Meus pais queriam me deixar com a avó que me maltratava — então fiz de tudo para entrar no carro
Parte 3
Na manhã seguinte, minha mãe preparou mingau de aveia e colocou uma banana cortada ao lado. Comeu comigo à mesa enquanto Júlia reclamava porque queria pão de queijo. Eu mal conseguia engolir, não apenas por causa do estômago, mas porque ainda ouvia a conversa da noite anterior.
— Você dormiu bem? — minha mãe perguntou.
— Ouvi vocês falando.
A colher dela parou.
— Falando sobre o quê?
— Sobre me mandar de volta quando eu melhorar.
Ela respirou fundo e procurou as palavras certas.
— Não é assim. Nós só precisamos organizar as coisas. Seu pai trabalha muito, eu também. Sua escola fica longe daqui, o apartamento tem dois quartos…
— Eu não pedi um quarto.
Minha mãe me encarou.
— Eu pedi para não morar com alguém que me bate.
Ela ficou vermelha. Não respondeu imediatamente, e aquilo já dizia bastante. Até então, todas as decisões sobre mim eram explicadas como dificuldades práticas: espaço, trabalho, distância, dinheiro. Ninguém dizia em voz alta que todas essas dificuldades sempre eram resolvidas com a mesma solução: eu é que precisava ceder.
O hospital havia encaminhado meu caso para acompanhamento, e naquela tarde minha mãe recebeu uma ligação para marcar uma conversa. Ela parecia incomodada, não porque quisesse esconder alguma coisa, mas porque a situação tinha deixado de ser um assunto que nossa família podia resolver fechando a porta.
Meu pai chegou cedo do trabalho.
Sentamos os três na cozinha.
— Nina, precisamos entender tudo — ele disse. — Sua avó realmente batia em você com frequência?
— Sim.
— Com o quê?
Eu pensei antes de responder. Não queria exagerar. Também não queria protegê-la.
— Com a mão. Às vezes com chinelo. Ela me beliscava quando vocês estavam por perto porque assim ninguém escutava. Quando eu fazia alguma coisa que ela não gostava, ficava sem jantar.
Minha mãe cobriu a boca.
— Por que você nunca contou?
A pergunta doeu.
— Eu contei ontem.
Ela baixou os olhos.
Meu pai esfregou as mãos no rosto.
— Antes disso.
— Quando vocês ligavam, a vovó ficava do meu lado. E quase sempre vocês perguntavam se eu estava estudando e obedecendo. Depois falavam com a Júlia.
Meu pai ficou quieto.
Continuei:
— Uma vez eu disse que queria morar com vocês. Você falou que eu precisava ser compreensiva porque a cidade era cara.
Ele se lembrou.
Eu vi no rosto dele.
— Eu achei que você estivesse bem lá.
— Você perguntou?
Não havia resposta boa.
Naquele mesmo dia, Júlia entrou na cozinha procurando um suco e encontrou todos nós em silêncio. Olhou para mim com irritação.
— Agora todo mundo só fala da Nina.
Minha mãe pediu que ela se sentasse.
— Júlia, precisamos conversar sobre a vovó.
— De novo?
— Quando você visitava o interior, você via a vovó bater na sua irmã?
Júlia fez uma careta.
— Às vezes.
Meu pai ergueu a cabeça.
— Às vezes?
— Ué. Quando ela fazia coisa errada.
Minha mãe empalideceu.
— Que coisa errada?
Júlia começou a contar nos dedos com a naturalidade de quem descrevia regras comuns.
— Quando demorava para lavar a louça. Quando sujava o chão. Quando pegava comida sem pedir. Quando respondia. Quando chorava porque queria ligar para vocês.
Meu pai fechou os olhos.
— E você nunca achou estranho?
Júlia deu de ombros.
— A vovó dizia que era diferente comigo porque eu morava na cidade e não tinha aqueles costumes ruins.
Eu apertei os dedos contra o colo.
Júlia não havia criado aquela crueldade sozinha.
Ela aprendera.
Isso não apagava as coisas que tinha feito comigo, mas explicava por que uma menina mais nova conseguia olhar para a irmã machucada e acreditar sinceramente que aquilo era normal.
Minha mãe perguntou sobre a estrelinha.
— Ontem você queria mesmo brincar com a Nina?
Júlia hesitou.
— Queria assustar ela.
— E a vovó segurou o braço dela?
Outro silêncio.
— Segurou.
Meu pai se levantou tão rápido que a cadeira arrastou no piso.
— Meu Deus.
Minha mãe começou a chorar.
Dessa vez, não senti satisfação.
Passei anos imaginando que, se meus pais descobrissem a verdade, eu ficaria feliz. Naquele momento só senti cansaço.
— Eu não quero que vocês briguem por mim por dois dias e depois esqueçam — falei. — Quero saber onde eu vou morar.
Meu pai voltou a se sentar.
— Aqui.
Minha mãe olhou para ele.
— Precisamos conversar sobre isso.
— Já conversamos demais enquanto ela ficava lá.
A voz dele estava firme, mas eu não queria trocar uma decisão tomada sem mim por outra decisão tomada sem mim.
— Eu quero ficar aqui — disse. — Mas não quero que digam depois que estraguei a vida de vocês.
Minha mãe chorou ainda mais.
— Nina…
— E não quero dividir quarto com a Júlia se ela não quiser. Eu posso continuar no sofá por enquanto.
Júlia protestou:
— Eu não quero mesmo!
Minha mãe a repreendeu, mas eu levantei a mão.
— Tudo bem.
Pela primeira vez, eu não estava implorando para ser escolhida. Estava dizendo quais condições eu aceitava.
Nos dias seguintes, minha rotina começou a mudar. Fui matriculada provisoriamente numa escola pública perto do apartamento enquanto meus pais organizavam a documentação da transferência definitiva. Fiz novos exames e comecei a tomar ferro por orientação médica, além do tratamento para o estômago.
Minha mãe passou a prestar atenção ao que eu conseguia comer.
Foi quando percebeu coisas pequenas que nunca soubera sobre mim: eu detestava leite muito quente, gostava de mamão e tinha medo de dormir com a porta completamente fechada.
Ela tentou compensar anos em poucos dias.
Comprou roupas novas demais.
Perguntava a toda hora se eu queria alguma coisa.
No terceiro dia, coloquei as sacolas sobre a cama dela.
— Não precisa comprar tudo.
— Mas suas roupas estão pequenas.
— Algumas, sim.
Escolhi duas calças e algumas camisetas.
— Isso basta.
Ela parecia surpresa.
Talvez tivesse imaginado que uma criança privada de tudo pediria o mundo inteiro quando finalmente tivesse oportunidade.
Eu só queria segurança.
Meu pai também tentou se aproximar. Na primeira noite em que ficou comigo sozinho, trouxe um jogo de tabuleiro e perguntou se eu sabia jogar.
— Não.
Ele começou a explicar as regras.
No meio da partida, pediu desculpas.
Não disse apenas “desculpa por tudo”.
Disse:
— Eu errei quando preferi acreditar que você estava bem sem verificar. Errei ontem quando bati em você. E errei muitas vezes quando tratei a sua necessidade de morar conosco como um problema.
Não respondi que estava tudo bem.
Porque não estava.
— Eu ainda estou com raiva de você — falei.
Ele assentiu.
— Você tem direito.
Aquilo foi diferente.
Minha mãe demorou mais para dizer as coisas sem se justificar. Sempre começava com o trabalho, o aluguel, a ajuda da avó. Até que uma noite eu perguntei:
— Se a Júlia tivesse pedido para morar com a vovó porque aqui era difícil, você deixaria?
Minha mãe ficou imóvel.
— Não.
— Então pronto.
Ela chorou baixinho.
— Eu escolhi a opção mais fácil para mim.
Foi a primeira frase realmente sincera que ouvi dela.
A relação com Júlia piorou antes de melhorar um pouco. Ela odiava ter perdido o centro da atenção. Escondia o controle da televisão, reclamava quando eu usava o banheiro primeiro e dizia que minhas roupas deixavam o armário feio.
Eu não batia nela.
Também não aceitava mais que ela me batesse.
Na segunda vez que tentou me empurrar para fora do quarto, segurei seus pulsos.
— Você não manda em mim.
— Essa casa era minha antes de você vir!
— Era a minha casa também. Eu só não podia morar nela.
Júlia ficou sem resposta.
Na semana seguinte aconteceu algo ainda mais importante.
Durante uma conversa marcada pelo serviço de proteção, perguntaram se eu me sentia segura permanecendo com meus pais enquanto o caso era acompanhado.
Minha mãe começou a responder.
Eu interrompi.
— Posso responder sozinha?
A profissional concordou.
Olhei para meus pais.
— Aqui eu me sinto mais segura do que com a minha avó. Mas quero que vocês saibam que, se tentarem me mandar para lá de novo, eu vou contar para minha escola, para o posto de saúde e para qualquer pessoa que precisar ouvir.
Meu pai assentiu.
— Você não vai voltar para lá.
Minha mãe também.
— Não vai.
Acreditei um pouco.
Não completamente.
Confiança não volta porque duas pessoas fizeram uma promessa.
Ela volta quando a promessa continua sendo cumprida depois que a culpa e o medo passam.
Naquela tarde, minha avó telefonou.
Minha mãe colocou no viva-voz.
— Quero falar com Nina.
— Eu não quero falar — respondi.
Minha avó ouviu.
— Olha só como ficou metida depois de uma semana na cidade.
Meu pai tomou o celular.
— Mãe, chega.
— Eu criei essa menina para vocês e agora sou tratada como monstro!
— Você bateu nela.
— Corrigi.
— Você a deixou sem comida?
Silêncio.
— Criança precisa aprender.
Meu pai encerrou a ligação.
Pela primeira vez, ele não pediu desculpas à mãe por contrariá-la.
Achei que aquilo significasse distância.
Dois dias depois, no fim da tarde, a campainha tocou.
Júlia foi abrir.
Ouvi uma voz conhecida antes mesmo de sair da cozinha.
— Cadê ela?
Meu corpo inteiro gelou.
Minha avó entrou no apartamento carregando uma mala pequena.
Ela tinha pegado um ônibus até Campinas sem avisar ninguém.
Olhou diretamente para mim.
— Arruma suas coisas, Nina. Essa palhaçada já durou demais. Você vai voltar comigo para casa.
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