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No dia em que fui transferida para Brasília, ouvi meu marido comemorar porque finalmente estaria livre de mim

Parte 3

Lucas não respondeu.

Por um instante, ficou parado no meio da sala como se procurasse uma frase que pudesse desfazer o que já havia sido dito. Não encontrou. Eu também não esperei.

Entrei no elevador com Rafael, e as portas se fecharam entre nós.

No aeroporto, achei que sentiria alguma coisa quando o avião decolasse. Tristeza, talvez. Medo. A sensação de abandonar uma vida inteira.

Mas o que senti foi cansaço.

Um cansaço profundo de ter passado três anos tentando não exigir nada para não ser acusada de exigir demais.

Brasília não me deu tempo para alimentar aquilo. Os primeiros dias foram tomados por trabalho, adaptação à nova unidade, reuniões administrativas e uma quantidade enorme de processos para estudar. Meu apartamento era pequeno, silencioso e temporário, mas, pela primeira vez em muito tempo, aquele silêncio me pertencia.

Lucas mandava mensagens todos os dias.

No início, eram práticas.

“Chegou bem?”

“Está gostando do apartamento?”

“Precisa que eu mande alguma coisa de Campinas?”

Eu respondia quando a pergunta exigia resposta.

“Sim.”

“Está tudo certo.”

“Não precisa.”

Depois de uma semana, as mensagens mudaram.

“Você falou sério sobre o divórcio?”

Não respondi imediatamente.

À noite, depois de deixar o tribunal, sentei à mesa da cozinha e fiquei olhando para aquela frase por alguns minutos.

Então escrevi:

“Falei.”

O telefone tocou em menos de um minuto.

Atendi.

— Você não acha que estamos indo rápido demais? — Lucas perguntou.

— Rápido demais?

— Você saiu de Campinas há uma semana.

— Lucas, nós estamos casados há três anos.

Ele ficou quieto do outro lado.

Continuei:

— Uma semana foi apenas o tempo que levei para colocar em voz alta uma decisão que eu deveria ter considerado muito antes.

— Você está fazendo parecer que eu fui um monstro com você.

— Eu nunca disse isso.

— Mas é assim que você fala.

— Não. Estou dizendo que você nunca quis esse casamento e eu parei de enxergar virtude em obrigar nós dois a continuar nele.

Sua respiração ficou pesada.

— E a Marina? É por causa dela?

Fechei os olhos.

Era curioso que fosse ele quem trouxesse o nome dela.

— Marina faz parte do problema — respondi. — Mas ela não é o problema inteiro.

— Nunca aconteceu o que você está pensando.

Abri os olhos novamente.

— E o que exatamente você acha que eu estou pensando?

Ele demorou a responder.

— Eu nunca dormi com ela durante nosso casamento.

Aquela frase deveria ter me tranquilizado.

Não tranquilizou.

Porque havia algo humilhante em perceber que Lucas considerava a ausência de uma relação física suficiente para tornar aceitável todo o resto.

— Entendi — falei.

— Só isso?

— O que você espera que eu diga?

— Que pelo menos reconheça que não traí você.

Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.

— Você quer que eu lhe agradeça por não ter ido para a cama com outra mulher enquanto seus amigos brindavam à minha partida para que vocês dois pudessem parar de se esconder?

Ele não respondeu.

— Quer que eu ignore o fato de você ter chamado o nome dela na nossa noite de núpcias? As noites em que chegou em casa com o perfume dela na roupa? O espaço que ela sempre teve na sua vida enquanto eu era tratada como uma imposição da família?

— Sofia…

— Não estou dizendo que você teve um caso físico. Estou dizendo que eu passei três anos casada com um homem que fazia questão de me lembrar, mesmo quando não dizia nada, que outra pessoa ocupava o lugar que deveria ser meu.

A ligação terminou pouco depois.

Na manhã seguinte, minha sogra me ligou.

Atendi porque imaginei que pudesse ter acontecido alguma coisa com os pais de Lucas.

Não tinha.

— Sofia, o Lucas me contou essa história de divórcio — disse ela, sem sequer perguntar como eu estava. — Você não acha que está exagerando?

Eu apoiei uma pasta sobre a mesa.

— Não.

— Todo casamento passa por dificuldades.

— Concordo.

— E você sempre soube que Lucas e Marina eram próximos antes de você aparecer.

A frase me atingiu de uma forma diferente.

Antes de eu aparecer.

Como se eu tivesse invadido uma história que me fora imposta pelas mesmas famílias que agora me responsabilizavam por não suportá-la em silêncio.

— Eu não apareci — respondi. — Vocês organizaram meu casamento com ele.

Minha sogra respirou fundo.

— Não estou dizendo que não gostamos de você. Mas Marina conhece Lucas desde muito jovem. Há uma afinidade entre os dois.

— Então vocês deveriam ter permitido que ele se casasse com ela.

O silêncio veio imediatamente.

— Não precisa falar dessa forma.

— Estou falando da única forma que faz sentido.

Ela tentou me dizer que decisões familiares eram complicadas, que meus pais também tinham concordado, que Lucas nunca havia me maltratado e que um casamento não deveria acabar por “falta de romantismo”.

Ouvi até o fim.

Depois respondi:

— Justamente porque nossas famílias decidiram por nós três anos atrás, eu não vou permitir que decidam outra vez.

Desliguei antes que a conversa voltasse ao ponto de partida.

Dois dias depois, procurei uma advogada de família em Brasília. Não queria guerra, exposição nem vingança. Queria entender o procedimento, organizar a documentação e encerrar o casamento da maneira mais limpa possível.

Quando a advogada perguntou se havia patrimônio conjunto relevante, expliquei que, desde o início, Lucas e eu mantínhamos nossas finanças essencialmente separadas e que o regime de bens estava formalizado. Havia questões a revisar, mas nada que justificasse transformar o divórcio numa batalha.

Saí do escritório com uma lista curta de documentos.

Foi estranho.

Eu tinha passado anos decidindo assuntos difíceis profissionalmente. Ainda assim, assinar uma simples autorização para iniciar a preparação do divórcio fez meus dedos tremerem.

Não porque eu quisesse voltar atrás.

Mas porque uma parte de mim estava finalmente admitindo que os três anos tinham acabado sem jamais terem realmente começado.

Naquela noite, Marina ligou.

Eu quase não atendi.

— Sofia? — Sua voz parecia muito menos segura do que no hotel. — Eu queria conversar.

— Sobre o quê?

— Sobre o Lucas.

— Então deveria conversar com ele.

— Eu só não quero que você pense que eu destruí seu casamento.

Encostei-me na janela.

— Marina, você não tem poder suficiente para destruir sozinha um casamento do qual faziam parte duas pessoas.

Ela ficou quieta.

— O Lucas e eu nos conhecemos muito antes de você — disse depois. — Nossas famílias sempre souberam.

— Eu também sempre soube.

— Então sabe que havia sentimentos.

— Sabia que ele tinha sentimentos. O que eu não sabia era até que ponto vocês achavam normal alimentar isso enquanto ele era casado.

Ela respirou fundo.

— Nunca passamos de certos limites.

— Talvez vocês devessem parar de medir lealdade apenas pelo limite físico.

Marina não respondeu.

Pela primeira vez, eu percebi que não sentia vontade de competir com ela.

Nenhuma.

Se Lucas ainda a amava, eu não queria vencê-la.

Se não a amava, também não queria ser escolhida por falta de opção.

Eu queria sair daquela disputa que nunca aceitara entrar.

Na semana seguinte, Lucas apareceu em Brasília sem me avisar.

Quando saí do tribunal, ele estava esperando do outro lado da rua.

Meu primeiro impulso foi de irritação.

— Você não deveria aparecer aqui sem me avisar.

— Eu precisava falar com você pessoalmente.

— Poderia ter telefonado.

— Por telefone você desliga quando acha que a conversa terminou.

— Porque às vezes terminou.

Ele passou a mão pelo rosto, claramente cansado.

— Você já procurou um advogado?

— Uma advogada.

Seu olhar mudou.

— Então é verdade.

— Nunca disse que não era.

Lucas ficou alguns segundos olhando para o chão.

— Eu não quero assinar nada agora.

— Você tem direito de ler tudo e procurar seu próprio advogado. Mas não pode impedir indefinidamente que eu peça o divórcio.

— Não é isso.

— Então o que é?

Ele ergueu os olhos.

— Eu ainda não entendi como você conseguiu decidir isso tão rápido.

Soltei o ar devagar.

— Você continua confundindo o momento em que eu falei com o momento em que comecei a me cansar.

Ele franziu a testa.

— Eu realmente não percebi.

— Esse é parte do problema.

Lucas pareceu querer responder, mas parou.

Então disse algo que eu não esperava:

— Eu sabia que você estava infeliz.

Minha garganta apertou.

— Sabia?

— Sabia que você não gostava daquela situação.

— E mesmo assim deixou continuar.

Ele não tentou negar.

— Sim.

Foi a primeira vez que Lucas assumiu alguma responsabilidade sem transformar a conversa numa defesa.

Ele respirou fundo.

— Eu não queria me casar. Estava com raiva do meu pai, da minha família, da sua família. E você virou… a pessoa mais fácil para eu culpar por tudo aquilo.

Permaneci em silêncio.

— A Marina fazia parte da minha vida antes. Depois do casamento, eu disse a mim mesmo que, enquanto não acontecesse nada físico, eu não estava fazendo nada errado. Só que eu sabia como parecia. Sabia o que meus amigos diziam. Sabia o que minha mãe dizia.

— E nunca os interrompeu.

— Não.

— Nem quando falavam de mim na sua frente.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Não.

Aquela resposta doeu mais do que qualquer desculpa teria doído.

Mas também trouxe clareza.

Não havia grande conspiração.

Não havia um segredo capaz de transformar tudo.

Havia escolhas pequenas, repetidas durante três anos.

Silêncios.

Omissões.

Covardia.

E, acumuladas, elas tinham construído nosso casamento exatamente como ele era.

— Lucas — falei — eu não preciso que você seja um monstro para ter o direito de ir embora.

Ele levantou os olhos.

— Eu sei.

— Acho que só está começando a saber.

Ele assentiu lentamente.

Depois tirou do bolso um envelope.

— Minha mãe me deu isso antes de eu viajar.

Olhei para o envelope, mas não o peguei.

— O que é?

— Uma cópia de alguns documentos antigos do casamento. Ela achou que poderiam ser necessários para o divórcio.

Não havia revelação.

Nenhum segredo.

Apenas papéis que eu realmente precisaria revisar.

Aquilo, de algum modo, tornava tudo ainda mais real.

— Entregue à minha advogada quando ela pedir — respondi.

Lucas guardou o envelope novamente.

— Você não vai voltar para Campinas?

Olhei para ele.

— Para morar?

— Sim.

— Não.

A resposta saiu sem esforço.

E naquele instante percebi que essa era a primeira decisão importante da minha vida adulta que não estava sendo tomada pelo meu pai, pelo pai dele, pela família Mendonça ou pelas expectativas de ninguém.

Era minha.

Lucas baixou a cabeça.

— Então eu acho que finalmente entendi.

— Entendeu o quê?

Ele me encarou.

— Que você não está tentando me assustar para eu correr atrás de você.

Balancei a cabeça.

— Não, Lucas.

Ele respirou fundo.

E eu terminei:

— Estou realmente indo embora.

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