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Minha prima roubou meu bracelete e virou a protegida de um bilionário — até uma gravação daquela noite aparecer

Parte 3

— Sei que minha prima não inventou essa história naquela manhã em que apareceu aqui — respondi. — Ela vinha preparando isso havia algum tempo.

Renata parou de chorar.

Minha tia Lúcia me lançou um olhar que eu conhecia desde criança. Era o mesmo olhar que usava quando queria me avisar, sem palavras, para não criar problemas. Durante muitos anos eu aprendera a recuar diante dele.

Naquela noite, não recuei.

— Uns quatro meses atrás, Renata começou a me fazer perguntas sobre o incêndio. Perguntou se eu lembrava do nome do galpão, se eu tinha visto o rosto do homem, se ainda guardava alguma coisa daquele dia. Achei estranho, mas não imaginei até onde ela iria.

— Você nunca me contou isso — disse Caio.

— Porque até o bracelete aparecer na família de vocês, eram apenas perguntas estranhas feitas por uma prima. Depois virou outra coisa.

Renata cruzou os braços.

— Você está distorcendo tudo.

— Então corrija — falei. — Diga por que você me perguntou se o homem estava usando relógio.

Ela empalideceu.

Augusto ergueu o rosto.

— Ela perguntou isso?

— Perguntou. Eu disse que não queria falar sobre aquela noite e mudei de assunto.

Renata se virou para a mãe.

— Vamos embora.

— Ninguém está impedindo você de sair — disse Caio. — Mas isso não vai desaparecer quando atravessar aquela porta.

Na manhã seguinte, a festa já tinha virado assunto entre pessoas do círculo empresarial de São Paulo. Ninguém da família Teixeira havia feito uma declaração pública, mas havia convidados demais para que aquela cena permanecesse privada.

Eu só queria voltar ao trabalho.

Quando cheguei ao escritório, porém, encontrei uma mensagem de Augusto pedindo que eu fosse até a sede do Grupo Teixeira no fim da tarde.

Pensei em recusar.

Durante quinze anos, eu não procurei o homem que havia ajudado naquele galpão. Não porque tivesse esquecido, mas porque aos dez anos eu não tinha entendido quem ele era. Quando fiquei mais velha e descobri, já parecia tarde demais para bater à porta de um empresário famoso e dizer: “Eu fui aquela menina.”

Eu nunca quis que minha vida dependesse disso.

Mas agora meu silêncio também estava servindo para que outras pessoas contassem a história no meu lugar.

Por isso aceitei.

Caio me recebeu numa sala de reuniões menor, longe dos andares executivos mais movimentados. Sobre a mesa estavam o gravador, a presilha e cópias digitalizadas da fotografia encontrada no galpão.

— Antes que você pergunte — disse ele —, o gravador não pertence à minha família. Era usado pelo responsável pela segurança do imóvel. Na época, ele fazia registros de voz durante as inspeções. Pelo que conseguimos reconstruir, o aparelho caiu atrás de uma divisória durante o incêndio.

— E vocês têm certeza de que a gravação é daquela noite?

— A data do arquivo coincide com os registros de manutenção e com o horário do incêndio. Estamos mandando o equipamento para análise técnica independente. Não quero repetir o erro de acreditar apenas porque uma história parece conveniente.

Assenti.

Aquilo, pelo menos, fazia sentido.

Augusto entrou pouco depois.

Dessa vez não havia convidados, música nem pessoas tentando agradá-lo. Ele parecia apenas um homem cansado.

Sentou-se à minha frente.

— Eu devia ter investigado melhor quando Renata apareceu.

— Devia.

Caio me olhou, talvez esperando alguma delicadeza.

Não ofereci.

Augusto também não pareceu ofendido.

— Quando vi o bracelete, eu quis acreditar — admitiu. — Passei quinze anos procurando aquela menina. A culpa de ter sobrevivido enquanto uma criança entrou naquele fogo por mim nunca saiu da minha cabeça.

— Eu saí de lá viva.

— Mas podia não ter saído.

— E o senhor também não.

Ele respirou devagar.

— É por isso que eu preciso perguntar uma coisa sem testemunhas. Naquela noite, por que você voltou?

A lembrança veio inteira.

Eu estava indo para casa depois de passar a tarde com minha mãe numa pequena oficina perto dali. Vi fumaça, ouvi pessoas gritando e, quando me aproximei, percebi que havia alguém preso.

Eu não tinha planejado ser corajosa.

Tinha ficado apavorada.

Contei isso a Augusto.

— Eu ouvi o senhor batendo alguma coisa no chão. Achei que alguém estivesse preso. Entrei porque os adultos do lado de fora estavam esperando os bombeiros e eu vi uma abertura perto de uma parede lateral.

Ele fechou os olhos.

— Eu bati com uma barra de metal.

— Eu sei.

— E depois?

— Depois achei o senhor. Tentei tirar a viga e não consegui. Então puxei a perna pelo espaço que tinha. O senhor gritava para eu sair dali.

As mãos de Augusto começaram a tremer.

— Eu dizia que o teto ia cair.

— E eu dizia que já tinha entrado, então ia sair com o senhor.

Um sorriso dolorido apareceu no rosto dele.

— Você era teimosa.

— Ainda sou.

Caio disfarçou um sorriso.

Então Augusto perguntou:

— E a frase do mar?

Baixei os olhos.

— Quando já estávamos perto da saída, o senhor começou a apagar. Eu fiquei dando tapas no seu rosto para manter o senhor acordado. Perguntei se tinha alguma coisa que ainda queria fazer.

— E eu disse que queria voltar a ver o mar.

— Depois disse que, quando saíssemos, me levaria junto.

— E você respondeu…

— “Então não pode dormir agora.”

O velho homem cobriu os olhos com a mão.

Não havia mais nada que eu quisesse provar.

Levantei.

— Acho que isso basta.

Caio também se levantou.

— Mariana, ainda existe a questão dos bens entregues à Renata.

— Isso é problema da família de vocês.

— Parte das transferências foi baseada diretamente na afirmação de que ela era a pessoa que salvou meu avô.

— Mesmo assim, eu não quero o apartamento dela, o carro dela nem as participações que deram para ela.

Augusto abaixou a mão.

— Eu gostaria de fazer por você o que tentei fazer por ela.

— Não.

Minha resposta saiu antes que ele terminasse.

— O senhor não me deve uma vida nova. Eu não entrei naquele galpão aos dez anos pensando em receber um apartamento quinze anos depois.

Ele ficou calado.

— Se quiser fazer alguma coisa por mim, faça uma coisa simples — continuei. — Corrija publicamente o que foi dito sobre Renata. Meu nome não precisa aparecer em anúncio nenhum se eu não autorizar.

Caio assentiu.

— Isso é justo.

Quando saí da sala, minha tia estava esperando no corredor.

Sozinha.

— Precisamos conversar.

Continuei andando.

Ela veio atrás.

— Mariana, por favor.

Parei perto do elevador.

— Sobre o quê?

Lúcia apertou a bolsa contra o corpo.

— Sobre sua prima.

— Não tenho nada para resolver com ela.

— Ela errou, mas você sabe como a vida dela sempre foi difícil.

Eu quase ri.

— E isso permite roubar minha história?

— Ela só queria uma oportunidade.

— Minha tia, uma oportunidade é mandar currículo, abrir um negócio, estudar, trabalhar. Fingir ter salvado a vida de alguém não é oportunidade.

Ela desviou os olhos.

Foi então que percebi que ainda havia alguma coisa presa na garganta dela.

— Fala de uma vez.

— O bracelete estava numa caixa que você guardava na minha casa.

— Eu sei.

— Renata viu uma reportagem sobre o aniversário de quinze anos do incêndio. Nela, Augusto dizia que ainda procurava a menina e mencionava o bracelete.

Meu estômago se contraiu.

— E você deu o meu para ela.

Lúcia começou a chorar.

— Eu achei que ele só fosse agradecer. Talvez dar algum dinheiro. Eu nunca imaginei apartamento, carro, participação em empresa…

— Então a diferença entre aceitável e inaceitável, para você, era o valor do prêmio?

— Não fale assim.

— Como você quer que eu fale?

Ela não respondeu.

As portas do elevador se abriram.

Antes de eu entrar, minha tia segurou meu pulso.

— Renata não vai devolver tudo.

Olhei para a mão dela até que me soltasse.

— Isso não é problema meu.

— Vai virar. Ela acha que você quer destruir a vida dela.

— Ela fez isso sozinha.

Entrei no elevador.

As portas quase se fecharam, mas Lúcia disse:

— Mariana, ela está procurando um jeito de dizer que você armou tudo desde o começo.

As portas se encontraram diante do rosto dela.

Naquela noite, Renata publicou uma mensagem em suas redes sociais. Não citou meu nome, mas falou em “uma pessoa da família movida por inveja” e insinuou que o áudio apresentado no aniversário poderia ter sido manipulado.

Eu li duas vezes.

Depois bloqueei o celular e fui dormir.

Na manhã seguinte, Caio me ligou.

— Você viu o que ela publicou?

— Vi.

— Nosso jurídico pediu para ela retirar.

— E ela retirou?

— Não.

— Então deixem que ela continue falando.

Houve uma pausa.

— Por quê?

— Porque gente que mente demais acaba se contradizendo.

Aconteceu mais rápido do que imaginei.

Durante uma entrevista improvisada na saída do prédio onde morava, Renata afirmou a alguns jornalistas que nunca havia conversado comigo sobre o incêndio antes de procurar Augusto.

Duas horas depois, ela mudou a versão e disse que eu havia contado detalhes “durante anos”.

Naquela mesma tarde, minha tia enviou uma mensagem para Caio. Não por coragem, mas por medo de ser responsabilizada junto com a filha.

Ela admitiu por escrito que havia retirado o bracelete da minha caixa e entregado a Renata depois que as duas viram a reportagem sobre Augusto.

Caio me mostrou a mensagem.

— Sua tia autorizou que isso seja registrado formalmente.

Fiquei olhando para a tela.

Não senti vitória.

Senti cansaço.

— E agora?

— Agora minha família vai pedir judicialmente a anulação dos atos patrimoniais que foram feitos com base na fraude. Isso não acontece do dia para a noite. Renata terá direito de se defender. Mas o Grupo Teixeira já suspendeu qualquer acesso ou posição que ela recebeu por causa dessa história.

— Certo.

Caio me observou.

— Você realmente não quer nada disso?

— Quero meu bracelete de volta.

Ele sorriu de leve.

— Só isso?

— Era da minha mãe.

O sorriso desapareceu.

— Entendi.

Na tarde seguinte, Augusto pediu que eu fosse até sua casa.

Quando cheguei, Renata também estava lá.

Eu parei na entrada da sala.

— Se isso for uma tentativa de reconciliação, estou indo embora.

— Não é — disse Augusto.

Renata estava sentada no sofá, com os braços cruzados e os olhos inchados. Pela primeira vez desde que aquela história começara, não havia joias caras em seus pulsos nem pessoas ao redor tratando-a como alguém especial.

Sobre a mesa estava o bracelete.

Ela me encarou.

— Você ganhou.

— Isso nunca foi uma competição.

Renata riu, amarga.

— Fácil falar quando todo mundo agora olha para você como heroína.

— Eu pedi para ninguém fazer isso.

— Mas vai acontecer.

— Talvez. A diferença é que eu não menti para conseguir.

Ela se levantou.

— Você podia ter parado tudo três meses atrás.

— Podia.

— Então por que não fez?

Olhei para minha prima.

— Porque, se eu tivesse acusado você no primeiro dia, você diria que eu estava com inveja. Minha tia diria que eu queria seu dinheiro. A família Teixeira talvez acreditasse em você. Eu deixei você contar sua própria história.

Renata apertou os lábios.

— E daí?

— E você contou tanto que acabou presa dentro dela.

Augusto se aproximou da mesa.

— Renata, amanhã minha família fará uma declaração pública corrigindo tudo o que foi anunciado nos últimos três meses.

Ela virou-se para ele.

— Não pode fazer isso comigo.

— Posso corrigir uma mentira da qual também participei por negligência.

— Eu vou perder tudo.

— Algumas coisas dependerão da Justiça. Outras nunca foram suas por direito moral.

Renata apontou para mim.

— E ela vai ficar no meu lugar.

Antes que Augusto respondesse, eu falei:

— Não existe “seu lugar”.

Ela me encarou.

— Eu não quero ocupar seu apartamento, dirigir seu carro nem sentar ao lado do senhor Augusto em festa nenhuma. Quero meu bracelete e meu nome fora da sua mentira.

Renata ficou em silêncio.

Peguei o bracelete sobre a mesa.

Quando o cordão velho tocou minha mão, senti algo dentro de mim finalmente se acomodar.

Então Augusto falou atrás de mim:

— Mariana, há uma última coisa que preciso fazer antes de isso acabar.

Virei-me.

Ele segurava a bengala com as duas mãos.

— Não é sobre dinheiro. É sobre o que eu disse naquela noite e não consegui cumprir por quinze anos.

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