Meu filho pediu que eu cuidasse do meu neto por duas semanas; na véspera da minha viagem, avisou que contava comigo por mais seis meses.
Parte 3
Daniel largou o garfo no prato.
— Você está falando sério?
— Estou.
— Mãe, a gente montou tudo contando com você.
— Esse é justamente o problema.
Paula não disse nada. Miguel estava na sala assistindo a um desenho, longe o suficiente para não acompanhar a conversa. Ainda assim, mantive a voz baixa.
Daniel empurrou a cadeira para trás.
— Eu achei que você gostasse de ficar com ele.
— Eu amo ficar com ele.
— Então eu não estou entendendo.
— Gostar do meu neto não significa querer criar uma rotina de quarenta horas por semana em volta dele.
Meu filho me olhou como se eu tivesse usado uma expressão absurda.
— Quarenta horas?
— Faça as contas. Ele chega antes das oito. Vocês buscam perto das cinco, às vezes depois. Cinco dias por semana.
— Ele não dá trabalho.
Aquilo me fez rir, mas sem humor.
— Uma criança de quatro anos não dá trabalho?
— Você entendeu o que eu quis dizer.
— Entendi. Você quis dizer que, como eu faço tudo parecer fácil, talvez não custe nada.
Daniel cruzou os braços.
— Ninguém disse isso.
— Não precisou.
Paula finalmente se aproximou.
— Daniel, ela tem razão numa coisa. A gente devia ter perguntado antes de desistir da escola.
— Agora você vai jogar isso em mim?
— Não estou jogando nada. Eu também concordei.
Observei os dois e senti uma vontade antiga de interromper a discussão, acalmar meu filho, dizer que poderíamos tentar mais um pouco.
Foi o que eu sempre fazia.
Consertava o desconforto antes de descobrir a quem ele pertencia.
Dessa vez, fiquei quieta.
Daniel olhou para mim.
— E o que você espera que a gente faça em seis semanas?
— O que vocês fariam se eu estivesse trabalhando.
— Mas você não está.
A frase caiu entre nós.
Respirei devagar.
— Exatamente. Eu não estou trabalhando.
— Mãe…
— Eu trabalhei trinta e dois anos. Aposentadoria não significa que eu passei a trabalhar para você sem salário, sem folga e sem poder marcar uma viagem.
Ele se levantou e começou a andar pela cozinha.
— Você está transformando isso numa coisa horrível. É o seu neto.
— E você está usando o fato de eu amar o Miguel para não enxergar que tomou uma decisão por mim.
Paula fechou os olhos por um instante.
Daniel parou.
— Eu nunca quis te explorar.
— Eu acredito em você.
Ele pareceu surpreso.
— Então por que está falando assim?
— Porque não querer fazer uma coisa não significa que você não tenha feito.
Foi difícil dizer aquilo.
Mais difícil ainda foi não suavizar depois.
No carro, voltando para casa, chorei.
Não porque tivesse dúvida sobre o prazo. Chorei porque colocar um limite em alguém que amamos não produz a sensação limpa de vitória que às vezes imaginamos.
Produz culpa.
Medo.
Vontade de voltar atrás.
Quando cheguei ao apartamento, havia uma mensagem de Daniel.
“Você podia ter falado antes.”
Sentei no sofá e respondi:
“Podia. E deveria. Eu também demorei demais para admitir que isso estava me fazendo mal.”
Não acrescentei nada.
Na segunda-feira, Miguel chegou como sempre.
Daniel estava mais frio.
— Bom dia.
— Bom dia.
Ele beijou o filho.
— Papai vem te buscar mais tarde.
Eu interrompi.
— Que horas?
— Cinco e meia, talvez.
— Não. Até quatro e meia.
Daniel apertou os lábios.
— Eu tenho reunião.
— Então conversa com a Paula.
— Você sabe que ela também trabalha.
— Sei.
Ele respirou fundo.
— Tá bom.
Foi um diálogo de menos de um minuto, mas fiquei tremendo depois que ele saiu.
Aquela manhã foi uma das melhores que tive com Miguel em semanas.
Fizemos massinha, fomos até a praça e compramos pão de queijo na volta. Quando ele pediu para brincar no chão, sentei com ele sem pensar na pia.
A diferença era simples: eu tinha uma data.
O cuidado tinha voltado a ser escolha.
Durante as semanas seguintes, Daniel pesquisou escolas. Paula pediu uma mudança de horário duas vezes por semana. Eles também passaram a alternar quem buscava Miguel mais cedo.
Não foi perfeito.
Daniel reclamava dos preços.
Reclamava do trânsito.
Reclamava que teria de reduzir horas extras.
Uma noite, quando veio buscar o filho, ele entrou irritado porque uma escola perto do trabalho de Paula só tinha vaga para meio período.
— Isso não resolve.
— Talvez resolva metade.
— E a outra metade?
— Vocês resolvem.
Ele me olhou com impaciência.
— Você realmente vai deixar a gente se virar?
A palavra “deixar” me incomodou.
— Daniel, você tem trinta e cinco anos. Paula tem trinta e três. Vocês são os pais do Miguel.
— Você também é família.
— Sou. Família ajuda. Família não desaparece dentro da vida dos outros.
Ele pegou a mochila do menino com força demais.
Miguel entrou no corredor nesse momento.
— Papai, você está bravo com a vovó?
Daniel imediatamente abaixou a voz.
— Não, filho.
Mas Miguel olhou para mim.
— Você não quer mais que eu venha?
A pergunta me doeu mais do que qualquer discussão com meu filho.
Abaixei até ficar da altura dele.
— Eu quero que você venha muitas vezes.
— Mas o papai falou que eu não vou vir todo dia.
— É verdade.
Os olhos dele ficaram úmidos.
— Eu fiz alguma coisa?
— Não, meu amor.
Segurei suas mãos.
— Você vai para uma escola brincar com outras crianças, aprender coisas novas, fazer amigos. E vai continuar vindo aqui para brincar comigo. Só não todos os dias.
— Toda quarta?
Sorri.
— Podemos escolher uma quarta.
— E fazer panqueca?
— Podemos.
Ele pensou alguns segundos.
— Então tá bom.
Crianças às vezes entendem o que os adultos complicam.
Daniel desviou o rosto.
Depois daquela noite, alguma coisa começou a mudar nele.
Não de uma vez.
Ele não apareceu no dia seguinte com um discurso de arrependimento.
Mas parou de atrasar sem avisar.
Começou a mandar mensagem antes de alterar qualquer horário.
Numa sexta-feira, chegou às quatro e quinze e encontrou Miguel dormindo no sofá.
Ficamos na cozinha falando baixo.
— A escola de meio período parece boa — disse.
— Parece.
— A gente vai visitar amanhã.
— Ótimo.
Ele ficou olhando para a xícara.
— Vou ter que parar de fazer algumas horas extras.
Não respondi.
— A cozinha vai demorar mais para terminar.
— A cozinha já funciona.
Daniel soltou uma risada pequena.
— Você não perde uma.
— Aprendi tarde.
Ele ficou sério.
— Eu achei que estava fazendo o melhor para todo mundo.
— Eu sei.
— Só não pensei que você tivesse planos tão… definidos.
Dessa vez, não fiquei ofendida.
— Nem eu.
Ele ergueu os olhos.
— Como assim?
— Durante muito tempo eu mesma tratei meus planos como se fossem a primeira coisa que podia ser cancelada.
Daniel encostou na cadeira.
— Então você cancelou a viagem por minha causa ou por sua causa?
A pergunta foi boa.
Pensei antes de responder.
— Você me pressionou. Mas fui eu que cancelei.
Foi importante admitir aquilo.
Se eu colocasse toda a responsabilidade nele, talvez nunca aprendesse a fazer diferente.
Naquela noite, depois que eles foram embora, abri novamente o site da pousada em Tiradentes.
O curso original já tinha terminado.
Mas havia outra turma começando no fim de setembro.
Fiquei olhando as datas.
O último dia de adaptação de Miguel na nova escola seria três dias antes.
Liguei para Sônia.
— Você está sentada?
— Dependendo da notícia, posso sentar.
— Vou fazer o curso.
Ela ficou em silêncio.
— Qual curso?
— O de cerâmica.
— Tereza!
Ri.
— Só que vou sozinha dessa vez.
— Melhor ainda.
— Pensei que você fosse ficar ofendida.
— Eu já fui. Quando você cancelou.
A sinceridade dela me fez rir mais.
Reservei a pousada.
Paguei o sinal.
Depois comprei a passagem de ônibus.
Dessa vez não contei para Daniel imediatamente.
Não por segredo.
Eu queria passar uma noite inteira sabendo que aquela decisão era minha antes que qualquer outra opinião chegasse perto dela.
Na manhã seguinte, enquanto preparava o café, deixei o comprovante da passagem sobre a mesa.
Olhei para o papel e senti uma coisa muito diferente da euforia.
Paz.
Quando Daniel veio buscar Miguel naquela tarde, entreguei a ele as datas.
— Vou viajar no dia vinte e oito.
Ele leu.
— Três semanas?
— Três semanas.
— E se a adaptação do Miguel atrasar?
Sustentei o olhar do meu filho.
— Então vocês vão precisar de um plano que não dependa de eu cancelar a minha vida.
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