Depois de vinte anos chamando meu salão de “capricho”, meu pai esvaziou metade da oficina dele quando descobriu que eu perderia o ponto em trinta dias
Parte 3
Eu fiquei parada diante daquele desenho mais tempo do que gostaria de admitir. Não era bonito, nem técnico, nem preciso. Meu pai tinha feito as linhas com régua escolar e escrito as medidas com uma letra inclinada que eu reconheceria em qualquer lugar.
Renato apareceu atrás de mim.
— Ele ficou aqui até umas dez da noite.
— Falou alguma coisa?
— Reclamou de nós dois umas quinze vezes.
Sorri.
— Isso parece mais com ele.
A reforma começou três dias depois.
Eu ainda tinha vinte e quatro dias no salão antigo, então minha rotina virou uma espécie de corrida entre dois mundos. Pela manhã, atendia clientes. No intervalo do almoço, atravessava a cidade para ver paredes, pontos de água, iluminação e tomadas. À noite, fazia contas.
Meu pai acompanhava a obra como se estivesse reformando a própria casa.
Esse era, ao mesmo tempo, o problema e a prova de que ele se importava.
— A pia deveria ficar aqui — dizia.
— Não.
— O encanamento fica mais fácil.
— Mas duas cadeiras deixam de funcionar.
— Você tem certeza?
— Tenho.
Ele resmungava e chamava o pedreiro.
No dia seguinte, voltava com outra opinião.
Depois de uma semana, percebi que eu estava novamente gastando energia para defender decisões pequenas demais. A cor da parede. A posição de um armário. O tamanho da janela interna.
Meu pai não queria destruir meu projeto.
Só não conseguia participar de alguma coisa sem assumir o comando.
Na quinta-feira, cheguei e encontrei um eletricista instalando luminárias que eu não tinha escolhido.
— Quem pediu isso?
O rapaz apontou para meu pai.
Anselmo estava do outro lado do galpão discutindo uma peça com Renato.
Esperei ele terminar.
— Pai, eu não escolhi essas luminárias.
— São melhores.
— Para oficina, talvez.
— Luz é luz, Helena.
— Não num salão.
— Eu consegui preço bom.
Respirei fundo.
— Manda tirar.
Ele riu, achando que eu estava exagerando.
— Para de frescura.
A palavra ficou entre nós.
Frescura.
Não era “capricho”, mas vinha da mesma gaveta.
O eletricista parou de trabalhar.
Renato olhou para nós.
Meu pai percebeu tarde demais o que havia dito.
— Não quis dizer…
— Eu sei exatamente o que você quis dizer.
— É só uma lâmpada.
— Não. É você decidindo outra vez porque acha que entende mais até sobre o meu trabalho.
Ele passou a mão no rosto.
— Eu estou pagando a parte elétrica dessa reforma.
— Você está pagando a instalação estrutural porque ela fica no seu prédio. As luminárias internas são minhas.
— Dá na mesma.
— Não dá.
Peguei meu celular, fiz o pagamento do serviço que já tinha sido realizado e pedi ao eletricista que interrompesse o restante até receber novas orientações.
Meu pai ficou indignado.
— Você está jogando dinheiro fora.
— Estou pagando para corrigir uma decisão que eu não tomei.
— Isso é orgulho.
— Pode ser. Mas é meu dinheiro e meu negócio.
Saí antes de dizer coisas piores.
No estacionamento, minhas mãos tremiam.
Eu odiava discutir com meu pai.
Não porque tivesse medo dele, mas porque uma parte de mim ainda queria ouvir a aprovação que passei tanto tempo fingindo não precisar.
Quando voltei ao salão antigo, Cíntia percebeu imediatamente.
— Brigou com seu pai?
— Está tão óbvio?
— Você está organizando os shampoos por tamanho.
Olhei para a prateleira.
— Faço isso quando estou irritada?
— Desde sempre.
Contei o que acontecera.
Ela ouviu e depois perguntou:
— Você quer que ele aprove seu salão ou quer que ele pare de mandar nele?
A pergunta me irritou porque acertou.
— As duas coisas.
— Talvez você só consiga controlar uma.
Passei o resto do dia pensando nisso.
Meu pai nunca poderia devolver os vinte anos em que tratou minha profissão como algo menor. Não poderia apagar as piadas, os comentários ou a sensação que tive tantas vezes de precisar chegar mais longe para ser levada a sério dentro da própria família.
Mas eu podia decidir o que aceitaria dali em diante.
Na manhã seguinte, fui até a oficina antes de abrir o salão.
Anselmo tomava café sozinho.
Coloquei diante dele uma folha.
— O que é isso?
— Regras.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Regras para mim?
— Para todos nós.
Sentei à frente dele.
— Você não decide nada dentro do salão sem falar comigo. Eu não uso espaço da oficina sem falar com Renato. Renato não muda a área de circulação sem conversar com você. Despesa compartilhada precisa ser combinada antes. Problema entre negócios não vira discussão de família no almoço de domingo.
Meu pai soltou o ar pelo nariz.
— Você fez um regulamento.
— Fiz.
— Isso é ridículo.
— Pode ser. Mas eu preciso disso para trabalhar aqui.
Ele dobrou a folha ao meio.
— Você não confia em mim.
A frase me surpreendeu.
Pela primeira vez, o homem que sempre parecia tão seguro soou ofendido de verdade.
— Eu confio que você quer me ajudar — respondi. — Não confio que você sabe parar quando acha que está ajudando.
Ele ficou quieto.
— É diferente.
Meu pai olhou para a oficina através da janela do escritório.
— Quando você tinha dezenove anos, achei que ia se arrepender.
— Eu sei.
— Você largou um curso.
— Eu sei.
— Sua mãe ficou preocupada também.
— Minha mãe me perguntou o que eu precisava. Você me disse o que eu devia fazer.
Ele apertou a xícara entre as mãos.
— Eu tinha medo de você não conseguir se sustentar.
— E decidiu demonstrar isso diminuindo o que eu escolhi.
Ele não respondeu.
Eu continuei:
— Talvez você não percebesse. Mas toda vez que chamava meu salão de capricho, eu escutava que meu trabalho valia menos que o seu.
Meu pai baixou os olhos.
Não pedi desculpas por dizer.
Também não tentei fazê-lo se sentir melhor.
Algumas verdades precisam de espaço para incomodar.
À tarde, Renato me encontrou no depósito.
— Falou com ele?
— Falei.
— E sobre mim?
— Fale você.
Ele fez uma careta.
— Helena.
— Eu passei anos reclamando que pai falava por mim. Não vou começar a falar por você agora.
Renato ficou irritado, mas sabia que eu estava certa.
Dois dias depois, vi os dois discutindo perto do elevador hidráulico. Não ouvi tudo. Fiz questão de não ouvir.
Mais tarde, meu irmão entrou na área do futuro salão segurando duas latas de refrigerante.
— Foi horrível.
— Parabéns.
Ele riu.
— Eu disse que quero cuidar da elétrica e parar de aceitar qualquer serviço só porque aparece.
— E ele?
— Falou que eu estava querendo desmontar a oficina.
— Claro.
— Depois perguntou quanto custa o equipamento.
Aquilo era progresso.
A mudança começou a aparecer em coisas pequenas.
Meu pai passou a perguntar antes de entrar na área da obra.
Uma manhã, apontou para uma parede e perguntou:
— Posso dar uma opinião?
Quase ri.
— Pode.
— Essa tomada vai ficar atrás do armário.
Olhei o projeto.
Ele estava certo.
— Boa.
O sorriso dele durou dois segundos, mas eu vi.
Na semana seguinte, a obra estava perto do fim.
Eu vendi dois móveis que não caberiam no novo espaço e usei o dinheiro para comprar as luminárias que realmente queria. Juliana ficou responsável por organizar a agenda da semana da mudança. Cíntia montou uma lista de clientes que precisavam receber o novo endereço.
Três dias antes de entregarmos o salão antigo, meu pai apareceu no final do expediente.
Ficou parado no meio do espaço quase vazio.
Os espelhos já tinham sido retirados.
As paredes mostravam marcas claras onde antes ficavam quadros e prateleiras.
— Foi aqui desde quando?
— Doze anos.
— Eu vim poucas vezes.
— Eu sei.
Ele passou a mão pelo balcão.
— Devia ter vindo mais.
Não respondi.
Meu pai olhou para mim.
— Helena, quando eu chamava isso de capricho…
— Pai, não precisa explicar.
— Precisa, sim.
Esperei.
— Eu achava que estava te provocando. Depois virou hábito. E quando percebi que te incomodava, já fazia tanto tempo que… parecia estranho voltar atrás.
— Isso não torna melhor.
— Eu sei.
Foi a primeira vez que ele disse aquilo sem acrescentar um “mas”.
— Eu errei.
Simples.
Quase seco.
Muito mais parecido com meu pai do que qualquer discurso bonito seria.
Ele continuou:
— Você construiu uma empresa enquanto eu fingia que era passatempo. Eu devia ter percebido antes.
Senti os olhos arderem.
— Obrigada por dizer.
— Não estou pedindo para você esquecer.
— Ainda bem.
Ele assentiu.
Quando chegou à porta, virou-se.
— O contrato está pronto?
— Estou terminando.
— Traz amanhã.
Sorri.
— Vai assinar?
— Se o aluguel não estiver absurdo.
— Foi você que propôs o valor.
— Posso ter mudado de ideia.
— Então eu também posso procurar outro lugar.
Ele levantou as mãos.
— Tá bom. Traz o contrato.
No dia seguinte, imprimi duas vias de um contrato simples de locação comercial preparado com orientação do meu contador e revisado por nós. Nada de favores escondidos, nada de promessas vagas. Prazo, valor, reajuste, responsabilidades e acesso estavam escritos.
Meu pai leu tudo.
Chegou à última página.
Pegou a caneta.
E parou.
— Tem uma coisa aqui que eu não aceito.
Meu estômago se contraiu.
— O quê?
Ele apontou para a cláusula de prazo.
— Dois anos é pouco.
— Pai…
— Faz três.
— Por quê?
Ele colocou a caneta sobre a mesa.
— Porque se você vai ficar aqui, quero que tenha tempo de fazer isso dar certo sem acordar todo mês pensando que eu posso mudar de ideia.
Olhei para ele.
Depois para Renato.
Meu irmão sorriu de lado.
Eu deveria ter ficado aliviada.
Mas havia uma última coisa que eu precisava dizer antes de assinar.
— Três anos, então. Só que tem uma condição que não está no contrato.
Meu pai franziu a testa.
— Qual?
Apoiei as duas mãos sobre a mesa.
— Quando abrirmos aquela porta, você nunca mais vai apresentar o salão como o negócio que você colocou dentro da sua oficina.
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