fez parar perto da porta.

Virei o rosto.

— Eu precisei mudar.

Saí antes que a conversa se transformasse novamente numa disputa.

Naquela tarde, voltei ao escritório improvisado no apartamento pequeno para onde tinha me mudado depois de colocar a mansão à venda.

Havia três pilhas de documentos sobre a mesa: bens já negociados, propostas pendentes e obrigações do espólio.

Durante semanas, eu tinha olhado para aquelas folhas como quem encara uma sentença.

Agora comecei a tratá-las como trabalho.

Eu já conhecia um pouco de investimentos, arte, vinhos e mercado de luxo por causa da vida que levava com meu pai. O que antes era apenas repertório social passou a ser uma competência útil.

Voltei a conversar com o responsável pelo leilão.

Não pedi ajuda financeira.

Pedi trabalho.

Expliquei que sabia avaliar procedência, conservação e histórico de determinados itens de colecionador, especialmente vinhos e artigos de luxo.

Ele me ouviu com atenção.

— Você nunca trabalhou com isso formalmente, certo?

— Não.

— Então começa acompanhando os lotes. Sem promessa de nada.

— É tudo que eu estou pedindo.

Nos dias seguintes, passei horas catalogando peças, conferindo documentação de procedência e acompanhando avaliações.

Eu errava.

Perguntava.

Corrigia.

Aprendia.

Não era glamour.

Também não havia salário extraordinário.

Mas era a primeira vez, desde a morte do meu pai, que dinheiro entrava na minha conta por algo que eu mesma tinha feito.

A sensação foi estranha.

E boa.

O rapaz do boné apareceu algumas vezes no clube.

Descobri que ele realmente vinha de uma família rica e continuava reclamando da empresa, do irmão e das decisões que tentavam tomar por ele.

Nunca perguntei seu sobrenome.

Ele também não perguntou sobre minhas dívidas.

Talvez por isso nossas conversas funcionassem.

Certa noite, enquanto eu conferia um lote de vinhos, ele parou perto da mesa.

— Você trabalha aqui agora?

— Trabalho.

— Achei que você fosse uma colecionadora misteriosa.

— Decepcionado?

— Um pouco.

Eu ri.

Foi um riso pequeno, mas verdadeiro.

Ele apontou para as garrafas.

— Você entende mesmo disso?

— O suficiente para saber que você segura taça de vinho como se fosse copo de refrigerante.

Ele olhou para a própria mão.

— Isso foi ofensivo.

— Foi técnico.

Ele saiu rindo.

A conversa não mudou minha vida.

Não apagou minhas dívidas.

Não resolveu meus problemas.

Mas me lembrou que eu ainda conseguia conversar com alguém sem sentir que estava sendo avaliada pelo saldo da minha conta.

Enquanto isso, o processo do espólio avançava.

A venda da mansão recebeu uma proposta séria.

Eu sentei com os profissionais responsáveis, revisei os números e recusei a primeira oferta porque estava abaixo do valor que eu considerava aceitável.

Duas semanas depois, surgiu outra.

Menor do que a casa teria valido em tempos melhores, mas suficiente para cobrir uma parte importante das obrigações sem entregar o imóvel a qualquer preço.

Autorizei a negociação.

Quando assinei os documentos, minhas mãos não tremeram.

Doía.

Aquela casa tinha sido cenário de aniversários, discussões, jantares e manhãs silenciosas com meu pai.

Mas eu já tinha entendido que guardar paredes não significava guardar uma pessoa.

Na mesma semana, Marina me mandou uma mensagem.

Bianca queria colocar à venda uma das bolsas que Rafael havia comprado de mim.

Li duas vezes.

Não senti satisfação.

Nem raiva.

Apenas uma espécie de cansaço.

Marina perguntou se eu queria que ela recusasse.

Respondi:

“Não. A bolsa é dela agora. Faça seu trabalho.”

Minutos depois, meu celular tocou.

Rafael.

Quase não atendi.

— O que foi?

— Bianca disse que você autorizou a loja a vender a bolsa.

— Eu não autorizei nada. Ela é a dona.

— Você não está incomodada?

Olhei para as planilhas abertas diante de mim.

— Rafael, hoje eu passei quatro horas discutindo a venda da casa onde cresci.

Fiz uma pausa.

— Você realmente acha que eu tenho energia para discutir uma bolsa?

Ele ficou quieto.

— Lívia…

— Preciso trabalhar.

Desliguei.

Naquela noite, caminhei sozinha até em casa.

Não me senti forte o tempo todo.

Ainda havia dias em que eu chorava no banho.

Ainda evitava algumas ruas.

Ainda sentia falta do meu pai em momentos absurdamente pequenos, como quando via uma garrafa de vinho que ele teria gostado ou ouvia uma música antiga dentro de um táxi.

Mas eu já não estava parada no mesmo lugar.

A cada venda, a cada pagamento, a cada hora trabalhada, eu sentia que uma parte da minha vida voltava para as minhas mãos.

Meses depois, recebi o relatório atualizado do espólio.

A maior parte dos bens já tinha sido liquidada.

As dívidas verificadas haviam diminuído significativamente.

Ainda restava um caminho.

Mas agora existia um caminho.

Fechei a pasta e encostei na cadeira.

Foi então que Marina me ligou novamente.

— Lívia, o Rafael está aqui.

— Outra vez?

— Sim.

Ouvi uma movimentação ao fundo.

— E desta vez ele não veio sozinho.

Meu peito se apertou.

— Quem está com ele?

Marina demorou um segundo antes de responder.

— Bianca. E os dois estão discutindo por causa de você.

Obrigado por ler até aqui 🙏 A próxima parte já está na seção de comentários da página. Clique em “Ver todos os comentários” para ler a Parte 4 👇📖

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