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Meu filho pediu que eu cuidasse do meu neto por duas semanas; na véspera da minha viagem, avisou que contava comigo por mais seis meses.

Parte 4

Daniel não discutiu naquele dia.

Dobrou o papel com as datas, colocou no bolso e foi embora com Miguel.

Durante quase duas semanas, achei que finalmente tínhamos atravessado a pior parte. Paula visitou a escola, Miguel gostou da professora e Daniel reorganizou os horários de trabalho. Eles decidiram adiar a compra da adega e parte dos acabamentos da cozinha para usar o dinheiro na mensalidade.

Não ficaram felizes com todos os ajustes.

Mas fizeram.

E essa diferença importava.

Três dias antes da minha viagem, recebi uma ligação de Paula perto das sete da noite.

— Tereza, tivemos um problema.

Meu corpo reagiu antes da cabeça.

A velha disposição para resolver tudo apareceu imediatamente.

— O que aconteceu?

— A professora responsável pela turma do Miguel precisou se afastar por alguns dias. A escola vai começar a adaptação dele uma semana depois.

Fechei os olhos.

— Entendi.

Houve uma pausa.

— O Daniel quer falar com você.

Não precisei perguntar sobre o quê.

Meu filho apareceu no meu apartamento quarenta minutos depois.

Veio sozinho.

Minha mala estava novamente aberta sobre a cama, quase na mesma posição de dois meses antes.

Quando ele a viu, ficou parado na porta.

— Você já arrumou tudo.

— Quase.

— Mãe, eu sei que vai parecer péssimo.

— Então pensa bem antes de falar.

Ele passou a mão pelo rosto.

— A adaptação atrasou uma semana.

— Paula me contou.

— Eu tentei trocar meus horários, mas não dá para todos os dias. Ela também não consegue.

Esperei.

Daniel entrou no quarto.

— Você poderia adiar só uma semana?

Olhei para ele.

Não senti a mesma raiva da primeira vez.

Talvez porque, daquela vez, ele estivesse perguntando.

Mas uma pergunta também pode carregar expectativa.

— Não.

A resposta saiu tranquila.

Ele baixou a cabeça.

— Mãe…

— Eu não vou adiar.

— É só uma semana.

— Da outra vez eram duas semanas.

Daniel apertou a mandíbula.

— Isso é diferente.

— É diferente porque agora vocês se organizaram e aconteceu um imprevisto. Eu entendo. Mas a solução não pode ser automaticamente eu desistir.

— Eu não disse automaticamente.

— Você veio aqui três dias antes da minha viagem pedir exatamente isso.

Ele começou a andar pelo quarto.

— Então o que você quer que eu faça? Leve o Miguel para o trabalho?

— Não sei.

— É seu neto.

— Eu sei quem ele é.

— Parece que não.

A frase saiu num impulso.

Daniel percebeu no mesmo instante.

Fiquei muito quieta.

— Repete.

— Mãe, eu não quis…

— Repete o que acabou de dizer.

Ele passou as mãos pelo cabelo.

— Eu estou nervoso.

— E quando está nervoso, você acha aceitável colocar meu amor pelo Miguel em julgamento?

— Não.

— Então não faça isso.

Daniel sentou na cadeira ao lado da cama.

Pela primeira vez naquela conversa, ele pareceu menos irritado do que assustado.

— Eu não sei como resolver.

Aquela frase mudou alguma coisa.

Meses antes, eu teria ouvido aquilo como um pedido de socorro.

Dessa vez, ouvi como uma realidade.

Meu filho não sabia resolver.

E não saber ainda não era a mesma coisa que não ser capaz.

Sentei na cama.

— O que vocês já tentaram?

— Paula consegue ficar com ele segunda e quinta de manhã. Eu consigo terça o dia inteiro se trocar um plantão com o Marcos. Quarta e sexta são o problema.

— A escola tem alguma indicação de cuidadora?

— Tem uma lista.

— Ligaram?

— Para duas.

— E?

— Uma pode ficar quarta. A outra cobra caro.

— Quanto?

Ele disse o valor.

Não era pequeno, mas também não era impossível.

— Então vocês têm um problema na sexta-feira.

Daniel me olhou.

— E eu tenho que dar um jeito.

— Sim.

Ele soltou o ar devagar.

— Você consegue falar isso com uma calma irritante.

— É novidade para mim também.

Ele riu sem vontade.

Ficamos alguns segundos em silêncio.

— Eu posso usar uma folga que estava guardando — disse. — Só não queria gastar agora.

— Para que estava guardando?

— Para quando terminassem a cozinha. A gente queria fazer uma viagem curta.

Ergui as sobrancelhas.

Daniel percebeu sozinho.

— Tá. Eu ouvi.

— Não vou dizer nada.

— Nem precisa.

Pela primeira vez, não havia um vilão naquela conversa.

Havia prioridades.

E, durante muito tempo, a minha vida tinha ficado abaixo de todas as outras.

Dois dias depois, Daniel me mandou uma mensagem dizendo que estava resolvido.

Paula ficaria dois períodos.

Ele mudaria um plantão.

Pagariam uma cuidadora por um dia.

Na sexta, Daniel usaria a folga.

Não foi barato.

Não foi conveniente.

Ninguém apareceu para salvá-los.

Eles simplesmente organizaram a própria família.

Na véspera da minha viagem, Miguel dormiu no meu apartamento.

Foi uma escolha minha.

Fizemos panqueca no jantar e ele colocou chocolate demais em uma delas. Depois espalhamos lápis na mesa porque pedi que desenhasse alguma coisa para eu levar.

— Desenha Tiradentes — falei.

— Eu não sei como é.

— Eu também não.

Ele pensou.

— Então vou desenhar como eu acho.

No papel, fez três montanhas enormes, uma casa amarela e um sol maior do que a casa.

— Tem dinossauro lá?

— Acho que não.

Ele desenhou um mesmo assim.

Colei o desenho dentro do meu caderno.

Daniel apareceu às oito para buscá-lo.

Ficou na porta observando a mala pronta.

— Dessa vez você vai mesmo.

— Dessa vez eu vou.

Miguel me abraçou.

— Não esquece a quarta da panqueca quando voltar.

— Não esqueço.

Depois que Paula levou o menino até o elevador, Daniel ficou alguns segundos na sala.

— Posso falar uma coisa?

— Pode.

Ele enfiou as mãos nos bolsos.

— Eu fui injusto com você.

Não respondi imediatamente.

— Não só quando pedi para cancelar — continuou. — Antes disso. Eu comecei a achar que aposentadoria significava disponibilidade. E fiquei confortável porque você nunca reclamava.

— Eu devia ter falado antes.

— Devia.

Sorri.

Ele também.

— Mas eu devia ter perguntado.

— Devia.

Daniel respirou fundo.

— E usar o Miguel para fazer você se sentir culpada foi baixo.

Foi a primeira vez que ele falou daquela noite.

— Foi.

— Desculpa.

Não corri para abraçá-lo.

Não disse que não tinha importância.

Tinha.

— Obrigada por reconhecer.

Ele assentiu.

Depois se aproximou e me abraçou.

Dessa vez, abracei de volta.

No ônibus para Tiradentes, na manhã seguinte, senti vontade de chorar quando Belo Horizonte começou a ficar para trás.

Mas não era tristeza.

Também não era coragem heroica.

Eu só estava indo fazer uma viagem.

Isso era o mais bonito.

Durante três semanas, minhas mãos ficaram cobertas de barro. Fiz uma caneca torta, dois pratos que racharam no forno e uma tigela azul que ficou melhor do que eu imaginava.

Aprendi que a argila não aceita pressa.

Se você força demais, ela entorta.

Se segura de menos, ela perde a forma.

Achei engraçado descobrir aquilo justamente naquele momento da minha vida.

Quando voltei, Miguel veio correndo pelo corredor do prédio.

— Vovó!

Ele pulou nos meus braços.

Daniel vinha atrás, carregando uma mochila pequena.

— Trouxemos um hóspede para a quarta da panqueca.

— Hoje é quarta?

— Você viajou tanto que perdeu até o calendário.

Ri.

A nova rotina ainda exigiu ajustes.

Miguel passou a frequentar a escola pela manhã. Paula conseguiu manter um horário diferente duas vezes por semana. Daniel diminuiu as horas extras durante alguns meses.

A cozinha ficou sem a adega.

Ninguém morreu por causa disso.

Nas quartas-feiras, Miguel ia para minha casa depois da escola.

Algumas semanas eu mesma buscava.

Em outras, dizia que tinha outro compromisso.

Daniel passou a perguntar.

No início, percebia um pequeno cuidado exagerado na voz dele.

— Mãe, você poderia ficar com o Miguel sábado de manhã? Se não puder, tudo bem.

Com o tempo, ficou natural.

Às vezes eu podia.

Às vezes não.

Nos dois casos, continuávamos sendo família.

Paula também mudou.

Um domingo, enquanto lavávamos pratos depois do almoço, ela me disse:

— Eu devia ter falado quando o Daniel desistiu da vaga.

— Devia.

— Eu fiquei com medo da discussão e deixei você pagar a conta desse silêncio.

Olhei para ela.

— Então na próxima discussão você fala.

Ela sorriu.

— Pode deixar.

Não viramos uma família perfeita.

Daniel ainda tentava resolver algumas coisas antes de ouvir todo mundo.

Eu ainda sentia culpa quando dizia não.

Paula ainda demorava para se posicionar em certas situações.

Mas agora percebíamos.

E perceber antes de repetir já era uma mudança enorme.

Meses depois, coloquei a tigela azul que fiz no curso sobre a mesa da sala.

Miguel perguntou se podia pintar alguma coisa nela.

— Ela já está pronta.

— Só uma mãozinha.

Pensei na peça que tinha levado semanas para fazer.

Depois pensei na diferença entre escolher dividir algo e deixar que tomassem aquilo de mim.

Peguei tinta lavável.

— Uma mãozinha.

Ele pressionou a palma pequena no fundo da tigela e deixou uma marca torta.

Daniel, sentado no sofá, perguntou:

— Não estragou?

Passei o dedo pela borda azul.

— Não.

Olhei para meu neto, que ria da própria mão suja.

— Algumas marcas a gente escolhe deixar.

Se você estivesse no lugar de Tereza, manteria a viagem mesmo sabendo que seu filho teria de reorganizar o trabalho e apertar o orçamento? Conte nos comentários o que faria e por quê, e siga a página para ler novas histórias.

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